Amor ou obsessão

5 Reflexos no Lago de Cristal



​A tarde de sol incomum na Irlanda atraíra a corte para as margens do Lago de Cristal, um espelho d’água límpida que ficava nos limites protegidos da propriedade real. Era um momento de rara descontração. Os pequenos gêmeos de Ester, Maya e Michael, corriam descalços pela grama alta, seguidos de perto pelo pequeno Benício, de sete anos, que tentava ensiná-los a identificar os peixes que saltavam na superfície. Até mesmo o pequeno Henrique, no colo de Selina, parecia fascinado pelo brilho da água.

​Dominic e seu irmão, Ricardo, observavam a cena de uma pequena elevação, à sombra de um carvalho centenário. Ambos seguravam taças de vinho, mas os olhos do rei não estavam na bebida, nem na paisagem geral. Estavam fixos em uma única figura.

​Ester estava à beira do lago. Ela não usava os vestidos pesados da corte, mas uma túnica leve de linho que facilitava seus movimentos. Sem qualquer hesitação ou preocupação com a etiqueta, ela soltou uma risada clara que ecoou pelo vale e, com um impulso ágil, saltou nas águas profundas do lago. Segundos depois, sua cabeça emergiu, os cabelos longos e escuros colados ao rosto, brilhando como obsidiana molhada.

​— Ela é como um espírito da floresta que se recusa a ser domesticado — comentou Ricardo, sua voz carregada de uma calma provocativa.

​Dominic não respondeu de imediato. Ele apenas observou Ester incentivar Maya e Michael a entrarem na parte rasa, ajudando os irmãos com uma ternura que contrastava com a língua afiada que ela usava contra ele.

​— Notei como seus olhos a seguem, Dominic — continuou Ricardo, girando o vinho na taça. — E não falo como seu sucessor, mas como seu irmão. Desde a morte de nosso pai e sua ascensão ao trono, nunca vi você olhar para nada — nem para uma coroa, nem para uma aliança política — com essa intensidade.

​Dominic deu um longo gole no vinho, sua mandíbula retesada.

— Ela é diferente de tudo o que já passou por Tara, Ricardo. Ela não me teme. Na verdade, ela mal me respeita como rei.

​— Talvez seja exatamente disso que você precise — Ricardo sorriu, observando Benício pular na água sob os cuidados de Ester. — Alguém que veja o homem sob o manto de veludo. Mas você sabe o que a corte dirá. Ela tem vinte e três anos, é filha de um druida do povoado. E você... bem, você é o pilar deste reino há décadas.

​— Ela me acha velho — Dominic confessou, sua voz saindo mais baixa, quase um segredo compartilhado com o vento. — Ontem, durante a cavalgada, ela disse que eu era como uma árvore antiga que se recusa a cair.

​Ricardo soltou uma risada curta, mas não de mofa.

— E você está tentando provar que a árvore ainda tem frutos? Cuidado, meu irmão. Obsessão e amor caminham em uma linha muito tênue. Se você a trouxer para o seu mundo à força, vai apagar o brilho que tanto admira nela.

​— Eu não quero forçá-la — Dominic disse, os olhos escuros ardendo enquanto observava Ester sair da água, a túnica molhada desenhando silhuetas que faziam o sangue do rei pulsar mais forte. — Eu quero que ela me escolha. Quero que ela veja que o "velho" ainda pode oferecer a ela um reino que ela nunca ousou sonhar, sem tirar dela a liberdade que ela tanto preza.

​— É um jogo perigoso, Dominic. Conquistar uma jovem que valoriza a natureza acima do ouro é mais difícil do que vencer uma guerra contra os nortenhos — Ricardo ponderou, tornando-se sério. — E lembre-se: Selina e Mellysa já estão percebendo. O escrutínio das mulheres da família será muito mais severo do que o meu.

​Dominic não desviou o olhar. Lá embaixo, Ester ajudava Michael a sair da água, rindo enquanto o menino tentava espirrar água nela. Por um breve segundo, ela olhou para cima, em direção à colina onde os irmãos Mackenzie estavam. Seus olhos encontraram os de Dominic à distância. Ela não sorriu, nem desviou o olhar com timidez; ela apenas sustentou a visão por um momento eterno, antes de se virar e mergulhar novamente.

​— Deixe que falem, Ricardo — Dominic disse, sua voz agora impregnada com a autoridade de um monarca e a determinação de um homem possuído. — Eu sou o Rei da Irlanda. Se eu decidir que aquela jovem será a razão do meu próximo suspiro, ninguém nesta ilha terá poder para me impedir.

​Ricardo observou o irmão e sentiu um calafrio. Ele conhecia aquela expressão. Dominic não estava apenas interessado; ele estava começando a ficar obcecado. E, para um homem que nunca perdera nada na vida, a resistência de Ester Benevides seria o maior desafio de sua existência.

​Enquanto isso, nas águas frias do lago, Ester sentia o peso do olhar de Dominic em suas costas. Ela mergulhou fundo, buscando o silêncio do fundo do lago, tentando ignorar a estranha sensação de que, por mais que nadasse para longe, o rastro daquele rei grisalho estava começando a segui-la até em seus sonhos.