Amor ou obsessão

10 O Sangue e o Coração



​O rescaldo do banquete ainda vibrava nas paredes do castelo. Enquanto os músicos guardavam suas liras e os nobres se retiravam em meio a sussurros escandalizados, Ester caminhava pelos corredores com as mãos trêmulas. A defesa pública de Dominic fora um escudo, mas também uma marca; ela agora era o centro das atenções de toda a Irlanda.

​Ao entrar nos aposentos reais para a sessão noturna, encontrou Dominic sem o manto carmesim, a coroa repousando sobre a mesa de carvalho. Ele parecia exausto, a postura rígida de quem acabara de enfrentar um exército de preconceitos.

​— O senhor foi imprudente — ela disse, fechando a porta atrás de si. — O que fez no salão... colocou sua família contra você.

​— Minha família precisa aprender que o trono não é apenas um título, é uma responsabilidade de justiça — Dominic respondeu, sentando-se e fechando os olhos enquanto Ester começava a preparar o óleo. — E justiça era o mínimo que eu lhe devia.

​Ela se aproximou, e quando suas mãos tocaram as têmporas dele, algo mudou. Não era apenas a fricção profissional; o toque parecia carregar uma eletricidade nova. O coração de Ester deu um solavanco. Pela primeira vez, o olhar que ela lançava para os cabelos grisalhos e as linhas de expressão dele não era de julgamento pela idade, mas de uma estranha e profunda admiração. Aquele homem de cinquenta anos acabara de arriscar a paz de sua corte por ela.

​O silêncio íntimo, no entanto, foi estraçalhado.

​A porta foi aberta com um estrondo. Mellysa Mackenzie entrou como uma furacão, o rosto vermelho de indignação, os olhos faiscando um ódio que nem mesmo o rei podia ignorar.

​— Você perdeu o juízo, Dominic?! — ela gritou, ignorando completamente o protocolo. — Me humilhar diante de todos por causa de uma... de uma camponesa mística? Você é um Mackenzie! Nosso sangue é o mais puro da ilha, e você o arrasta na lama por um capricho de homem maduro!

​Dominic levantou-se lentamente, sua presença parecendo crescer a cada centímetro. Ester recuou um passo, mas não desviou o olhar.

​— Saia daqui, Mellysa — a voz do rei era um trovão contido. — Eu avisei no salão. Minhas palavras não foram sugestões.

​— Você está cego! — Mellysa apontou o dedo para Ester. — Essa menina está usando as artes do pai para enfeitiçar você! Ela não pertence a este mundo, ela é apenas o reflexo de um homem que tem medo de morrer e quer sugar a juventude de quem não tem nada a oferecer além de ervas e um rosto bonito! Você é um velho ridículo, Dominic, se acha que ela sente algo por você que não seja interesse!

​Ester sentiu as palavras de Mellysa como navalhas, mas algo dentro dela quebrou — não a sua honra, mas a sua paciência. Ela deu um passo à frente, colocando-se entre o rei e a duquesa.

​— A senhora fala de sangue puro, mas seu coração parece cheio de veneno — Ester disse, sua voz fria e cortante. — Se o Rei me defendeu, foi porque ele tem a nobreza que a senhora parece ter perdido no meio de tantas joias. Eu não pedi por este lugar, mas não permitirei que me chame de bruxa ou de oportunista em minha própria presença.

​— Como ousa... — Mellysa começou, mas Dominic a interrompeu, segurando o braço da irmã com uma força que a fez calar.

​— Fora. Agora — ele ordenou, os olhos escuros brilhando com uma fúria perigosa. — Se você dirigir mais uma palavra insultuosa à Ester, eu a enviarei de volta para Suffolk e você nunca mais colocará os pés em Tara enquanto eu respirar. Entendeu, minha irmã?

​Mellysa, percebendo que o irmão estava além de qualquer razão política, soltou-se bruscamente. Ela lançou um olhar final de puro veneno para Ester antes de sair, batendo a porta com tanta força que os quadros nas paredes tremeram.

​O silêncio que se seguiu era pesado, carregado com a respiração ofegante de ambos. Dominic virou-se para Ester, o rosto tenso, esperando que ela estivesse chorando ou furiosa com ele.

​— Ester, eu sinto muito... — ele começou.

​Mas ele parou. Ester não estava chorando. Ela o olhava de uma forma que nunca o olhara antes. Seus olhos verdes brilhavam com uma intensidade nova, e ela respirava de forma curta e rápida.

​— Por que o senhor fez isso? — ela sussurrou, aproximando-se dele. — Por que arriscar tudo por mim?

​— Porque eu prefiro ser um rei odiado por todos do que um homem que não é digno de você — ele respondeu, sua voz rouca e honesta.

​Nesse momento, Ester sentiu seu coração acelerar de uma forma avassaladora. O homem diante dela não era apenas o "velho" que ela desprezara. Era um guerreiro, um protetor, um homem cujo poder era igualado apenas pela sua vontade de protegê-la. O abismo de vinte e sete anos entre eles pareceu, por um segundo, desaparecer diante da força daquela conexão.

​Ela não recuou quando ele deu um passo à frente. Pelo contrário, ela sentiu uma vontade incontrolável de se perder na segurança daqueles braços. A "obsessão" dele, que antes a assustava, agora parecia o único fogo capaz de aquecer a frieza daquele castelo.

​— Dominic... — ela murmurou, sua mão subindo hesitantemente para tocar o peito dele, sentindo o batimento forte e constante sob a seda da túnica.

​O Rei da Irlanda fechou os olhos ao toque dela, sentindo que, finalmente, a sua conquista mais difícil estava começando a ceder — não por ordem, mas por desejo.