Amor ou obsessão

11 O Galope do Desafio e a Fuga do Coração


​A manhã nasceu com um sol pálido, mas insistente, rompendo a névoa que abraçava as torres de Tara. Dominic, cumprindo sua promessa de dar a Ester o ar puro que ela tanto sentia falta, a esperava nos estábulos. O clima entre eles mudara; não havia mais a barreira de gelo, apenas uma tensão vibrante que fazia o ar parecer denso e elétrico.

​— Longe das paredes de pedra hoje, Ester — disse o Rei, ajudando-a a montar. — Vamos para o Vale das Sombras. Há uma cachoeira que poucos conhecem, onde o som da água abafa até os pensamentos mais barulhentos.

​Eles cavalgaram em silêncio por trilhas escondidas, onde as árvores centenárias pareciam curvar-se à passagem do monarca. O som da água caindo surgiu primeiro como um sussurro e logo se tornou um estrondo revigorante. A cachoeira de águas cristalinas despencava de um paredão de rocha, formando uma piscina natural cercada por musgos e flores silvestres.

​O calor da cavalgada e a umidade do lugar foram o convite perfeito. Dominic, sentindo-se mais livre do que em qualquer momento dentro do castelo, retirou as botas e a túnica, mergulhando nas águas geladas com o vigor que Ester passara a admirar secretamente. Ela hesitou por um momento, mas a natureza sempre fora seu refúgio. Ela retirou o manto e mergulhou também, sentindo a água abraçar seu corpo e acalmar o fogo que ardia em seu peito desde o banquete.

​O encontro aconteceu no centro da lagoa. Onde a água batia nos ombros, Dominic a cercou. Seus olhos escuros ardiam com uma intensidade que fazia o frio da água desaparecer, e as gotas de orvalho em seus cabelos grisalhos brilhavam como diamantes sob o sol.

​— Você disse que eu era como o inverno, Ester — ele sussurrou, aproximando-se até que seus corpos quase se tocassem sob a superfície. — Mas você trouxe o verão de volta ao meu peito. Você me faz esquecer que sou um rei com o peso de um mundo nas costas.

​Ester sentiu o coração bater contra as costelas, um ritmo frenético que não era de medo, mas de uma descoberta avassaladora. Ela não recuou. Pelo contrário, inclinou a cabeça, entregando-se ao magnetismo daquele homem que passara a ocupar todos os seus pensamentos.

​O beijo aconteceu como uma tempestade: foi profundo, urgente e carregado de uma necessidade mútua. O gosto dele era de vida, de poder e de uma doçura que ela não esperava encontrar sob aquela fachada de autoridade. Por um instante, o tempo parou, e não havia rei, nem druida, nem diferença de idade; havia apenas dois corações se reconhecendo.

​No entanto, no auge daquela entrega, a mente de Ester foi invadida por uma lembrança sombria. Um fato de sua vida, um segredo que ela guardava a sete chaves sobre seu passado no povoado — uma promessa ou um vínculo que a prendia a algo que Dominic jamais aceitaria — atingiu-a como um soco.

​A consciência do que aquele beijo significava em relação ao seu segredo a fez entrar em pânico. Se ela continuasse, estaria entregando não apenas o coração, mas sua vida inteira a um homem que poderia destruí-la se soubesse a verdade sobre sua história.

​Assustada com a própria vulnerabilidade e com o peso da mentira que carregava, Ester se desvencilhou bruscamente.

​— Não! Eu... eu não posso fazer isso! — ela exclamou, com os olhos arregalados e a respiração falha.

​Ela saiu da água correndo, ignorando os chamados confusos e carregados de dor de Dominic. Vestiu o manto às pressas, sem se importar com a roupa molhada, e montou em sua égua, partindo em um galope desesperado de volta ao castelo.

​Nos dias que se seguiram, Ester tornou-se uma sombra em Tara. Ela evitava os salões principais, escondia-se na biblioteca ou nas cozinhas, fugindo de qualquer lugar onde o olhar penetrante de Dominic pudesse alcançá-la. Ela sabia que o beijo mudara tudo, mas o segredo de sua vida era uma muralha que ela não se atrevia a derrubar, nem mesmo por amor.