Notas iniciais
Essa história me surgiu do nada, eu ainda devo melhora-la.

Eu estou pronta para o aniversario da minha amiga. Pus um vestido qualquer, tomara-que-caia rosa. Make básico e um penteado discreto com tranças. E então vou para frente do meu espelho de corpo inteiro, só para conferir se está realmente bom.

Quando olho para dentro dos meus olhos delineados e cheios de rímel, não contenho o sorriso. Estou tão linda que ninguém vai olhar para minha amiga, mesmo ela sendo aniversariante.

Rio orgulhosa. Diferentemente das demais garotas, não preciso que meu vestido exponha meu corpo para que eu chame atenção. Ele fica tão bom em mim, que isso já basta.

Quando viro de costas para o espelho, dou de cara comigo.

–AAAAAAAH! –grito espantada. Ouço-me gritar junto.

A garota, que na verdade sou eu, está tão espantada quanto eu.

–O-oi. –digo. Ela arregala ainda mais os olhos e levanta a palma da mão incrédula. Estendo a minha mão e toco a dela- O QUE?! –exclama. –Eu não devia existir!

–Você... sou eu? –eu pergunto.

–Si-sim! Eu sou seu reflexo! –ela indica o espelho. Me viro e vejo que ele não me reflete.

Ela é meu reflexo. Meu clone. Ela sou eu, e eu sou ela.

–DEMAIS! –exclamo feliz. –Mexo-me na frente do espelho, no entanto nada se move. Ele reflete o que está atrás de mim. Volto-me para ela e a vejo repetir meus movimentos. –As outras pessoas não podem te ver, não é?

–Creio que não. Quando você sair de frente do espelho, eu devo desaparecer.

–Você não quer isso, não é? –sinto pena dela.

–Não. –ela sorri humildemente. –Mas sua festa é mais importante. E eu já estou feliz demais por ter existido, mesmo que tenha sido por pouco tempo.

–Ah, que isso! –ponho minha mão em seu ombro. –Quando eu voltar da festa, volto para cá, na frente do espelho. E aí você vai existir de novo!

–Sério? –ela sorri animada. –Obrigada! –diz me abraçando. –Vá lá e aproveite muito!

–Valeu, fofa! –despeço-me e vou feliz para festa.

Nela, Acabo não dando atenção às minhas amigas que ora me fuzilam com inveja, ora me admiram. Mal noto os garotos, que ficam distantes tentando me paquerar. Tudo porque eu não consigo parar de pensar no quão estranho e legal foi meu encontro comigo mesma.

Quando chego em casa, ponho meu pijama, e vou dormir, esquecendo-me completamente do que disse para meu reflexo.

Na manhã seguinte, acordo às 5 para poder me arrumar direitinho e ir para aula. Quando me aproximo do espelho para me maquiar, eis que ela aparece.

–Oi! –diz entusiasmada. –Estou existindo de novo!

–AHHH!-me assusto. -Oi- digo quando recupero o fôlego. –Esqueci-me de te fazer existir ontem, querida, me desculpe.

–Sem problemas! –ela sorri. –Você não me deve nada, amore. Quer que eu te maquie?

–Oh, você pode fazer isso? –ela abana a cabeça afirmativamente, pega minhas maquiagens e faz meu make diário, do jeitinho que eu faço. –Uau! Ficou ótimo! Obrigada!

–De nada! Agora vá, tenha uma boa aula!

E eu vou. Na escola, é o tédio de sempre. Minhas invejosas amigas mal conversam comigo e meus admiradores ficam de longe, encarando. Não entendo porque eles nunca se aproximam. Será que minha beleza os deixa nervosos?

Chego em casa ansiosa para me ver.

E quando me ponho diante do espelho, lá está ela, radiante até mesmo com uniforme.

Fazemos os deveres de casa juntas. Estudamos. E no final do dia, estou pronta para outro.

O final de semana chega, mas sem muito anseio. Não há nenhuma festa marcada, nada para fazer. Nada além de passar o tempo comigo mesma.

Sou uma boa companhia, afinal.

O sábado passa sem que nos duas percebamos. E o domingo chega. Passo o dia todo em meu quarto, comigo, filmes, e series. Nem tiro o pijama.

Nos damos muito bem, porque, diferente do que minhas amigas falsas, eu concordo de verdade comigo. E gostamos das mesmas coisas, entendemos todas nossas piadas...É incrível.

Sei que ela acha o mesmo. Estamos deitadas assistindo um filme de comedia rindo muito, ela do filme e eu da forma como a risada dela soa exatamente igual a minha.

Quando o filme acaba, ficamos um pouco em silencio, ali sentadas na minha cama.

–Você devia gostar mais de si mesma, sabe? –ela diz docemente. –Você é tão legal!

–Mais ainda do que já gosto?-respondo no mesmo tom.

Ela me encara com um sorriso estranho.

–Sim...-diz se pondo de frente a mim. Encaro o rosto delicado dela, notando o contorno suave de seus lábios. –Mais ainda.

–Como? –digo ainda olhando seus lábios que sorriem mais para mim depois da pergunta.

–Assim. –ela estica seu braço para meu pescoço e me puxa para um beijo.

Atordoada e desajeitada, a beijo de volta. Depois de alguns segundos, ela nos interrompe.

–Você beija bem. –rimos coradas. –E é tão bonita!

–Você que é. — respondo sem ar. Ela se aproxima ainda mais de mim.

–Você sente o mesmo que eu, não é? –sorrio. –O coração disparado...- ela apoia sua mão em meu peito. Eu imito o gesto. –O sangue correndo rápido pelas veias... –seus dedos deslizam até meu pescoço. A imito. –Uma vontade de acabar com esse espaço entre nós...

Rimos e eu a derrubo na cama. Deitadas, uma em cima da outra, não consigo sentir mais nada além de desejo. Mas como não desejar alguém tão linda? Nos encaramos por alguns segundos, antes de eu a beijar. Ela corresponde, no começo devagar, depois acelera, me fazendo perder o fôlego. Sem que eu perceba, meus dedos percorrem o corpo magro e cheio de curvas dela. Enquanto os braços dela me seguram fortemente, fazendo com que eu fique com menos ar ainda.

O amasso perdura até eu perder a noção de tempo. Não consigo solta-la, e não quero. Ela é perfeita. Seus toques são irresistíveis. Não há nada além de nós que mereça minha atenção, nem mesmo o tempo.

O ar em meus pulmões começa a realmente faltar, mas eu não ligo. Arquejo, e continuo a beijando. Não preciso de oxigênio se eu a tiver em mim.

Até que começo a perder a consciência. Luto para conseguir me concentrar no seu rosto delicado, nos olhos castanhos que me encaram cintilando. Tento pensar no quanto a bochecha dela fica bonitinha, assim, corada. Tento pensar no quanto.... tento pensar... e então paro de pensar. E em seguida, paro de sentir. Tudo fica escuro.

Abro os olhos e não estou mais em casa. Estou deitada em um lugar frio e estranho, nem parece real. As coisas são distorcidas demais. Tento me mover, mas não consigo. Não consigo ver, nem me mexer. Eu falo, mas não consigo me escutar. Porém, escuto vozes, distantes de mim.

Elas dizem que o dia está nublado, mesmo sendo ainda julho. Começam a tagarelar sobre como no ano passado julho foi seco. Segundo elas, ano passado foi 2015.

2015 é o ano em que estou. Ou estava, até eu me perder no meu amor próprio.

Agora estou aqui, sozinha em um lugar irreal.

Estou presa dentro de mim.

Meu amor próprio me engoliu.

Notas finais
Espero que tenham gostado e entendido corretamente: amor próprio é bom, só não dá pra exagerar. Porque, se você não se ama, não consegue amar os outros. Mas, se você se ama demais, também não. O narcisismo é algo comum na nossa sociedade, basta ver a quantidade de selfs por aí hahaha ;0