Amor de Flor
1 I
Notas iniciais
Encarei o horário estampado na televisão e duvidei. Como eu tinha me atrasado tanto assim? Corri como uma louca pela casa vazia, eu calcei os sapatos com uma pressa ainda desconhecida, desci as escadas quase deslizando sobre os degraus e quando eu saí de casa, passaram os dois primeiros ônibus. Quando isto acontecia, eu era obrigada a esperar o coletivo em outra parada. Corri até o ponto mais afastado e o que eu vi foi a razão de tudo isto aqui.
De primeira, eu não sabia qual seria o resultado de tudo o que eu estava fazendo. Eu simplesmente vi uma garota, e como se eu nunca tivesse visto outra, olhei-a feito uma pessoa sob o efeito de hipnose. Eu estava completamente perdida naquele estilo que brilhava mais que o sol quente às treze horas.
Suas roupas seguiam um estilo que eu conhecia e admirava muito, não é necessário citá-lo aqui, mas que denota bastante da personalidade de alguém. Apenas tentei encará-la bastante, mas não queria que ela percebesse o assédio — cometido por uma pessoa que não era de seu sexo oposto e assustá-la era o que eu menos queria fazer.
Eu queria falar com ela, eu deveria fazê-lo, mas a vergonha tomou conta do meu ser nada tímido. Então tomei o mesmo ônibus que ela e recebi apenas um olhar. Talvez ela tentasse descobrir qual era o livro que eu lia ou algo do gênero. Era só perguntar, eu lia Orgulho e Preconceito.
Bem, eu suponho que gostariam de saber quem eu sou e isto é muito fácil de ser respondido. É apenas um nome: Maya. Eu tenho apenas catorze anos e estou no Ensino Médio. Sou fisicamente baixa, pálida e tenho cabelos escuros. Meus costumes estranhos são muitos, entre eles — o que rendeu meu apelido — é o de usar uma coroa de flores diariamente. Por isso, as pessoas costumam chamar-me de Flor. Todas as pessoas, com exceção da minha melhor amiga.
— Maya, acorde! — gritava minha colega. — Estamos na primeira aula, imagine como você estará na última.
— Poupe-me — resmunguei. — Estou com sono.
— Isto eu percebi, mas não é hora para dormir.
Eu ignorei conselho, mas não consegui voltar a dormir novamente. Depois de um tempo, no intervalo, eu voltei a pensar na menina do ponto de ônibus.
"É, definitivamente, eu estou prestes a me decepcionar", pensei. "Novamente."
Decepcionar-me era algo inevitável. Eu sabia tudo o que aconteceria a partir deste encontro inesperado com uma garota desconhecida. Primeiramente, eu pensaria na perfeição dela, mas logo descobriria seus defeitos e a magia terminaria. Seguidamente, eu estaria sem ninguém para criar expectativas inexistentes e procuraria outra vítima. É um ciclo vicioso infindável.
Voltei para casa pensando em como conheceria aquela menina e quando percebi, eu já tinha desabafado com um amigo. Ele era um bobo, eu admito, mas a minha saída poderia estar naquela mente idiota.
— Eu acho que farei cartas. Como admiradora secreta — falei.
— Mas...
— Serei como uma mulher anônima, mas não quero ter problemas com a polícia por persegui-la — o interrompi.
— Não seria mais fácil...
— Fácil? Fácil é segui-la, mas eu vou perder o horário da escola. Eu preciso saber o nome dela! — exclamei sem prestar atenção no que ele dizia.
— Por que você não vai falar com ela? — questionou-me.
— Por quê? — Eu pensei um pouco no porquê. — Por que sim.
— Então vai lá ser uma psicopata! Quando você for presa, saiba que eu nunca te conheci. — Meu amigo esbanjou uma face irritada.
— Estamos no Brasil! — exclamei.
— O que isto quer dizer?
— Que enquanto eu estive na menoridade, posso cometer quantos crimes eu quiser — falei —, se bobear quando for maior de idade também!
— Isso soou nada patriótico.
Sorri em resposta pensando nos meus planos para com a menina do ponto de ônibus.
***
Infelizmente, os dias que se seguiram foram sábado e domingo, eu não fui a escola e, consequentemente, não a vi. Mas segunda-feira, eu atrasei-me propositalmente e a esperei no mesmo ponto de ônibus. A menina surgiu, mas acompanhada de alguém. Era outra garota, alta, mulata com cabelo escuro. Ela usava uma blusa da lendária e inexistente marca Ramones. Atualmente, é moda usar estas camisetas e existem pessoas que ainda desconhecem que Ramones é uma banda, não marca.
Enfim. Neste dia, seu estilo estava completamente mudado. Era mais feminino e camuflado. Não chamou tanta atenção, mas a blusa com estampa indiana foi a melhor coisa. Eu queria ter um terceiro olho naquele momento e estar usando um vestido indiano que tenho, mas, para minha infelicidade, estava eu lá: fardada.
Eu a encarei novamente e ela percebeu. Deve pensar que eu sou um tipo de louca sem nada a fazer que escolhe pessoas como ponto fixo. Sim, eu devo ser mesmo. E olhando-a mais, eu percebi que a boca dela era bem desenhada e seu rosto tinha um formato engraçado, mas não tirou sua beleza.
“Eu vou lá”, pensei. “Vou falar com ela!”
Caminhei, cautelosamente, chegava imperceptível, quando um ônibus parou e dentro dele uma mulher começou a falar com a garota. Ela lhe entregou uma coisa e foi embora. Eu pensei que ela tomaria o ônibus, mas não foi isso o que aconteceu.
Em casa, junto com minha melhor amiga, nós decidíamos qual seria o plano. Ela me compreendia bastante, mas falou que não apoiava esse lance de crimes e perseguição. Eu sempre sorria em resposta.
— Eu não vou cometer crime algum, só farei algumas cartas e quero um entregador.
— Eu não entregarei nada! — exclamou.
— Você vai sim — disse-lhe. — Lembra-se daquele garotinho por quem você se apaixonou? Fui eu quem perguntou a ele se sentia o mesmo.
— Mas isso não é um crime!
— Entregar cartas também não é! — rebati.
— Mas ela vai perceber que eu converso com você e descobrirá. — Minha amiga pensava em alguns argumentos.
— Você esqueceu que nós não tomamos o mesmo ônibus que ela. Apenas quando eu me atraso e eu nunca me atraso.
— Mas ela vai me perguntar muitas coisas — argumentou. — O que eu falarei?
— Que uma menina te pediu para entregar a carta para ela, mas que você não conhecia a figura.
Minha amiga pensava.
— Por favor — continuei —, pense no meu bem-estar.
Ela revirou os olhos.
— Se você entregar, eu te dou um livro.
— Dois — negociou.
— Fechado — falei.
E era assim que nós resolvíamos as coisas.
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