Amor de Flor
21 Jakaksikymmentä
Notas iniciais
Adormeci com as cartas da Liz sobre meu corpo. Eu ainda era um jedi quando acordei às sete horas da manhã. Quando percebi que minha mãe ainda dormia, eu fui diretamente ao banheiro.
Meu pai havia deixado um recado. Falou para eu me arrumar, pois passaria para me buscar. Ele me levaria para ver a Liz.
Vesti um jeans particularmente novo e um bastante justo, juntamente a uma regata folgada e um cardigã esverdeado.
Já estava calçando meu tênis quando meu pai mandou uma mensagem dizendo que passaria para me buscar daqui a alguns minutos.
Eu confio na minha mãe o suficiente para acreditar que a Liz está bem, mas eu tenho certeza que ela omitiria algo que viesse a me magoar. Meu pai, por exemplo, era verdadeiro o suficiente para simplesmente não falar nada sobre a situação da Liz.
Eu estava abocanhando um pedacinho de pão quando meu pai buzinou e saí aos passos rápidos tentando abocanhar a massa demasiadamente gostosa que estava na minha boca.
— Vamos! — apressou-me meu pai enquanto em colocava minha mochila sobre o ombro.
Sentei no banco do passageiro, sentindo o friozinho do condicionador de ar tocar a pele exposta. Agradeci por escolher o pequeno cardigã.
— Andressa não quis ir para casa nessa semana — falou meu pai um pouco amargurado. — Ela disse que é por causa de uma tal de Rê.
— É a Heiwa — esclareci. — Mas aposto que também é por causa da Liz.
— Mas eu queria que ela fosse, já que a próxima semana dela será na Itália.
E então eu percebi que passei tanto tempo pensando na Liz que esqueci que a viagem para Itália estava tão próxima. Por isso minha mãe ignorou de certa forma o paradeiro da Liz, devido seu estresse já ter sido provocado ao máximo com a viagem e tudo mais. Eu não havia ajudado em nada.
— Onde você vai passar as férias? — perguntei ao meu pai, pois sabia que ele sempre iria a algum lugar.
— Melissa quer conhecer outro país. — Melissa era minha madrasta. — Talvez a Itália também. — Meu pai deu risadas.
— Sinceramente, minha mãe e a Melissa juntas... — falei. —Tsc, tsc, tsc...
— Eu só estava brincando — disse meu pai. — Talvez eu espere você e a Andressa voltarem, para ir conosco.
— Aposto que seria demais, papai! — exclamei.
Meu pai ficou ligeiramente avermelhado. Nosso momento de empolgação durou o suficiente para chegarmos ao hospital onde Liz estava.
Eu já estava abrindo a porta para sair do quarto quando meu pai me segurou pelo braço.
— Ela está com o olho inchado, os cabelos bem bagunçados e tem uma grande... uma grande ferida no pescoço dela.
Eu senti meu rosto esquentar e uma lágrima querer se chocar contra o meu colo.
— Só estou querendo que você não se impressione quando ver — ele falou de vez.
— Pai... eu... — Solucei.
— Está tudo bem, meu amor — disse meu pai posicionando minha cabeça em seu ombro.
— Não, não está — falei sem impedir as lágrimas que escapavam pelo meu olho ou o líquido que saía pelo nariz quando eu chorava demais e verdadeiramente. — Eu deveria ter cuidado dela... deveria ter...
— A Liz conversou comigo, querida — interrompeu meu pai. — Ela me contou que você foi uma das melhores coisas que já aconteceu a ela. Ela disse que metade de tudo o que ela é estava escondido, até você chegar e mostrar pra ela o que ela realmente ama, o que ela realmente é. Infelizmente, tem gente que acha isso errado, mas eu prometi dá todo o apoio pra ela, o que sua mãe também prometeu e o que eu tenho certeza que você nem precisa prometer.
Eu não consegui falar nada, apenas chorar. Fiquei com uma dor incômoda na região da testa depois de tanto choro, mas eu finalmente tinha meu tempo com Liz. Exatamente uma hora. Das oito e meia às nove e meia.
E quando eu dei os primeiros passos para dentro do quarto onde ela estava hospitalizada, eu a vi sentada sobre a maca, com um controle de videogame em mãos e seus olhos estavam focados na televisão.
E ela estava realmente acabada. Seus cabelos estavam soltos e formavam fios emaranhados ao redor da sua cabeça. De qualquer forma, eu achava lindo seu cabelo crespo-cacheado. Seu olho esquerdo era o que mais chocava. Ele estava aberto e parecia funcionar bem, mas, ao redor dele, tudo estava roxo. Um roxo forte o suficiente para roubar sua cor de chocolate.
Seu pescoço estava enfaixado, obviamente a ferida qual meu pai havia se referido. Mas eu não liguei pra isso, não quando a Liz me olhou, balançando sua maravilhosa juba e sorriu para mim.
— Você demorou — foi o que ela disse.
Eu sentei ao seu lado na maca e recebi um abraço, qual eu sentia saudades de receber.
Passamos uns cinco minutos abraçadas quando as palavras escaparam da minha boca sem que eu pusesse impedi-las.
— Eu te amo, eu te amo, eu te amo — sussurrava enquanto ainda a tinha amarrada ao meu pescoço.
Liz beijou minha bochecha em um ato estalado que me fez sorrir.
— Eu só queria agradecer, Maya — disse Liz. — Você que pediu para seu pai vir enquanto ele me... — Ela hesitou. — Enquanto ele me batia e se seu pai não tivesse chegado, eu estaria bem pior.
— Como assim pior? — perguntei. — Não vejo nada de errado em você.
Ela deu uma risadinha.
— Amei seu cabelo — falei —, amei sua roupa, principalmente o decote atrás.
Liz explodiu em risadas enquanto se aproximava para um beijo que eu nunca mais tinha dado.
O sabor desse beijo era diferente de todos os outros. A Liz sabia exatamente dar um gosto diferente a tudo que ela fazia. Mas eu sabia que aquilo era, sobretudo, um amor de verdade, mesmo que fosse totalmente maluco e desorganizado.
Eu pude sentir o cheiro bom que tinha seus cabelos e o friozinho bom que sempre morava em suas mãos.
— Eu li suas cartas — falei.
— As da minha caixinha? — perguntou Liz.
Eu assenti.
— Queria te mostrar mais tarde, mas já que seu pai teve que tirar minhas coisas lá de casa eu aproveitei para te dar as cartinhas.
— Como assim tirar suas coisas da sua casa? — perguntei confusa.
— Bem — começou Liz. —, sua mãe quer me hospedar.
— Sério? — Sorri. — Eu ficarei tão feliz!
Mas Liz tentou disfarçar uma expressão triste.
— O que foi? — perguntei. — É sobre seu padrasto?
Castiguei-me de ter citado aquele miserável, mas Liz pareceu não se importar.
— A igreja não o quer mais como pastor, lógico — disse Liz puxando sobre seu travesseiro um jornal local — que eu nunca lia.
PASTOR E AGRESSOR
A hipocrisia da igreja é mais uma vez comprovada.
O pastor de uma igreja local, chamado Luiz Francisco de Souza, foi denunciado pela própria enteada neste domingo.
Maya passou os olhos pelas outras palavras rapidamente e os arregalou ao ler o final.
O motivo das agressões seria a orientação sexual da enteada. “Eu peco por amar e ele peca por me odiar e ainda por cima, me agredir. Ele deveria ter esperado a justiça de Deus sobre mim e eu deveria fazer o mesmo para com ele, mas eu não vou esperar nem mais um segundo para vê-lo ter o que merece” falou a agredida emocionalmente e fisicamente afetada.
— Você deu depoimento para esse jornal? — perguntei.
— Sim, via Skype — explicou. — Foi legal ver a vida dele estragada.
— E sua mãe? — perguntei.
— Minha mãe morreu desde o momento que ela se casou com esse idiota — falou Liz secamente. — Eu ficarei feliz de ficar com vocês por enquanto ao invés de ficar com minha mãe.
— Como assim...por enquanto? — perguntei. — E depois, aonde você vai?
— Eu vou fazer faculdade — disse Liz como se isso fosse óbvio. — Mas não aqui.
— Você vai pra longe? — perguntei sentindo o enfraquecer na minha voz.
E como se minha vida dependesse da resposta, Liz hesitou para responder, mas o tempo ia passando e ela não pode evitar assentir.
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