Amor de Flor
17 Kaum xya
Notas iniciais
Ver aquela figura sorridente chegar até mim, me fez alegre, e eu expressei isso em um sorriso. Às vezes eu sorria tanto que meus sorrisos eram desvalorizados, mas por um momento eu percebi quanto um sorriso é caro e profundo, eu deveria valorizar a Heiwa por está me fazendo sorrir naquele exato e perfeito momento.
— Eu estava preocupada com você — disse Heiwa com as mãos escondidas atrás das costas, vergonha talvez?
— Se preocupou com a pessoa errada. — Sorri. — Estou intacta.
— Sim, eu sei, mas eu gostaria de ver-te — disse-me.
— E sempre será bem-vinda.
— Eu trouxe isto para você. — A vi revelando o que escondia nas costas além de seus braços, eram lindas flores, as que eu reconheci como lírios — e entendi a referência .

— Ah, meu Deus, que lindas. Vou colocá-las na água.
Segurei com cuidados as flores e a abracei.
Caminhei até a cozinha com Heiwa para que eu acomodasse as flores em um vaso, sentamo-nos a mesa — que ganhou o vaso repleto de flores como ornamento — e eu percebi que Heiwa me encarava um pouco demais.
Não que eu fosse burra o suficiente para não perceber que ela tinha interesse em mim desde quando nos conhecemos, mas o que me passava a mente era: eu poderia ou não poderia me deixar levar?
Levando em conta que Liz já estava namorando, eu não poderia ficar sobrando.
Jogamos papo fora, descobri várias coisas sobre ela até. Sei que sua cor favorita é verde, que ela é ariana — apesar d'eu não entender muito sobre signos eu adentrei ao assunto, e descobri também que sua mãe morreu quando ela ainda era pequenininha.
Então começamos a entrar em um assunto mais romântico e eu senti o murchar das rosas de minha bochecha, fiquei um pouco irritada.
— Tem certeza que você está bem sobre tudo? — perguntou Heiwa, me despertando dos devaneios.
— Eu já disse que eu estou muito bem, até meus pais já me perdoaram... menos a Liz, mas isto não entra nesse caso.
— Ela não sabe o que está perdendo. — Heiwa segurou meu queixo. — Não fique triste por causa disso.
— Eu estou tentando — falei. — Mas a Liz é uma das pessoas por quem vale a pena ficar triste.
— Quando a pessoa vale a pena de verdade, ela nunca te abandona. — Heiwa se aproximou mais, ainda segurando meu queixo delicadamente. — Eu nunca te abandonaria.
Senti então seus lábios tocarem os meus tão suavemente, apenas um toque simples qual eu correspondi. E depois de todo aquele singelo momento nós nos olhamos, a primeira reação de Heiwa foi rir, então eu ri também.
— Por que estamos rindo? — perguntou Heiwa.
— Eu não sei, sério — respondi.
— Você só me conhece há... — Falhei nas contas. — Sei lá, pouco tempo e...
— E o quê?
— Você me beijou...
—É — comentou. — Eu gostei de vim te visitar.
— E eu gostei da sua visita — comento. — Talvez eu passe lá na sua casa para retribuir o dia de hoje.
Tá, isso foi estranho.
— Te vejo lá em casa amanhã, por favor. — Heiwa levantou-se.
Fomos até fora e eu realmente não queria que Heiwa fosse embora. Ela apanhou o celular do bolso e tiramos algumas fotos, talvez para ganhar mais tempo, então ela deu sinal de querer ir e sem pensar, ou pensando mesmo, eu puxei seu braço e a encontrei em um novo beijo. Continuando com bastante sentimento, os toques foram simples. Mas dessa vez eu senti uma coisa: a vontade de que a Liz estivesse no lugar dela. Espantei estes pensamentos idiotas quando o beijo terminou.
— Eu não quero ir embora — disse Heiwa.
— E eu não quero que você vá.
— Hoje foi estranho — comentou.
— Concordo, Heiwa.
— Me chame só de Rê — disse.
— Tudo bem, Rê.
A abracei uma última vez, ela foi embora.
***
Eu havia madrugado para cuidar dos assuntos concernentes a minha festa que aconteceria na próxima semana. Não que eu estivesse muito ansiosa, mas era uma festa de quinze anos: uma semana nunca seria o suficiente.
Mas eu já tinha fatos a considerar:
É uma festa fantasia.
Eu iria de lutadora de MMA.
Andressa iria de princesa.
Tudo seria decorado com flores de plástico.
E seria a minha melhor festa de aniversário.
— Maya, estou com fome — disse Andressa enquanto me observava listar as coisa.
— Cadê sua mãe?
— Já dormiu — disse.
— Que horas são?
— Tá dizendo aqui que são três só — ela apontou pro meu despertador.
— Três horas da manhã e você ainda está acordada? — espantei-me.— Mamãe vai me matar amanhã.
Minha irmã tocou meu ombro e tudo o que eu esperei foi um consolo, mas tudo que ela disse foi:
— Eu não ligo, eu só estou com fome.
***
O dia chegou e depois de levar uma bronca por ser irresponsável e não souber cuidar de uma criança de cinco anos, eu fui para casa de Rê, que ficava no andar acima da sorveteria da família dela.
— Eu não quis trazer flores, então eu fiz uma torta — comentei.
A única coisa que eu sei fazer na minha vida relacionada a cozinha é uma torta de cacau que eu mesma inventei. Talvez você não ache torta de cacau em todo lugar por aí, talvez você não ache nunca, pois é minha invenção.
— Fez uma ótima escolha — brincou Rê. — Pode colocar lá na cozinha. — Ela apontou onde ficava cômodo.
— Não tem alguém mais aqui? — perguntei ao me surpreender com a casa vazia.
— Meu pai costuma sair para cuidar de algumas coisas da sorveteria e já que eu não tenho outra pessoa além dele, eu fico sozinha quando volto da escola.
— Você também estuda a tarde?
— Não, pela manhã — disse-me. — Hoje eu não vou, pois é só ensaio para a comemoração de final de ano, e eu não vou fazer nada.
— Entendi — disse quando sentei no sofá.
— Eu trouxe uma coisa para você, é o convite para meu aniversário.
— Uau, amo fantasias — disse Heiwa. — Você vai vestida de quê?
— Estou sendo forçada a ir de lutadora de MMA, mas eu prefiro ir desse jeito a usar aqueles enormes vestidos de quinze anos.
Ela assentiu.
— Eu sempre quis te perguntar uma coisa, Rê — disse. — Qual é o significado do seu nome?
— Paz — disse.
— Faz mais que muito sentido.
— Por quê?
— É o que você me traz — comentei acomodando a minha cabeça em seu colo. — Eu quero realmente agradecer, pois eu estava literalmente na merda esses dias.
— Quando a gente gosta é claro que a gente cuida — cantarolou. Ela tinha uma voz bonita. Daquele tipo que traz aquilo que o nome dela significa.
— Eu amo essa música — comentei.
Um silêncio.
— A gente quer se beijar de novo, não?
— Sim, queremos — concordou Rê.
— Então vamos lá.
***
Seria loucura demais falar dessas semanas, pois estávamos realmente namorando, ou era ao menos o que diziam as redes sociais, o que diziam meus amigos, o que nós dizíamos.
Foi uma semana que passou rápido, o que antecedeu o dia do meu aniversário. Fora quando o garoto quem eu agredi já estava melhorando — sim, eu costumava visitá-lo.
Foi quando eu só via a Liz de longe, mas foi quando eu parei de querer ela para mim realmente, apesar de querer perguntar se ela havia visto meu poeminha, se ela estava disposta a perdoar... mas eu deveria lembrar que agora eu tinha a Heiwa, agora eu tinha paz, e, amanhã, eu teria minha festa de aniversário.
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