Amour, Silena
2 Capítulo I
Notas iniciais
Capítulo I
—Anda logo, Silena! – uma das irmãs dela gritou, batendo na porta do banheiro. – Você já está aí dentro a horas, e a sala de maquiagem está lotada. Sai logo daí!
—Espera! – ela gritou de volta.
“E não é verdade, eu não estou aqui a horas. Estou a apenas 50 minutos, humpf”, ela pensou. Pegou o gloss e o passou na boca, passando um lábio no outro em seguida.
—Perfeito! – recolheu suas maquiagens, deu mais uma escovada no cabelo e uma conferida no rímel e abriu a porta. – Pronto, o banheiro é todo seu.
Indo até a sua penteadeira, ela deixa lá suas bolsas com as maquiagens, e sai do chalé 10, rumo ao refeitório. Ajeitou a barra do short e olhou para o sol: Apolo estava radiante hoje. O calorzinho se espalhava por todo o seu corpo, e ela queria ficar assim para sempre.
Sorriu para o sol, como uma idiota, mas na hora não se importou: quando esses momentos de integridade nos atingem, você deve aproveitá-los, parar o que está fazendo e simplesmente sentir.
Bem, sentir até quando podermos, ou até sermos tropeçados e empurrados por alguém.
—Ai! – ela gritou quando caiu com força no chão.
—Desculpe-me – o garoto disse, largando tudo que estava trazendo com força no chão, limpando as mãos em seu jeans sujo de graxa e oferecendo-a a ela.
—O que você pensa que está fazendo? Olhe pra onde anda! – ela reclamou, depois de recusar a ajuda dele (“Não vou sujar minha linda mãozinha nessa graxa!”), ainda passando a mão onde bateu no chão.
—Olha, desculpa. Mas, sinceramente, você não devia ficar parada aí, no meio do caminho. O que você estava fazendo? – ele levantou apenas uma das sobrancelhas, com um ar incrédulo.
—Ora, eu estava... Eu estava... – ela foi perdendo as falas ao pouco, ao pensar o quão ridículo iria ficar a explicação do fato – Bem, não interessa. Só tente não tropeçar em pessoas novamente.
Ela concluiu se agachando para ajudá-lo a pegar as peças que caíram no chão – pelo menos, as que estavam em melhor estado de conservação, e não tão sujas.
—Enfim, até depois. – ela concluiu, seguindo em seu caminho.
O garoto continuou observando-a, que pareceu ser um tanto maluca, além de nojenta. “Provavelmente, filha de Afrodite”, ele ficou pensando antes de seguir o mesmo caminho que ela havia tomado, para o refeitório: “Nada melhor que um café da manhã para trazer ânimo para uma manhã na oficina”.
Silena já estava sentada na mesa do chalé 10 quando viu aquele garoto se sentar na mesa do chalé 9. Mas não ficou pensando muito nisso, pois logo já estava na fila das oferendas. Na sua vez, fez uma simples oração a sua mãe: “Não deixe que eu própria seja vítima dos seus próprios truques, mãe”.
Com um bocado de murmúrios ao seu redor, se sentou no seu lugar de costume e comeu em silêncio, tentando se lembrar do que tinha aula em seguida.“Argh, escalada. Bye bye esmalte”, se lembrou relutante.
Quando o refeitório já estava praticamente vazio, ela se ergueu do banco, era inevitável agora ter de ir para a parede de escalada – detalhe: com lava. Alisou a blusa contra o próprio corpo – “Laranja não é minha melhor cor” – respirou profundamente e saiu do refeitório.
Novamente, a luz do sol banhou sua pele, mas ela não sentia a mesma coisa que antes. Guinou violentamente para a direita, com os seus pés fazendo o percurso no modo ‘piloto-automático’. Percebeu, assim que chegou, que estava atrasada.
—Desculpem-me pelo atraso. – ela disse antes mesmo de chegar direito.
Já foi logo pegando os poucos equipamentos de proteção que eram oferecidos, e entrando em uma das quatro filas de competidores. Olhou despreocupada para sua unha enquanto aguardava a sua vez – o que não levou muito tempo.
Colocou o pé no primeiro apoio e começou a subir, com os outros três competidores logo ao seu lado – tentando fazê-la cair. O único que ela não podia ver era o do lado oposto, mas não tinha dúvidas que também tinha uma enorme força de vontade em ‘acabar com a Barbie idiota’, como ouvira do filho de Ares ao lado.
“Vou mostrar quem é a Barbie idiota daqui”, ela pensou, mordendo os lábios e retomando a escalada ainda com mais vigor. Alcançou o primeiro dos três patamares, e já havia somente mais ela e mais dois competidores, já que um havia escorregado e caído.
Na segunda fase do desafio – que por um acaso soltava lava – o filho de Ares que fez o comentário irônico sobre Silena caiu (com uma pequena ajuda de Silena, mas nada que possa ser considerado muita maldade). Portanto, só sobraram ela e outra pessoa, que por acaso ela não sabia quem era.
“Bem, primeiro tenho de conhecer meu adversário, logicamente”, ela pensou. Então, ao alcançarem o segundo patamar, ela deu a volta na ‘coluna dorsal’ da parede e o competidor estava de repente na sua frente.
—Você? – ela soltou, com um ar surpreso.
—Digo o mesmo. – ele riu sarcasticamente, já voltando para o seu percurso de subir.
Ela também voltou, e conseguiu passar na frente do garoto. Porém, antes que pudesse sequer comemorar, ela tropeçou em um piso que estava e ao mesmo tempo não estava ali, e nos milissegundos que se seguiram, só pensou “Vou virar um omelete” e fechou os olhos.
Mas não. Não ainda. Uma mão segurou seu braço, e abrindo os olhos viu de quem ela pertencia: o garoto. Ela conseguiu sorrir, apesar da batida de seu coração ser tão alto ao ponto de ensurdecê-la.
—Você?
—Só sabe dizer isso? – ele levantou novamente a sobrancelha, antes de puxá-la para cima.
—Acho que tenho de te agradecer.
—Não vou deixar você despencar. Não mesmo. Agora, ainda vou ganhar. – ele disse antes de disparar para cima.
“É, você vai mesmo ganhar”. Ela estava tão surpresa que qualquer um poderia ter ganhado, ainda estava em estado de choque. E, afinal, ele merecia ganhar. Seria por total e pleno mérito dele, que além de ganhar teria a salvado de uma queda realmente dolorosa.
Quando ele tocou o arco que demarcava a vitória, ela fez questão de bater palmas. Porém, ele não comemorou. Ele só retirou o equipamento e saiu dali, indo para não se sabe onde.
Ela sentiu a necessidade de conversar com ele. Removeu as seguranças e partiu atrás do rapaz:
—Espere! – ela gritou. – Hey, espera!
Ele parou no lugar onde estava e olhou para trás.
—Hun... Olá? – ele estava incrédulo.
—Posso saber como se chama o cara que me derrubou e depois me segurou? – ela sorriu marotamente.
—Beckendorf. – ele respondeu somente.
—Certo, mas eu perguntei o nome, não o sobrenome.
—Charles.
—Charles... Acho que já te vi antes... Ah, já sei! Na reunião dos conselheiros, você também é conselheiro. De que chalé mesmo?
—Chalé 9.
—Hun... Chalé de Hefesto. Bem, eu sou...
—Silena, eu sei.
—Wow. Bem, sou filha de...
—Afrodite, também sei.
—Ok, sabe tudo, diga-me minha cor favorita então.
—Rosa? – ele chutou.
—Peen, resposta errada.
—E qual é? – ele fez uma pergunta, pela primeira vez na conversa.
—Vai ter de descobrir. – ela disse, e como resposta imediata, recebeu um sorriso.
Como para se ressaltar a resposta que deu, saiu dali acenando um tchau para o garoto, com um sorriso no rosto. “Acho que consegui um novo amigo”, pensou.
Ao mesmo instante, Charles pensava consigo mesmo “Ela nunca vai olhar para mim novamente, vai se esquecer de tudo, logo amanhã”. Ele voltou para o chalé 9, e, mesmo pensando assim, sentia que um sorriso teimava em lhe brotar dos lábios.
***
Naquela noite, o time vermelho preparava sua estratégia. Ou, melhor dizendo, os chalés de Ares e Atena preparavam a estratégia enquanto os outros (vulgo Afrodite, Deméter e Dionísio) ficavam ali sentados esperando receber as ordens. Quer dizer, quem pede a opinião dos filhos da deusa do amor quando se tem os filhos dos deuses da guerra e da sabedoria/estratégia em batalha? É um pouco injusto.
—Silena –uma filha de Afrodite, Natalie, chamou a irmã e conselheira sentando ao seu lado.
—Hun?
—Já decidiu com quem vai aos fogos de 2 de Julho? Quer dizer, acho que metade dos garotos dessa tenda, e provavelmente também da equipe azul, te convidaram.
—Ah... não sei – respondeu casualmente – Depois decido – deu de ombros, como se fosse uma coisa à toa, ajeitando a armadura rosa e vermelha (cuidadosamente escolhida para combinar com a roupa. Aparências, tinha de mantê-las).
Mas, a verdade seja dita, não era uma coisa “à toa”. Ela já tinha em mente com quem queria ir, mas o idiota ainda não havia a convidado. “Bem, deixe a ênfase no ‘ainda’”, pensou.
“Charles Beckendorf, conselheiro do chalé de Hefesto. Alto, musculoso, incrivelmente uma gracinha, extremamente tímido. Era com ele que eu queria ir aos fogos, e quando Silena Beauregard quer uma coisa, eu estou te dizendo: ela consegue.”, pensou, imaginando o dia que se esbarraram.
E por que tanta obsessão em ir com ele? Bem, depois daquele dia, a quase três anos atrás, Silena não conseguia parar de pensar no garoto. Não era o mais bonito do acampamento, ou o mais charmoso. E, por algum motivo, ela se sentia extremamente idiota reparando nele a cada instante.
Além disso, houve um episódio depois que realmente chamou a atenção dela. A última reunião dos conselheiros, quando ele se pronunciou sobre a possibilidade de não permitirem mais que os filhos de Hefesto ficassem acordados até altas horas nas forjas (mesmo essas se localizando no subsolo do próprio chalé).
Pelos deuses, ela podia jurar que quando ele disse o lugar quase ribombou: a discussão cessou e todos o escutaram. Civilizadamente. Sim, isso é quase impossível com Clarisse la Rue e os gêmeos Stoll na mesma sala, e mesmo assim ele conseguiu.
—E você, Natalie? – ela não perdia a chance de implicar – Finalmente aceitou o convide de Connor?
—Até parece, Si – ela respondia, cheia de si – Você sabe que, em primeiro lugar, ele me chamou apenas em mais um de suas brincadeiras. E, depois, não.
—Você sabe que não me engana, certo Nat? – recebeu apenas um mostrar de língua como resposta.
Bem, voltando para o que realmente interessa (ou nem tanto assim), a estratégia estava pronta. Iríamos (lê-se: Ares) atacar pelo flanco direito, como força principal, enquanto Dionísio e Deméter distraiam pelo lado esquerdo. Além disso, Afrodite e Atena criariam uma linha de defesa, não muito perto do riacho para criar certo sentimento de confiança nos adversários. A garota estava designada para o flanco esquerdo. “Bem, vai ser legal”
Embora por fora ela realmente conseguisse passa a impressão de não gostar nem um pouco do jogo, ela até achava a caça a bandeira interessante. Enquanto o time se dispersava, conversando e rindo até o momento de entrar em posição, pensou em andar pela floresta e procurar Beckendorf, afinal, se ele não a convidasse hoje teria de tomar decisões drásticas.
Andando a esmo, acabou encontrando-o próximo a Percy Jackson e Annabeth Chase – “Por um acaso eu já cheguei a comentar que aqueles dois com certeza vão acabar tendo algo?”. Logo em seguida, a loira sussurrou algo para Percy e sorriu, andando para algum lugar.
Charles e Percy começaram a conversar, e ela decidiu que seria a hora para passar por eles. “Quer dizer, passar por alguém durante o jogo é completamente normal, não?”
—Boa sorte, Charlie — lhe lançou um sorriso, sem parar de caminhar, seguindo para o mesmo local onde viu Annabeth indo.
Dizer que o mesmo ficou completamente boquiaberto era pouco, certo? Desde que se encontraram a uns dois anos na parede de escalada, Silena não lhe deu lá muito papo. Mas, a verdade, era que ele era apaixonado por ela desde que descobrira que rosa não era sua cor favorita. Descobri-la tornou-se um hobbie, e logo se viu em uma armadilha de Afrodite.
—Hey, Annabeth, me espera – a morena sorriu, alcançando-a com uma corridinha.
—Oi Silena – ela sorriu. – Vamos defender juntas, hoje?
—Exatamente. O que você estava sussurrando com o Jackson, ein? – ela não perdeu a chance de amolar – Nada de encontros sem a aprovação do chalé de Afrodite.
Ela revirou os olhos, mas ainda assim sorria.
—Eu lhe disse exatamente o oposto do que deveria fazer, então ele virá exatamente para onde estamos e eliminamos ele.
—Sempre jogando. – riu.
—Sempre.
***
Annabeth havia posto um boné (“Não combinava nem um pouco com seu perfil, mas...”) e simplesmente desaparecido. Enquanto isso, Silena subiu em uma árvore no perímetro que cobriam, para uma melhor posição de observação. Ambas esperavam os garotos chegarem, já que eles definitivamente iriam contra a ordem da loira e viriam justamente ali.
—Surpresa! – a voz da garota loira se fez ouvir.
Descendo da árvore, a morena desembainhou a espada, seguindo para onde havia ouvido a voz: embora achasse improvável, a filha de Atena poderia vir a precisar da sua ajuda.
—Bom trabalho – sorriu quando notou um Percy Jackson imobilizado por nada (supondo que fosse Annie e seu boné).
—Garotos são tão fáceis de seguir – ela retirou seu boné – Eles fazem mais barulho que um Minotauro apaixonado.
—Você é nosso prisioneiro. Vamos pegar Beckendorf e... – mas ela foi interrompida pelo garoto.
—Beckendorf – olhou aflito para algum lugar longe dali – Vamos!
—Aonde você pensa que vai, prisioneiro?
—Veja!
Ele apontou para um lugar, onde Charles lutava contra uma... Formiga gigante? Sim, uma formiga gigante! Ela mordeu sua perna e caiu, sendo borrifado por uma gosma no rosto por uma segunda formiga e gritando.
—Não! – Annabeth gritou.
—Charlie! – foi a única coisa que a morena consegui gritar.
Silena não estava conseguindo observar e reter informações do que acontecia. Por que não iam atrás dele? Por que Annabeth e Percy não estavam o ajudando? Ele estava sendo levado para um túnel e estavam simplesmente ali parados. Por quê?
—Não! – ela gritei empurrando Annabeth. “Do que adiantava tanta estratégia se não podia salvar um amigo?”, pensava, raivosa – Você deixou que eles levassem Charlie!
—Não há tempo para discussão, vamos! – ela simplesmente disse.
Seguiu rumo a uma cabeça enorme de metal, parecia ser de um dragão.
—Ah meus deuses! – não conseguia acreditar, estava indignada – Você está mais preocupada com esse monte de metal do que com Charlie?
O nível de repulsa que estava sentindo no momento era incalculável. Como estavam deixando Charles ser levado assim por aqueles monstros? O famoso Percy e Annabeth não conseguiam lutar contra aquilo?
— Escute Silena! Aqueles são Myrmekos. Eles são como formigas-de-fogo, só que cem vezes pior. Eles picam injetando veneno. Eles borrifam ácido. Eles se comunicam com todos os outros e enxameiam qualquer coisa que os ameace. Se avançássemos até lá para ajudar Beckendorf, seriamos arrastados para dentro também. Vamos precisar de ajuda... muita ajuda... para trazê-lo de volta. Agora agarre alguns fios e puxe.
Ela explicou calmamente e, a partir daí, Silena somente fez o que lhe pediam. Não estava conseguindo raciocinar muito. Puxou a cabeça com força e, quando lhe deixaram parar, desabou em choro.
—Ele provavelmente já está morto – ela não sabia que sentiria tanto assim por ele.
Sim, ela queria que ele me chamasse para os fogos. Sim, ele parecia ser alguém legal. E sim, ele era extremamente gatinho. Mas ela nunca havia realmente conversado com ele, não além do dia na escalada. E aquilo fazia tanto tempo, ele nem sequer deveria se lembrar.
—Não, elas não vão mata-lo agora.
Ela explicou algo sobre como elas matavam as vítimas – “Como era possível alguém saber tanto sobre um assunto tão aleatório?” – e discutiu com Percy sobre o que fazer em seguida.
—Percy, esse não é um autômato qualquer. É o dragão de bronze. Você não conhece as histórias? – ela disse certa hora.
Seus olhos azuis se arregalaram a aquela menção. Quer dizer que aquela cabeça era do dragão de bronze?
—Você está falando do antigo guardião? Mas essa é só uma lenda – não era possível que fosse verdade.
Pelo visto Percy não conhecia a lenda (afinal, ele era um campista relativamente novo) e Annabeth teve de lhe explicar que antes do pinheiro de Thalia, a criação de Hefesto protegia as fronteiras do Acampamento, mas que desapareceu na floresta.
—Ele poderia nos ajudar a resgatar Charlie! – “Talvez Charles realmente não fosse morrer”, ela pensava esperançosa.
A filha de Atena, com algumas dificuldades (e depois de Silena concluir que realmente eles iam acabar juntos), disse:
—Certo, está pronto, eu acho...
—Você acha? – uma única sobrancelha da morena subiu.
Apesar de tudo, o grande dragão funcionou. Porém, acho que ninguém pensou em como controlariam ele, pois assim que ele começou a funcionar, olhou ameaçadoramente para Percy, levando Silena a tomar o que provavelmente seria a atitude mais estúpida de toda a sua vida:
—Dragão, pare – ela gritou, se pondo na frente dele e torcendo para que ele não a mordesse e a partisse ao meio – Nós o acordamos para defender o acampamento. Você se lembra? Esse é o seu trabalho. – “Não me mate, não me mate, não me mate” – Charles Beckendorf, filho de Hefesto, está com problemas. Os Myrmekos o levaram. Ele precisa de sua ajuda.
Provavelmente ela só precisava ter dito ‘Hefesto’ antes, pois ele parece ter realmente acordado quando disse isso. Sua consciência só sabia dizer “agora você já pode sair do rumo da boca dele, ou vai ter toda sua linda pele queimada e nem morrer bonitinha vai poder”.
O dragão entrou no túnel das formigas gigantes, cuspindo fogo em muitas, enquanto mais vinham. Seguiu pelo caminho, guiando os outros dois semideuses, em busca de Charles. Muitas salas cheias de joias, ouro e fortunas passaram e, não sabia como, seu cérebro simplesmente não deu importância. Tinha um objetivo fixo, e nem mesmo seu TDAH a atrapalhou.
—Isto não é importante – insistiu enquanto os dois se abobalhavam com os tesouros – Temos de encontrar Charlie.
Afinal, o encontraram, completamente sujo e com a aparência de estar custando a parar em pé.
—Charlie! – correu para ele, tentando puxá-lo.
—Graças aos deuses – ele disse, com os olhos até mesmo brilhando ao vê-los – Minhas... minhas pernas estão paralisadas!
Ele até mesmo parece ter se esquecido um pouco da vergonha que tanto sentia de Silena. Ela e Percy o carregaram para fora, até que ele conseguisse voltar a andar.
Os próximos instantes foram confusos para a morena: falas de Charles sobre algo como “não deveriam ter religado o dragão”, e conversas sobre deixar o dragão para morrer. “Oi? Ele salvou a vida do Charles e, independentemente de ser uma máquina ou não, eu não o deixarei ali”, foi a única coisa que conseguiu raciocinar corretamente.
—Não podemos deixá-lo morrer! – Gritou.
—É muito perigoso – Charles respondeu com tristeza no olhar – Sua rede elétrica...
—Charlie – ela implorou, segurando em seu braço – ele salvou sua vida! Por favor, por mim.
Ela sabia que o “por mim” era golpe baixo, principalmente com seus melhores olhos pidões agindo em conjunto. Mas não havia lá muita escolha. Charles então gritou algo e depois correram. Correram muito. Percy o distraiu enquanto Charles pulou no pescoço do grande bicho de metal e mexeu em uma placa ali, desativando-o.
Em seguida, ele escorregou pela cauda, para onde Silena já corria para alcança-lo. “Eu provavelmente estou horrível, com os cabelos desgrenhados e a roupa cheia de terra”, pensou. Mas todos estavam.
—Charlie! – disse ao chegar perto dele.
O abraçou e beijou ali mesmo, no seu pescoço (tudo bem, talvez fosse porque ele era alto demais e ela não alcançava sua bochecha, mas não precisa ser um detalhe relevante).
—Você conseguiu! Está tão machucado, venha cá – ela disse fazendo-o sentar e se apoiar na cauda de bronze do dragão.
Começou então a jogar pequenas doses de néctar nos ferimentos que ele tinha – e que não eram poucos. Percy e Charles conversaram, enquanto a morena ainda mantinha o foco em ajuda-lo.
Quando concluiu, levantou-se sendo seguida por ele. Encarou o dragão que estava ali, paralisado, e até mesmo involuntariamente viu-se dizendo:
—Charlie, essa foi a coisa mais corajosa que eu já vi... Você pulando naquele dragão.
Olhou para ele, sorrindo. Ele, apesar de melhor, não parecia estar muito bem ainda, e ela jurava ter conseguido ouvir ele engolir em seco.
—Hum... é. – ele tomou fôlego, como se reunisse toda a coragem que tinha dentro de si e disse – Então... você quer ir aos fogos comigo?
Ela estava esperando pelo convite a muito tempo. Mas, enquanto internamente festejava e quase soltava seus próprios fogos, por fora só se animou e disse:
—Claro, seu tolinho! Pensei que nunca fosse me convidar! – sorriu.
De repente, Charlie pareceu estar muito melhor.
—Bom, vamos voltar então, parece que a captura da bandeira já acabou. – ele disse, sorrindo tolamente.
Talvez, e vejam que eu disse talvez, ele também tivesse com Silena invadindo seus pensamentos a todo momento.
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