Amy!
5 Capítulo 5
Na sala, sentados no chão com as costas escoradas no sofá, Ricardo ria das minhas caretas como se fossem a coisa mais divertida do mundo. Quando ele conseguiu parar de rir ergueu o copo e com ar triunfante bradou.
" A mais uma primeira vez da mademoiselle Amy, e que mais delas venham pelas minhas mãos" Ele bateu delicadamente o copo dele no meu e virou todo conteúdo de uma única vez e me olhava em expectativa que eu fizesse o mesmo. Revirei os olhos e deixei o líquido escorrer garganta a baixo espalhando calor pelo meu corpo enquanto queimava a garganta. Tequila, a pior bebida inventada pela humanidade, mas que estranhamente apesar do gosto ruim deixa as pessoas felizes e solta a língua de uma forma estranha." Não tenho mais nenhuma primeira vez para ter com você." " A não? Sério? Você já teve uma primeira vez com um brasileiro?"" Que tipo de primeira vez?" " Sexo." Curto e grosso, simples assim, dizendo o que quer, aqui e agora, gosto disso essa ideia me fez sorrir. Mas se isso é um jogo, ele não devia mostrar as cartas logo de cara, ele tá escondendo alguma coisa. Perguntas é assim que ele tá me descobrindo, uma dose e uma meia conversa em que eu me entrego. O encarei sorrindo, dois podem jogar." Quero mais vinho, não me dei bem com a tequila."" Você vai passar mal assim, misturando bebidas, bebendo rápido, tenho certeza que você já ta bêbada." " Eu também tenho." Dei uma larga risada com a constatação. Ele sorriu e se aproximando mais perguntou." Não vou saber nada sobre você?"" Vai, já sabe aliás, meu nome, sabe que não sou brasileira, sabe que não sei lavar louça e a única coisa que é bebida alcoólica que eu tomei foi vinho, sabe que não sou de namorar." " Sei também que sexo é tabu que mostra um conservadorismo iminente dos pais, uma coisa que é muito brasileira, então você está mentindo."" Sim, estou. Mas você não sabe em que parte." " Me pegou." " Não, mas pego agora."E como se eu não me conhecesse direito deixei meu corpo ir de encontro ao dele e selei nossas bocas em um beijo arrebatador, um beijo que eu nunca experimentei, nem Patrick, nem Pietro, uma coisa única e diferente, inexplicável. Ricardo puxou meu corpo me deixando sentada em seu colo, a surpresa inicial se dissipou, éramos excitação pura, até o ar mudou ao nosso redor, eu queria isso, precisava disso. Uma necessidade quase animal se apossou de mim, e dele também, eu conseguia sentir isso. E então do nada ele parou, me afastou. " Eu não quero ir preso, você tem atitude, e uma mentalidade madura mas ainda assim é menor de idade. Qual é não faz essa cara, eu convivo com meninas da tua idade quase o dia todo, são três turnos de adolescentes que vão de 15 a 18. Achou que eu não ia perceber? Eu não sou um moleque, sou homem, já tenho mais 30 sei a diferença entre vocês."" Não sou menor de idade, e se fosse? O crime é ser contra vontade ou por indução, fui eu que te agarrei."Ele sorriu de lado e me olhou." Não teste minha inteligência, você não disse uma verdade para mim, nem seu nome é real, por que você acha que eu ia acreditar nisso?" Minha boca abriu e fechou vezes seguidas, sem saber o que dizer ou pensar. Mais que diabos, por que a minha mentira é descoberta tão facilmente? Das pessoas que encontrei nenhuma delas acreditou na minha vida, como pode? Eu na certeza que fui convincente sou desmascarada com tanta facilidade. O que eu faço de errado? OK, eu não acreditaria em ninguém que dissesse que desistiu de Paris e se apaixonou pelo Brasil, talvez o problema esteja na história, ou eu realmente não saiba mentir. E novamente eu sou o problema, já não bastava a vida antiga gritar na minha cara que tudo de errado é culpa minha. Um barulho seco de sino batendo tirou minha atenção, me assustei e varri a sala com os olhos até achar o relógio cuco enorme ocupando espaço ao lado da porta da sala, eu sorri ao constatar duas coisas, as chaves estavam na porta e o relógio marcava preguiçosamente meia noite. Então num estalo eu me lembrei. Realmente tinha me esquecido que agora não sou menor de idade. Ricardo quer verdade, ok, ele terá." Meu nome é Júlia Arruda, morava em uma cidade pequena perto daqui, fugi de casa para conhecer a liberdade, e agora nesse momento eu sou legalmente maior de idade, não tenho documentos para provar que tô falando a verdade, mas essa é a verdade." Ele me olhava de boca aberta processando a informação ou talvez procurando uma desculpa para negar novamente. Sinto muito bonitão, vai ter que dividir o pensamento se quiser me negar. Fui me aproximando lentamente até colar nossos lábios novamente, as mãos pousadas levemente em seus ombros correram para a nuca dele deixando um carinho pelo caminho. Ele voltou a me beijar com mais voracidade dessa vez, ele acreditou, e isso é ótimo, para nós dois. Senti ele se mexendo embaixo de mim, ele estava levantando isso é óbvio enlacei minhas pernas na cintura dele, pouco depois senti as mãos dele na minha bunda dando um tipo de suporte enquanto ele caminhava, não consegui me separar dele em nenhum momento o beijo dele é algum tipo de droga feita exatamente sob medida para me enlouquecer. Em determinado momento ele abriu uma porta e a fechou em seguida colando minhas costas nela o barulho me preocupou um pouco, Dona Joana poderia nos pegar no flagra a qualquer momento, mas ele se apressou em me acalmar.
" Bem vinda ao meu quarto... Mais uma primeira vez para essa noite. E fica tranquila a vovó tem um sono muito pesado, só tenta não gritar." Ele voltou a me beijar sem me deixar racionalizar essas frases direito. Mais uma primeira vez? Não gritar? Ele acha que eu sou virgem? Não eu não preciso de ninguém pegando leve com a novata. Se bem que será que essas coisas fecha com o tempo? Faz pouco mais de um ano que eu não faço nada, talvez ele devesse pegar leve. Eu me mantive agarrada a ele todo tempo como um filhote de macaco, entre suspiros e sussuros eu tive a melhor noite da minha vida. Sexo pode realmente ser assim tão bom? Já passava das três da manhã, e eu me sentia completamente acordada, com meu corpo enrolado ao de Ricardo ele desenhava círculos invisíveis nas minhas costas e eu batucava em seu ombro com os dedos." Se você sabia que eu era menor de idade por que me provocou tanto?"" É divertido ver garotinhas sem saber o que fazer, se bem que você sabe muito bem o que fazer." Ele deu uma risada gostosa enquanto eu me permiti apenas sorrir." Por que ia ter mais uma primeira vez essa noite? Eu não era virgem, isso te passou pela cabeça?" " Em nenhum momento, é uma primeira vez minha dessa vez, você é a primeira garota que trago nesse quarto para isso. Lar é um lugar sagrado, não acho que se deve usar pra esse tipo de coisas. Você é uma excessão ao todo, você é diferente de alguma forma." Eu não me senti capaz de responder isso então simplesmente o beijei mais uma vez, lenta e provocativamente." Vou ter que renovar meu estoque de camisinhas desse jeito."" Aposto que isso não é problema, o problema é tua vó ver que eu tô disvirtuando o neto dela."" Uma vez eu bati a moto na garagem, derrubei um monte de coisa fez um barulho enorme, acordou alguns vizinhos até. Mas ela não acordou, não vão ser alguns gemidos que vão acorda-la. Te dou certeza, a garagem é parede de meia com o quarto dela, e o meu quarto é longe. Fica tranquila." Entre um beijo e outro recomeçamos a diversão, a noite não tem fim realmente, ela é uma criança. Em determinado momento a exaustão tomou conta do corpo de Rodrigo e ele dormiu. O momento perfeito. Vesti a camiseta que eu estava e comecei a procurar caneta e papel, ele é professor sei que não vai se incomodar, em uma escrivaninha achei o que precisava, peguei dois papéis e me sentei. ' Rodrigo, obrigada pela noite maravilhosa que me proporcionou, quando você acordar eu vou estar longe daqui. Sinto muito mas é preciso, você sabe quem sou e tenho certeza que vai guardar o meu segredo, eu confiei em você. Quero seu silêncio como presente de 18 anos vou levar algo teu comigo por garantia. Se um dia a gente se encontrar eu te devolvo. Obrigada por tudo que me ensinou essa noite, foi um grande presente, acredito que a vida é resumida no que aprendemos, você é um ótimo professor. Júlia/Amy ' Reli o bilhete inúmeras vezes, mais uma primeira vez, nunca escrevi um bilhete de despedida, isso deve estar razoável pelo menos. Com dor no coração escrevi a da Dona Joana, eu queria muito continuar aqui mas não foi para isso que sai de casa. 'Dona Joana, muitas vezes os desejos e as necessidades entram em batalha, batalha que eu sei que vai deixar um dos dois machucados, nessa noite eu travei uma batalha interna entre permanecer aqui mais um dia ou vários, consigo me imaginar morando aqui nessa cidade, eu desejo isso, mas não é o que eu preciso. Eu estou numa busca por conhecimento, quero me conhecer e conhecer a vida, isso é uma necessidade, meu tempo de estadia nessa cidade já venceu, cada lugar tem coisas a ensinar e aqui eu aprendi muitas coisas graças a senhora, sua forma de ver e lidar com a vida me encantou de uma forma gigantesca. Eu me apaixonei perdidamente por uma vida assim, desejo viver um amor como o seu um dia e ter o orgulho em falar dele como a senhora tem. Obrigada pela estadia, pela comida maravilhosa mas acima de qualquer coisa obrigada por tudo que me ensinou. Me perdoe por sair assim, sem me despedir, no meio da noite, mas eu me conheço, sei que se tivesse que me despedir de vocês eu desistiria e continuaria aqui, não sei dizer não as pessoas. Mais uma vez, Obrigada, por tudo. Com carinho Amy."Dobrei o brilhete de Roberto e coloquei ele ao lado do abajur. Sai mansamente fazendo um esforço enorme para não fazer barulho, achei minha bolsa no sofá, peguei a calça jeans e a enfiei no corpo com pressa calcei o all star e deixei o bilhete de dona Joana na geladeira, sei que ela vai achar ele facilmente. Meu coração se apertou quando Girei a maçaneta e sai, isso é necessário, fui repetindo inúmeras vezes isso até eu acreditar. Não imaginei que dizendo adeus para a minha casa eu ia ter que dizer adeus a tantas coisas, esse caminho não vai ser fácil como imaginei, não é como nos livros, filmes. Dizer adeus a minha casa foi fácil, mas é difícil dizer adeus a cada pessoa que me cativar pelo caminho. Nenhum livro te avisa isso, ninguém diz que as pessoas não são descartáveis, dizem o contrário, talvez o Pequeno Príncipe seja mais cuidadoso nesse aspecto, 'somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos'. Sim somos, mas no meio das minhas escolhas tortas e erradas feitas para combinar comigo eu escolho não cativar e não ser cativada, se é que isso é possível, se não for eu vou ao menos saber que tentei. Vou me desligar por dentro. O sol despontava ao longe e algumas pessoas andavam pela rua provavelmente em direção a igreja ou a casa de alguém, eu não ia perguntar nada, nenhuma informação, eu precisava passar despercebido e sumir daqui. Em determinada rua que não vi o nome eu vi um ônibus. Será que ele para pra mim? Sem ter certeza de nada fiz sinal e para minha surpresa o ônibus parou. O motorista me olhou esperando alguma explicação. " Para onde tá indo?"" São Tomé é a ultima parada."" Não tenho nenhuma passagem comprada."" Têm cobrador, anda garota, sobe logo que eu não tenho tempo."Subi correndo a escada de 4 degraus e me sentei numa das ultimas poltronas, o ônibus com meia duzia de pessoas seguiu seu caminho, pouco depois um rapaz com um uniforme azul estranho me entregou um papel com o valor da passagem, paguei em seguida e recebendo o troco me deixei relaxar novamente. Espero que eles não me odeiem, ninguém deles. Patrick, Lily, Rosa, minha mãe, Jorge, meu pai, Dona Joana e Ricardo principalmente Ricardo, ele me ensinou tanta coisa, me deu inúmeros presentes que eu nunca vou ser capaz de retribuir. Me peguei olhando para a enorme camisa com o emblema de um time estrangeiro que eu não conheço. É claro que ele vai dar falta. Espero que ele não seja apegado com ela, se não, mais um motivo para ele me odiar ou procurar, será? Não, foi coisa de uma noite, coisa rápida, passageira que não tem nenhuma importância, nem para ele nem para mim, não para mim. Nos fones uma música que eu não fiz nem questão de escutar. Eu estava exausta física e psicologicamente, não sei quando foi a última vez que dormi, e ainda assim não consigo nem tirar um cochilo, fleches da madrugada invadem minha mente com uma voracidade que me desnorteia e me constrange, se alguém tivesse poder de ler mentes ia me julgar como julgaram as bruxas em Salém, talvez a fogueira seja pouco para mim. Em algum momento me peguei lembrando de Patrick, do nosso primeiro beijo, do meu primeiro beijo, éramos duas crianças sendo manipuladas pelos pais. 'O começo de uma união que vai beneficiar as duas famílias' ainda posso ouvir a risada do meu pai dizendo isso quando eu timidamente contei que Patrick e eu nos beijamos, nem foi um beijo de verdade, um selinho qualquer numa brincadeira de verdade ou consequência, contei para eles achando que como qualquer pais normais iam pirar de saber que uma criança de 12 anos deu o primeiro beijo por aposta, cidade pequena, hora ou outra todo mundo ia ficar sabendo. Naquela noite meu pai ligou para seu grande "amigo" e sócio para discutir o que fazer, os dois passaram horas negociando o meu futuro e o de Patrick sem ao menos nos perguntar. Naquele sábado em um grande jantar Patrick apareceu com alianças me pedindo em namoro, hoje sou capaz de ver como fui manipulada, minha mãe, ela conversou comigo todos os dias naquela semana, falou de amor e sentimento, me explicou a vida, plantou a ilusão de paixão em mim, por isso aceitei e chorei tanto no dia, eu amava Patrick afinal, ou achava que amava. Com o tempo nasceu sim um enorme carinho por ele, quatro anos de namoro, é claro que tem carinho, um costume, um cuidado tinha tudo menos amor.
Hoje vejo que nunca amei, e sei que quando fugi de casa esse negócio de amor ficou para trás, como vou amar alguém que vou passar 24 no máximo? Como amar sabendo que vou deixar a pessoa em seguida? Não dá para amar assim. Sempre fui aquele brinquedo, aquela marionete, que falava o que mandavam, fazia o que mandavam sem nunca saber que era uma ordem, sempre um conselho um cuidado especial. Nunca um carinho, nunca um cuidado real, nunca amei e nem fui amada, nem por meus pais nem por ninguém. Ganhei um pouco de carinho de Rosa e Lily, a empregada e a amizade que meus pais nunca aprovaram, elas são pobres, e na pobreza sempre tiveram um coração nobre e enorme amaram mais que tudo. E ainda assim eu deixei elas. Egoísta como só, eu deixei o único carinho que conheci.O ônibus rodava por quilômetros sem fim enquanto minha cabeça encostada no vidro balançava com movimento do motor, eu estava cansada, tentando fazer minha cabeça parar, por que quanto mais tentamos dormir em mais coisas pensamos? Estou a ponto de enlouquecer enquanto meu cérebro faz questão de repassar tudo que aconteceu cada gesto, movimento, decisão e erro que já fiz. A minha vida perfeitamente imperfeita me persegue. Queria poder esquecer, uma super amnésia de ressaca que apagasse a minha vida e eu tivesse que sozinha me redescobrir sem nunca lembrar da vida que existiu antes. Será que existe alguma droga capaz de fazer isso por mim? Me deixar incapaz de lembrar, se existir eu vou ter uma overdose só para ter certeza. Posso tentar me enganar dizer que eu não tive escolha, que fiz isso para um bem maior mas não é verdade, fiz isso por egoísmo por querer mais. Sou errada sim eu sei disso, mas no fim todos temos direito de fazer escolhas e errar, e eu vou pagar para ver meu erro. Vou continuar errando pouco a pouco ou talvez em algo grande, não sei, sei que preciso esquecer e vou fazer isso em São Tomé, vou apagar meu passado parar de pensar neles que nem devem lembrar mais de mim. Eu esperava minha foto em jornais e cartazes mas não, nada disso, devem nem ter notado que sumi, ou talvez papai viajou e mamãe foi para um spa relaxar e esqueceram que tem filha, de novo. Não, chega, eu vou esquecer, vou parar de lembrar deles, e quando pensar vou fingir que é um sonho estranho uma ilusão. Vou fazer isso assim que eu acordar. Adeus pessoas, essa é a última vez que penso em vocês. E como se meu subconsciente finalmente me obedecesse a inconsciência me atingiu, fui levada para o mundo dos sonhos.
Notas finais
Bom minha gente, voltei e já tô indo, até segunda provavelmente.
Fale com o autor