O resto do dia passou rapidamente de certa forma, em determinado momento Lúcia cansou de chorar, se levantou e arrumou uma roupa dela para que eu vestisse após o banho. Júlio, o marido dela chegou e conversou algumas palavras comigo até descobrir que eu paguei o exames, eu nunca vi um homem com tanta vergonha e gratidão em um só lugar. Lúcia foi para a cozinha fazer o jantar e eu fui atrás, eu não sei cozinhar mas sei usar uma faca, estranhei quando ela pegou panelas bem maiores que as usadas no almoço, homens comem muito, pensei. Meu pensamento errôneo foi corrigido quando a campainha tocou uma vez atrás da outra, família grande reunida para jantar em plena terça feira, acho que nem na casa da Lily isso acontecia, parecia uma coisa normal, precisei ver o cuidado que tratavam a menina menor para lembrar o motivo de estarem ali, de uma forma ou de outra todos estavam se despedindo, a mãe de Lúcia acabou se interessando mais pela minha presença, enquanto o restante da família de Júlio se distraiam com as meninas, crianças, varias delas corriam pela casa enquanto Lúcia pacientemente fazia comida, me arrisquei a fazer uma salada colocando os temperos que Lúcia colocou na mesa, duvido que tenha ficado bom considerando que ela estava quase intacta no final do jantar, nem eu tive coragem de comer após experimentar uma folha de alface com gosto horrível. O jantar ocorreu tranquilamente, cada um contando do seu dia fazendo piadas comentando sobre pessoas, rindo do passado, por incrível que pareça eu estava lá de corpo e alma contando minhas historias engraçadas que eu vivi na estrada. Justo eu que não queria companhia, não queria me envolver, que queria apenas viver o aqui e o agora me encontro fazendo parte de algo maior, uma família, e eu sei que de uma forma ou outra por um motivo ou outro quando eu partir eles vão se lembrar de mim, e pelo olhar da mãe de Lúcia, dona Maria, eu sempre vou poder contar com as orações dela, e eu nunca fui tão grata por um olhar questionador dirigido a mim.
Quando todos saíram a cozinha estava arrumada e até mesmo um colchão estrategicamente arrumado entre a pequena cama de solteiro e o berço. As meninas elétricas só dormiram depois de uma história que eu contei sobre reinos encantados com dragões e elfos em que uma tartaruguinha queria ser fada. Não sei de onde surgiu essa história mas quando terminei de contar o sono já tinha me tomado, estava quase dormindo quando uma Isa sonolenta se deitou na beirada do colchão estreito e alisando minha orelha adormeceu ao meu lado me fazendo ter cuidado até mesmo para respirar. Apesar do jeito e do olhar ela ainda era uma criança frágil e inocente que queria apenas um colo, e em meio ao sono encontrou o meu. Logo o meu, desprovido de conhecimento sobre carinhos infantis.
Eu ouvi quando Júlio levantou e senti o cheiro do café se espalhando pela casa, ouvi os passos cuidadosos de Lúcia indo ao banheiro e quando ela saiu eu me levantei pronta para ir até o laboratório, Duda não podia comer nada então ela precisava dormir até a hora de sair, quando desci para a cozinha cumprimentando o casal que falava tranquilamente sobre algo, eles me sorriram e Júlio me jogou uma chave enquanto Lúcia saia sorrateiramente da cozinha.
" O que é isso?"
" A chave do meu carro, é mais confortável para vocês irem nele, você é maior de idade pode dirigir. Você sabe dirigir né?"
" Sei."
" Olha Mi, eu não quero te dever nada, vamos agir como se você tivesse me feito um empréstimo, eu vou te pagando aos poucos com juros e correções monetárias, OK?"
" Eu não estou te cobrando nada e nem vou te cobrar, é como eu disse pra Lu, uma vida por uma vida, você salvou a minha ontem hoje eu te ajudo a descobrir o que tua menina tem. E de certa forma salvar a vida dela se for preciso."
" Qualquer pessoa faria aquilo que fiz, esses exames são caros, não é qualquer pessoa que faz isso."
" Qualquer pessoa pode tirar alguém da rua, nem todo mundo leva pra casa, nem todo mundo tem um bom coração, poderia ser qualquer um a fazer aquilo comigo, mas não foi qualquer um, foi você, eu acredito que uma força maior independente de qual seja a que você acredite te deixa nos lugares que vocês precisa estar, e além do mais acredite aquele dinheiro não vai me fazer falta."
Júlio acabou me dando um abraço desajeitado, mas ainda assim agradecido,
Estranha essa sensibilidade das pessoas com jota que conheci, Jorge, Joana, Júlio; todos eles com um coração enorme e me salvando nos momentos necessários, talvez sejam uma parte de Jesus aqui, afinal ele também me salvou, um homem com Jota pregado numa cruz é igual a tantos outros com jota que carregam suas cruz lentamente dia após dia sem nunca ser crucificado, carregam ela para um dia atravessarem um precipício, são as melhores pessoas.
Depois de algum tempo Lúcia desceu com as meninas quase prontas, ela ria tranquilamente estava mais tranquila, ou aparentava estar sei que o coração dela estava preocupado. Isa desceu correndo com o cabelo bagunçado e o pente na mão e se jogou no meu colo.
" Tia mi, faz uma trança bonita?"
Sorri e comecei a pentear os longos cabelos pretos dela fazendo uma trança escama de peixe, não sei por que mas acho que é a mais linda de todas, Lily sempre fazia em mim. Duda ocupou meu colo assim que a irmã levantou, ela queria uma trança também acabei fazendo uma trança normal com uma trancinha fininha no meio, o cabelo dela menor e mais castanho que preto não tinha tamanho para algo mais elaborado. Júlio já tinha saído ele tinha que pegar o ônibus já que tinha deixado o carro comigo, saímos assim que Isa tomou um suco depois da gente muito insistir ela não queria comer já que a irmã não podia.
Lucia me mostrava os caminhos que eu deveria seguir e eu obedecia cegamente, estacionei em frente ao laboratório com uma baliza bem torta, assim Que entramos a recepcionista nos cumprimentou brevemente e avisou que podíamos entrar assim que a outra paciente saísse, ouvi alguém murmurar algo atrás da gente e em seguida a recepcionista esclarecer que já tínhamos horário marcado com preferência, o que o dinheiro não faz? Que bom que o dinheiro faz, objeto de troca ruim que serve para fins necessários.
Quando fomos para uma Padaria ao final do exame Duda estava orgulhosa por ser grande e não chorar e que a mamãe era pequenininha por que chorou. Eu quase chorei. O médico marcado com urgência para mostrar os exames estava marcado para as 3:15 da tarde, acabei convencendo Lucia que precisávamos respirar ar novo, levamos Duda para tomar café em uma padaria e brincar no parque, depois almocamos em uma pizzaria e brincamos na praça central da cidade, uma cidade linda por sinal, arborizada e acolhedora com fontes posicionadas em lugares estratégicos jorrando águas que criavam mini arco ires. Quando deu horário do médico buscamos os exames prontos pontualmente como prometido pela recepcionista ao saber do horário do médico; ah dinheiro, doce dinheiro que corrompe os homens e faz o tempo correr cada vez mais rápido.
Minha perna e de Lúcia eram como gelatina quando entramos no consultório do educado médico baixinho, nem eu nem ela tivemos coragem de abrir os exames, a curiosidade era muita mas a coragem era nula, não sei se por medo do que encontrar ou do que não encontrar e essas crises da Duda continuarem uma incógnita, acho que lutar contra algo visível, algo que você tem conhecimento é bem melhor que lutar contra o desconhecido, o invisível que te passa uma rasteira a cada passo. O médico não se portou como uma simples apresentação de exames ele fez uma consulta normal perguntando tudo, desde de como foi a semana, a alimentação, as crises, perguntou se ela tinha se assustado, ficado nervosa ou qualquer coisa do gênero recentemente, e depois de auscultar e apalpar a pequena passou para os exames, testa franzida a cada barulho de página que fazia meu coração parar por um segundo ou dois, em determinado momento senti a mão da Lu apertar minha perna, o coração dela parava também, o médico deu um suspiro cansado e usou um ramal para chamar a secretária ela apareceu na porta segundos depois.
" Carol, leva as meninas para a nova brinquedoteca, tenho certeza que ela vão gostar."
Quando ele disse isso de certa forma meu peito se apertou sabendo que não é uma coisa qualquer que ela tem, é algo sério e massacrador o suficiente para não ser aconselhável que crianças ouçam, meu olhar se encontrou com o de Lúcia e eu entendi que a mesma coisa que passou pela minha cabeça passou pela dela, o doutor pigarreou chamando nossa atenção, antes dele abrir a boca para começar a explicar Lúcia foi mais rápida, expôs o que ela já fazia uma ideia e eu não aceitava nem pensar.
" É leucemia né Doutor?"
" De onde vocês tiraram isso? Não é leucemia."
" Gracas a Deus. Quando ela começou com essas manchas, desmaios e sangramento fui pesquisar na internet o que poderia ser e em todos os sites apareceu isso."
" O problema do google é que ele não fez faculdade de medicina por seis anos, mas tudo bem, você não é a primeira que entra aqui com uma certeza errada."
Ele respirou fundo por um segundo o suficiente para Lucia e eu recuperarmos os sentidos, se não é leucemia e isso já é um grande Milagre.
" Ela tem uma doença rara, ela se manisfesta em 1 a cada 60 000 pessoas quase, é uma doença hereditária, você e seu marido possuem um gene que dificulta a metabolização de alguns tipos de gordura que acabam se acumulando em alguns órgãos, pâncreas, rins, coração medula óssea e em alguns casos no sistema nervoso central."
Enquanto ele mexia em alguns papeis o desespero tomou conta do meu ser e pelo olhar da Lúcia a situação dela era pior que o a minha, ele virou os exames e os colocou enfileirados mostrando alguns órgãos disformes pela imagem.
" Esse é o pâncreas e esses são os rins, eles estão inchado, pouco mas ainda assim inchados, esse é um bom sinal apesar da sua cara de espanto, calma Lúcia, tem tratamento, ela tem a doença de Gaucher tipo 1 é a mais leve de todas, olha o coração, o cérebro, tudo normal, ela não sofreu nenhum dano irreversível. Essa doença causa um pouco de anemia e nisso a gente tem que ficar de olho por que se descuidar pode virar leucemia."
" Qual e o tratamento? Ela tem que ficar internada? Quanto custa?"
" E Você? Quem é?"
" A Amy é tia das meninas."
Meu coração se aqueceu com a afirmação de Lúcia, eu realmente sou parte da família nesse momento. O médico assentiu em compreensão e voltou a explicar respondendo minhas perguntas mas não sem antes nos deixar um pouco mais preocupadas.
" Em primeiro lugar vou pedir alguns exames para a Isabella, é uma doença hereditária portando existe 25% de chance dela ter essa doença, algumas pessoas tem e passam a vida assintomáticas e morrem de velhice, mas é bom ter no histórico médico dela e manter elas tomando vitaminas sempre. Mãe aconcelho a começar uma dieta para elas, principalmente para a Maria Eduarda, como os lisossomos dela não processam gordura durante o tratamento evite alguns alimentos, vou encaminhar ela para uma nutricionista, isso pode ser feito pelo PSF, assim como o tratamento que pode ser feito pelo SUS, não é nada muito complicado, a cada duas semanas ela vai ficar umas duas horinhas internada tomando um medicamentos na veia, vou aconselhar o médico responsável a incluir umas vitaminas intravenosa para ela, e durante o tratamento vão fazer exames regularmente para ver a evolução. Fora isso vida normal, pode continuar brincando indo a escola, vai crescer e dar bastante trabalho para o pai, tudo normal. Provavelmente no dia que ela tomar o remédio vai precisar de um pouco de supervisão, algumas pessoas sentem algum tipo de efeito colateral, mas não todas."
Ele desviou o olhar de nós duas e se voltou para a mesa preenchendo alguns papéis. O alívio era enorme tanto para mim quanto para Lúcia, apesar de tudo ia ficar tudo bem, as orações feitas foram atendidas era isso que o olhar e o sorriso de Lúcia voltados para mim me denunciavam.
Deus existe afinal, e nesses pequenos milagres essa força poderosa que rege todos nós se manifesta, não é preciso que ele venha de dois tapinhas no teu rosto e diga 'hey, olhe pra mim eu sou o cara que fez você!' Não, ele é sutil, dá toques suaves na alma, não usa e abusa da força bruta, pelo contrário acalenta sem esperar reconhecimento. É isso que ele faz agora, acalma e acalenta os nossos corações desesperados pelo medo. Agora que tudo está em paz dentro e fora de mim eu posso partir, ir embora e ser mais uma vez instrumento, existir por um dia ou dois onde eu posso ser útil.
Não demorou muito saímos do consultório bem mais leve que entramos, subimos umas duas ou três ruas e paramos no Hospital Santa Casa da cidade, felizmente o médico foi caridoso e chamou o filho que trabalha pelo SUS para nos dar um encaminhamento e poderíamos começar o tratamento naquele mesmo dia. Não me deixaram entrar mais uma vez então ficamos na recepção, Isa e eu conversando sobre nada em específico, ela me falava um pouco da escolinha e eu ouvia, mas depois de quase uma hora falando ela se Calou de repente, estranhei o ato súbito e antes que eu pudesse perguntar algo notei que as lagrimas iam se acumulando pouco a pouco em seus olhos.
" O que foi pequena?"
" Elas tão demorando tia, será que a Duda passou mal de novo? Eu não tô lá pra levar a toalhinha pra ela, ela vai chorar."
Foi impossível conter o sorriso triste ao constatar que realmente era costume, ela presenciava as crises e se sentia útil entregando um pano para ela. Ainda não havíamos explicado nada para as meninas, Duda não ia entender tão bem, mas Isa já entende, Lúcia estava tão eufórica que só queria começar o tratamento.
" Ela não passou mal, te dou certeza, de vez em quando agora você vai vir com ela aqui, ela vai ficar lá dentro tomando remédio para nunca mais passar mal. Logo você vai fazer uns exames igual aos que a Duda fez só por precaução."
" O que é precaução?"
" É quando você resolve um problema antes dele aparecer, é só para você não passar mal igual a Duda OK?"
Ela assentiu e ficou quieta por um tempo, e por fim se acomodou com a cabeça no meu colo, enquanto eu brincava com o cabelo dela ela adormeceu. Sem muito o que fazer tirei o celular da bolsa e comecei a fazer pesquisas aleatórias no Google, comecei com a doença de Gaucher, a doença da Duda, depois sobre a cidade de Poços de Caldas, e quando dei por mim eu estava procurando por Recanto novo, pelo meu nome e enfim pelo nome dos pais do Patrick, fotos antigas me trouxeram nostalgia, um sentimento absurdo diante da situação. Quando as fotos começaram a perder relação comigo mudei para as notícias, antes eu não tivesse feito, existiam milhares, e eram bem recentes, desci um pouco e procurei pelas notícias da semana anterior, observei uma foto minha com meus pais anexada a noticia que eu não tinha coragem de ler. Minha morte. Era o jornal da cidade vizinha, "Filha de grande empresário, é encontrada morta após sequestro."
Essa foi a história, com os olhos lacrimejando cliquei na notícia. Ela estava bem escrita, e estranhamente detalhada, normalmente notas de jornais são tão suscintas. Lá explicava um pouco sobre o sequestro que ocorreu no dia 9/12, sobre o barulho estranho que acordou minha mãe e o quanto ela chorava ao narrar a cena que viu quando chegou no meu quarto, sobre o desespero que durou dois dias esperando uma ligação de resgate, e por fim a ligação do policial para identificar um corpo desfigurado encontrado alguns quilômetros a frente da saída da cidade. Voltei para a pagina principal e corri os olhos pela notícia que descrevia meu velório, e me peguei paralisada com a foto de Lily chorando perto do caixão fechado. Na legenda "colegas sofrem morte de Júlia Arruda." Ela nunca foi colega, sempre foi minha melhor amiga.
Em outra notícia meus antigos sogros lamentavam a minha morte, e diziam com enorme pesar o quanto faziam gosto no meu casamento com Patrick. Eu sabia que seria pedida em casamento naquele dia, mas não sei se era realmente a vontade de Patrick. As notícias mais recentes eram relacionadas com nosso namoro, sites de fofoca, instigavam o sofrimento coletivo dizendo no quão deteriorado sentimentalmente Patrick estava.
Por curiosidade procurei pelos vídeos, noticias escritas são manipuladas facilmente, achei um vídeo gravado no meu velório, notícia nacional, como eu não havia visto isso? O corpo aparentemente da mesma estatura que o meu tampado com lona preta, minha mãe chorando desesperada ao lado do caixão, Lily abraçada por Rosa chorando e por fim meus sogros, fotos minha e de Patrick rodavam pela tela em vários momento, fotos em que estávamos com nossos pais juntos eram a maioria. Uma ou duas apenas com nós dois. Patrick entrou a passos lentos sem olhar para frente, e por fim saiu, não olhou para o caixão, pouco depois Lily falava com ele enquanto o repórter detalhava nosso relacionamento de anos. E por fim a reportagem fechou com Patrick chorando perto do caixão e depositando uma pequena caixa de veludo em cima da lustrosa madeira preta brilhante.
Era oficial eu morri, mais que isso, Patrick realmente me amava, Lily chorou minha morte enquanto eu fumava maconha e ouvia reggae, que tipo de ser humano eu sou? Quem consegue ser feliz com isso? Por que diabos eu escolhi essa vida mesmo? Talvez a proximidade com uma família verdadeira me deixou mais suscetível a esses sentimentos. Talvez, ou eu apenas estava infeliz a ponto de achar que eu não era amada por ninguém, que todos ao meu redor eram falsos e manipuladores e eu uma pobre inocente digna de pena, quando na verdade eu sempre fui uma manipuladora falsa e sem coração, eu nesse momento sou aquele tipo de ser humano que eu mais odeio, eu sou uma mentira.
Notas finais
Toc-Toc... Alguém ai ainda? Alguém pode me ouvir ou ler? Falem comigo estou sozinha!
Kkkkk brincadeira, tudo bem gente?
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