Amy!
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Voltei depois de sofrer muito para escrever, trabalhar, estudar e ter um mínimo de vida social e dormir um pouquinho... Vida difícil mas não abandonei minha Amy.
Depois de trocar a pequena descemos até a cozinha, Lúcia sentada na mesa com Isa em seu colo abraçada nela. Eu ainda podia sentir o desespero delas, e a prece silenciosa sendo feita. Ela logo notou nossa presença e tratou de por um sorriso nos lábios avisando que o almoço estava pronto.
Almoçamos em silêncio, um silêncio que só era quebrado por Duda contando alegremente sobre o banho, a história que contei e em como a trança dela ficou linda; ela é uma criança, e essa maravilhosa inocência infantil faz com que tudo por pior que seja fique mais leve. Lúcia sorria concordando com tudo que a filha falava, dava para perceber que ela estava tentando aproveitar cada milésimo de segundo com a pequena, uma despedida silenciosa a cada sorriso. Algo em mim gritava, berrava e se esperneava, não, eu não vou deixar isso acontecer, se eu posso impedir isso ou ao menos tirar essa sensação de impotência eu vou, não vou me deixar ficar parada. Terminei meu prato e me levantei lavando ele, logo Isa veio e me entregou o prato dela e foi pra sala, Duda não comeu quase nada assim como a mãe. Quando ficamos sozinhas eu aguardei em silêncio que ela dissesse o que queria, eu sabia que ela ia ter algo para dizer, mas como ela não disse nada pelo tempo que se seguiu eu disse. " Onde fica o laboratório? Pega o pedido de exame e vamos lá, vamos marcar os exames dela para amanhã." " Você não entendeu, eu não tenho como pagar. Essa casa é alugada, estamos terminando de pagar o carro, vivemos com dois salários é muita conta para pagar, luz água, compras, remédios, tudo isso consome nosso dinheiro." " Eu não disse que você vai pagar, por favor, só me leva lá." " Você não tá pensando..." " Estou, eu vou fazer isso, pensa assim: aqui se faz aqui se paga, tanto o bem quanto o mal, você e teu marido fizeram o bem, então me deixa retribuir isso. Sabe se lá quem poderia ter me achado ou o que poderiam ter feito comigo, de certa forma vocês salvaram a minha vida, me deixa fazer o mesmo pela Duda?"Lúcia me olhava com os olhos marejados pelo choro eminente, o pano de prato que ocupava sua mão foi parar no chão e os braços dela ao meu redor abraçando, ela não conseguia conter o choro enquanto pronunciava seguidas vezes um obrigada em voz embargada. Apesar de repetir para mim mesma não chora, não chora, o choro veio arrebatador assim como o dela, acabamos sentadas no chão chorando abraçadas. Logo as duas meninas entraram na cozinha olhando assustadas a cena. Lúcia era só sorrisos dessa vez não forçados, totalmente verdadeiros e explícitos. Ela não conseguia falar direito, não sabia o que fazer. Então sussurei." Arruma a Isa que eu termino de lavar as louças, assim que vocês estiverem prontas nós vamos." Elas Subiram correndo, sorrindo e animadas. Talvez Lúcia ainda seja meio criança, não, com toda certeza ela ainda é uma criança, uma cheia de responsabilidades mas ainda assim uma criança. Uma criança que eu nunca pude ser, a criança que eu queria ter sido. Acabei por fazer uma promessa naquele curto espaço de tempo, um dia quando eu for mãe, por que eu vou ser, eu vou aproveitar cada segundo da infância dos meus filhos junto com eles, não vou deixar eles crescerem a menos que seja realmente necessário. Logo elas desceram os seis degraus, Isa se balançava mostrando o vestido drapeado delicado cheio de pequenas flores, ela estava feliz, feliz de verdade se mostrando a pequena criança que é, não mais uma criança de olhar astuto que analisava tudo mesmo sem saber o que é isso de verdade, agora é apenas uma criança feliz com a roupa bonita. Tudo bem que é justificável o olhar que ela mantinha, imagino quantas vezes aquela situação que eu presenciei se repetiu ao longo desse tempo, e é isso que mais me assusta. Pouco a frente da casa dela havia um ponto de ônibus no qual gastamos bons minutos esperando, descobri que ainda estou em Minas, Poços de Caldas para ser mais exata acho que nunca ouvi falar desse lugar. O número de cidades pequenas espalhadas pelo Brasil que ninguém sabe o nome, ou não sabe ao menos que existe é assustador o quanto somos desconhecidos e desimportantes _ se é que essa palavra existe, diante do imenso tamanho desse Brasil Varonil. Admito não saber o que isso significa, ouvi tanto a vó da Lily dizer essas expressão que dei um jeito de enfiar ela em meu vocabulário e usar ao menos em pensamento, gosto da poesia que certas palavras transmitem. Descobri também que era uma quantidade absurda de exames que o médico pediu, definitivamente o médico não faz ideia do que a menina tem, são exames tão variados que não focam em uma coisa em específica, exames completos de sangue, de coração, neurológicos, ultrassons de varias partes do abdômen. Ele não faz ideia, eu não faço mas tenho uma leve noção que Lúcia faz. Ela é mãe né, mãe sabe, ou ao menos acho que sabe. Quando o ônibus chegou rodamos a catraca e sentamos em um banco perto da porta esperando ele seguir caminho até o centro da cidade, o motorista lerdo que não fazia questão nem de trocar de marcha me deixava aflita e desesperada. O medo da Duda passar mal novamente me rodava, eu assisti aquela cena uma vez e sinto o desespero tomar meu corpo só de lembrar, imagino como deve ser difícil para Lúcia, ela deve sentir esse medo a cada vez que vai dormir, em cada momento que tá longe, a cada segundo do dia.
Balanço a cabeça afastando o arrepio ruim que tomou meu corpo só de imaginar, então noto que o ônibus está parando e vamos descer, andamos por algumas ruas e paramos de fronte a um laboratório de fachada simples, eu consigo sentir o medo que rodeia o ar, Lúcia segura a pequena no colo e tem a mão posta sobre o ombro da maior, elas são uma família, qualquer um enxerga isso por mais longe que esteja. E por um segundo ou dois sinto falta da minha, talvez não a de sangue, mas sim a que meu coração escolheu, Rosa, Lily, Patrick, eles são família, e eu os abandonei. " Vamos Lúcia, vai dar tudo certo!" Tento soar confiante, mas é impossível não notar o leve tremor na minha voz que me denunciava, o medo estava presente em mim também, não era apenas o medo delas que contaminava o ar. Empurramos a porta de vidro e entramos dando de cara com aquele ambiente super branco com uma mulher ruiva _que eu duvido ser natural a julgar pela raíz escurecida, que sorri formalmente para nós." Boa tarde, em que posso ajudar?"" Gostaria de marcar alguns exames."" Por conta própria ou com pedido?"" Com pedido, é urgente."Entreguei os papeis para ela, que analisou e digitou algumas coisas no computador, e por fim nos olhou." Certo, eu preciso que ela esteja em jejum amanhã de manhã para fazer os hemogramas, e com a bexiga cheia hoje, pode começar a tomar água e quando ela ela estiver pronta me avisa. O exame neurológico só tenho na primeira semana do ano que o médicos especialista tá terminando o último exame e vai viajar." " Ela precisa fazer esse exame hoje, não pode esperar quase três semanas, conversa com ele, é urgente." " Eu entendo moça, mas o contrato dele com a clínica estipula horário, vamos ter que pagar multa se ele ficar." " Fala com ele, eu pago o horário dele além do exame." " Amy, não precisa de tudo isso, olha já esperamos quase dois meses podemos esperar mais." " Não podem não Lúcia, ela vai fazer esse exame hoje." A recepcionista havia saído, entrou por uma porta, provavelmente para falar com o médico e nós ficamos paradas em frente as pessoas que estavam lá olhando a cena e observando o nosso desespero calado. Quando ela voltou pediu os documentos e me deu um papel anotado o preço. R$3400,00 nada muito grande, já gastei mais que isso em compras de natal. Hoje mesmo 21/12 é o dia em normalmente eu ia até a cidade vizinha fazer compras com Lily, certo ano gastei mais de 15 mil com tudo." Quando os exames ficam prontos?"" Normalmente em dez dias, mas como é um pedido tão urgente tomei a liberdade de acrescentar uma pequena taxa que deixa os exames todos prontos amanhã a tarde." " Obrigada." Amacei o papel e joguei no lixo antes de Lúcia ver o preço, sei que ela iria criar caso. Imagino que uma vida valha mais que isso, duas então." Podem sentar que eu resolvo aqui, ah Lúcia, liga para o médico e marca uma consulta urgente para amanhã." Ela assentiu e se sentou pegando o celular, peguei minha bolsa e contei as notas enfiadas num bolso menor e entreguei para ela que contou sem a menor pressa a quantia de dinheiro e separou em três pequenos maços, nesse instante percebi que parte daquele dinheiro seria uma espécie de bônus de natal para ela. Que seja, balancei a cabeça e me sentei quando ela terminou de contar. Começamos a revesar na entrega de copos cheios de água para Duda, enquanto o médico não chamava ela para o exame. Lúcia me olhava vez ou outra, assim como algumas das pessoas sentadas." Você não precisava fazer isso sabia?"" Sim." " Eu vou pagar isso para você."" Não. Não vai. Eu não vou aceitar, são duas vidas salvas, e eu agradeço o que vocês fizeram por mim fazendo algo por vocês, o mundo deveria ser assim, esquece esse orgulho e aceita isso. Só te peço por favor me deixa esperar os resultados dela sair, quero acompanhar você no exame amanhã. Vou achar algum hotel ou pousada, e as 7 vou estar aqui esperando vocês para fazer o exame."" Não, você vai dormir lá em casa, não é grande mas cabe um colchão no quarto das meninas." Antes que eu pudesse argumentar um medico baixinho e careca apareceu na porta com uma cara emburrada chamando por Maria Eduarda Silva Lopes, era a vez da Duda e estava claro que ele não estava nem um pouco entusiasmado em permanecer em frente aqueles computadores por mais algum tempo." Só a mãe por favor, e tire qualquer objeto de metal ou elétrico." As duas entraram deixando a Isa comigo sentada na sala de espera, a menina estava elétrica, não parava quieta e isso estava começando a me deixar tonta de tanto que ela andava de um lado para o outro." Isa vem aqui sentar com a tia." " Você não é tia, eu tenho uma tia só e ela é baixinha e gordinha não parece com você." Sorri com o comentário e olhei para ela por alguns segundos antes que ela levantasse da cadeira e sentasse no meu colo com delicadeza e a mão posta na frente dos lábios como se fosse dizer um segredo e de fato cochichou algo bem inesperado no meu ouvido." Eu não quero deixar de ter uma irmãzinha." " Você não vai deixar de ter, não se preocupe." " Mentira, o Lucas disse que viu num filme que ela vai morrer, que todo mundo que tá doente morre no final." Acho que eu nunca parei para pensar sobre a morte assim até esse momento, e o pior era ter que pensar rápido em uma forma de explicar isso para uma criança, tenho certeza que Lúcia já falou sobre isso mas de alguma forma eu sentia a necessidade de falar sobre isso com ela, tentar acalmar a ela e a mim. E enquanto eu pensava nisso a lembrança da minha primeira noite na casa da bruxa me desnorteou, eu ainda podia escutar a voz de Filipa sem sentimento algum me dizendo que alguém ia me esperar para morrer, não pode ser ela, ou pode? Não definitivamente não, eu não acredito nessas coisas. " Sabe Isa, um dia todo mundo que você conhece não vai existir mais, e um dia nem você vai existir, os filmes sempre falam que alguém morre, ou é alguém ruim ou alguém sem importância, mas é só um filme. No hotel Transilvânia mesmo, a mulher do Drácula morreu, mas aquilo não é de verdade, não foi você quem disse que vampiros não existem? Então. Nem sempre quem tá doente morre, as vezes essas pessoas acabam vivendo mais que a gente. E além do mais a gente nem sabe se ela tá doente de verdade, pode ser uma coisinha boba fácil de resolver certo?" Ela assentiu levemente e me abraçou de uma forma que eu nunca tinha sentido, um abraço apertado na medida que aqueles braços pequenos conseguiam. Mas de certa forma aquele abraço tinha uma intensidade que eu não conheci até então, transmitia um amor leve e infantil que com toda certeza tinha o mais puro sentimento existente." Obrigada por ajudar minha irmã... Tia." Senti meu peito aquecer com aquela voz infantil me chamando fracamente de tia, o apelido carinhoso que eu me impus para que ela se sentisse melhor comigo tomou uma proporção que eu desconhecia, naquele momento ela não me chamou de tia apenas por chamar, eu me senti parte daquela família de verdade. Pela primeira vez eu entendi o que amor significa, foi tudo isso que eu senti. Estranha essa forma dele se manifestar, com poucas horas de convívio eu já amava imensamente essa família, não era apenas gratidão, é amor o verdadeiro aquele que aquece a alma, aquele que eu nunca senti por minha própria família ou recebi deles. O amor realmente surge nos momentos mais estranhos e necessários. Logo Lúcia voltou com a pequena, que pouco depois começou a pedir para ir no banheiro, demos mais uns dois Copos de água para ela e avisamos a recepcionista que pediu para aguardar mais um pouquinho, o que foi suficiente para a pequena começar a chorar de vontade de fazer xixi. Por sorte logo o médicos apareceu e mais uma vez pediu que fosse apenas a mãe, fiquei na recepção com Isa no colo contando histórias enquanto elas não voltavam, quando elas saíram da sala Lúcia tinha uma expressão estranha, pensativa demais, dentre os milhões de pensamentos que me invadiram nesse momento eu lutava apenas contra um, o médico ter avisado que era algo muito grave. Agradecemos a recepcionista e seguimos cada uma no silêncio de seus pensamentos e lutando para prestar atenção nas palavras rápidas e embaralhadas que Duda dizia animada explicando os exames que fez, ela não tinha ideia do que essas brincadeiras de ficar quietinha sem se mexer e o negócio gelado que colocaram nela significacam, para ela era apenas uma brincadeira, para Lúcia e para mim era um fio de esperança que ela melhoraria.
Nenhuma de nós duas disse nada durante o percurso de volta para a casa dela quase 50 minutos de silêncio absoluto no qual estávamos imersas em pensamentos. Era quase 3:30 da tarde quando chegamos, as meninas estavam com sono, com muito sono aliás, apenas deitaram no sofá uma do lado da outra e apagaram no segundo seguinte. Lúcia subiu para o quarto e eu fiquei sem saber o que fazer, uma sensação estranha de que eu poderia estar invadindo o espaço pessoal delas me tomou, sei o quanto algumas pessoas gostam e precisam ficar sozinhas em determinado momento para conseguirem digerir as mudanças da vida, mas no meu íntimo eu sentia que ninguém precisa passar por isso sozinho, uma companhia qualquer mesmo que em silêncio era bem melhor que companhia nenhuma. No andar de cima tinha três portas duas eu já conhecia então imagino que a ultima seja o quarto dela, bati levemente na porta e entrei sem esperar autorização, Lúcia estava deitada encolhida e pela forma que ela respirava estava controlando o choro, Fechei a porta e me ajoelhei na frente dela, os olhos castanhos estavam vermelhos e inchados e o cabelo colado na cara, ela é uma mulher linda, e isso fez apenas o meu coração se apertar mais e mais, passei a mão afastando o cabelo do rosto dela, ela foi levantando, dava para notar o incômodo em ser pega chorando. Eu a abracei forte, ela não reagiu de primeira mas pude sentir ela relaxando e em seguida as lagrimas dela começaram a tocar meu ombro, não precisamos de nenhuma palavra. Eu não tentei consolar ela, nenhuma palavra de apoio ou frase feita, não que esses consolos programados sejam de todo falhos mas o carinho que apenas o silêncio trás é inexplicável ele mostra a conexão de duas almas que sofrem, por mais que eu tentasse me manter forte nós duas sabíamos que eu compartilhava aquele sentimento e sofrimento todo, tenho certeza que o que ela sentia naquele momento era pior do que meu desespero interno, ela é mãe e por mais que a gente queira acreditar que elas são de ferro indestrutíveis e fortes elas não são, a muitos anos Rosa me disse que ser mãe era sinônimo de lágrimas silenciosas e oração, naquela época não pensei nisso, era impossível imaginar minha mãe fazendo qualquer um dos dois realmente. Mas agora eu vejo, Lúcia se escondeu no quarto para chorar e mesmo precisando disso não quis se permitir chorar na minha frente, não duvido que ela já fez isso milhões de vezes engolir o choro e fazer uma oração entregando tudo isso nas mãos de Deus, mãe é oração hoje eu entendo e acredito. Não sei por quanto tempo ficamos naquela posição deixando o choro acumulado sair, em algum momento senti minhas pernas dormentes mas ainda assim não me mexi ela precisava mais desse momento do que eu de me mexer, somos frágeis, física e psicologicamente mas o desespero da nossa geração nos faz viver como se fossemos de aço, incansáveis sem dores, sem sentimentos, uma máquina programada para não ser humana, não ser real. Isso é triste e despedaçador viver inteiros e sorrindo mas sempre com um pedaço a menos, sempre faltando a parte principal. Nesse momento me permiti não ser assim e não deixar que Lúcia seja, ela merece mais que isso, e a minha promessa interna grita novamente. Ajudar alguém não é apenas com dinheiro é com o que a pessoa precisa, mesmo que seja um simples abraço.
Notas finais
Bom pessoas lindas, feliz dia das mulheres (apesar de eu achar meio hipócrita isso) mas ainda assim parabéns pra gente que somos equilibristas de primeira assim como a Lúcia e que guardamos lagrimas para dar sorrisos. Espero que vocês tenham gostado e que estejam com esses corações preparados para as próximas emoções. Boa noite gente!
Fale com o autor