Notas iniciais
Só estou postando mais cedo porque não aguentei, eu estava com muita vontade de postar o próximo capítulo! XD Aposto que ninguém imaginaria que algo assim aconteceria nessa história, espero que vocês gostem! :D



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Residência Okatsu, 07:30 da manhã

Eu estava cochilando. Deitada em minha cama macia, podia sentir a brisa leve da manhã bater suavemente em meu rosto ao entrar pela janela. Tudo estava calmo e silencioso, uma tranquilidade tão confortante que eu poderia passar o dia inteiro ali...

— Filha! Hora de acordar!

Coloquei bruscamente o travesseiro em cima da cabeça, resmungando mau humorada ao ouvir a voz aguda me chamar. Fiquei imóvel, só esperando.

— Filha! – ouvi novamente. – Já estou preparando o café! É melhor você se levantar!

O silêncio voltou a se instalar suavemente. No entanto, quando pensei que novamente poderia voltar a dormir, ouvi o som de passos fortes se aproximando pelo corredor, seguidos da porta do quarto se abrindo. Esperei a voz irritada.

— Yumei! Levante-se! Você tem que se arrumar para a escola nova!

Ah, eu havia me esquecido: acabei de me mudar. Antes eu morava numa região bem distante da que estou agora, num local em que minha família viveu por várias e várias gerações: na cidade de Nagoya. Eu me dava muito bem na antiga escola de Nagoya, sempre tirava boas notas e possuía muitos amigos. Mas agora que moro em Inazuma, tive que me matricular em uma nova escola.

Lentamente, tirei o travesseiro da cabeça e me sentei. Passei a mão pelos cabelos e abri os olhos, dando de cara com a expressão irritada da minha mãe. Suspirando profundamente ao me encarar, ela seguiu em direção a porta.

— Estou te esperando na cozinha.

A acompanhei com os olhos enquanto saia. Fiquei olhando brevemente para a porta, para em seguida observar meu quarto atual. Como eu já havia desfeito as malas, quase todos os meus pertences estavam em seus lugares: o guarda-roupa em um canto do quarto, uma escrivaninha encostada na parede com um espelho ao lado, um criado mudo ao lado da cama que ficava para a janela. No chão, um tapete fofo e nas paredes alguns pôsteres decorados com notas musicais. Se comparado ao meu quarto antigo, não havia muita diferença; mas mesmo assim, não era a mesma coisa.

Debati aquilo por alguns segundos, até me levantar e seguir até o banheiro. Após lavar o rosto e pentear os cabelos, voltei ao quarto. Abrindo o armário, encontrei o uniforme da escola, que vesti em seguida.

O uniforme era composto por uma camiseta branca de mangas curtas, uma fita rosa ao redor do pescoço, meias brancas, sapatos pretos e uma saia azul plissada. Olhando-me no espelho, encarei uma garota de olhar castanho escuro, possuindo cabelos compridos e extremamente lisos, de uma cor semelhante ao dos olhos.

— É, até que não ficou tão ruim. – comentei a mim mesma, amarrando a fita rosa em um laço.

Depois de pronta, desci as escadas até a cozinha, onde minha mãe fazia o café da manhã na frente do fogão.

— Bom dia, mamãe. – puxei uma cadeira, sentando-me à mesa.

— Bom dia, querida. – respondeu enquanto preparava algo em uma frigideira. – Dormiu bem?

— Dormi. — bocejei com provocação. — Até você me acordar.

Ela se virou e me fitou com um pequeno mau humor.

— Yumei, se eu não tivesse te acordado você estaria atrasada para a escola. E você não quer se atrasar bem no primeiro dia, não é?

Revirei os olhos: ela estava certa. Se não tivesse me acordado, eu estaria dormindo até agora. Mas, quem tem vontade de ir a uma escola nova depois de passar por uma mudança tão complicada?

— Certo mãe, não quero me atrasar... – concordei bufando. – Mas, você acha que a escola nova é legal?

Ela voltou sua atenção novamente para o fogão, agora em seu estado de calma. – Não sei, mas ouvi falar que a Escola Raimon possui uma grande qualidade de aprendizado e ensino. E ainda por cima, uma boa variedade de clubes, como o de futebol.

Eu já sabia que o time de futebol júnior da Raimon era um dos melhores do Japão, para não dizer do mundo. Gostava de assistir aos jogos realizados pela equipe, todos os jogadores eram mais do que incríveis. Mas apesar de minha admiração, naquele momento, eu não possuía muito interesse em futebol.

Pensando um pouco, senti uma pontada de esperança.

— Será que lá tem algum clube de música?

Momentaneamente, minha mãe parou o que estava fazendo, permanecendo em silêncio. Por fim respondeu: — Acho que sim.

— Será que eles tem um piano? – perguntei novamente, batucando os dedos na mesa.

Pegando um prato, ela serviu o que estava preparando: omelete, e o colocou à minha frente.

— Eu não sei. Agora, coma e termine de se arrumar. Logo, logo vamos sair. – disse, não conseguindo esconder a culpa em sua voz.

Em Nagoya, o que eu mais amava fazer era tocar piano. Como meu pai era pianista, nós possuíamos um piano em casa, e assim ele acabou me ensinando a tocar desde pequenininha. Podíamos passar horas tocando juntos. Quando eu não tocava piano, me sentia irritada e incompleta. Era como se eu precisasse tocar, como se eu necessitasse. Era algo único: me envolver com a música, amá-la, viver com ela. Tocar fazia um bem tão grande pra mim... Mas depois que eu e minha mãe nos mudamos para Inazuma, eu nunca mais pude sequer encostar em um teclado.

Partimos de Nagoya pelo fato de meu pai e minha mãe terem se separado. Estava ficando cada vez pior: os dois brigavam quase todos os dias, cada vez mais e por motivos cada vez mais ridículos. Um verdadeiro inferno. Até que eles se separaram e minha mãe decidiu que nunca mais queria ver a cara do meu pai. Por isso, ela me levou em uma viagem de três dias até Inazuma, onde meu pai nunca poderia nos ver.

Como minha mãe não queria se lembrar dele, não me deixava tocar na frente dela. E por isso não me deixou levar o pertence que eu mais gostava: um teclado que meu pai havia me dado no meu último aniversário. Pra mim, era uma tortura não poder tocar. E minha mãe sabia disso, por isso ela se sentia culpada.

Após terminar o omelete, subi ao banheiro e escovei os dentes. Pegando minha mochila e me dirigindo até a sala, encontrei minha mãe à minha espera.

— Está pronta? – perguntou pegando a chave do carro.

— Estou. – respondi, seguindo-a até a porta da frente.

Do lado de fora, pude ver que o dia estava claro e ensolarado, com uma brisa fresca, gostosa de se sentir. Eu e minha mãe embarcamos no carro.

— Você ficou uma graça com esse uniforme. – comentou enquanto dava a partida.

— Obrigada. – agradeci sorrindo um pouco. – É bem mais bonitinho que o uniforme da escola antiga, não acha?

— Verdade. — sorriu.

A ida até a escola foi tranquila e silenciosa. Olhando pela janela, observei vários prédios e casas passarem rapidamente, junto às frondosas árvores que floriam lindamente com a primavera, embelezando ainda mais a cidade de Inazuma. “É.” Pensei “Até que pode ser legal morar aqui.”

Quando chegamos à Raimon, minha mãe parou o carro na frente dos portões. Chegando pelas calçadas, dezenas de jovens uniformizados passavam ao lado do automóvel para chegar à escola, alguns dando irritantes espiadinhas para ver quem estaria em seu interior. Abrindo a porta, desci segurando minha mochila.

— Tenha uma boa aula, querida. – minha mãe acenou.

— Obrigada, mãe. – sorri, afastando-me lentamente do veículo. – Tenha um bom dia.

— Você também. E não se esqueça de prestar bastante atenção. Quero ver notas maravilhosas no final do ano. – disse, sinalizando sua partida ao virar a chave na ignição.

— Certo. Até mais tarde. – respondi com um aceno.

Enquanto o carro se afastava, observei admirada o grande colégio que se erguia à minha frente. Todo o local era rodeado por um extenso gramado repleto de cerejeiras e árvores verdejantes. Diante da construção, um grande campo de futebol recebia os estudantes.

Caminhando lentamente para poder observar cada detalhe do lugar, passei por vários alunos enquanto contornava o campo, chegando à frente do prédio principal da escola. Parando sob as escadas que levavam até as portas de entrada, pude vislumbrar o grande raio que representava o símbolo da Raimon. Aquele mesmo raio que os representantes da Raimon Eleven levavam no peito com tanto orgulho ao entrar em campo nos dias de jogo.

Entrei na construção momentos antes de soarem o sinal que informava o começo das aulas. Imediatamente, uma multidão de alunos entrou atrás de mim, fazendo com que eu fosse direto de encontro ao balcão de recepção. Enquanto esperava que a maior parte dos jovens passasse, notei que a atendente do balcão me observava.

— Posso ajudá-la em alguma coisa? – perguntou educadamente.

— Ah, claro. – sorri, constrangida por estar grudada ao balcão. – Eu sou uma aluna nova. Acabei de chegar aqui na Raimon.

A atendente me olhou com atenção, tirando alguns papéis de uma pasta.

— Aluna nova? – ela examinou os papéis. – Ah, sim. Yumei Okatsu, não é?

— Sim. – concordei com a cabeça. – Do primeiro ano.

Ela guardou os papéis novamente na pasta, saindo do balcão e colocando-se ao meu lado.

— Certo. Deixe que eu te leve até sua sala de aula.

Saindo do hall de entrada, entramos em um comprido corredor. Passando pelas várias salas de aula do local, paramos à frente de uma das portas.

— Aqui é a sua sala. – a atendente informou batendo na porta. – O professor logo irá apresentá-la à turma.

— Obrigada. – agradeci, observando a maçaneta girar rapidamente.

Da sala saiu um homem de aparência obesa. Vestia um jaleco branco e possuía cabelos curtos e grisalhos, com um óculos redondo acentuando seu rosto grande. Sorrindo, olhou para a atendente e em seguida para mim.

— Pois não?

— Professor, essa é Yumei Okatsu. – a atendente fez um gesto para mim. – Ela acabou de chegar aqui na Raimon.

O professor me fitou com receptividade.

— Seja bem vinda! – sorriu apertando minha mão. – Pode entrar, Okatsu-san.

Enquanto o professor me conduzia para dentro da sala de aula, a atendente se retirava. Posicionando-me a frente do quadro negro, observei vinte e oito alunos conversarem animadamente, todos sentados em suas respectivas carteiras. Ao notarem minha presença, vários deles me fitaram com curiosidade, fazendo com que um irritante rubor colorisse minhas bochechas.

Desviando o olhar para o lado, observei o professor escrever meu sobrenome no quadro negro. Em seguida, o homem se virou para a turma.

— Crianças, essa é Yumei Okatsu. – anunciou, colocando uma das mãos em meu ombro. – De agora em diante ela fará parte desta turma, por isso, tratem-na com respeito.

Todos me fitaram ao mesmo tempo, fazendo com que meu rosto queimasse de nervosismo.

— O-olá... – gaguejei sem jeito. – É... Um prazer conhecer todos vocês.

— Pode se sentar naquela carteira, Okatsu-san. – o professor apontou. – Já vamos começar a aula.

— Certo. – respondi, ainda vermelha. – Obrigada, professor.

Me dirigi a uma das únicas carteiras vazias da sala, localizada ao lado da parede. Os alunos continuaram a me observar, fazendo com que eu ficasse ainda mais constrangida “Ai, como odeio chamar a atenção!”. No momento em que o professor chamou a turma dizendo que a aula havia começado, suspirei aliviada.

Pegando meu material na mochila, notei que a aluna que se sentava ao meu lado ainda me fitava. Ela possuía olhos brilhantes e cabelos curtos, ambos azuis. Em seus lábios, repousava um sorriso doce.

— Oi. – ela disse num tom gentil.

— Oi...

— Seu nome é Yumei Okatsu, não é?

Assenti. – Sou, mas pode me chamar só de Yumei.

— Meu nome é Aoi Sorano, prazer em conhecê-la.

— O prazer é todo meu. – sorri. – É a primeira vez que estudo aqui na Raimon.

— Mesmo? – perguntou, a simpatia decorando seu olhar gentil. — Então seja bem vinda!

— Obrigada. Espero me dar bem nessa escola.

Voltei minha atenção novamente para o material escolar, pegando meu caderno e meu estojo de canetas para anotar o que o professor escrevia no quadro. Após alguns minutos escrevendo, notei que Aoi continuava a me observar.

— Algum problema, Aoi?

A azulada pareceu um tanto surpresa com minha pergunta.

— Ahn... – ela se atrapalhou nas palavras. – Sabe o que é... É que...

— O que? – perguntei novamente, agora curiosa.

— Sabe, você me parece familiar... – comentou pensativa. – Já não nos vimos antes em algum lugar?

Eu a encarei confusa. Como Aoi poderia já ter me visto, se havíamos acabado de nos conhecer? Ah, seria impossível, eu havia acabado de me mudar de Nagoya.

— Hâ... acho que você está me confundindo com outra pessoa. Eu tenho certeza de que nunca te vi em lugar nenhum, porque, aliás, eu acabei de me mudar aqui pra Inazuma.

— Mas... Não Yumei, eu já vi você, eu sei que vi. – ela continuou, dessa vez deixando-me realmente confusa. – Até o seu sobrenome é familiar pra mim. Okatsu não é?

Concordei com a cabeça, não entendo o que ela queria dizer. Eu tinha certeza absoluta: nunca havia visto Aoi antes. Segurando o queixo com uma das mãos, ela continuou a pensar, trazendo uma expressão significativa em seu rosto.

— Ah, eu não me lembro... – suspirou.

— Tudo bem. – sorri compreensiva. – Todo mundo se confunde às vezes. Hum… Você faz parte de algum clube aqui da escola?

Deixando sua confusão de lado, a azulada pareceu animada ao entrar no novo assunto.

— Ah, eu sou do clube de futebol! – sorriu. – Sou auxiliar, sabe. É incrível acompanhar os meninos nos treinamentos e nos jogos!

— Legal. – respondi. – Acho que vou entrar pro clube de música.

— Você toca algum instrumento?

— Eu costumava tocar piano.

— Costumava?

Notei que Aoi possuía uma expressão interrogativa.

— É, costumava. – afirmei. – É que depois que eu me mudei, não pude mais tocar. Só quero entrar no clube de música pra poder tocar de novo.

— Ah... – fez pensativa. – Nossa, deve ser difícil não poder fazer o que gosta.

— É. – concordei, baixando um pouco os olhos. – É bem difícil…

— Nem imagino o que eu faria se não pudesse ajudar os meninos quando eles precisassem. – seu olhar mostrava compreensão. – Espero que você se dê bem no clube de música.

Eu sorri, ficando feliz pela primeira vez naquele dia.

— É, eu também.

Eu não conversei novamente com Aoi durante as aulas que se seguiram, mas trocamos vários sorrisos e olhares enquanto ouvíamos o professor e anotávamos o que deveria ser estudado. O tempo passou bem mais rápido do que eu esperava; logo, o sinal para o intervalo soou, fazendo com que os alunos saíssem das salas de aula.

Quando saí de minha sala e comecei a me distanciar para a saída, ouvi Aoi me chamando. Parei e olhei para trás, vendo a jovem seguir em minha direção.

— Hey, Yumei, você gostaria de passar o intervalo comigo?

— Claro, Aoi. – concordei, surpresa por receber um convite como aquele em meu primeiro dia de aula.

— Ah, que bom. – ela sorriu feliz. – Vou avisar Tenma e Shinsuke que você vai ficar com a gente, só um minutinho.

Observei Aoi sumir no meio dos vários alunos que seguiam na direção contrária à sua. Para não ficar no meio do caminho, me encostei na parede, observando o movimento à minha volta. Alguns segundos depois, vi minha colega se aproximar novamente, sendo acompanhada de dois garotos.

O primeiro, mais alto, possuía olhos prateados e cabelos castanhos claros e curtos, parecidos com pequenos redemoinhos de vento. O segundo, mais baixo que Aoi, possuía olhos e cabelos castanhos, estes semelhantes a duas orelhas de coelho, presos por uma faixa azul.

— Desculpe a demora. – Aoi sorriu, em seguida chamando a atenção dos dois garotos ao seu lado. – Tenma, Shinsuke, essa é a Yumei. Vocês lembram de quando o professor a apresentou no começo da aula, não é?

Os dois garotos me fitaram surpresos, parecendo um tanto constrangidos.

— É... – o mais alto esboçou um sorriso sem graça. – Eu acho que eu não me lembro, Aoi...

— Eu também... – o menor coçou a cabeça. – Não me lembro de ter ouvido o professor falar dela...

Aoi suspirou, sinalizando sua descrença ao apoiar a cabeça em uma das mãos.

— Tenma, Shinsuke... O que vocês estavam fazendo pra não notar a presença da Yumei na nossa sala? – perguntou, olhando de esguelha para mim.

— Ah... – Tenma começou. – Estávamos conversando sobre novas técnicas que poderíamos treinar depois da aula.

— É. – continuou Shinzuke. – A conversa estava tão interessante que nem vimos que tínhamos uma aluna nova. Desculpa.

Aoi bufou, envergonhada com o comportamento dos amigos na minha frente. Se dirigindo a mim, juntou as mãos em sinal de desculpas.

— Desculpe por eles, Yumei. Eles só pensam em futebol.

Eu sorri, rindo um pouco daquela situação.

— Ah, tudo bem. Eu também sou meio desligada de vez em quando. Não se preocupe com isso.

Os três suspiraram com alívio. Em seguida, Tenma e Shinsuke estenderam as mãos para mim.

— Bom, desculpe por não ter te notado. Sou Matsukase Tenma, o capitão do time de futebol da Raimon.

— E eu sou Shinsuke Nishizono. – o menor apontou a si mesmo. – Sou o goleiro do time.

Apertando as mãos dos dois, senti certa satisfação. Nunca imaginei que no meu primeiro dia de aula iria conhecer o capitão e o goleiro da famosa Raimon Eleven, e muito menos que estudaria com os dois na mesma turma. Eu os admirava muito, sempre sendo cativada por sua confiança e paixão pelo futebol, além de possuir fascínio por suas jogadas incríveis.

— Olá. – sorri, sentindo uma alegre animação me preencher. – Eu sou a Yumei Okatsu, muito prazer em conhecê-los.

Após nos apresentarmos, seguimos juntos até a saída. No pátio, uma multidão de alunos lanchava e conversava, muitos sentados à sombra das belas árvores que enfeitavam o local. Enquanto andávamos, Tenma chamou minha atenção.

— Yumei, você pretende entrar para algum clube?

— Eu quero entrar para o clube de música.

— Ah... Certo. – sua voz mostrou uma pequena decepção.

— Achamos que você entraria pro clube de futebol. – comentou Shinsuke. – Assim como nós.

Eu os olhei surpresa.

— Pro clube de futebol?

— É. – Aoi concordou ao meu lado. – se Você pensasse em entrar para outro clube que não fosse o de música, poderia entrar para o de futebol. Você poderia ser auxiliar. Seria divertido se trabalhássemos juntas, não seria?

Fiquei pensativa. Nunca havia cogitado entrar para outro clube que não fosse o de música, muito menos para o de futebol. Momentaneamente, me senti indecisa sobre qual dos dois deveria escolher. Sim, eu gostava muito de futebol, cada vez gostava mais. Mas, agora que eu tinha a chance de poder voltar a tocar piano... Não sei se valeria a pena arriscar essa chance.

— Seria mesmo bem divertido, Aoi. – comecei, fazendo com que ela sorrisse. – Mas eu tenho certeza, quero voltar a tocar música. Desculpe…

Olhando nos olhos de Aoi, pude perceber um brilho de decepção. Mas mesmo assim ela continuou sorrindo, concordando com a cabeça.

Permanecemos em silêncio por um tempo. Enquanto andávamos, eu aproveitei para admirar as cerejeiras, com suas belas flores cor-de-rosa caindo delicadamente dos galhos. Elas me faziam lembrar de Nagoya, haviam muitas cerejeiras por lá. Todos os dias, a brisa fazia com que as pétalas cor-de-rosa voassem suavemente com o vento…

— Yumei, quer visitar a sala do nosso clube?

Fui surpreendida pela voz de Shinsuke, que olhava para mim com expectativa.

— Visitar a sala do clube? – repeti surpresa.

— Sim. Já que você não vai entrar no clube, podia ao menos visitá-lo. O que acha?

— Bom, eu... – comecei, mas parei ao olhar as expressões dos três. Eles esperavam minha decisão impacientemente, me fazendo imaginar o porquê de quererem tanto que eu entrasse no clube. Continuando a olhá-los, pensei: “Uma visitinha não vai fazer mal á ninguém! Vamos Yumei, essa é a sua oportunidade de se enturmar com seus novos colegas!"

E assim, respondi: — Certo... Vocês poderiam me levar até lá?

— Claro! – Aoi sorriu.

— Pode deixar, você vai adorar o clube! – Shinsuke disse alegremente.

Os três começaram a me guiar pelo pátio, rumando na direção do grande ginásio que dominava grande parte da área da escola. Entrando, seguimos até a sala do clube de futebol. O local possuía uma aparência bastante moderna: ao fundo, fixada a uma das paredes brancas, havia uma grande tela de TV, acompanhada de várias fileiras de assentos tingidos na cor amarela. Em um canto, se encontravam dois sofás espaçosos e uma mesa redonda. Fixados a outra parede haviam vários armários, com dois bancos à frente.

Entrando na sala, olhei em volta admirada: o local era sem dúvida de grande tamanho. Pelas minhas contas, quatorze garotos ocupavam os sofás, a mesa e os bancos. Aparentemente todos eram completamente diferentes, cada um possuindo dons e habilidades variadas, mas ao observá-los melhor, podia-se ver que seus olhos possuíam o mesmo brilho alegre e confiante, com a mesma forte paixão alimentada pelo esporte que tanto amavam.

No princípio, nenhum dos garotos me notou. Ou por estarem muito entretidos em suas conversas, ou por simplesmente eu ter entrado bem atrás de Tenma e Aoi, não ficando muito visível. Mas isso logo mudou: quando o capitão me deu espaço para observar a sala, desejando-me um “Seja bem vinda à sala do clube de futebol”, todos os quatorze pares de olhos se viraram para mim.

Ao ver todos aqueles garotos ficarem em silêncio e me encararem com a mesma expressão, senti minhas bochechas esquentarem, adquirindo uma coloração avermelhada. Eu nem podia acreditar que estava na presença de todos os jogadores do time da Raimon. Os mesmos garotos que haviam salvado o futebol da corrupção e que haviam aprendido tantas técnicas extraordinárias para ganhar em seus jogos.

— O-olá... – gaguejei meio envergonhada, tomada pela emoção do momento. Eu pretendia me apresentar, mas Tenma tomou a dianteira.

— Pessoal, esta é a Yumei Okatsu. – disse me sinalizando. – Ela acabou de entrar aqui na Raimon.

Os garotos continuaram a me fitar, agora menos surpresos. Como não perdia a quase nenhum dos jogos que a equipe realizava, eu me lembrava do nome dos jogadores. Logo, consegui identificar Ranmaru Kirino, Ryouma Nishiki e Kyousuke Tsurugi.

— Ela vai entrar pro clube? – ouvi Kirino perguntar sem muita curiosidade.

— Bom, na verdade... – Tenma coçou a cabeça. – Como ela é aluna nova, resolvemos convidá-la pra uma visita.

— É. – concordei. – Eu já decidi que quero é entrar pro clube de música.

— Hum... – o garoto de cabelos rosados assentiu com a cabeça. – Então, seja bem vinda à Raimon. Sou Ranmaru Kirino.

— Prazer em conhecê-lo. – sorri. Depois fitei os outros jogadores, notando que já haviam voltado a seus afazeres enquanto conversavam.

— Vem Yumei, quer se sentar em um dos sofás enquanto eu pego um pouco de água? – Aoi perguntou, puxando-me pelo braço até um dos sofás.

Enquanto eu me sentava, a garota seguia na direção de um filtro num canto da sala. Olhando a minha volta, vi que havia me sentado ao lado de Nishiki e Kirino. O jovem que possuía longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo conversava distraidamente com um garoto menor de cabelos violetas, que logo identifiquei como sendo Hikaru Kageyama.

Olhei para Kirino ao meu lado. Ele permanecia sentado com uma das mãos no queixo, os olhos fitando o vazio. Como ele parecia não ter nada para fazer, decidi puxar uma conversa.

— Ahn... Vocês têm treinado bastante? – perguntei, tentando parecer o mais normal possível.

O garoto virou os olhos para mim, parecendo um pouco surpreso por eu estar falando com ele. Nós nem nos conhecíamos, afinal. Nem sei o que eu deveria ficar fazendo ali sentada ao lado dele.

— Treinamos todos os dias. – o garoto respondeu com um suspiro. – O primeiro treino é de manhã e o segundo é de tarde, um pouco depois das aulas.

— Ah, certo. – concordei, observando seu comportamento silencioso. – Sabe, eu já vi vocês jogando pela tv. São ótimos jogadores, nunca vi um time melhor que vocês.

Kirino me encarou brevemente, sorrindo um pouco.

— Obrigado. – respondeu. – Nós nos esforçamos bastante.

Eu continuei a observá-lo. Por que estava tão quieto e desanimado?

— Aconteceu alguma coisa? – arrisquei perguntar. – Você não parece muito animado...

Ele não pareceu surpreso com minha pergunta. Se endireitando no sofá e cruzando os braços, me fitou calmamente.

— É que o Shindou ainda não apareceu aqui no clube. – suspirou. – Eu queria saber o que aconteceu pra ele não vir...

Eu sempre ouvira falar de Takuto Shindou. Sabia que ele havia sido o primeiro capitão do time da Raimon, e que era um dos jogadores mais fortes e habilidosos da equipe. Mas não sabia que ele era o melhor amigo de Kirino.

Observei o rosto preocupado do garoto de cabelos rosados, sentindo que deveria lhe dizer algo para que não se preocupasse tanto. Colocando uma das mãos em seu ombro, tentei sorrir com sinceridade.

— Não se preocupe, aposto que ele logo vai aparecer. Com certeza se atrasou em algo.

Kirino me encarou, esboçando um pequeno sorriso.

— É. – concordou. – Talvez você esteja certa. Mesmo não conhecendo o Shindou muito bem.

Eu sorri, compreensiva. Logo depois, Aoi voltou com dois copos d’água e se sentou ao meu lado.

— Conversando? – perguntou olhando para mim e Kirino.

— Sim. – respondi bebendo um gole da água. – Onde você acha que o Shindou pode estar?

— O Shindou? – Aoi perguntou surpresa. – Ele ainda não apareceu?

— Não. – Kirino respondeu ao meu lado. – Depois que o sinal do intervalo tocou, ele saiu da sala de aula e ninguém mais sabe onde ele foi.

— Que estranho... – ela comentou procurando a sua volta. – Ele não é de faltar ao clube.

Olhei para Tenma, que conversava com Kyousuke Tsurugi ao lado da porta.

— Tenma, por acaso você sabe onde está o Shindou?

O garoto de olhos prateados pensou, colocando uma das mãos no queixo.

— Ah... Eu não o vi. – em seguida olhou para Tsurugi. – Você sabe de alguma coisa, Tsurugi?

O garoto maior, de olhos dourados e cabelos arrepiados de um tom azul escuro, balançou a cabeça negativamente. – Não faço a menor ideia de onde ele possa estar.

Não sei o porquê de estar tão interessada em saber onde o antigo capitão da Raimon se encontrava. Talvez por estar acostumada a ver o garoto sempre acompanhando seus amigos nos jogos, ou por ter me comovido com a preocupação de Kirino. Mas, ainda assim, eu não entendia o porquê de estar sentindo a preocupação surgir em meu peito.

Refletindo sobre isso, ouvi a porta da sala se abrir. Virando a cabeça, focalizei um garoto de olhos castanhos e cabelos ondulados de uma coloração castanha acinzentada. No momento em que Takuto Shindou entrou na sala, Kirino se levantou do meu lado e seguiu até ele.

— Onde você estava? – perguntou com impaciência.

Shindou o fitou com um pequeno sorriso.

— Eu estava resolvendo alguns trabalhos que um professor mandou. – respondeu calmamente. Depois olhou para Tenma. – Desculpe pelo atraso, eu não pude chegar mais cedo.

Tenma sorriu, parecendo não se importar com a demora do amigo.

— Tudo bem. Estávamos nos perguntando agora mesmo de onde você estava. – respondeu. – Ah, e temos uma visita. É uma garota do primeiro ano que acabou de entrar pra turma em que eu, o Shinsuke e a Aoi estudamos.

Tenma apontou pra mim. Sorri, tentando parecer simpática. Porém, em seguida, algo muito estranho aconteceu: no momento em que Shindou me fitou, sua expressão calma e serena se transformou.

Arregalando os olhos e abrindo um pouco a boca, o garoto se imobilizou, encarando-me de forma completamente surpresa e espantada. Por que ele estava me olhando daquele jeito?

— Shindou? – Kirino perguntou, notando o comportamento estranho do amigo. – O que aconteceu?

Mas o garoto não respondeu, permanecendo calado e imóvel, me fitando de modo cada vez mais estranho. Logo, todos os presentes na sala começaram a encará-lo com preocupação.

— Aconteceu alguma coisa, Shindou? – Tenma perguntou, não recebendo nenhuma resposta.

Comecei a ficar assustada. Me encolhendo, tentei em vão entender o que estava acontecendo. Por que Shindou estava reagindo daquela forma ao me ver? Eu havia feito algo errado? Completamente confusa, olhei para Aoi, que também parecia não estar entendendo nada daquela situação.

— O-Okatsu...? – ouvi de repente, voltando meus olhos novamente para o garoto de cabelos ondulados, agora mais surpresa e confusa do que antes. Como ele sabia o meu sobrenome?



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Notas finais
Então, o que acharam? A Yumei é uma personagem de minha autoria, criei ela me inspirando na Okatsu :) Ah, eu gostaria de explicar melhor a aparência dela: é quase idêntica à Okatsu, só que seus cabelos são compridos e usados soltos. Ela também é mais alta, mas ainda mais baixa que o Shindou. Espero que vocês tenham gostado! Estão curiosos para saber como a Yumei é tão parecida com a Okatsu e o porquê dela possuir aquele sobrenome? Bom, até o próximo capítulo! ;)