Amor ou obsessão
3 O olhar
O orvalho da manhã ainda cobria as folhas de carvalho quando Ester decidiu explorar os jardins internos do castelo. O ar da capital era mais pesado que o do povoado, e ela sentia falta do cheiro de terra úmida e liberdade. Seus irmãos menores, Maya e Michael, já corriam entre as cercas vivas, encantados com as estátuas de pedra, enquanto ela caminhava em silêncio, perdida em seus próprios pensamentos.
Um som rítmico de metal contra metal, acompanhado de exclamações guturais, ecoou de uma área mais aberta do pátio de armas, adjacente ao jardim botânico. Curiosa, Ester seguiu o som até os arcos de pedra que davam vista para a arena de treinamento.
Lá embaixo, o Rei Dominic Mackenzie estava em combate.
Ele estava sem camisa, e a pele clara brilhava com uma fina camada de suor sob o sol matinal. Ester parou, escondida pela sombra de uma pilastra, e não pôde evitar que seus olhos percorressem a figura do monarca. Dominic não era o homem frágil que ela imaginara por trás das vestes pesadas de veludo. Seus ombros eram largos e fortes, o peito exibia cicatrizes de batalhas passadas que contavam histórias de sobrevivência, e os músculos de seus braços se retesavam a cada golpe de espada que ele desferia contra o General de sua guarda.
O General, um homem dez anos mais jovem e visivelmente exausto, tentava manter o ritmo. Dominic, por outro lado, movia-se com uma precisão mortal. Seus cabelos grisalhos estavam úmidos e colados à testa, mas seus olhos brilhavam com uma energia selvagem, quase juvenil.
— Está ficando lento, General! — Dominic exclamou, com a voz rouca pelo esforço, antes de girar a espada e desarmar o adversário com um movimento seco que fez o aço voar pela areia.
O General arquejou, apoiando as mãos nos joelhos.
— O senhor... o senhor treina como se ainda tivesse vinte anos, Majestade. Meus ossos não acompanham mais sua fúria.
Dominic soltou uma risada alta e vigorosa, pegando um pano de linho para secar o rosto. Foi nesse momento que, por puro instinto de caçador, ele desviou o olhar para os arcos superiores e avistou Ester.
Ele não se cobriu. Em vez disso, manteve o olhar fixo nela, deixando que ela visse exatamente quem ele era: um homem que o tempo havia endurecido, mas não quebrado. Ele queria que ela percebesse que a "árvore antiga" ainda possuía o cerne de ferro.
Ester sentiu um calor inesperado subir pelo pescoço, mas não desviou o rosto. Ela manteve a expressão neutra, embora o coração tivesse acelerado por um breve segundo. Ao notar que ele percebera sua presença, ela apenas inclinou a cabeça de forma protocolar e deu as costas, retomando seu passeio.
Dominic observou-a partir, sentindo o suor esfriar no corpo, mas a mente continuar em brasas.
— Ela é difícil, não é? — comentou o General, recuperando o fôlego.
— As coisas mais valiosas da Irlanda nunca foram conquistadas facilmente, General — Dominic respondeu, pegando sua camisa de linho do chão. — E eu tenho todo o tempo do mundo.
Mais adiante, perto das roseiras, Maria Benevides aproximou-se da filha.
— Vi que estava observando o rei, Ester. Ele é um homem imponente, não acha?
— Ele é um rei que gosta de plateia, mãe — Ester respondeu, sem olhar para trás. — Pode ter os músculos de um guerreiro, mas o olhar dele ainda carrega o peso de meio século. Ele quer provar algo que a idade já levou.
— Você é muito dura com ele — Maria suspirou. — Ele trouxe toda a nossa família para cá. Deu dignidade ao seu pai.
— Ele nos trouxe porque precisava de nós, não por bondade — Ester retrucou, parando para observar uma flor. — E eu não vou me tornar um troféu na estante de um homem que busca recuperar a juventude através de mim. Ele pode ser o rei da Irlanda, mas meu coração ainda pertence à floresta.
Ester seguiu caminho, decidida a manter a distância necessária. Ela sabia que Dominic Mackenzie era um perigo, não por ser velho, mas por ser um homem que começava a entender que o poder de um rei não era nada comparado ao desejo de um homem que finalmente encontrou o que buscava.
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