Notas iniciais
Estes tracinhos no títulos equivalem a "três", no chinês.

Acordei cedo na quinta-feira, mas não preparei uma nova carta. Resolvi passear pela rua da minha destinatária vestida mais casualmente, apenas um short bege e uma blusa larga estampada com a frase “eu acordei assim.” Poderia ser algo positivo se eu não estivesse parecendo um zumbi vagando entre a neblina da manhã.

Infelizmente, eu não a encontrei. Mas resolvi entregá-la uma folha dobrada ao meio com uma violeta imprensada entre as duas páginas. Na frente escrevi:

Não trouxe cartas, trouxe flores.

Flor.

Eu já estava colocando a folha no lugar reservado ao correio quando eu ouvi um ruído vindo da casa dela. Olhei em diagonal e alguém saía da casa. O distraído apenas não me viu, pois ele estava conversando com alguém no celular.

Pela voz, notei que era uma mulher. Uma mulher que obviamente não era minha destinatária, mas talvez mãe de tal. Eu me escondi e escutei o que a mulher falava pelo telefone.

— Meu Deus! — gritava a mulher. — Quem vai cuidar da Liz? Ela ainda está dormindo, só acordará umas treze horas para ir ao curso. Ela está sem a chave. Como vou deixar a porta destrancada com minha filha dentro de casa?

Eu não conhecia esta mulher, mas eu já a amava. Descobri então que o nome da minha destinatária poderia ser Liz e que ela estava sozinha e dormindo em uma casa destrancada. Eu conheço mães que falam demais, mas esta acabou de falar mais que tudo o que está escrito na bíblia.

A esperei sair e abri o portão da casa de Liz com facilidade. Caminhei lentamente até a porta que poderia ser barulhenta demais, mas se Liz dormia, eu poderia arriscar. Meu coração ameaçava explodir e eu tive que fazer um esforço para a maçã que eu comi mais cedo continuar no estômago.

Abri a porta silenciosamente. Não houve um ruído sequer. Então observei a casa da menina. Era uma sala grande que dividia o espaço com uma mesa de vidro que combinava com as paredes brancas e altas.

Andei o suficiente para achar um corredor, nele erguiam-se duas portas de madeira escura. A primeira, fechada e a segunda com uma fresta aberta. Espionei pelo espaço aperto e não acreditei no que vi. A minha destinatária.

Eu abri mais um pouco da porta. O barulho foi tão pouco que nem eu mesma consegui detectar. Meus pés movimentaram-se lentamente até encontrarem um tapete felpudo estendido sobre o chão. Então me escondi dentro duma cesta, reservadas para roupas...sujas.

Nada fedia lá dentro. Eu fui abençoada com um tamanho bizarramente diminuto para minha idade e fiquei quietinha dentro daquela estrutura de palha trançada. Os padrões hexagonais permitiam que eu tivesse uma ótima visão do lado de fora: da minha destinatária, agora eu sabia que era Liz.

Tentei acomodar-me no cesto e nem percebi quando a garota começou a mexer-se sobre a cama. Ela pareceu acordar assustada. Da sua boca, ressoou ago estranho. Como gemidos. Minhas pernas pareciam derretidas após aquele ver.

Ela se levantou e retirou a blusa. Sua pele estava tão suada que eu me assustei. Toda aquela neblina que dançava lá fora denunciava o frio...e ela estava, evidentemente, quente. Mas não irei discordar, aquelas curvas me tiraram o ar (eu também não respirava para não fazer barulho).

Eu queria mais, queria ver aquela pele brilhante, em um tom amarronzado com nuances dourados. Era linda. Consegui perceber seus cachos presos levianamente e seu pequeno short que se conjuntava com a blusa, um pijama.

Seus seios eram medianos, mas balançavam juntamente aos movimentos da dona. Sua barriga não era totalmente inexistente ou perfeita. Ela tem uma gordurinha extra. Nada demais. Mas com uma cintura bem torneada.

Ela saiu do quarto com uma toalha sobre as costas. Ela iria tomar banho e, provavelmente, voltaria para guardar as roupas no cesto. Com certeza, eu estaria ferrada e ela me odiaria para todo o sempre, e mais — se pudesse.

Eu não vi a hora, mas eu corri. Corri bastante para fora da casa. Quando fui deixar meu bilhete com as flores prensadas me desesperei. Eu os deixei cair no cesto de roupas sujas.

****

O colégio estava hoje, excepcionalmente, vazio. Crianças do maternal pintavam quadros como se tivessem fazendo um bom trabalho. Nós, como boas pessoas, sempre soltaríamos um elogio. Mas aquelas árvores pareciam brócolis.

Esperei minha amiga chegar. Mar não demorou muito e eu fiquei preocupada dela não ter encontrado com Liz e ter pegado minha carta, mas sua expressão alegre demonstrou outra coisa.

— Olhe o que eu tenho! — gritou. — Olhe! Olhe!

E eu olhei.

— Ela me entregou hoje mesmo — continuou Mar. — Tem cheiro de flores.

— Você cheirou minha carta? — perguntei.

— Sim, e se reclamar cheiro novamente. — Ela aproximou as escritas do nariz, mas eu tomei minha folha de papel.

— É meu! — Peguei a folha.

Não pude resistir. Li a carta assim mesmo.

Olá, cara perseguidora.

Eu deveria ter medo de você. Juro que teria caso não escrevesse tão convincentemente a ponto de me fazer gostar de você. Fico feliz em ganhar uma admiradora, mas admito que por você ser uma garota, isto confunde meu cérebro.

Desculpe-me,

Liz.

As palavras eram-me confusas. Soaram estranhas e pouco coesivas. Tudo o que ela havia dito, resumidamente era em duplo sentido.

“...me fazer gostar de você.” Gostar?

“...por você ser uma garota, isto confunde meu cérebro”. Heterossexual, de fato. Mas era óbvio que uma garota perfeita assim não seria tudo o que eu quisesse ou preconceituasse.

Mas eu só conseguia pensar no corpo dela sem blusa. Minha visão incrível da manhã. Aquele seio coberto apenas por um sutiã rendado. Por que ela estava tão suada assim? Talvez procurando prazer, masturbando-se. Eu poderia fazer por ela — e teria o maior prazer em fazê-lo — se assim ela permitisse.

Eu não deveria esquecer também das minhas violetas. Se aquele cartão for achado por ela, no cesto de roupas sujas, ela saberá que eu estive na casa dela e ficará assustada. Eu só tinha duas alternativas e todas se baseavam em voltar para lá.

Eu deveria voltar para casa de Liz.