Amor próprio
2 Falta
Notas iniciais
Aquela noite tinha tudo para ser boa.
Eu tinha conseguido arrumar meus indomáveis cachos, tinha achado um vestido legal, brinco e colares legais.
Eu estaria bonita, então as pessoas iriam vir falar comigo e eu conseguiria conversar. Seria uma boa festa.
Era o que eu pensava.
Ao chegar no lugar da festa, vi que ela seria em uma enorme mansão. Sentindo-me intimidada e arrependendo de ter escolhido roupas tão singelas, entrei na casa. Minha amiga, a aniversariante, recebia os convidados aparentando estar ansiosa para poder sair dali e ir se divertir com seus amigos.
-O-oi, C-carol. -cumprimentei, desajeitada.
-Faty!! -ela me abraçou surpresa. -Você veio mesmo!
-É... -se eu não viesse, ela se chatearia, então não tive outra opção, senão vir. Não disse isso a ela, e tentei parecer feliz, forçando um sorriso. Entreguei o presente e ela agradeceu satisfeita. Me disse para ir onde um grupo de pessoas conversava animadamente.
Me aproximei das bem vestidas pessoas, sentindo-me inferior em meu vestidinho azul. Juntei coragem para as cumprimentar, mas minha voz saiu baixa demais e ninguém a escutou. Fiquei paralisada os ouvindo, até que alguém me notou, e me encarou sem me entender. Constrangida, com a cara queimando, me afastei deles e fui me sentar em uma poltrona isolada.
E ali fiquei, parada, sentada, calada, durante o que me pareceu uma eternidade.
-Nossa! -ouvi Carol exclamar.-Achei que nunca mais poderia sair da porta!
Todos riram e começaram a conversar com ela, animados.
Desviei os olhos deles e me senti mal por ser tão sozinha. Tentei em vão não ficar ouvindo a conversa. Além de solitária eu era uma intrometida.
-Faty?-Carol aparece depois de um bom tempo-Por que está ai, heim?-antes que eu pudesse a responder, ela pegou meu braço e saiu me puxando. Fui cambaleando até que ela me soltou-GENTE! -ela gritou feito uma lunática, o que fez com que todos se calassem e olhassem para nós assustados. -Essa é a Fátima! Conversem com ela, ok?
Eu sabia que ela fez isso com a melhor das intenções, porém, quando as pessoas vieram tentar conversar comigo, minha cara queimava tanto, meu coração batia muito e meu sangue corria alucinadamente demais para que eu conseguisse responder algo. Por isso, depois de alguns minutos todos já tinham voltado a conversar entre si, inclusive Carol. Não queria que ela desperdiçasse sua festa tentando me incluir, então decidi sair logo dali, antes que ela percebesse que eu já estava boiando de novo.
-Vou ao banheiro.-Anunciei para ninguém.
Não sabia onde ficava o banheiro, porque, por mais que eu e ela fossemos amigas, eu nunca estivera ali antes.
Me pus a procurar por ele, vagando com as pernas bambas, sentindo que elas iam se dobrar de tanto tremer e que eu cairia no chão e nele permaneceria.
Após alguns minutos andando, meu coração voltou a bater normalmente e a tremedeira a diminuir. Eu tinha quase conseguido me acalmar quando finalmente achei o banheiro.
Ao fechar a porta, percebi que estava enganada quanto a me acalmar. Minhas mãos tremiam incontroláveis e havia tanto suor em minha testa que parecia que eu tinha acabado de correr.
Puxei com força o ar e disse para mim mesma que não ia chorar, porque seria babaquisse e ainda borraria toda a porcaria de maquiagem.
Soltei o ar e senti minha garganta se apertar, do jeito que ela faz quando vou chorar.
Puxei o ar de novo, e me sentei no elegante chão daquele banheiro luxuoso.
Soltei o ar e um soluço veio, junto de muitas lágrimas.
Eu odiava meu choro. E me odiei mais por deixá-lo vir.
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Não sei dizer quanto tempo passei chorando ali, porém estou certa de que foi mais tempo do que alguém devia passar em um banheiro.
Me levantei do chão e tentei pensar em algo para dizer que explicasse a demora, enquanto limpava a sujeira que um dia fora maquiagem. Se eu não achasse algo convincente, iam pensar que eu tive uma caganeira e queria disfarçar. Iria ser constrangedor demais.
Acabei de tirar os resquícios de maquiagem em meu rosto e me encarei pelo espelho acima da pia.
O cabelo desgrenhado e os olhos inchados não eram consertáveis. Se alguém me visse, saberia que eu estivera chorando. Então, eu tinha que ficar ali o resto da festa, até que desse o horário de meus pais me buscarem.
"Retardada" Pensei olhando para meu rosto gordo "Você é uma pessoa retardada."
Sem conseguir ver minha própria expressão de desprezo, tampei o rosto com as mãos. E permaneci assim até meus braços doerem. Quando não aturei mais a dor, baixei os braços e levantei os olhos para o espelho.
Cambaleei para trás, pasma.
O espelho estava vazio, isso é, ele refletia o que estava atrás de mim, como se eu não estivesse ali, diante dele.
Algo se chocou contra minhas costas.
-Ai! -reclamou uma voz igual a minha.
Me virei para sua dona, que era uma garota gorda com o cabelo cacheado bagunçado, o mesmo vestido que eu e uma expressão de susto.
Aquilo era eu.
-O-O QUE?!- exclamei apavorada.-O-o que é isto?!
-E-eu -ela me encarou arregalando os olhos-E-eu existo?!
Nos encaramos, enquanto meu coração se debatia e meu cérebro se contorcia.
-O-o que é você? -perguntei quando consegui falar.
-S-seu reflexo. -ela respondeu baixinho, como se falar doesse.
-E por que RAIOS meu reflexo ganhou vida?!
-N-não sei- ela se encolheu diante de minha raiva. Desviou os olhos para o chão e começou a gaguejar ainda mais. -N-não tenho.a.me-menor.ideia.
-Ah, qual é?! -explodi- Você é uma alucinação, não é? -ela balançou a cabeça negando, ainda encarando os próprios pés. -ESTOU FICANDO MALUCA, É ISSO! ALÉM DE IDIOTA, SOU LOUCA!
-Vo-você... Não...-ela segurou um dos braços com umas das mãos e apertou com força, como eu faço quando estou com medo. -N-não é maluqui-qui-ce.
Senti uma pontada no mesmo braço que ela apertava.
-Ai! — nossas unhas estão afiadas, de forma que surgiram meias luas com o formato delas nos nossos braços. -Dá para parar com isso, idiota?!
-M-me.desculpe. -ela deu uma olhadinha rápida para mim, com seus olhos de sapo cheios de água.
-Como você é patética. -eu disse com a voz fria feito navalha- Vai chorar agora? -Ri com deboche.- ACHA QUE VAI ADIANTAR ALGO?! PORQUE NÃO VAI!
-De-descuuulpa! -ela balbuciou com mais medo ainda.- N-não queria... Não s-sei po-porque....
-Ah, CALA A BOCA!-gritei a interrompendo.- Seus gaguejos me enojam! Você é tão nojenta que não consegue nem ao menos pedir desculpa sem gaguejar. -ela se encolheu e fixou o olhar em um ponto do chão. -Você já é gorda e feia, não precisa ser nojenta também, sabe?
-E-eu -ela franze as sobrancelhas com força e segura o choro, mesmo assim sua voz sai chorosa. Esperei que ela dissesse algo, porém ela não consegue concluir a frase.
-Não consegue nem falar, não é sua merdinha? -ela funga e não responde, tentando muito não chorar.- Nem me olha nos olhos, covarde!
-E-EU -ela ergue os olhos marejados-N-NÃO QUERIA SER ASSIM!
-Sei que não. -finalmente a água começa a cair de seus olhos. Me sentia fria e dura, enquanto ela fazia força para continuar me olhando. Odiávamos chorar na frente de qualquer pessoa, porém, odiávamos mais ainda sermos ignoradas. -Mas você é. VOCÊ É UMA MERDA DE PESSOA. -me aproximei dela e sem pensar estapeei seu rosto. -VOCÊ NÃO PASSA DE UM VERME IMUNDO.
-A-ain!-choramingou ela, se encolhendo mais. Senti a bofetada ardendo em meu rosto.
-"A-ain!" -imitei e ri com desprezo. -IMBECIL! -a esmurrei. Ela soluçou e me socou de volta. Meu soco fazia doer minha mão e meu braço. O soco dela me fez rir. -CHAMA ISSO DE SOCO, SUA MERDINHA? -dei-lhe um soco no queixo. -ISSO SIM É UM SOCO.
Ela chorava incontrolavelmente, seus soluços saindo altos e desesperados, como um bicho ferido. Minha mão doía, os socos doíam, e eu sorria. Ela recuou até bater na parede, com medo de mim. Encurralada.
-Vai fugir, é? -gargalhei.-Para onde? Onde você acha que vai, covarde?
-P-para com isso! — suplicou com a voz falhando pelo choro.
-Me faça parar! -a chutei na barriga. Senti minha comida querendo voltar para a boca, entretanto ignorei. Tinha adrenalina e ódio demais correndo pelo meu corpo para que eu me importasse com vomitar. -Você é incapaz disso, não é? Além de covarde, mesmo sendo obesa, é fraquinha, tadinha!
Ela fungou alto e, soltando um grunhido, se jogou em cima de mim. Caímos no chão, eu aterrissando batendo a cabeça com toda força.
Em cima de mim, a garota de mãos gordinhas as põe em minha boca, tentando me fazer parar de gritar. Tudo rodava e minha cabeça doía de forma excrucitante, entretanto ignorei a tonteira e comecei a tentar a derrubar, mexendo loucamente os braços e pernas que estavam presos, debaixo de seu enorme corpo. Ela se manteve firme, porém consegui liberar um de meus braços. Vi seus olhos naturalmente esbugalhados se arregalando quando ela percebia o meu braço livre indo de encontro a sua face.
Ela gritou e eu cravei minhas unhas em de uma de suas bochechas rosadas. Mordi sua mão com o ódio fervendo por mais de seus gritos. Ela soltou minha boca e tentou desesperadamente tirar minhas unhas de sua carne, só que ao fazer isso, ela apenas fez com que minhas unhas criassem um corte ainda maior e ainda mais profundo.
Ri diante de sua burrice, e minha vista começou a enturvar. Senti minhas forças se esvaindo e antes de apagar pude ver o sangue saindo de sua mão mordida e do corte. Pude sentir o mesmo sangue saindo dos meus. E pude sentir seu peso sair de cima de mim.
"Então nosso reflexo morre antes da gente..." foi meu último pensamento.
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