​O orvalho da manhã ainda cobria as folhas de carvalho quando Ester decidiu explorar os jardins internos do castelo. O ar da capital era mais pesado que o do povoado, e ela sentia falta do cheiro de terra úmida e liberdade. Seus irmãos menores, Maya e Michael, já corriam entre as cercas vivas, encantados com as estátuas de pedra, enquanto ela caminhava em silêncio, perdida em seus próprios pensamentos.

​Um som rítmico de metal contra metal, acompanhado de exclamações guturais, ecoou de uma área mais aberta do pátio de armas, adjacente ao jardim botânico. Curiosa, Ester seguiu o som até os arcos de pedra que davam vista para a arena de treinamento.

​Lá embaixo, o Rei Dominic Mackenzie estava em combate.

​Ele estava sem camisa, e a pele clara brilhava com uma fina camada de suor sob o sol matinal. Ester parou, escondida pela sombra de uma pilastra, e não pôde evitar que seus olhos percorressem a figura do monarca. Dominic não era o homem frágil que ela imaginara por trás das vestes pesadas de veludo. Seus ombros eram largos e fortes, o peito exibia cicatrizes de batalhas passadas que contavam histórias de sobrevivência, e os músculos de seus braços se retesavam a cada golpe de espada que ele desferia contra o General de sua guarda.

​O General, um homem dez anos mais jovem e visivelmente exausto, tentava manter o ritmo. Dominic, por outro lado, movia-se com uma precisão mortal. Seus cabelos grisalhos estavam úmidos e colados à testa, mas seus olhos brilhavam com uma energia selvagem, quase juvenil.

​— Está ficando lento, General! — Dominic exclamou, com a voz rouca pelo esforço, antes de girar a espada e desarmar o adversário com um movimento seco que fez o aço voar pela areia.

​O General arquejou, apoiando as mãos nos joelhos.

— O senhor... o senhor treina como se ainda tivesse vinte anos, Majestade. Meus ossos não acompanham mais sua fúria.

​Dominic soltou uma risada alta e vigorosa, pegando um pano de linho para secar o rosto. Foi nesse momento que, por puro instinto de caçador, ele desviou o olhar para os arcos superiores e avistou Ester.

​Ele não se cobriu. Em vez disso, manteve o olhar fixo nela, deixando que ela visse exatamente quem ele era: um homem que o tempo havia endurecido, mas não quebrado. Ele queria que ela percebesse que a "árvore antiga" ainda possuía o cerne de ferro.

​Ester sentiu um calor inesperado subir pelo pescoço, mas não desviou o rosto. Ela manteve a expressão neutra, embora o coração tivesse acelerado por um breve segundo. Ao notar que ele percebera sua presença, ela apenas inclinou a cabeça de forma protocolar e deu as costas, retomando seu passeio.

​Dominic observou-a partir, sentindo o suor esfriar no corpo, mas a mente continuar em brasas.

​— Ela é difícil, não é? — comentou o General, recuperando o fôlego.

​— As coisas mais valiosas da Irlanda nunca foram conquistadas facilmente, General — Dominic respondeu, pegando sua camisa de linho do chão. — E eu tenho todo o tempo do mundo.

​Mais adiante, perto das roseiras, Maria Benevides aproximou-se da filha.

— Vi que estava observando o rei, Ester. Ele é um homem imponente, não acha?

​— Ele é um rei que gosta de plateia, mãe — Ester respondeu, sem olhar para trás. — Pode ter os músculos de um guerreiro, mas o olhar dele ainda carrega o peso de meio século. Ele quer provar algo que a idade já levou.

​— Você é muito dura com ele — Maria suspirou. — Ele trouxe toda a nossa família para cá. Deu dignidade ao seu pai.

​— Ele nos trouxe porque precisava de nós, não por bondade — Ester retrucou, parando para observar uma flor. — E eu não vou me tornar um troféu na estante de um homem que busca recuperar a juventude através de mim. Ele pode ser o rei da Irlanda, mas meu coração ainda pertence à floresta.

​Ester seguiu caminho, decidida a manter a distância necessária. Ela sabia que Dominic Mackenzie era um perigo, não por ser velho, mas por ser um homem que começava a entender que o poder de um rei não era nada comparado ao desejo de um homem que finalmente encontrou o que buscava.