Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
27 O Fantasma do Passado
O sol da manhã de Mônaco era suave, filtrado pelas copas das oliveiras onde a família Mackenzie se reunia para um piquenique nos jardins suspensos do palácio. O clima era de absoluta serenidade; a pequena Ester corria pela grama sob o olhar vigilante de Luan, enquanto Dominic e a Rainha Mãe Ester compartilhavam o chá em um silêncio confortável. Michael e Catarina trocavam sorrisos, ainda envoltos na aura da celebração da noite anterior.
A paz, entretanto, foi estilhaçada pelo som de passos pesados sobre o cascalho. Um jovem de aproximadamente vinte anos, vestindo roupas de viagem surradas e com um olhar carregado de um ressentimento antigo, parou diante do grupo. Suas feições tinham uma semelhança perturbadora com o homem que Michael tentara apagar de sua memória.
— O banquete acabou, pelo que vejo — disse o jovem, a voz vibrando com um escárnio gelado.
Michael levantou-se imediatamente, a postura endurecendo.
— Quem é você e como passou pela guarda?
— Meu nome é Marcos — o rapaz deu um passo à frente, fixando os olhos nos de Michael. — E eu não precisei de convite para visitar meu próprio sangue. Eu sou filho de Silas. O que faz de mim seu irmão, não é? Ou será que o "Rei Michael" só reconhece a família quando ela usa seda e coroas?
O ar no jardim pareceu congelar. Dominic pousou a xícara, o olhar tornando-se alerta, enquanto Ester sentiu um aperto no peito ao ver o passado retornar na forma daquele rapaz.
— Silas não era meu pai — Michael sibilou, a voz baixa e perigosa. — Ele era um chantagista que tentou destruir esta família. Ele teve o fim que merecia.
— O fim que merecia? — Marcos soltou uma risada amarga. — Você o executou como um animal, sem julgamento, diante de uma multidão. Diga-me, "irmão", você vai me matar também? Vai mandar o carrasco para garantir que nenhum rastro da sua origem humilde permaneça vivo?
— Saia daqui antes que eu perca a paciência — Michael avançou, a fúria que ele pensou ter enterrado começando a borbulhar novamente. — Você não tem lugar nesta mesa.
— Michael, pare! — A voz de Maya cortou a tensão. Ela se levantou e caminhou até Marcos, parando entre os dois homens.
Maya olhou para o jovem. Viu nele não a ameaça que Michael via, mas a dor de um órfão que buscava respostas. Ela se lembrou da própria jornada de sua família e de como o perdão fora a única coisa que os salvara.
— Marcos — disse Maya, com uma doçura firme que silenciou a discussão. — Se você é filho de Silas, então carrega uma história difícil. Mas Tara não é mais um lugar de execuções e ódio. Se você busca justiça ou um lugar para pertencer, você é bem-vindo. Venha conosco para a Irlanda. Participe da nossa corte. Mostre-nos quem você é, além do nome do seu pai.
Michael olhou para a irmã como se ela tivesse enlouquecido.
— Você não pode estar falando sério, Maya! Ele é um risco! Ele é a prova de tudo o que...
— Ele é um homem, Michael. Como você — Maya o interrompeu com um olhar severo.
Incapaz de suportar a presença de Marcos e a benevolência da irmã para com o filho do homem que ele tanto odiava, Michael deu as costas abruptamente. Ele atravessou o jardim a passos largos, ignorando os chamados de Dominic.
Catarina, após lançar um olhar de advertência a Marcos e um aceno compreensivo a Maya, apressou-se em seguir o marido. Ela o alcançou em um corredor isolado do palácio, onde Michael socava uma coluna de pedra com frustração.
— Michael, pare! — Catarina segurou seu braço, forçando-o a olhá-la. — Você não pode fugir toda vez que o passado bater à porta.
— Ele me chamou de assassino, Catarina! — Michael gritou, os olhos faiscando de dor. — Na frente de todos! Maya quer levá-lo para Tara... ela quer colocar o fantasma de Silas dentro da nossa casa!
— Ela quer quebrar o ciclo, Michael — Catarina disse suavemente, segurando o rosto dele entre as mãos, tentando acalmar o batimento acelerado de seu coração. — Se você o tratar como um inimigo, ele será um inimigo para sempre. Ouça o que sua irmã está fazendo. Ela está sendo a rainha que você não conseguiu ser naquela época. Respire. Você não é mais aquele carrasco, meu rei. Não deixe que um rapaz de vinte anos roube a paz que você lutou tanto para conquistar.
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