Amor que Cura
9 Última tentativa
Notas iniciais
Lentamente, Tao e Tigresa se afastam uma dá outra. Tao já estava radiante e feliz, achava que Tigresa havia se tornado a mãe do futuro:
Tao_ Vou chamar os outros e dizer que finalmente nossa família está bem, e que a senhora vai cuidar de nós e vai ser nossa incrível mãe! — Disse animada, saltitando de um lado para o outro -
Aquelas palavras, de repente trouxe Tigresa novamente para sua mísera realidade, como alguém tão problemática como ela iria cuidar das crianças, e se ela os machucasse e estragasse o sentimento de seus filhos por ela, acabasse com aquele amor tão puro e lindo. Sentisse incapaz de ser uma boa mãe, e aquilo trouxe medo, pela primeira vez experimentou o amor e não podia arriscar perde-lo, e pensou que talvez, se afastar fosse a melhor forma de amar e proteger os filhotes, proteger dela mesma e de tudo o que ela passa:
Tigresa_ Não!
Tao_ O que? — Disse parando de saltar, olhando para Tigresa, com um olhar confuso e decepcionado -
Aquele olhar decepcionado comprovou para Tigresa que ela não seria capaz de ser a mãe que os filhotes precisavam:
Tigresa_ Tao, você é tão doce e inocente, uma garotinha incrível, mas, eu... Eu não posso te dar o carinho e o amor que você e seus irmãos merecem, pois nasci e nunca vi o amor e não sei amar... Você e seus irmãos irão ficar melhor sem essa mãe.- Disse em voz baixa, melancólica -
Ela levantou e saiu correndo, rápida e ágil como um raio, foi diretamente para uma sala no palácio de Jade, uma sala esquecida por todos, com exceção dela. Seu coração estava opressivo por essa atitude, mas, para ela parecia ser o certo a se fazer, porque ela se sentia morta, como morto iria servir para cuidar e amar? Estava totalmente sem essência, sem nada por dentro além de um constante tormento, ela se via como um oceano no meio dá tempestade, com céu escuro, era assim dentro dela, mas tudo silencioso, tudo muito destruído tudo muito angustiante e doloroso.
Tigresa entrou naquele cômodo afastado de tudo, era uma sala escura, com espelhos quebrados. E então, ela começou a chorar, desabou suas lágrimas, queria se aliviar, sentia toda a inutilidade, era um torturante vazio, "Se tivesse um pouco de sorte, não acordava e a morte era rápida, mas, vou sendo torturada até esse maravilhoso dia" Pensava. Tigresa estava a beira dá loucura, dá insanidade total, olhou para os cacos que refletiam seu rosto e sua alma quebrada:
Tigresa_ Você devia ser mais forte. — Disse olhando para um dos pedaços do espelho, um pedaço grande que mostrava seu rosto inteiro -
Ela se irrita com essa miséria que vivia, olha no espelho, para seu rosto, olha em seus olhos, e via toda a tristeza e a tormenta estampada em seu semblante, olhava e tinha flashes do leopardo Xiao Chen, que a atormentava, era como se revivesse aqueles dias novamente:
Tigresa_ Já cansei de você, já não aguento mais, pode sair agora sem olhar pra trás! Já cansei de você, só quero sorrir, quero ser livre de tanto rancor, quero ser... Feliz. Me deixa em paz, vai e não volte mais! Eu tô cheia de sentir tanto vazio!
O clima é frenético. Naquela fúria ela quebra o espelho, e cai de joelhos ao lado, e chora amargamente. Aquela não era a primeira vez que Tigresa corria para aquela sala que para ela era seu manicômio, há muito tempo que ela sofria e ninguém escutava, lá havia caixinhas de lenços, pois era ali que ela ia para poder chorar. E assim vai, seu rosto estava molhado com sua melancolia, quando, num espanto sem lógica, pega um longo pedaço do vidro do espelho, um pedaço que era como uma navalha, Tigresa, conhecendo as áreas frágeis do seu corpo, faz o corte, ela se corta, se fere, quem sabe a tristeza que a persegue, de uma vez, acabe. E ela se machuca com um golpe na pele, quando de repente, ela ouve um barulho na porta, e quando olha, vê o panda com o semblante sombrio, pávido:
Tigresa_ Po!
Po_ Tigresa!
Se encaravam, ambos estavam sem ação, congelados. Poucos minutos depois, Tigresa que se sentia completamente exposta, e humilhada, olha para si mesma e percebe o que acabara de fazer, sente vergonha e medo, sua máscara havia caído e então, para piorar, as lágrimas começaram a jorrar. Po estava muito perplexo e chocado com aquilo, sem reação, mas repentinamente, pegou uma das caixinhas de lenços e foi até ela, fez tudo muito rápido, automaticamente. Sem medo, agachou muito próximo dela, mas ainda estava pávido:
Po_ Por que? — Perguntou em um sussurro, com os olhos já lacrimejando em ver ela naquele estado, sentiu muito mais do que deveria, talvez seja porque ele a amava, talvez. -
Ela olha nos olhos verdes do panda, e pela primeira vez, Po vê o lado mais profundamente escondido de Tigresa, ele vê uma podre felina desamparada e totalmente indefesa, assustada:
Tigresa_ Saia daqui antes que eu te machuque eu sou a Tigresa, Tigresa o monstro. — Tentou ser ameaçadora, mas saiu em sussuros e em gemidos, pela dor dos cortes -
Po_ Você não é um monstro, e eu não tenho medo de você.
Tigresa_ Como pode não ter medo?
Po_ Por que eu conheço você!
Tigresa_ Não! Não conhece.
Po_ Acho que agora eu conheço.
Tigresa abaixa a cabeça, olha para a ferida que fez em si mesma, e então, Po pega um dos lenços e começa a limpar o sangue, mas ela, repentinamente rosna e puxa sua mão:
Po_ Me deixa ajudar você!
Tigresa_ Você não pode me ajudar, ninguém pode.
Po_ Por que? Por que tudo isso? Por que fez isso?
Tigresa desvia seu olhar do olhar do panda, ela mira o chão, respira fundo, ainda ofegante pelo choro:
Tigresa_ Eu não sei porque tinha que ser assim — suspira — lembranças dá vida ficam, e danificam tudo.
Po_ Lembranças?
Tigresa_ Minha infância foi marcada com traumas e dores! Xiao Chen é um dos nomes desses traumas, um dos motivos dessa opressão que me destrói, que me persegue, e me serve em grande quantidade todos os dias de amargura... — Seus olhos formaram uma chama ardente, de ódio e rancor, O suor pela têmpora, escorria, e a sua mão trêmula, sacudia e o sangue foi subindo, o ódio em sua mente, o punho contraído também contraía os dentes, com a face sombria ela continuou — Um leopardo imundo, complexo, tirou a minha pureza com seus atos nojentos, com sua violência que me rodeiam e ameaçam me devorar... Ele fazia coisas terríveis! Eu sofri quase tudo na vida dura... Você não imagina o que ele fazia, foi com ele que passei meus primeiros anos de vida, e com a sua esposa Lian, que eu vi diversas vezes sendo torturada, apenas mais uma vítima. Até que ela fugiu comigo e me colocou no orfanato, você sabe... Naquele orfanato que eu fui ainda mais rejeitada, tratada como um monstro, um lixo, algo desprezível! — As lágrimas voltaram — é tudo tão confuso para uma garotinha, estava tão perdida naquela aflição. Como uma devassa, terminei trancafiada... Acreditava que eu era um monstro, chorei todas as noites, aquele quarto foi meu manicômio, foi minha sepultura, uma garota de apenas cinco anos com o desejo de deixar de existir... — Olhou para o rosto do panda, que também deixava cair lágrimas, via a compaixão que ele mostrava — tem ideia do que é viver isso tudo ainda sendo apenas um filhote? Tem ideia do que é isso? Sabe o que é crescer sem receber um abraço? Não. Mas, ser como aquele leopardo, jamais! Por isso não fiz o que era errado, nunca me voltei para o mal. Eu vim aqui achando que minha vida fosse mudar, que talvez eu pudesse ser amada, mas não. Eu nasci e cresci sem saber o que é o amor... Parece que pra mim tudo é mais difícil, a felicidade parece indisponível! Eu olho para dentro de mim, uma pedra que esconde um monte de dor, rapidamente me traz a memória dos problemas, os traumas dá vida... Não aguento mais viver!
O panda ouvia aquelas palavras que produziram uma profunda lástima em sua alma, a constrição se apoderou dele, movido de íntima compaixão:
Po_ Eu vou te ajudar a vencer esses traumas, não existe vitória sem luta, mas, sozinha você não vai aguentar, eu vou te ajudar, eu sei que o mal está te destruindo, mas eu vou usar a arma letal que não vai poder resistir: o amor. Não acabou, não é o fim, há esperança.
Tigresa_ Acho que não tem jeito.
Po_ Isso porque você quis andar sozinha, nunca se abriu com ninguém, mas agora é diferente. O fardo é pesado e a vida foi dura, mas não acabou, podemos dar a volta por cima. Não acabou.
Po a puxou para seus braços, sem se importar com absolutamente nada, a abraçou, ambos choravam em pedaços, mas o choro foi cessando na sensação daquele abraço, de alguém que se importava, aquele abraço foi a expressão mais doce do amor:
Tigresa_ Por que você é assim? Eu não valho esse esforço, acredite, é tarde demais.
Po_ Nunca é tarde demais. Eu sei quem é você, você não é o resultado do que passou, mas do que escolher ser, eu vi o futuro, e eu quero aquele futuro.
Tigresa_ Não sei se vale a pena continuar.
Po_ Vai valer a pena, eu prometo.
Tigresa_ Eu não... Acredito mais.
Po_ Deixa eu te mostrar o lado que vale a pena. Deixa eu te ajudar, eu garanto que as coisas vão melhorar muito, dias melhores estão por vir, você precisa acreditar em mim!
A frase "Dias melhores estão por vir" que o panda usou, fez Tigresa estremecer pelo que ela havia passado na noite anterior, e inesperadamente, lhe trouxeram paz, o alívio para sua alma, e a esperança brotou em seu coração, como uma última tentativa de ser feliz, valeria a pena:
Tigresa_ Eu aceito.
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