Amor de Maresia

2 Cavalo de Guerra


Abri meus olhos sonolento virando-me para a janela, demorei para me acostumar com a luz, mas sorri ao ver que acordei no horário certo. Ainda estava escuro, mas o sol já estava começando a nascer, podia ver um pouco de seu brilho contra o mar enquanto o céu parecia de um azul escuro. Levantei-me rapidamente e vesti minhas roupas leves para o verão e calcei minhas botas de caminhada. Coloquei uma muda de roupa na mochila de couro jogando-a por cima de meu ombro. Tudo o mais rápido e de modo mais silencioso possível. Pular a janela já era rotina, no início cai de bunda uma ou duas vezes, mas felizmente ninguém estava olhando para saber. Meu quarto estava trancado, ninguém notaria que levantei.

Limpei a poeira de minhas calças ao chegar ao chão. Começando a andar devagar, abaixado, garantindo que ninguém da vila me visse, embora a maioria ainda estivesse dormindo, alguns já levantavam-se indo buscar agua ou observar o sol nascer e pedir algo aos deuses. Corri até o estabulo abrindo a porta com cuidado. Alguns cavalos me olharam incomodados com o barulho e outros continuaram dormindo sem me dar importância. Ouvi um relincho ao fundo e sorri.

— Bom dia Banguela!

Falei andando até a baia do garanhão negro que me olhava com a crina bagunçada.

Depois de acariciar a testa do animal andei ainda mais cuidadoso até o local do estoque de comida dos cavalos, o qual ficava atrás da ultima baia a esquerda. Como imaginei, Melequento estava atirado sobre o feno. Sorri para aquilo, ele disse que cuidar do estabulo seria seu trabalho temporário até a próxima pilhagem, afinal garotos de vinte anos precisam trabalhar ‘’ diferente de alguns por ai que tem o pai da vila como líder ‘’ é claro que depois disso eu o derrubei do cavalo, mas enfim.

Deixei minha mochila ao lado da baia de Banguela e andei até o quarto de sela. Peguei o que era necessário e voltei até meu cavalo que relinchava olhando-me ansioso. Quando entrei ele imediatamente começara a cheirar minha mão.

— Olha, eu sei que você quer petiscos, mas já esta muito gordo...

Como se realmente me entendesse, e eu às vezes realmente achava que ele podia, Banguela ergueu seu focinho bufando em meu rosto.

— Banguela! Esta bem, esta bem! – ri afastando meu rosto limpando-o com a manga da blusa — Eu trouxe cenoura para você.

Falei andando até a mochila puxando uma cenoura e partindo-a em dois pedaços, ele terá de se virar com aquilo, pois não quero demorar mais nenhum segundo.

Levei metade da cenoura até sua boca e o cavalo xeretou rapidamente antes de devora-la. Sorri para ele acariciando sua testa, ainda havia uma cicatriz ali...

Eu o encontrei há alguns anos atrás, após uma briga com meu pai. Eu fugira magoado chorando como um tolo. Estava apavorado, sozinho naquele lugar escuro... Até vê-lo. Relinchando com as patas da frente erguidas sobre as de trás. E aquilo, por mais estúpido que parece, me reconfortou, eu não era mais o único perdido.

Ele provavelmente fora um cavalo de guerra de um soldado que morreu durante a batalha. Podia ver claramente os cortes por suas patas, peito e testa. Cortes feitos por lanças, pedras e espadas.

Eu simplesmente não pude deixar aquele pobre animal ferido na floresta. Mas Banguela relinchava, dava coices e empinava quase que o tempo todo. Então aquele tornou-se meu novo objetivo, um novo pensamento para preencher minha mente além das broncas de meu pai. Foi difícil me aproximar dele no inicio, mas com o passar dos dias consegui medica-lo e o garanhão passou a relinchar quando me via e deixar que eu me aproximasse e o acariciasse. Já monta-lo... Bem, foi mais complicado... Depois de tanto tempo sem ter ninguém em seu lombo ele galopou como um louco ao sentir-me em suas costas, é, eu cai várias vezes. Mas ele se re-acostumou com o freio com o tempo. Estávamos tão unidos que quando eu me despedia dele para ir para casa, Banguela me seguia.

Por fim, eu acabei o levando para o estabulo de meu pai. Ele adorou Banguela, um cavalo forte e resistente, exatamente as características de uma montaria para guerra apesar de rir do nome que dei a ele. Quando vi o cavalo pela primeira vez não pude pensar em um nome melhor, quando ele relinchava ou bocejava parecia não ter os três dentes da frente. Eu demorei para descobrir que se tratava apenas de uma lama escura que ficara em seus dentes graças a pastagem suja que estava comendo. De qual quer modo, eu não queria deixa-lo nas mãos de meu pai.

Eu nunca participei de uma guerra, mas já ouvi histórias e muitas das vezes que meu pai sai a cavalo para uma guerrilhada próxima de nossa vila, a qual não era necessário um barco para transporte, ele voltava com um outro cavalo diferente e nunca mais vejo o anterior. É uma tática básica ferir a montaria do inimigo no peito para assim derruba-lo e diminuir suas vantagens além de poder mata-lo logo após a queda. Portanto tentei nunca me apegar a um cavalo sabendo que posso perdê-lo para algum soldado que o levasse para o campo de batalha. Então, eu fiz um acordo com meu pai. Como Banguela ‘’ não teria utilidade’’ para Stoico caso não fosse para a guerra, ele não iria gastar com comida e um tratador para ele. Portanto eu me ofereci para limpar sua baia, cuidar da comida, das ferraduras e da sua limpeza. Tem sido assim dês dos meus catorze anos, no inicio era difícil já que eu não passava de um magrela. Agora... Bom, todo o trabalho duro me ajudou um pouco.

Entreguei a ele o segundo e ultimo pedaço de cenoura e passei a encilha-lo enquanto Banguela se preocupava em cheirar o feno que estava no chão.

Quando finalmente pude monta-lo após colocar a mochila em minhas costas saímos sem fazer barulho, ou tentamos. Quero dizer, as ferraduras grossas de Banguela estalam sobre as pedras.

De qual quer modo, saímos no horário certo e à vila ainda estava vazia e silenciosa. Seguimos a trilha de terra pela floresta, é tão linda a esta hora do dia... Há flores desabrochando, animais acordando e alguns começando a cantar. As vezes dou a sorte de ver um macaco e até mesmo um veado filhote dormindo.

Sorri quando chegamos ao lugar de costume após sair da trilha e seguir por um caminho cheio de galhos e espinho que me faziam quase deitar sobre o pescoço do cavalo para evitar ser derrubado de cima ou cortado. Desmontei e amarrei o cabresto de Banguela em um tronco mais grosso retirando o freio em seguida para garantir que não se enredasse em algum galho.

— Volto logo.

Falei afagando o pescoço forte de Banguela que me observava ir embora. Arrumei minha mochila nos ombros e comecei a andar afastando os arbustos e os galhos do caminho. Não é a trilha mais agradável de se fazer graças aos espinhos e a lama, o que na verdade é uma vantagem para mim, quanto mais intocável o meu lugar seja, melhor. Se alguém descobrir que venho para cá pela manhã... Posso imaginar os boatos que iriam surgir, já sou visto como estranho por não participar de batalhas e ainda não estar casado, se souberem que me isolo todos os dias para mergulhar...

Afastei estes pensamentos ao ver o mar. Havia uma pequena praia, cercada por muitas rochas e arvores que por anos permaneceu esquecida pelos vikings... Até eu encontrá-la á quatro anos.

Acredito que um dia tenha sido um porto, pois algumas vezes quando mergulho encontro algumas madeiras com ferro retorcido no fundo do mar. Mas fora abandonado, provavelmente pelo fato de ser raso demais, posso imaginar a confusão se o casco de um navio atolasse na areia.

Andei até a beira do mar tirando as botas molhando meus pés na água, respirei fundo sentindo aquele ar salgado entrar por meus pulmões, como se os limpasse. O aroma do mar é tão bom... Mesmo que por pouco tempo, parece levar minhas preocupações para longe. Sorri pela sensação boa, me livrando logo de minha blusa e me atirando na água. O longo tempo que passei nadando aqui fez com que minha habilidade de nado se aperfeiçoasse, consigo passar um bom tempo debaixo da água, o que é ótimo pois gosto de nadar para o fundo e observar os peixes. Aprendi a abrir os olhos abaixo da água com o tempo. Ver todos aqueles animais a minha volta é fantástico, é mágico, tranqüilo e perfeito como um mundo paralelo principalmente quando...Ali! Há! Aquele peixe, aparece às vezes. A três anos comecei a vê-lo, nunca todos os dias, nunca o corpo todo, mas vejo a ponta de sua cauda fugindo de mim quando viro em sua direção. Segui-lo é uma idéia estúpida, quase me afoguei graças a isso uma vez, ele vai para o fundo e se esconde próximo as rochas ou os restos mortais do que fora o porto, quando o vejo, já estou segurando a respiração, então tentar avançar para o fundo leva tempo, o que consome meu ar rapidamente e tenho que voltar desesperado.

Observei seja que animal fosse ir. Já o desenhei centenas de vezes, com algum detalhe a mais, em outro ângulo, e nunca acho um peixe ou tubarão de nossa região assim. Sua cauda é do tamanho de uma cauda de tubarão, mas não a forma... É mais delicada, como a de um peixe, com escamas por todo o comprimento. No entanto, seu tom é único, eu definitivamente nunca vi algo assim. A cauda possui uma infinita mistura de cores, de azul claro para turquesa, menta, branco... É fantástico, como se brilhasse, principalmente quando o sol reflete contra a água, as escamas parecem cintilar, é maravilhoso. Algum ainda o verei, definitivamente, abanei para o ser que fora para longe, voltando para a superfície para respirar e mergulhando novamente. Fique lá por tanto tempo, mas é claro que precisei sair correndo ao olhar para o céu, droga, Stoico definitivamente já acordou. Corri para a areia tropeçando em meus próprios pés, puxei a muda de roupa da mochila vestindo as peças o mais rápido que conseguia, jogando a roupa molhada na mochila outra vez. Voltei a correr para a floresta. Puxei o cabresto colocando o mais rápido possível a rédea em Banguela, me atirando para cima do cavalo, ele correra relinchando em protesto. E mesmo ganhando vários arranhões nos braços pela velocidade em que passávamos pelas árvores, quando chegamos na aldeia, todos já estavam despertados e trabalhando.

Agora sim, to perdido. Passei uma mão por meu cabelo, ainda esta molhado, mas menos que antes, graças ao vento, posso dizer que é suor, talvez engane alguém. Passei uma mão por meu rosto virando as rédeas em direção ao estábulo, talvez ainda desse tempo, posso por Banguela lá e ir para quarto, seco o cabelo e digo que estava acordando, é, acho que é um bom plan...

— Hiccup! Já esta acordado?

Meu coração quase parou, puxei as rédeas abrindo um sorriso forçado virando para Stoico.

— É e-eu resolvi cavalgar um pouco antes, sabe, exercitar, Banguela já esta ficando gordo – Falei dando batidinhas de leve no pescoço do cavalo. Felizmente ele estava tentando pegar algumas folhas de uma arvore, o que comprovara, parcialmente, o que eu disse.

— É, esta mesmo, mas, enfim, tenho algo para lhe falar!

Serio, ele nem questionou minha escapada? Ergui as sobrancelhas. Stoico parecia realmente empolgando com isso, abrindo um sorriso de dentes amarelos no meio do emaranhado de fios ruivos de sua barba. Desmontei segurando as rédeas andando até ele.

— Sim?

— Vou enviá-lo em uma missão! Acredito que finalmente esta preparado para isso e terei orgulho em dizer que meu filho ira me representar em negociações com outros povos! Seu navio partira amanhã mesmo, sei que é cedo, mas precisamos fechar negócios com pressa.

Abri e fechei os lábios tentando encontrar alguma resposta, mas não conseguia pensar direito.

— Hornk finalmente aceitou conversar, acredito que finalmente teremos uma trégua de longa duração, você apenas precisa ir e conversar com ele, certo?

Meu coração estava disparando, nunca naveguei em mar aberto... É bem diferente entregar-se as águas sem terra à vista, é assustador. Além disso, nunca realmente participei de uma negociação, apenas acompanhava meu pai sorrindo e concordando com a cabeça quando necessário, lidar com hork, um líder poderoso, sozinho, era completamente diferente...

Hork já enviara soldados contra nós diversas vezes, assim como nós enviamos tropas contra ele. Eu não usaria a palavra cruel para defini-lo, mas, arrogante e pretensioso. Porém o ultimo inverno pesado parece ter afetado suas plantações e ele precisara de nossa colheita para se recuperar, o que é bom para nós, definitivamente, não queremos perder mais soldados. Mas tudo isso não significa que eu gostaria de falar com ele sozinho, não gosto de pensar no que pode acontecer se tudo desse errado...

— Pai...

Comecei a falar respirando fundo, eu....Talvez eu consiga dizer que eu não...

— Oh, já estou indo! – Gritou acenando para três guerreiros que o observavam, em seguida sorriu apertando meu ombro – Hiccup, não terei tanto tempo para instruí-lo quanto queria, mas, saiba que estou orgulhoso de você.

Não consegui responder a aquilo, outra vez... Concordei com a cabeça lentamente enquanto ele se afastava. Stoico... Raramente dizia isso...Respirei fundo, sentindo Banguela cutucar meu ombro com o focinho. Olhei para o garanhão enquanto ele me observava com aqueles grandes olhos curiosos, é no mínimo notável como cavalos podem perceber sua ansiedade. Suspirei acariciando sua testa.

— Vamos nos ver logo, eu prometo...

O resto do dia resumiu-se a preparação para a missão. Organizar mantimentos, estudar o caminho, anotar as exigências da negociação, escolher a armadura e a espada que seria levada, cumprimentar a tripulação e ensaiar na frente do espelho o que eu diria. Tsc, não sou bom em discursar.

O mais difícil fora dormir. Varias questões passavam por minha mente. E declarassem guerra? E se nos perdêssemos? E se Hork negar-se a conversar comigo? E se eu não conseguisse...? Virei-me para o outro lado da cama, assim, podia ver a janela de madeira aberta do outro lado do quarto. A noite era escura, com centenas de estrelas cintilantes no céu e uma enorme lua cheia. Fechei meus olhos ao sentir o vento frio da noite em meu rosto. Ainda posso ouvir o mar daqui, o som baixo e suave das ondas.

Antes de finalmente cair no sono, fiz um ultimo pedido aos deuses, Thor, por favor, protege-me nesta primeira jornada.

Notas finais
Voltey ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.