Notas iniciais
Os números dos capítulos são em idiomas diferentes, hoje, em inglês.

Liz não saía da minha cabeça. Seus cachos, sua postura, sua cor. Tudo era tão meticulosamente feito para eu me apaixonar. Eu estava no lugar certo, onde eu tinha sua melhor visão, e na hora certa, no exato minuto em que eu avistei os cabelos dançando ao ritmo do vento.

Sim, posso deixar claro várias forças de atrito que querem separar-me do meu amor, e posso citá-las até.

Ela era

Ela é minha concorrente em um concurso importantíssimo.

Ela não me conhece.

Eu invadi a casa dela.

— Filhota, como vai a redação?

— Está andando, mãe — menti. — Às vezes vem muita coisa para cima de mim, eu não consigo me organizar, mas eu juro que vou conseguir dar um jeito.

— Tudo bem, amor — respondeu-me. — Vou fingir que entendo estas tuas coisas de escritora.

Eu sorri em resposta e esperei ela ir embora.

Então comecei a pensar em Liz novamente.

Também pensei em um plano infalível para recuperar meu cartão com violetas. Mas eu precisava de ajuda. Eu não poderia chamar Mar, pois Liz já a conhecia como entregadora das cartas, mas eu poderia chamar o Felipe.

Desenterrei meu celular em meio às cobertas e procurei o número do garoto. Seu contato foi achado e eu nem precisei escutar a melodia chata de espera, pois ele me atendeu logo. Que garoto desesperado.

— Flor?

— Oi, Felipe.

— Tudo bem?

— Sim, sim. Eu estou bem, quer dizer, eu preciso de uma ajudinha sua aqui.

— Ah, claro! — empolgou-se. — Onde está?

— Em casa — respondi. — Você pode vim mesmo?

— Sim eu posso, já estou indo.

— Obrigada, obrigada mesmo. Estou te esperando.

Desliguei.

Sorri bastante depois de enterrar meu celular novamente entre os cobertores. Gente apaixonada é a espécie mais retardada. Você acaba sendo uma marionete sendo controlada por alguém. Eu me senti mal por controlar a marionete, neste caso, o Felipe, mas ele mesmo que quis vim. Então não posso fazer nada.

O plano consistia em ir à casa de Liz, com meu amigo apenas para ser convincente. Seríamos estudantes entrevistando moradores do bairro para falar um pouco sobre poluição das praias locais.

Sendo que ela morava significativamente longe da praia, uns dez minutos de caminhada, eu não sei se ela desconfiaria. Perto do litoral, todos nós vamos à praia e é impossível uma mulata linda daquela negar-se ao prazer de mostrar suas curvas entre ondas azuis.

Enfim, como estou com vontade de listar probabilidades, listarei as chances do meu plano dá errado.

Felipe não aceitar me ajudar quando descobrir do que se trata.

A mãe de Liz, ou Liz, negar participar da falsa entrevista.

A carta já ter sido descoberta por ela.

E muitas outras coisas que poderão acontecer.

Trinta minutos depois da minha ligação, Felipe chega. Minha mãe atende a porta e o trata muito bem. Eu o vejo sentando sobre o sofá como se me esperasse ver trajando um lindo vestido de gala ou que nós fôssemos transar a noite inteira. Bem, na verdade eu só queria me aproveitar da cegueira de amor dele mesmo.

— Felipe — digo com empolgação. — Pode vim.

Nós caminhamos até meu quarto e ele não diz nada. Eu não estava usando nada bonito demais para deixá-lo “sem palavras”, só um moletom mesmo.

— Hoje vamos ser verdadeiros espiões — brinquei. — Incialmente, eu pensei na Mar, mas não sei se ela, sabe...aguentaria o tranco.

Menti, de fato, para inflar o ego dele e conseguir o que queria. Com exceção da minha mãe, isto costuma funcionar com muita gente.

— Você quer espionar quem? — ele pergunta preocupado.

— Por que a pergunta? Está com medinho, hein?

— Não, claro que não! — Ele cora.

— Então não reclama — digo. — Você está dentro ou não?

— Não sei... o que eu ganho em troca?

— Eu não posso virar heterossexual ou gostar de você, mas eu posso arranjar você com alguma menina.

— Fechado — ele falou.

Eu fiz Felipe me esperar no sofá da sala. Então eu me troquei. Acabei por usar um macacão estampado com uma coroa de flores trançadas anteriormente por mim mesmas com flores de boldo. O cheirinho chegava a ser enjoativo e eu até pensei que alguma senhora iria querer meus raminhos para fazer um chá quando eu andasse na rua daquela maneira, mas Felipe e minha mãe aprovaram. Decidir confiar neles dois.

Na rua, Felipe parecia com muitas dúvidas.

— O que vamos fazer?

— Você não vai fazer nada, apenas eu — falei. — Eu só preciso pegar uma coisa na casa. Eu posso conseguir um chaveiro dela ou posso tentar pegar enquanto ela está lá mesmo.

— Pegar o chaveiro é melhor — ele diz.

— Concordo com você — respondo. — Agora fique caladinho que a gente já chegou a casa dela.

Eu toquei a campainha uma vez e esperei dois minutos para ser atendida. Eu já havia me esquecido completamente de Felipe até que ele foi hipnotizado, assim como eu, com a beleza da garota que se aproximava. Cachos, mulata, curvas, o olhar. Sim, aquela era a minha Liz.

Ela estava vestida com um short jeans curto e com uma blusa com alguma frase escrita, tal qual eu traduzi como “ eu sou seu problema”. Esta é uma música-tema de um cartum em qual se especula um romance lésbico. Este romance foi confirmado pelos dubladores da série.

Então ela era... Não. Eu não poderia deduzir que ela era lésbica ou algo do tipo, mas eu tive a conclusão que ela simpatizava a ponto de querer comprar uma camisa de um casal LGBT.

— Posso ajudar? — ela perguntou. Sua voz era tão doce uniforme...

— Ah, sim, pode sim — falei. — Sua mãe está?

— Infelizmente não — diz Liz. — Só com ela?

— Na verdade não. É um trabalho escolar — respondi. — Se você quiser, poderia responder nossa entrevista sobre a poluição dos mares? É como uma enquete, estamos fazendo pelo bairro todo e tudo mais.

— O bairro todo? — impressionou-se. — Que trabalhão, hein!

— Sim, é realmente — falei. — Mas é rapidinho.

— Então tá. Podem entrar. Vou responder as perguntas sobre a poluição nos mares.

Entrei pela segunda vez naquela casa. Liz nunca tinha me visto, a menos ao me olhar de soslaio para mim no ônibus. Eu e Felipe nos sentamos sobre o sofá e Liz se sentou em uma poltrona. Eu me lembrei de que deveria agir como uma pessoa que não a conhecia.

— Primeiramente, como é seu nome? — perguntei um pouco nervosa.

— Meu nome é Liz.

Sim, eu sabia disso.

Notas finais
O que eles vão aprontar na casa de Liz, hein?