​A primeira manhã como Rainha de Tara surgiu banhada por uma luz dourada que refletia na neve fresca lá fora. No salão de desjejum, a atmosfera era de uma paz cautelosa. Dominic e Ester presidiam a mesa, com os pequenos Maya e Michael já integrados à rotina real, deliciando-se com pães de mel e frutas silvestres. Ricardo e Mellysa também estavam presentes, embora a Duquesa mantivesse um silêncio rígido e o olhar fixo em seu prato, recusando-se a reconhecer a mulher que agora ocupava a cabeceira da mesa.

​Ao lado de Mellysa, seu filho mais novo, o pequeno Luan, de apenas cinco anos, parecia apático. Ele mal tocara em sua comida, e sua pele exibia uma palidez preocupante.

​— Coma, Luan — ordenou Mellysa, com a voz ríspida, ainda tentando manter as aparências de controle. — Não me envergonhe diante da... corte.

​O menino tentou levar um pedaço de maçã à boca, mas subitamente largou o talher. Seus olhos rolaram para trás e ele começou a ofegar, levando as mãos à garganta. Em segundos, seu corpo pequeno foi tomado por uma convulsão violenta e sua pele começou a ganhar um tom azulado aterrorizante.

​— Luan! — Mellysa gritou, levantando-se e derrubando sua taça de prata. O caos se instalou. Ricardo tentou segurar o sobrinho, mas não sabia o que fazer. Os guardas se aproximaram, e o médico da corte, que estava de prontidão, parecia paralisado pela gravidade súbita do ataque. — Façam alguma coisa! Ele está morrendo!

​Dominic levantou-se, mas Ester foi mais rápida. Movida por um instinto que misturava a maternidade e os anos de ensinamento druídico, ela saltou sobre a mesa, ignorando o protocolo e a seda de seu vestido.

​— Afastem-se! Deem espaço a ele! — a voz de Ester não era um pedido; era um comando que cortou o pânico no salão.

​Mellysa tentou empurrá-la.

— Saia de perto dele, sua camponesa! Você vai matá-lo com suas feitiçarias!

​— Se você não me deixar tocá-lo, ele morrerá nos seus braços, Mellysa! — Ester rebateu, encarando a Duquesa com uma autoridade tão esmagadora que a outra mulher recuou, em choque.

​Ester deitou o menino de lado no chão frio. Ela percebeu que não era apenas uma convulsão; a garganta dele estava fechada por uma reação severa a algo na mesa. Com mãos firmes e precisas, ela pressionou pontos específicos sob a mandíbula do menino e atrás de suas orelhas, enquanto entoava um cântico baixo e rítmico, uma técnica de respiração que seu pai lhe ensinara para abrir as vias aéreas.

​O salão ficou em um silêncio absoluto. Dominic observava com o coração na mão, admirando a coragem da esposa. Ester então retirou um pequeno frasco de essência de hortelã-pimenta e eucalipto que sempre carregava em seu cinto e forçou o menino a inalar o vapor concentrado enquanto massageava seu peito com força.

​Após o que pareceu uma eternidade, Luan soltou um suspiro profundo e ruidoso, seguido de um choro agudo e cheio de vida. A cor voltou às suas bochechas e o corpo relaxou.

​Ester o segurou no colo até que a respiração dele se estabilizasse. Mellysa caiu de joelhos ao lado deles, tremendo violentamente. Ela olhou para o filho, vivo e consciente, e depois olhou para Ester.

​A máscara de arrogância da Duquesa se estraçalhou. Ali, diante de toda a família e dos servos, a mulher que passara meses destilando veneno contra a "filha do druida" viu-se diante daquela que acabara de salvar o que ela tinha de mais precioso.

​— Ele está bem, Mellysa — disse Ester, com a voz suave, entregando o menino aos braços da mãe. — Foi uma reação forte, mas o coração dele é valente.

​Mellysa abraçou o filho com força, soluçando. Ela levantou o olhar para Ester, e pela primeira vez, não havia ódio, apenas uma gratidão dolorosa e profunda.

​— Eu... eu o teria perdido — sussurrou a Duquesa, as lágrimas lavando sua maquiagem cara. — Eu a insultei, eu tentei destruir seu nome... e você salvou meu filho. Perdoe-me, Rainha Ester. Por favor, perdoe minha cegueira. Eu estava errada sobre tudo.

​Ester colocou a mão no ombro de Mellysa, um gesto de paz que selou o fim das hostilidades na família Mackenzie.

— Em Tara, cuidamos uns dos outros, Duquesa. O sangue que nos une agora é o da proteção, não apenas o dos nomes.

​Dominic aproximou-se e ajudou ambas a se levantarem. Ele olhou para Ester com um orgulho que transbordava. Ele não tinha apenas uma rainha bonita; ele tinha uma curadora, uma líder e uma mulher cujo coração era maior que qualquer coroa.

​— Parece que a Rainha acaba de conquistar mais um território — Dominic comentou baixinho para Ester, enquanto a família se acalmava. — O coração da minha irmã era o castelo mais difícil de invadir.

​Ester sorriu, sentindo-se finalmente em casa. A paz voltara a Tara, e desta vez, era uma paz construída sobre a verdade e o perdão.