Amor de Flor
8 åtta
Notas iniciais

A figura masculina na minha frente sorriu. Vi seus olhos azuis com mais atenção o que fez minhas bochechas esquentarem, era uma sensação engraçada. Para disfarçar, eu tossi forçosamente com a mão comprimida sobre os lábios.
— Uma menina como eu? — Ela sorriu desconsertada. —Bem, espero que esteja bem. Até mais ver.
E ela se foi, tomando meu caminho contrário. Vi seu cabelo curto, quase nos ombros, balançando para um lado e para o outro, suas roupas masculinas bem combinadas até ela sumir completamente.
Cheguei atrasada na escola, mas eu juro que não me importei muito com esses dias. A minha última lembrança da Liz queria fugir e eu sabia que tinha a necessidade de vê-la novamente, mas também queria conhecer a garota masculina que interrompeu minha fuga.
Depois da última aula, eu corri automaticamente. Tomei o primeiro ônibus que estava quase vazio. Eu estava tão concentrada em uma imagem só que quase podia ver a décima primeira dimensão. Ou era o que eu achava.
Cheguei a minha casa mais cedo e minha mãe ficou bastante alegra com o ocorrido. Eu fiquei surpresa com uma visita à noite, Mar e Felipe chegaram completamente aturdidos, ou até empolgados com algo.
— O que houve, pessoal? — perguntei curiosa.
— Só contaremos se você prometer não ficar irritada — disse Mar.
— Tudo bem — falei. — Mas é para contar logo.
— Então... — começou Felipe. — A Liz... ela está vindo para cá.
Eu arregalei os olhos.
— Desculpe-me, mas ela me forçou contar tudo — disse Mar. — Felipe estava comigo, ele pode provar.
— Ela desconfiou logo de cara quando me viu com a Mar — disse Felipe. — E eu não usava a farda do Colégio PAG.
— Eu não acredito que vocês fizeram isso! — gritei.
— Desculpe falar isso, mas você fez isso com si mesma — falou Mar. — Você sabe que, de qualquer jeito, isso viria a acontecer.
— Ah, foda-se! — Eu me afastei dos dois. — Mas... como assim ela está vindo para cá?
— Ela quer conversar com você — disse Felipe. — Nós demos o endereço, ela disse que viria às oito.
— Ótimo! — falei ironicamente. — Vamos acabar logo com isso.
— “Vamos acabar logo com isso” — imitou-me Felipe. — Este é o seu lance! A Mar e eu não tenho nada a ver com isso.
— Você está certo — indaguei. — Eu vou esperá-la.
— Boa sorte, amiga. — Mar deu-me um beijo na bochecha.
— Só me deixem só — pedi.
O tempo que eu tive foi para escolher uma roupa. Logo veio sete horas e meia, quando minha mãe foi à igreja. Então eu liguei a televisão, assisti um desenho qualquer. As oito horas chegaram, mas Liz não veio com elas.
Eu escolhi uma roupa mais simples, shorts jeans e um moletom com mangas cobrindo meus dedos.
Dez minutos depois, quando eu já tinha certeza que Liz não viria, a campainha tocou. Eu fui relutante até a porta. Pude vê Liz, atrás do portão de entrada. Eu sorri para a figura que estava do lado de fora, mas ela não me devolveu o ato. Eu destranquei o portão maior e Liz entrou. Ela usava uma calça justa e uma bata folgada de uma banda que eu não conhecia.
— Eu não sei o que dizer — falou Liz. — Por que você escreveu aquelas cartas para mim?
— Eu... Você não gostou? — Queria mandá-la entrar, mas a conversa fluiu bem na varanda de casa.
— Eu te fiz uma pergunta, Flor — disse Liz. — Você me escreveu coisas lindas. Eu quero saber se era sério ou não.
— Claro que é sério! — disse. — Eu escrevi, pois acho que você seria o tipo de garota...
— Que tipo de garota? — questionou.
— Do tipo que eu não poderia deixar passar.
— Então porque você não veio falar comigo? — perguntou Liz. — Você não pareceu tão tímida quando foi lá em casa com seu amigo.
— Sim, eu não sou tímida. Eu só queria escrever... escrever para você.
— Você é fofa, Flor — disse Liz. — Eu tenho que forçar ficar zangada com você, pois eu realmente tenho. Você foi lá a minha casa com seu amigo, mentiu uma entrevista, inventou uma escola. Tudo foi tão desnecessário.
— Você poderia tentar me entender.
— Mas eu não entendo — admitiu Liz. — Entretanto, consigo gostar de você Desde a primeira carta.
Contem trinta segundos de puro silêncio.
— Você gosta de mim? — perguntei. — Gostar... para valer?
— Que tal eu te responder depois de uma apresentação oficial?
— Parece justo — falei. — Você quer entrar?
— Sim, parece tentador.
***
—Então era assim que você e a sua amiga me enviavam cartas? — Liz sorria como nunca a vi fazê-lo.
— Era um malabarismo danado — contei. — E minha amiga não gostava muito.
— Vocês foram espertinhas demais, eu nunca imaginaria que fosse você. E antes de receber sua visita lá em casa, com aquela desculpa horrível da poluição marítima, eu só havia te visto uma vez. No ônibus.
— E o que você achou?
— Sinceramente, eu pensei que você fosse esnobe, por causa do estilo, das flores — disse Liz. — Era tudo feminino demais para deduzir que você fosse sapatão.
— Eu deveria deixar mais óbvio, não? — perguntei e a vi assentir. — Agora diga você, do que você gosta mesmo?
— Eu não gosto de meninas! — falou quase que automaticamente.
— Vai negar mesmo? Então porque veio aqui sabendo que eu não quero só sua amizade.
Liz ergueu as sobrancelhas.
— Vamos colocara a cartas na mesa. Eu sou três anos mais velha que você, garotinha.
— Dois! — intervi. — Eu faço quinze anos no próximo mês.
— De qualquer forma, sou mais velha, já vou começar a faculdade. Mas eu prefiro e pretendo continuar preferindo homens.
— Me dê uma chance então — falei sem pensar.
— Chance?
— Uma semana apenas, sete dias para você me conhecer melhor.
— Desculpa, mas isso seria como um namoro.
— E se eu fosse um homem? — perguntei. — Depois de todas aquela cartas, você continuaria a me tratar assim?
— É que... Eu não sei! — falou Liz.
— Mas eu sei. — Sentei-me ao seu lado. — Você precisa experimentar um novo sabor. Eu nunca deixarei de ser a autora daqueles poemas por eu ser mulher.
— Tudo bem! — disse Liz. — Uma semana apenas. Lhe dou uma semana para me fazer sentir algo por você, serei sincera. Será escolha minha prosseguir com esse “relacionamento” ou não.
— Fechado.
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