— Eu não sei, não... Acho isso um pouco demais — disse Scott, saindo do provador com um terno cinza ajustado e uma gravata azul. O tecido se moldava ao seu corpo, destacando seus músculos de um jeito que estava muito distante de sua habitual combinação de camisas folgadas (às vezes remendadas) e casacos surrados. Era como se, só trocando de roupa, ele tivesse se transformado em outra pessoa. E isso o deixava desconfortável.

Ainda mais ao ver Jackson encará-lo daquela forma.

Jackson estava boquiaberto, com os olhos arregalados e um rubor claramente visível se espalhando por seu rosto. Ele não disse nada — nenhuma opinião, nenhum comentário mordaz. Só olhava.

— Estou tão ruim assim? — choramingou Scott, sentindo uma vontade repentina de se esconder atrás da cortina do provador.

— R-ruim? — balbuciou Jackson, finalmente falando, embora com a voz meio engasgada. — Não! Você está maravilhoso... Quer dizer...

Ele pigarreou, claramente buscando outra palavra para consertar o que havia acabado de dizer. Mas o maravilhoso já tinha deixado Scott com um calorzinho inesperado no peito. E talvez — só talvez — um coração batendo um pouco mais rápido.

— Quero dizer, o cinza e o azul caem bem em você. — Jackson falou, massageando o pescoço de forma nervosa, evitando o olhar de Scott.

Scott, por sua vez, não iria dizer em voz alta que achava aquela expressão tímida de Jackson igualmente maravilhosa. Não, definitivamente não.

— Mas não acha que isso é um pouco demais? — perguntou Scott, olhando para o espelho e sentindo como se tivesse sido promovido de beta a alfa só por estar usando aquele terno. — Quero dizer, eu só vou ser o acompanhante do Stiles. Não preciso me destacar tanto.

— Ora, e por que você não merece destaque? — resmungou Jackson, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha. — Não vejo problema nenhum em você ter algumas roupas novas... Digo, para o plano, obviamente.

Scott franziu o cenho, confuso. A lógica de Jackson não fazia muito sentido.

— Você deveria experimentar outras! — insistiu Jackson, seus olhos brilhando de animação enquanto começava a escolher mais roupas para Scott.

Scott olhou para as opções que Jackson separava: de trajes de banho a roupas casuais, passando por peças que claramente não tinham nada a ver com o plano. Ele pensou em dizer algo, mas...

Jackson parecia tão feliz em escolher aquelas roupas que Scott decidiu deixar passar. Afinal, se alguém estava se divertindo, isso não era necessariamente ruim.

Por enquanto.

— Certo, isso é ridículo... Como alguém consegue respirar com isso? — A voz de Stiles ecoou pelo provador, e tanto Jackson quanto Scott se viraram para encarar o jovem ômega que finalmente saía de trás da cortina.

Era difícil descrever a cena que se desenrolava diante deles. Stiles estava usando um traje da última moda para ômegas: calças apertadas que destacavam suas formas andróginas, uma camisa que deixava boa parte do peitoral coberto, mas expunha a barriga magra e pálida, além de um casaco em tons pastéis. E, para coroar o visual, sapatos de salto alto — algo que ômegas de qualquer gênero geralmente dominavam com maestria, mas claramente não era o caso de Stiles, que mal conseguia dar dois passos sem tropeçar.

Ele parecia... incrível. Isso era um fato que Jackson não queria admitir, mas não conseguiu evitar o pensamento. Mesmo sendo o maior crítico dos estereótipos ômegas, quando Stiles se rendia à estética esperada, ele parecia perfeito — pelo menos aos olhos de Jackson. Claro, o cabelo curto e a ausência de maquiagem quebravam algumas regras não ditas, mas aquelas roupas ressaltavam um ar provocador e atraente que era inegável.

Jackson desviou os olhos rapidamente para Scott, tentando analisar sua reação. Estava apreensivo. Será que Scott iria achar Stiles maravilhoso?

— Céus, o que fizeram com você? — começou Scott, segurando uma risada. — Agora sim você parece ter sido abduzido por alienígenas e substituído por um sósia...

Stiles mostrou o dedo do meio sem hesitar, mas o gesto perdeu parte do impacto porque, no mesmo instante, ele tropeçou. E caiu. De cara no chão.

Scott começou a rir abertamente, quase se dobrando ao meio. Jackson, por sua vez, sentiu uma onda de alívio que não conseguiu explicar e deixou escapar um sorriso.

— Definitivamente, sapatos como esses não servem para você...— comentou Jackson, ainda com o sorriso discreto.

— Jack-Jackie, desta vez concordamos! — resmungou Stiles, deitado no chão. Ele ergueu a cabeça apenas o suficiente para encarar os dois com um olhar irritado. — Precisamos abolir esse instrumento moderno de tortura para os pés!

— Bom, tirando os sapatos, o resto está bom — analisou Jackson, oferecendo a mão para ajudar Stiles a se levantar. O ômega aceitou o gesto com visível relutância.

— Ainda acho que não precisamos de tudo isso. Sua roupa poderia ser meio folgada em alguns cantos e ninguém se importaria... — começou Stiles, ajustando o casaco enquanto falava.

— Mas, se esse alfa for poderoso e tiver alguma conexão com minha família, você precisa, no mínimo, parecer apresentável. Mais do que o habitual. — Jackson enfatizou as palavras, tentando soar lógico, mas escondendo parcialmente seus verdadeiros motivos. Afinal, ele não podia negar que queria que a substituição fosse um sucesso (e que ele não corresse o risco de ser descoberto). Talvez, só talvez, também quisesse uma desculpa para passar mais tempo com Scott... e quem sabe mimá-lo com roupas novas.

— Uma coisa é certa... — disse Scott, enquanto puxava a gravata do colarinho e desabotoava alguns botões da camisa. O movimento, casual e aparentemente inocente, fez Jackson engolir em seco.

— Você e Stiles podem ser ômegas, mas fora isso... vocês são completamente diferentes.

— Scott, eu já expliquei isso — respondeu Stiles, soltando um suspiro exagerado. — Muitos ômegas, mesmo os grã-finos, como certo alguém aqui — ele lançou um olhar significativo para Jackson — não aparecem muito na mídia.

— Ei! — exclamou Jackson, claramente ofendido com o tom, que soava mais como um insulto do que um elogio.

Stiles ignorou a interrupção e continuou:

— Existe essa ideia de que, antes de estarem comprometidos com um beta ou alfa, os ômegas precisam manter sua aparência preservada. Vai saber se é medo de sequestro ou coisa do tipo, mas... enfim. Há um controle forte sobre a publicação e propagação de imagens de ômegas solteiros.

— É verdade. Até nas redes sociais há restrições. Só posso compartilhar fotos do meu rosto com familiares ou outros ômegas — concordou Jackson, cruzando os braços. Ele sempre achou essa regra incrivelmente irritante.

— E isso é perfeito! Digo, é uma merda, mas também é perfeito pra mim! — Stiles abriu um sorriso travesso. — Quando substituo um ômega, ninguém tem como saber exatamente quão parecido eu sou com o original. Entende?

Scott assentiu lentamente, processando a lógica estranhamente sólida.

— Mas, mesmo assim... tem a questão do cheiro — lembrou Scott, franzindo a testa.

Ah, o cheiro. Uma das características que os betas geralmente não conseguiam captar bem, mas que alfas podiam identificar com precisão absurda.

— Por isso eu sugeri roupas emprestadas. Assim, ficaria impregnado com o cheiro do Jack-Jackie aqui ou, pelo menos, com o cheiro da família Whittemore — explicou Stiles, apontando para Jackson com um sorriso irônico.

— Você pode simplesmente usar perfumes, Stiles. — Jackson resmungou, claramente cansado dessa conversa.

— Bem, isso também é verdade. — Stiles deu de ombros, como se essa solução fosse óbvia demais para ser levada a sério desde o começo.

A discussão parecia finalmente ter chegado ao fim, mas o som alto e nada discreto do estômago de Stiles tratou de reabrir outra questão importante. Não havia como ignorar aquele ronco ensurdecedor — nem mesmo se quisessem.

— E aí, Jack-Jackie? Vai nos convidar para um lanche no hotel cinco estrelas? Lembrando que é por sua conta, claro. — Stiles disse lançando um sorriso travesso para Jackson, que já começava a questionar suas escolhas de vida.

— Stiles, não fale assim... — Scott tentou amenizar, lançando um olhar de censura ao amigo. — Devemos agradecer a ele por estar nos ajudando tanto. Podemos, sei lá, rachar a conta entre nós três.

Aquele comentário fez Jackson se lembrar instantaneamente do porquê de todo o esforço.

Rachar? — Stiles parecia indignado. — Scott, nós não temos condições nem de pagar pelo papel de higiênico usado no Hotel Paris!

— Mas... isso não é justo. Parece que estamos nos aproveitando do Jackson — insistiu Scott, num tom tão genuinamente preocupado que Jackson sentiu uma pontada de calor no peito. Se existia um cavaleiro andante em tempos modernos, era Scott McCall.

— E eu não vejo nenhum problema nisso — retrucou Stiles, sem papas na língua, enquanto lançava um olhar preguiçoso para Scott.

— Não, está tudo bem. Eu os convidei — interrompeu Jackson, antes que a discussão fosse longe demais. Ele sorriu levemente para Scott, seus olhos quase brilhando com algo que ia além da simples educação. — E sabia desde o início que nada disso seria barato. Não se preocupe, Scott... está por minha conta.

Scott retribuiu o sorriso, e, por um momento, os dois ficaram se encarando. O clima entre eles parecia leve e íntimo, com um toque de algo não dito.

Stiles, claro, não podia deixar isso passar em branco. Ele revirou os olhos tão dramaticamente que parecia estar tentando enxergar o próprio cérebro.

— Certo, certo, enquanto vocês ficam aí trocando olhares melosos, vou lembrar que estou morrendo de fome. Vamos logo antes que alguém aqui tenha um colapso de tanto feromônio no ar... e, spoiler: não sou eu que estou soltando esse cheiro!

Jackson soltou uma risada nasalada, enquanto Scott balançava a cabeça, claramente envergonhado.

— Vamos, Stiles. Não queremos que você desmaie de tanto drama — respondeu Jackson, ainda corado.

***

O restaurante do hotel era verdadeiramente deslumbrante. Localizado na cobertura do imponente edifício, oferecia uma vista privilegiada de Beacon Hills. As janelas amplas exibiam a cidade como um mar de luzes, enquanto o ambiente interno era um espetáculo por si só: lustres de cristal brilhando como pequenas constelações, garçons impecavelmente vestidos deslizando entre mesas cobertas por toalhas de seda, cadeiras de mogno polido e vasos com flores elegantemente dispostas.

Mas Stiles não estava impressionado. Para ele, aquilo não era um restaurante cinco estrelas — era uma gaiola.

E o pior: ele não via muitas saídas dali caso o alfa que o aguardava resolvesse ficar irritado. Fugir pelo elevador? Lento demais. Saltar do prédio? Bem, até seria divertido se ele tivesse um paraquedas e pudesse encenar algo digno de James Bond. Mas, infelizmente, esse não era o caso.

— Tem a escada de emergência— comentou Scott, como se tivesse lido os pensamentos de Stiles.

— Pois é. E estamos no último andar! Você tem ideia de quantos degraus eu teria que descer para fugir? — Stiles choramingou, dramaticamente.

— Bem, vai ser um ótimo exercício pra você — destacou McCall com seu otimismo incansável, arrancando um sorriso de Jackson e um olhar irritado de Stiles.

Antes que Stiles pudesse retrucar e começar a provocar os dois, seu celular vibrou com uma notificação. Ele o pegou para conferir e, assim que leu a mensagem, seus olhos se arregalaram como pratos.

— O que foi? — perguntou Scott, preocupado com a reação repentina.

— Eu... eu passei na seleção para o programa de estágio da Moonlight! — anunciou Stiles, um pouco alto demais. E, claro, ele não conseguiu evitar dar pequenos saltos de alegria, chamando a atenção indesejada de alguns clientes nas mesas ao redor.

— Parabéns! — exclamou Scott, batendo de leve no ombro do amigo com um sorriso sincero. — Você estudou tanto para essa seleção. Que bom que foi escolhido!

— Parabéns — disse Jackson, com um tom mais contido, mas ainda assim genuíno.

— Pois é! A prova foi bem difícil, claramente escrita por algum alfa boboca e sádico. Mas eu passei! — Stiles parecia explodir de orgulho e alívio, um misto de emoções que fazia seu peito parecer mais leve. Ele nunca admitiria em voz alta, mas por um tempo acreditou que não seria selecionado. Afinal, ser um ômega no mundo da tecnologia da informação ainda carregava um peso de preconceito. Algumas profissões simplesmente não eram "vista como ômegas o suficiente".

— Isso significa que você não vai precisar mais ser substituto de ômegas — observou Jackson. — Agora que vai ter um estágio e, com sorte, um salário...

— Oh... é verdade. — Stiles assentiu, olhando para a tela do celular, onde a mensagem do RH da Moonlight ainda brilhava como um troféu. Mas então franziu a testa. — Mas essa foi só a primeira etapa. Ainda preciso passar pela entrevista.

Ele olhou para Jackson com um sorriso travesso.

— Até lá, meu compromisso é com você, Jack-Jackie. Não se preocupe. Vou te substituir, vou assustar esse alfa, e você pode relaxar enquanto eu faço meu show.

Jackson assentiu lentamente, parecendo ligeiramente aliviado. Stiles tinha um jeito estranho, mas... eficiente. E, pelo menos por enquanto, isso era tudo de que ele precisava.