Amy!

2 Capítulo 2


Droga, agora não, não depois de tudo que eu fiz. Dê certo por favor!

Ele estudava meu rosto cuidadosamente por alguns segundos e eu me senti impelida a inventar minha vida ali, dentro de um caminhão olhando para um estranho. Eu ia ter que fazer isso mais cedo ou mais tarde mesmo, eu só esperava ter mais tempo para pensar e esvolher todos os detalhes direito, por fim dei de ombros como se não me importasse muito e disse com a maior calma que me era possível no momento.

" Amy, tipo Amy Winehouse, meu pai era fã dela por merda. Qual teu nome?"

Fiquei surpresa com a calma e a certeza que minha voz exalava.

" Jorge. Tipo Jorge mesmo, meus pais não tinham criatividade. Vem de onde?"

Olhei para cara dele um pouco desconfiada, do que será que ele estava desconfiando? A voz dele vacilou um pouco na última frase, ele estava desconfiado. Ele me estendeu um pedaço de pão e me sorriu em seguida, eu não estava com fome mas precisava mander a fachada. Um pouco relutante peguei o pão e ele continuou.

" Fica tranquila Amy, tô acostumado com vocês, não é como se eu fosse te dopar com um pedaço de pão... Mas vá, diga, de onde você veio?"

" Do motel na rua se cima da igreja."

Disse fazendo pouco caso, como se já fosse rotineiro isso. Surpresa, essa é a palavra, nunca imaginei que eu fosse tão boa atriz assim. Nunca imaginei que eu fosse conseguir me manter tão calma enquanto mentia descaradamente. Ele me olhou pelo canto do olho e sorriu.

" Interessante... Vamos passar quase o dia todo juntos garota, você tem que conversar comigo, ou vamos os dois morrer pelo caminho se eu dormir."

Uma risada escapou da minha boca, algo no jeito que ele fala deixa tudo mais engraçado, talvez o R puxado de um jeito diferente, misturado com os X dos cariocas, não sei, mas me deu vontade de rir.

" OK. Não quero morrer no meio do caminho. França, minha mãe é francesa eu morava com ela."

" Você fala português bem demais para uma francesa."

" Meu pai é brasileiro, quando eu era mais nova em casa meu pai só falava português, depois eles se separaram, ele voltou para o Brasil. Fiz 18 decidi conhecer o Brasil, e comecei a mochilar"

" Não da para acreditar que você é francesa. E nem que veio parar numa das menores cidades do Brasil mochilando."

" A une belle chute d'eau près d'ici, la vue est magnifique, j'aimé manger du pain au fromage avec du bacon boulangerie. Quand vous vivez à monter mon ami, tout lieu est une destination."

" Não precisa xingar menina, calma."

Ele disse entre risadas, me permeti sorrir e responder em português.

" Excuse... Desculpa, eu apenas disse que tem uma cachoeira linda aqui perto, e a vista é magnífica, eu gostei de comer o pão de queijo com bacon da padaria. Quando se vive de carona meu amigo, qualquer lugar é um destino."

Ele me olhou sorrindo enquanto manobrava o caminhão para fora da garagem, não pude conter o impulso de olhar para a casa, totalmente escura, uma prova do sono pesado dos meus pais, mamãe provavelmente sonhando com nossas ultimas férias, na casa dos meus avós em NY. Talvez por isso eu escolhi ser uma francesa, depois de morar três meses em um intercâmbio na França algumas coisas se tornam reais. Paris me mudou de varias formas, me fez muito mais feliz do que em anos aqui, Paris me mudou, me fez cansar de ser perfeita e viver perfeitamente sob todas as regras, viver sozinha descobrindo a cultura e a vida me fez mudar, talvez essa seja a razão da minha necessidade de viver longe de todas as regras e toda a vigilância dos meus pais aqui, ou em um apartamento ao lado do Central Park sob os atentos e recriminatorios olhos dos meus avós.

" Você não deve ser muito ruim de vida, você tem cara de menina rica, por quê mochilar, pegar carona, não ter um lugar certo para dormir quando você poderia conhecer os pontos turísticos do mundo no conforto de um hotel cinco estrelas?"

" Não sei bem, talvez por que quando se é um turista as pessoas te tratam bem, estão sendo pagas para serem educadas, não acho isso uma coisa boa. Talvez seja uma espécie de filosofia dar a uma pessoa o direito de ser boa ao menos uma vez, sorrir para você sem ser obrigada, ou talvez pela liberdade, com a mochila nas costas eu escolho para onde ir e quem ser. Não sei direito. Eu posso conhecer a realidade não os grandes centros e culturas que recebem apoio, mas aqueles que também são belos e que só quem mora naquele lugar conhece."

Dei de ombros, realmente não sabendo bem o motivo real da minha escolha.

" Você fugiu de casa né... Você pelo menos é maior de idade? Não quero ser preso por ser cúmplice de sequestro. Ou sei lá que argumento teus pais vão usar na justiça."

Eu sorri enquanto o nervosismo tomava conta de mim, e observei a forma como Jorge me olhava, como se nos meus olhos fosse ler toda a minha alma, respirei fundo e senti um sentimento estranho tomar conta de mim, indecisão, esse era o sentimento que me tomava, talvez o certo seja contar que sou de menor e realmente fugi de casa, mas que amanhã eu deixo de ser de menor. Engraçado a escolha do dia, e todas as escolhas, hoje é 9 de dezembro, dia da minha formatura, não, da formatura dela, amanhã dia dez, domingo ela faria 18 e em menos de um mês ia ter a liberdade, eu ia me mudar para o Rio de Janeiro, tinha até um apartamento lá, perto da praia, estava sendo decorado da maneira que ela escolheu, passei na faculdade e tudo ia dar certo, mas eu sei como ia ser, seria sempre ela não eu, a menina perfeita que não erra, que não se engana, que não xinga, que não transa e não quer nada que os pais não queiram. Ela é perigosa, ela mente. Balancei a cabeça tentando afastar meus pensamentos e me focar na realidade.

" Não, eu ganhei uma viagem para o Brasil do meu pai a um ano e meio atrás, de presente de 18 anos, passei dois meses com ele, e decidi fazer minha vida comecei a conhecer Minas, não sou de menor, tenho 19 anos, pode ficar tranquilo Jorge, jamais te colocaria em alguma furada."

Ele sorriu e calmamente começou uma conversa banal.

" Você deve ter vivido muita coisa nesse tempo."

" Nem metade do que eu queria ter vívido, apenas a liberdade."

Adimiti sem dúvida nenhuma no que falei, queria ter vivido bem mais. Quando dei por mim ele já estava saindo da cidade, e eu me permiti relaxar, 5:30 da manhã do dia 9 de dezembro aqui e agora nasceu a Amy. Nada de sobrenomes, nome dos pais, nada de referências, ninguém precisa saber muita coisa sobre mim. Essa é a nova regra, a partir de agora sou como a Natasha, ninguém nunca vai saber de nada.

No momento em que decidi isso eu me obriguei a mudar o foco do assunto, começei a perguntar para Jorge sobre a familia dele, e ele falou, falou dos filhos que ele raramente via, da mulher com um mal humor gritante. Ele me falou da mãe dele, me falou sobre ter saido do Rio de Janeiro para morar em um lugar mais calmo, contou historias de coisas que ele viu pelo caminho, me contou dos lugares que conheceu, das pessoas, das encrencas. Jorge gostava de falar isso é bom, enquanto ele estivesse falando sobre ele eu não ia precisar falar sobre mim e assim minha regra ficava intacta.

As horas passaram tão rápido quanto as cidades, enquanto Jorge falava eu ria e me divertia com tudo que ele tinha para falar.

" A estrada é solitária demais menina, é difícil o dia em que tenho com quem falar, normalmente converso apenas a noite com os outros caminhoneiros, paradas de caminhão são lugares que você vai fazer amigos, mas não confie em caminhões que estão na estrada, a estrada enlouquece alguns homens."

Anotei a dica em minha cabeça me lembrando histórias sobre como os marinheiros enlouqueciam quando passavam mais de um mês em alto mar. Lilyan tem paixão por essas histórias marítimas. Lily, ela já deve ter enlouquecido, a minha Lily, minha melhor amiga. O rádio do caminhão tocava uma música sertaneja raiz qualquer e assim que terminou o locutor anunciou as horas, senti meu estômago roncar no mesmo minuto 12:27, já passou tanto da hora do almoço, mas não vou me abalar vou ficar tranquila como se eu já tivesse me acostumado com isso. Jorge falava sobre paradas de caminhão em algumas cidades e minha mente vagava lembrando de como lilyan, a minha Lily, sempre foi uma ótima amiga, sempre animada, sempre ali prestativa para o que precisava. Coitada deve ter pirado ou então tá pulando de alegria, nunca entendi qual é a real intenção das pessoas ao meu redor se elas realmente gostavam de mim ou se queriam alguma coisa que minha família poderia proporcionar, tudo sempre foi tão embaçado para mim nesse aspecto.

" Devo tá te enchendo com minhas histórias né Amy."

Jorge disse e notei que o caminhão estava parado. Sorri amarelo e me expliquei.

" Não imagina, acho só que eu acabei dormindo acordada."

" Vamos comer vai."

Ele tinha parado o caminhão num posto de gasolina qualquer na beira da estrada. Desci do caminhão seguindo ele para dentro do posto, era um self-servise bem porco e sem muitas opção de escolha. Não, isso é coisa que ela pensaria não eu, eu sou outra pessoa agora. Espantei ela da minha mente e me servi, eu não tinha notado a fome que eu estava até aquele momento. Comi de muito bom grado cada grão de comida do meu prato, era como se aquela fosse a melhor comida do mundo, e não era nem de longe boa, mas naquele exato momento, eu queria mais.

" Onde estamos?"

Perguntei com um resto de comida na boca, esperei uma cara feia ou uma crítica, em vez disso jorge sorriu.

" Num posto de gasolina perto de Santa Barbara."

" Isso é perto ou longe de São Tomé?"

Ele pensou por alguns segundos e disse por fim

" São Tomé fica a umas sete horas mais ou menos daqui."

" Meu número da sorte."

Ele sorriu enquanto se levantava da mesa dizendo que ia ao banheiro. Peguei meu celular sabendo que não ia ter nenhuma ligação ou mensagem, ninguém tinha meu número, liguei a internet e entrei no maps procurando uma referência, estávamos perto de Mariana pelo Google Maps quase duas horas, uma vontade incontável de ficar lá me tomou, eu queria ver aquela cidade de tamanha importancia histórica, as cidades do ciclo do ouro, Mariana deve ser linda, olha a importância histórica daquele lugar. Poucos segundos depois Jorge voltou e jogando uma bala me chamou para ir. Passei no caixa e paguei a minha parte em dinheiro, me fazendo lembrar que eu precisava arrumar documentos falsos bem convincentes para abrir uma conta no banco, eu precisava de um cartão, levar dinheiro assim solto não é uma boa ideia. Enquanto ele dirigia e falava sobre algumas coisa que eu não conseguia prestar atenção, e fazia minha cabeça sempre voltar para a cidade de Mariana, alguma coisa me impelia a ficar lá, como se fosse uma oportunidade única e imperdível eu decidi interromper.

" Jorge tava pensando aqui, pode me deixar perto de Mariana?"

Ele me olhou estranho e perguntou de forma confusa.

" Ue, por quê? Não quer ir mais para São Tomé?"

" Vou, daqui a alguns dias, mas quero ver mariana, sentir o gosto ruim de passado, ver o tamanho da importância histórica daquele lugar sabe, Mariana deve ser magnífica, acredito que posso aprender muitas coisas lá. E alguma coisa dentro de mim quer me obrigar a parar lá."

" É realmente é lindo, você vai gostar de lá. Tenho certeza."

" Quero descobrir o mundo Jorge, vou gostar de todos os lugares que passar tenho certeza disso, vão ter coisas para aprender em cada milimetro de asfasto que eu passar."

Ele assentiu e disse um pouco distante

" Eu te deixo lá."

" Obrigada."

Trocamos mais algumas palavras sobre qualquer coisa, e eu pude ter certeza de uma coisa. Faculdade não faz sabedoria nenhuma. Esse homem ao meu lado tem uma sabedoria muito grande, coisa de beira de estrada, claro, mas ele é capaz de conhecer as pessoas, bem melhor do que aqueles que estudam anos. Filosofia, psicologia, neurologia, anatomia, sociologia. Não, nada disso, nenhuma dessas matérias é capaz de conhecer de verdade a mente humana. É isso que eu quero para mim, conhecer a mente humana, a realidade e a miséria. Somos isso, apenas um poço de misérias que buscam algo maior. É isso que eu tô fazendo, fugindo das minhas misérias e mazelas para achar alguma coisa melhor, a liberdade.

" Menina... "

Fui tirada dos meus desvaneios por Jorge que me chamava com voz calma e preocupada. Olhei para ele e esperei ele continuar.

" Eu não sei o que te fez fugir de casa e nem inventar uma vida diferente, não acredito que tua vida fosse tão ruim assim, não sei o que você quer da vida, mas vou te dar um concelho de presente. Você é delicada, acredita no melhor das pessoas e dos lugares, ter fé quando se mora na estrada é perigoso, nem todo mundo é bom e sincero. Cuidado para não se perder nesse mundo achando que ganhou a liberdade. Tudo posso mas nem tudo me convém."

" Isso é fé, uma frase vinda da fé."

Tentei desviar do assunto, mesmo sabendo que não ia conseguir eu tentei.

" Não, isso é sabedoria, filosofia, realidade. Voce pode escolher qual prefere, mas entenda você quer ganhar o mundo então tem que tomar muito cuidado para não perder a você mesma. Muitas pessoas quando decidem por esse caminho não conseguem voltar a ser quem eram antes."

" Jorge... Eu..."

Ele me interrompeu, balançando a cabeça como se não importasse.

" Fica tranquila, vou voltar na tua cidade daqui a um tempo, se me perguntarem eu nunca vi você."

" Como você sabe que sou de lá?"

Ele sorriu e me olhou, apontou para meu rosto e disse.

" Teus olhos, teu olhar, olhar de quem pede perdão. E eu te via andando para cima e para baixo com uma menina morena, você sempre olhava para os caminhões como quem implora uma salvação, teu sorriso me enganou nas primeiras vezes, ai eu vi, ninguém que tem o mesmo sorriso por meses tá sorrindo de verdade. Espero que você tenha feito a escolha certa."

" Eu também espero."

A sinceridade com que esse pensamento escapou dos meus lábios me deixou surpresa, não imaginei que essa dúvida realmente existia, minhas escolhas eram certas para mim até agora. Não existia nenhum questionamento, nenhuma duvida, era tudo certeza, até agora, notar as duvidas existentes na minha cabeça me assustou.

" Vou te deixar na estrada, não posso entrar na Cidade, cuidado com quem você confia e acima de tudo seja feliz criança."

" Jorge... Obrigada... De verdade, não sei nem como te agradecer, você salvou a minha vida."

" Espero que seja verdade. Toma, quando chegar em são Tomé me liga ou vai nesse endereço, é a minha casa, te dou certeza que você vai sentir falta de uma família."

" Obrigada."

Desci do caminhão e esperei ele partir, segui as placas e tomei meu caminho. (Você vai sentir falta de uma família) ah Jorge, senti falta de uma Família por muitos anos, Senti falta de uma mãe e um pai tantas vezes na vida, e hoje eu só tenho medo de sentir falta de uma cama e a comida da Rosa. Sentir falta da Rosa. Será que ela tá sentindo minha falta, não eu era só uma parte do trabalho dela, ela não deve nem ter notado, quantas vezes não fui almoçar em casa, é ela não deve saber.

O sol quente das três horas da tarde me incomodava tirei o moletom e fiquei só de regata, sinto muito pernas, não vou comprar nenhum short vocês vão ter que aguentar essa calça preta e esse all star desbotado e velho, ao menos ele é confortável. Sentia o sol quente fritar meus miolos a cada pensamento.

Segui meu rumo pensando nas palavras de Jorge. Realmente, pra quê faculdade? Ninguém formado tem a sensibilidade de Observar alguém com atenção. Tudo que Jorge disse chicoteava em minha cabeça, é fácil sim se perder de si mesmo, Natasha é a prova, quantas Natasha's devem haver pelo mundo? Quantas delas não saíram de casa com a mesma ideia que eu, conhecer o mundo e a sua filosofia e no final se perderam entre garrafas e cigarros? Eu não, meu destino é outro, eu odeio cerveja e o cheiro de cigarro me dá dor de cabeça. Eu sou esperta, inteligente e responsável demais para me perder assim. Isso não vai acontecer comigo. Eu vou apenas ser aquilo que eu sempre quis ser, livre. Vou entender como as pessoas vivem e o que pensam, eu queria fazer psicologia para conseguir isso, mas ela não, ela nunca deixaria, agora eu sei que mesmo sem diploma eu vou ser o que eu sempre quis, vou ser quem eu quero. Ser eu mesma, ser a Amy. Agora e para sempre.