Amor.exe: Arquivo Corrompido
7 Capítulo 6: Reunião de negócios
— Eu não acredito que vamos nos encontrar aqui... — resmungou Jackson ao entrar na biblioteca da universidade. Não era como se ele nunca tivesse visitado o lugar antes, mas preferia estudar no conforto do seu quarto, com seu tablet e computador pessoal, fones de ouvido e, claro, seu cappuccino artesanal.
— Desculpe, mas este é o nosso escritório. Se é que podemos chamar assim — disse Scott, que o acompanhava, subindo os degraus da escadaria principal. Quando chegaram diante das enormes portas de madeira talhada, Scott se apressou em abri-las para ele.
Jackson deu um pequeno sorriso. Ele poderia muito bem ser tão forte quanto Scott, mas gostava do gesto. Tinha algo de agradável naquela etiqueta antiquada, mesmo que ele não fosse o tipo de ômega que combinava com o estereótipo frágil.
Era isso que ele gostava em Scott: o cara era um verdadeiro cavaleiro à moda antiga. E o melhor? Não parecia se importar nem um pouco com o fato de Jackson não se encaixar nos padrões típicos de um ômega.
— Ainda fico me perguntando como vocês conseguiram transformar uma sala na biblioteca em um “escritório”... — comentou Jackson, seguindo Scott enquanto ambos caminhavam juntos. Ele se manteve perto, o suficiente para sentir o calor do corpo de Scott e o perfume leve da colônia que ele usava. Era bom. Muito bom.
— Bem... — começou Scott, claramente prestes a explicar, mas Jackson não estava tão interessado assim. Ele só queria puxar conversa. Antes que Scott pudesse continuar, uma senhora idosa apareceu no corredor, avançando lentamente com seu carrinho de livros. Ela tinha cabelos brancos como neve, óculos fundo de garrafa e um nariz alongado que parecia ter sido talhado diretamente de um livro de contos clássicos. Se alguém pedisse a definição de “bibliotecária”, aquela senhora seria a resposta perfeita.
— Senhor McCall, eu estava procurando por você — disse ela, a voz trêmula mas cheia de autoridade.
— Olá, senhora Smith. Como a senhora está? — perguntou Scott, indo imediatamente até ela para ajudar com o carrinho de livros.
Porém, o carrinho, que parecia pesado até para um adulto jovem como Scott, era empurrado com uma facilidade impressionante pela senhora Smith. Ela apenas sorriu com calma, enquanto Scott, embora visivelmente frustrado por não conseguir ajudar, continuava insistindo. A cena fez Jackson sorrir de orelha a orelha, parecendo um bobo.
— Estou bem, querido — respondeu a senhora. — Na verdade, eu queria entregar algo a você e ao senhor Stilinski.
Do fundo do carrinho de livros, ela tirou uma pequena caixa, que exalava o cheiro delicioso de algo recém-assado. Rosquinhas, pelo que parecia.
— Oh! Senhora Smith! Não precisava... — disse Scott, olhando para a caixa com genuína gratidão.
A senhora abaixou os óculos enormes, revelando um brilho divertido nos olhos, e deu uma piscadela para o jovem beta.
— Vou confiar que vocês vão comer isso fora da biblioteca, certo?
— Com certeza! — Scott piscou de volta, o sorriso brincando em seus lábios.
Quando a velha bibliotecária se afastou, o ômega não pode conter a pergunta:
— Como assim? — Agora sim Jackson estava verdadeiramente interessado, especialmente depois de testemunhar aquela interação peculiar.
Scott deu um meio sorriso — e, na opinião de Jackson, o sorriso dele era perigoso. Não porque fosse perfeito, mas porque a leve assimetria do rosto o fazia parecer estranhamente encantador. Algo que, infelizmente, fazia o coração de Jackson acelerar mais do que ele gostaria de admitir.
— Isso foi graças ao Stiles — explicou Scott com uma dose de admiração, o que fez Jackson grunhir internamente. Claro que tinha que ser Stiles para estragar o momento.
— A senhora Smith estava prestes a ser demitida da biblioteca — continuou Scott, como se não tivesse percebido o desconforto súbito de Jackson. — Assim que Stiles e eu começamos a frequentar o lugar, ficamos sabendo. O problema era que ela não sabia usar a tecnologia, o sistema de banco de dados... A universidade queria se modernizar, e, para eles, a senhora Smith estava "parada no tempo". Eles não enxergavam que ela conhece essa biblioteca de cor! Literalmente. Ela sabe onde cada livro está, sem precisar de nenhum sistema. A mente dela é realmente impressionante.
Jackson não pôde evitar um pequeno som de surpresa. Isso ele não sabia.
— Pois bem... — Scott deu de ombros. — Stiles interveio. Ele ofereceu suporte técnico, ensinou o básico para ela, e — aqui está a parte mais interessante — secretamente organiza as informações e os arquivos digitais da biblioteca, quase como se fosse um bibliotecário auxiliar. Graças a ele, o emprego da senhora Smith está salvo. E, como agradecimento, ela nos deixou montar nosso "escritório", se é que podemos chamar assim.
Jackson piscou, atordoado por um momento.
— Oh... — Ele odiava admitir, mas aquilo era genuinamente impressionante.
A verdade é que Stiles era uma anomalia completa. Ele era o único ômega cursando Tecnologia da Informação na universidade, o que, por si só, já era uma façanha. Jackson se lembrou do alvoroço causado quando Stiles foi aceito no curso. As pessoas ainda tinham essa ideia estranha de que ômegas não seriam bons com matemática, programação ou qualquer coisa que exigisse raciocínio lógico.
Jackson sabia bem o que era enfrentar esse tipo de preconceito. No curso de fisioterapia, ele também lidava com olhares de pena dos professores em disciplinas mais técnicas, especialmente aquelas que envolviam cálculos. Parecia que ninguém esperava muito dos ômegas em áreas "difíceis".
Ele até podia admirar Stiles por quebrar estereótipos. Podia. Mas isso não significava que a personalidade do cara fosse fácil de lidar. Na verdade, às vezes, dava uma vontade quase incontrolável de socá-lo.
— Chegamos! — anunciou Scott, com aquela animação adoravelmente genuína (na opinião de Jackson), indicando o que seria uma das salas de grupo de estudo da biblioteca. Essas salas eram projetadas para garantir privacidade e isolamento acústico, permitindo que alunos estudassem ou realizassem reuniões sem atrapalhar o restante da biblioteca.
Quando Scott abriu a porta, Jackson ficou imediatamente confuso com o que viu. Ele esperava encontrar uma grande mesa redonda com cadeiras dispostas ao redor, o típico cenário de uma sala de estudos. Mas o que tinha ali... bem, não era nada típico. A mesa estava parcialmente ocupada por notebooks, computadores e cabos espalhados de maneira caótica. No canto, pilhas de livros se equilibravam precariamente sobre revistas — ele notou que eram revistas em quadrinhos. A mesa havia sido empurrada para o lado, com cadeiras espalhadas de forma aleatória. No chão, havia até um saco de dormir, e as paredes estavam decoradas com pôsteres variados, de aliens a personagens de anime e videogames.
Era como entrar no quarto desorganizado de um adolescente nerd, e não numa sala de estudos.
No centro de toda essa bagunça, Stiles estava ocupado ajeitando uma minúscula árvore de Natal de plástico sobre a mesa. A pobre árvore parecia parcialmente quebrada, provavelmente resgatada do lixo, mas Stiles a havia reparado e agora a decorava com um pisca-pisca antigo e desgastado.
Jackson simplesmente achou tudo... esquisito.
— Ah! Vocês chegaram bem na hora! — exclamou Stiles, ligando o pisca-pisca. Algumas luzinhas piscaram descontroladamente antes de soltarem estalos, fazendo Stiles dar um gritinho dramático.
Scott imediatamente se adiantou e desconectou o pisca-pisca da tomada.
— Stiles, quer incendiar a biblioteca? A senhora Smith vai ficar muito irritada se isso acontecer — declarou Scott.
— Eu só queria deixar o ambiente mais... apropriado para a estação — disse Stiles, fazendo um biquinho digno de pena.
— Por que vocês simplesmente não compram uma árvore e luzes novas? — questionou Jackson, incrédulo, como se fosse a sugestão mais óbvia do mundo.
Scott e Stiles trocaram um olhar. Claramente, a ideia nunca havia sequer passado pela cabeça deles. E, considerando o estado de tudo ali, Jackson percebeu que eles provavelmente não tinham dinheiro sobrando para tais luxos.
— Aqui. — Scott, ignorando a pergunta, entregou a caixa de rosquinhas para Stiles.
Stiles abriu a tampa e imediatamente soltou um gemido tão exagerado que Jackson o classificaria como, no mínimo, indecente.
— Foi a senhora Smith, não foi? Aquela mulher é um anjo! — disse Stiles, quase chorando de alegria enquanto pegava uma rosquinha quente e a enfiava inteira na boca. Jackson ficou genuinamente impressionado, pensando que aquilo deveria ser anatomicamente impossível.
Scott pegou uma rosquinha para si, tentando comer com mais dignidade. Afinal, havia visitas.
— Quer uma? — ofereceu Scott a Jackson, falando de boca cheia.
— Não! Nossa comida! — protestou Stiles, abraçando a caixa como se fosse seu maior tesouro. — Meus preciosos! — disse, imitando perfeitamente a voz de Gollum de O Senhor dos Anéis.
— Stiles, seja educado... — reclamou Scott, lançando um olhar de reprovação.
Stiles apenas revirou os olhos, pegando outra rosquinha como se fosse um prêmio conquistado com muito esforço.
— Está tudo bem, Scott, não estou com fome — disse Jackson, sentindo uma leve pontada de culpa. Estava claro que aqueles dois estavam famintos, considerando a velocidade com que devoraram as rosquinhas. Seria quase um crime roubar uma rosquinha sequer daquela dupla.
— Bem, vamos aos negócios! — declarou Stiles, ainda com a boca suja de açúcar, o que fez Jackson torcer o nariz em completa desaprovação. Um ômega minimamente decente deveria saber algumas boas maneiras, certo? Mas, então, ele se lembrou do motivo de Stiles estar ali: o objetivo de ser um substituto de ômegas era justamente não ser perfeito. Era para ser irritante. Ele estava ali para assustar os alfas, e que maneira melhor de fazer isso do que quebrar todas as expectativas de comportamento ômega? Nesse quesito, Stiles era um gênio. Um gênio desastroso, mas ainda assim um gênio.
— Você trouxe alguma informação sobre o alfa com quem vai ao encontro? — perguntou Stiles, puxando uma cadeira para perto do computador. Jackson reparou que a tela estava cheia de janelas abertas, algumas exibindo códigos que piscavam e desapareciam rapidamente.
— Bem... — Jackson pigarreou, já sentindo que seria julgado. — Não. Meu pai não me deu nenhuma nova informação.
— Sem problema. Eu já comecei a investigar por conta própria. — Stiles apontou para o computador e clicou no mouse. Para a surpresa de Jackson, a tela agora mostrava rostos e fichas de vários alfas. Havia dados ali que claramente não deveriam estar acessíveis. Informações confidenciais, no mínimo.
Jackson piscou, incrédulo. Ele sabia que Stiles tinha habilidades de hacker, especialmente depois das informações que o outro havia reunido sobre o último alfa com quem Jackson foi forçado a sair. Mas isso? Isso era um novo nível. Era praticamente prova concreta da genialidade — ou loucura — de Stiles Stilinski.
— Mas tem muitos alfas aí, Stiles... — comentou Scott, o cenho franzido enquanto observava a tela.
— Pois é. Tem muito alfa solitário por aí, aparentemente. — Stiles suspirou, digitando rapidamente no teclado do computador velho e barulhento. — Tentei filtrar os candidatos buscando famílias que tivessem alguma relação com os Whittemore, mas mesmo assim... ainda tem dezenas de alfas. — Ele clicava freneticamente enquanto as fotos de outros alfas apareciam, algumas conhecidas, outras totalmente estranhas para Jackson.
— O que nos leva à conclusão de que será meio difícil focar em um candidato específico — continuou Stiles, o tom irritado. — E, sem essa informação, não podemos usar minha tática preferida: revelar segredos sórdidos do alfa para assustá-lo.
Ele se recostou na cadeira, frustrado, como se fosse um artista cuja obra-prima tivesse sido descartada.
— Mas... você ainda pode assustar esse alfa desconhecido sem precisar disso, né? — perguntou Jackson, com uma nota de preocupação na voz.
Stiles girou lentamente na cadeira, com um sorriso que irradiava pura diversão. Para Jackson, aquele sorriso só tinha um significado: problemas iminentes.
— Oh, Jackson, você ainda duvida da minha capacidade de ser insuportável? — perguntou Stiles, piscando exageradamente. — Querido, se tem uma coisa que eu sei fazer, é transformar encontros em desastres. E com ou sem segredos, esse alfa nem vai saber o que o atingiu. Mas... — ele ergueu uma sobrancelha — ainda vou precisar de mais informações. Tipo, onde vai ser o encontro?
— Isso eu posso fornecer. — Jackson se endireitou, aliviado por finalmente ser útil. — Será no restaurante do Hotel Paris, no centro de Beacon Hills. E já tenho a data: daqui a cinco dias.
Stiles teclou rapidamente no computador, e, em poucos segundos, a imagem de um luxuoso hotel apareceu na tela.
— Hotel cinco estrelas. Bom! Já sei que pelo menos a comida vai valer a pena... — comentou ele, lambendo os lábios dramaticamente, o que fez Jackson revirar os olhos em completo desgosto.
— Esse alfa deve ser muito rico. Já ouvi falar que é quase impossível reservar uma mesa nesse restaurante, especialmente durante as festas de fim de ano! — observou Scott, surpreso.
— Pois é... — Jackson assentiu, mordendo o lábio, a mente vagando. O tal alfa misterioso parecia ser realmente poderoso, o que o deixava inquieto. Não que ele temesse pela segurança de Stiles — o ômega sabia muito bem se virar. Mas Scott era parceiro de Stiles, e, se algo acontecesse, Jackson sabia que isso inevitavelmente afetaria Scott.
— Vou ver se consigo baixar a planta do prédio... e analisar os pontos de fuga. — A voz de Stiles trouxe Jackson de volta ao presente, enquanto ele via o ômega digitar freneticamente no teclado.
— Pontos de fuga? — perguntou Jackson, confuso.
— Estamos lidando com alfas — interveio Scott, percebendo que Stiles estava muito concentrado para responder. — Eles são mais rápidos e mais fortes do que nós. Se vamos irritá-los — o que, no caso de Stiles, é garantido —, precisamos de uma rota de fuga bem planejada. Essa é, basicamente, minha função: garantir que Stiles fique bem e tirá-lo de lá rapidamente. Sem falar que qualquer ômega que vá a um encontro precisa de um acompanhante.
— Oh, sim... — Jackson assentiu, lembrando-se de como funcionava. Todo ômega solteiro que participava de encontros como aquele precisava de um acompanhante para supervisionar. Seu pai sempre escolhia seguranças corpulentos e de cara fechada para a tarefa. Mas Scott? Scott era, bem... adorável demais para esse papel. Pelo menos na opinião de Jackson.
— Nossa, eles têm sistemas de segurança impressionantes. — Stiles murmurou, os olhos grudados na tela. — Acho que o hotel usa o software de proteção de dados da Moonlight... Sempre quis quebrar o antivírus da Moonlight!
— Stiles, cuidado. — Scott lançou-lhe um olhar preocupado. A Moonlight era famosa por seus sistemas intransponíveis.
— Quase lá... — Stiles respondeu, obviamente ignorando o aviso enquanto seus dedos dançavam no teclado.
— Ou... podemos visitar o lugar. — A voz de Jackson cortou o clima de tensão. — Podemos ir ao hotel e ao restaurante. Assim vocês podem verificar as saídas de emergência pessoalmente.
— Oh! Isso seria ótimo! — exclamou Scott, com um sorriso tão amplo que fez borboletas explodirem no estômago de Jackson.
Stiles interrompeu sua digitação e lançou um olhar desconfiado a Jackson, como se analisasse suas intenções.
— E mais... podemos aproveitar a visita para comprar roupas adequadas para Stiles. — Jackson continuou, tentando soar casual. — Tem boutiques e lojas perto do hotel que eu frequento. Poderíamos aproveitar a viagem.
Stiles arregalou os olhos, alarmado.
— Por que isso? Você pode simplesmente me emprestar suas roupas, como da outra vez!
— Stiles, minhas roupas ficaram horríveis em você. Não temos o mesmo corpo! — frisou Jackson, irritado.
— Pois é, não sou bombadão — retrucou Stiles, sarcástico, o que Jackson decidiu ignorar.
— Além disso, considerando que esse alfa parece ser mais perigoso que o anterior... é melhor você parecer mais elegante. Assim não fica tão óbvio que é uma farsa.
Stiles estreitou os olhos, pensativo.
— Talvez você tenha razão... — murmurou, como se aquilo fosse um sacrifício.
— Ele tem razão, Stiles. Essa é uma ideia incrível, Jackson! — exclamou Scott, animado, o que fez Jackson corar levemente.
“Só estou fazendo isso para garantir que essa farsa dê certo,” pensou Jackson, tentando justificar a si mesmo. “Não tem nada a ver com querer ajudar... ou com o fato de Scott ter esse sorriso que me faz perder o chão.”
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