Amor de Flor
7 Asaa
Notas iniciais
Felipe teve que criar um site para o Colégio falso PAG, eu pedi, pois sabia que Liz pesquisaria. Eu me senti culpada, pois realmente não queria mentir para a Liz. Tudo aquilo virariam uma bola de neve, cada vez maior e qualquer chance que eu poderia ter com ela sumiria.
Claro que eu não estava tão entregada assim, eu estava empolgada em tudo. Juro que me sinto envergonhada em dizer, mas eu me lembro do que a Liz estava fazendo no quarto, quando eu estava escondidinha.
Tudo bem, aquilo não me livrava de todos os problemas, pois eu havia invadido a casa dela — e roubado o molho de chaves dela — , invadido a prioridade dela também e mentido para ela. Eu estava tão enrascada que não conseguia respirar direito. Para piorar a situação, ela era minha concorrente no concurso de redação. E, com modéstia na China, eu tenho certeza de que ganharei.
O concurso é para jovens. Hoje em dia, os jovens não ligam muito para estas coisas. Eu sei que eu estou sendo grossa e generalizando todos os jovens sabendo que muitos escrevem bem. Mas, resumidamente, eu quero dizer que eu sou a melhor.
Visto isso, terminei meu texto para o concurso. Escrevi uma prosa poética, meu gênero favorito no qual eu posso colocar várias palavras difíceis, complicadas e sem sentido para que as pessoas achem legal. Mas, na verdade, parece que uma pessoa sob o efeito de LSD tinha escrito aquilo — como as composições dos Beatles.
— Filha, como você conseguiu escrever isto? — disse minha mãe surpresa. — Eu conseguir sentir tudo... é tão real.
Tudo bem ela ter se identificado com minhas palavras de drogada, mas tudo o que eu coloquei foi aleatório e sem sentido, mas não é isto que é a poesia?
— É, mãe, eu estava inspirada.
— Deu para perceber! Você arrasou, mamãe está muito orgulhosa de você.
Para minha mãe chegar ao pondo de referir-se a ela mesma na terceira pessoa, o orgulho era muito mesmo. A ponto de ser mágico ou milagroso, sobrenatural.
— Agora vá se arrumar, a escola te espera.
— Tudo bem, mãe.
E eu fui.
Minha arrumação consistia em tomar banho e vestir a farda. Escolher a cora de flores é um fato bastante importante também. Para hoje, eu acabei por escolher uma com begônias falsas, aliás, todas eram sintéticas. Com exceção das minhas violetas.
Hoje eu estava pensativa. Conto-te o porquê. Eu queria falar com a Liz, mas e não podia fazê-lo hoje. Eu queria muito abraçar aquele corpo lindo, cabelos lindos, toda linda. Suspirei agoniada. E se ela não gostasse da minha aparência? E se ela simplesmente falasse desconcertada “ah, você que é a Flor?” com uma cara de quem comeu limão com sal — não sei de onde tirei essa combinação.
Mas eu tinha uma carta. Encontrei Mar depois de alguns minutos, ela vinha alegre como quase todo o sempre. Via-a chegar perto de mim e abrir uma enorme sorriso.
— Quer que eu te conte uma coisa legal?
— Claro! — respondi minha amiga devolvendo o entusiasmo que ela demonstrava.
— O Felipe está gostando de mim.
— Sério? — perguntei. — Vocês estão em um lance?
— Não — respondeu ela. — Não ainda.
— Mas se ele gosta de você e você dele, por que não?
— Ele me chamou de gatinha, não me pediu em namoro.
— Ele te chamou de gata e você acha que ele está na sua.
— Sim — respondeu. — Alguma coisa contra?
— Não.
— Você tem algo contra sim! — Ela mudou de expressão. — Por que não tenta me apoiar?
— Porque eu acho que um elogio não diz tudo o que você está achando. Isso é se iludir demais.
— Se iludir? — falou Mar irônica. — Você falando de ilusões?
Eu assenti em resposta.
— Ao menos não sou eu a menina que escreve cartas anônimas para uma garota que nem conhece e acha que isto vai dá certo. Isto que é se iludir! Ela nunca vai gostar de você, Maya. Acorda para a vida, vá! — Mar me olhou maldosamente.
Eu não consegui responder. Quem conseguiria?
Então Mar pareceu perceber a besteira que fez. Ela transformou o olhar maldoso em um olhar quase que compreensivo, as mutações continuaram. Logo ela me olhava como alguém que sentia pena, muita pena.
— Desculpe-me, Maya — continuou a dizer. — Eu não queria...
— Você não sabe o que eu sofro por ser lésbica, Mar — falei. — Você não sabe o que foi lidar com isso com apenas doze anos de idade. Assim que eu me redescobri, eu sempre soube que não teria mulher chovendo na minha horta, mas eu me aceitei e me aceito todo dia. Eu me aceito gostando da Liz, escrevendo cartas para garotas estranhas, esse é meu jeito.
Anote também que esta nossa discursão foi um erro imenso. Não vimos a hora passar, assim como os ônibus. Eu olhei de soslaio para o outro lado da rua e vi Liz andando. Ela estava caminhado para a parada de ônibus.
— Mar, é ela — falei mudando totalmente de assundo.
— O que é que tem? Ela não te conhece, vai achar que é uma amiga qualquer minha.
— Não, ontem eu fui à casa dela com o Felipe, para resolver um erro meu.
— Com o Felipe?
— Não é hora para sentir ciúme — falei. — Eu tenho que me esconder!
— Corra, ainda dá tempo.
— Ótima ideia, apenas segure esta carta. Dê para ela. — Eu a entreguei a minha carta já pronta.
— Tudo bem, amiga. — Mar segurou a folha de papel. — Desculpe por brigar com você.
— Não tenho tempo para isto! — falei. — Tchau!
Enquanto eu corria, mil pensamentos surgiram na minha mente. Eu pensei na Flor e no concurso, no Felipe, na Mar e naquele vídeo idiota sobre a praia poluída, sobre o falso colégio PAG. Eu estava tão aluada, extremamente louca que não percebi quando eu tombei, tropecei em alguém ali perto e caí com a bunda no chão.
— Ei, você está bem? — perguntou uma voz interessante.
Eu levantei envergonhada, totalmente corada, assenti algumas vezes e quando finalmente encarei a pessoa eu abrir um sorriso imenso. Uma garota mais alta que eu — quem não era? — com cabelos no pescoço e olhos azuis acinzentados. Ela era gordinha, mas as roupas folgadas disfarçavam bastante. Ela era um caminhoneiro típico e evidente.
— Estou bem sim — falei. — Ah, que vergonha...
— Vergonha? Nem precisa, eu não ligo.
— Mas eu ligo, não gostaria de conhecer uma menina como você indo de cara ao chão.
Ah, vá. Eu não podia deixar essa escapar!
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