Notas iniciais
Olá, gente amada! Não apareceram todas as notas finais no capítulo anterior. Resumindo: Cilano não vai ser aquele amor instantâneo do bateu o olho e “minha nossa senhora, estou apaixonado(a)!”. Tudo a seu tempo. No capítulo 2 temos um salto de um mês (já faço futurologia kkk). Não gastem já toda a raiva com Cida : ). O capítulo é necessário para desenrolar os fios da história. MUITO OBRIGADA à Gilmara Santos por ter favoritado logo no primeiro capítulo e a toda a gente que comentou!

“Se tempo é dinheiro eu vou gastá-lo contigo,

Até porque o tempo é tudo o que tenho para te dar.

Eu acho que o mundo inteiro concorda comigo,

Eu não quero desapontar!”

(Agir, Tempo é dinheiro)

Coimbra, 14 de Março de 2016

— Você se sente bem aí, minha filha? Está feliz?

Valda estava tão colada na webcam do computador que tudo o que Cida conseguia ver através da tela era o olho da madrinha. De nada tinham adiantado as indicações tecnológicas da afilhada. Ela sabia bem o esforço que Valda, que mal sabia usar um celular rudimentar, estava fazendo, recorrendo àquele aparelho do demo chamado computador para ver a cara da sua menina.

O amor por alguém querido supera qualquer muro de tecnologia.

— Muito feliz, madrinha! – respondeu Cida, contendo o riso. – E por aí?

Valda continuou o seu noticiário falando alto, com receio de que a sua menina, estando tão longe, não a conseguisse ouvir:

— Está tudo bem, minha filha. A Brunessa tem me ajudado muito no serviço da casa. A dona Sônia está muito satisfeita com ela substituindo você.

Cida se encolheu em revolta perante a menção ao nome odiado. Involuntariamente, se ela se tinha lançado na aventura de cruzar meio mundo, o devia também em parte à ex-amiga.

— A Brunessa tem andado muito mal dos intestinos, coitadinha. – continuou Valda — Não se restabeleceu completamente de uma intoxicação alimentar.

Maria Aparecida teve vontade de bater palmas:

— Quer saber, madrinha? É muito bem feito!

Valda não tardou a protestar:

— Cida! Isso não parece seu.

— Mas é a verdade. Dei mole e a piriguete pegou o meu namorado. Diarreia é pouco para ela!

A madrinha de Cida conteve o riso. Ela não deixava de ter razão.

— Você não pensa em fazer as pazes com o Rodinei, meu amor?

Maria Aparecida nem sequer equacionava essa hipótese. Tinham sido dois anos de namoro com um cara em que ela se tinha apoiado por se sentir só numa existência isolada. O mesmo cara que, na primeira oportunidade, a tinha traído com a melhor amiga.

Aquela viagem também serviria para começar de novo e criar uma nova Cida. Agora, ela estaria livre para viver um amor de verdade, um amor como aqueles que ela tinha visto em novelas antigas, quando ela era ainda uma criança e assistia televisão no colo da mãe.

A teoria era muito bonita, mas, sem que Cida se apercebesse ou quisesse aperceber, muito se mantinha como se ela vivesse num simulador da casa dos Sarmento no Rio de Janeiro.

Maria Aparecida passava o pano, encerava o chão, mas Isadora e Ariela viam sempre defeitos onde eles não existiam.

Ela limpava, arrumava, cozinhava, fazia trinta por uma linha pelas irmãs Sarmento, mas, como habitual, elas não tinham por Cida nem uma palavra de agradecimento. Era como se ela não fizesse mais do que a sua obrigação.

Elano achava que lhe devia estar escapando algo porque parecia que Maria Aparecida não via o que ele via:

— Cida, elas estão te explorando. Aqui você não é a empregada delas. Você paga parte do aluguel e não recebe salário. Não é certo você trabalhar sem receber.

— É com eles que eu conto. Fui criada junto com as meninas.- se justificava ela — Eles são como uma família para mim. Você entende?

Ele não conseguia nem entender, nem aceitar:

— Sério, Cida? Sempre que você fala deles, a impressão que me dá é que eles te tratam como empregada e não como família.

Elano não compreendia em que família é que seria normal ter que levar o café da manhã na cama para as madames que seguidamente dormiam até ao meio-dia; para depois ter que engolir o café da manhã à pressa em cima da pia da cozinha e correr para a faculdade, por ter passado horas arrumando a sujeira de outras almas.

Já Cida achava o quase cativeiro como perfeitamente normal. Maria Aparecida tinha reescrito a sua história dentro da sua cabeça tantas vezes, que agora só a ela a narrativa fazia sentido:

— Eu tenho uma dívida com a Isadora. Foi ela quem pediu aos Sarmento para ficarem comigo quando a minha mãe morreu e se tem uma coisa que eu acho horrível é ingratidão.

— Isso justifica fazer de escrava pessoal dela, Cida?

— Elano, você não entende. A Isadora queria ir para Milão, mas aí como vinham as duas meninas, o Dr Ernani resolveu que era melhor elas morarem em Coimbra. Se hoje eu estou aqui, o devo a eles.

— Não, Cida. Tudo o que você tem se deve ao seu esforço.

A lavagem cerebral dos Sarmento tinha sido tão bem feita que tinha resultado em sintomas que apontavam claramente para síndrome de Estocolmo.

Elano já se tinha apercebido da carência da garota. Numa ocasião, ele tinha chegado em casa para encontrar Cida engomando as suas camisas. Era o jeito que ela tinha encontrado para demonstrar gratidão pela ajuda dele, mas ele desligou o ferro e se sentou com ela no sofá da sala, tentando explicar-lhe que era possível receber um pouco de afeição sem ter que pagar por isso.

Ela não o entendeu, mas Elano compreendeu que salvar Cida de si mesma seria mais uma corrida de resistência do que uma corrida de velocidade. Desde que não fosse um corta-mato em direção a um precipício, tudo certo.

Aquele mês tinha bastado para eles se tornarem inseparáveis, não só por se estarem continuamente esbarrando, mas por se identificarem através de percursos e experiências de vida.

Num mundo estranho em que ela se via vivendo do lado do herdeiro do milionário construtor Otto Werneck e de um acionista de uma megacorporação, dono do prédio e de muito mais do que ela teria em toda a vida, também ela precisava da normalidade de conviver com alguém pé no chão como Elano Fragoso.

Certo era que o vizinho mais-do-que-abastado Danilo Marra não era nada daquilo que ela tinha imaginado, mas não deixava de ter aquele contentamento na cara de quem não sabe o que é pagar a crédito.

Quando Cida perguntou discretamente a Elano como é que ele conseguia bancar viver num apartamento de topo como aquele, quando se via na necessidade de trabalhar em part-time num restaurante da cidade, ele não teve vergonha da resposta:

— A minha irmã Penha trabalha em casa de família. Ela é muito amiga da arrumadeira que trabalha na casa da avó do Danilo. Daí, quando ele soube que eu vinha para cá, se ofereceu para eu ficar com ele e pagar só um valor simbólico.

Ela tinha ficado surpreendida. Muito se tinha escrito sobre os escândalos da família Marra nos anos anteriores e ela, como estudante de jornalismo, tinha acompanhado a história na imprensa passo a passo.

— Simpático, isso. — acabou comentando Cida.

Elano sorriu e não conseguiu evitar responder:

— Cida, as pessoas nem sempre são aquilo que parecem.

Era mais uma advertência em relação a outra pessoa, mas ela não entendeu a indireta.

Aquilo que ele não aceitava chamar de ciúmes, preferia Elano chamar de preocupação justificada.

Nem Cida se apercebia do quão sozinha estava no mundo. Mesmo que ela não o soubesse, poderia contar com ele como uma sombra benévola.

Elano tinha ficado inicialmente sossegado quando percebeu que o interesse de Conrado tinha esfriado em poucos dias, ao descobrir que Cida era uma órfã sem um tostão furado.

Contudo, algumas semanas depois, o filho da mãe tinha voltado com tudo ao ataque, desnorteando Elano. Mas o que é que um cara como Conrado Werneck poderia querer com uma menina como Cida? Boa coisa não podia ser.

O pensamento voltou a passar-lhe pela cabeça naquele momento em que, depois de aceitar um convite de Cida para almoçar na casa dela, Elano a ajudava a ralar cebolas na cozinha das Sarmento.

Uma explosão de rosas vermelhas vindas da melhor florista da cidade enfeitava metade da sala daquele apartamento. Elano tinha tido o desprazer de estar presente aquando da entrega do presente envenenado de Conrado e teve ainda que manter a impassibilidade de expressão com a alegria de Cida. Era a primeira vez que lhe faziam uma surpresa, daquelas que ela só tinha visto em filmes românticos.

— Ontem, o Conrado me levou para andar de helicóptero. Tive tanto medo, Elano! – contava ela sorrindo, enquanto passava o filé mignon no trigo.

— Ai, sim? – murmurou ele em resposta, só para dizer algo.

Werneck não se tinha poupado a esforços numa luta desigual. De nada adiantaria alertar Cida naquele momento em que ela se tinha enredado tanto naquela fantasia. A Elano, só restava retirá-la da água antes que ela se afogasse, mas teria que ser ela a dar conta da falta de oxigênio.

A voz de Cida o chamou de novo à realidade, com o seu riso:

— Cê tá distraído, Elano. Já te pedi duas vezes para aumentar a temperatura do forno.

Ele tentou relaxar. Se tinha aquele momento a sós com ela, o faria durar o mais que conseguisse:

— Você me respeita, que eu percebo de cozinha. Pelo menos, mais do que você. – brincou ele.

Elano se referia a um incidente de dias antes, quando Cida se tinha oferecido para fazer a famosa receita de soufflé da sua madrinha para os garotos e o referido prato tinha colapsado como a economia portuguesa em 2011.

Ela estava na disposição de ripostar brincalhonamente:

— Ai é, Elano? E você que passa a vida comendo macarrão com salsicha. Não tem outra especialidade?

A atenção dele se prendeu com outra questão que não a resposta àquela pergunta:

— Cida…

Ela não percebeu o que se estava passando:

— Que foi, Elano? Não aceita uma brincadeira?

— Não é isso, sua doidinha. Eu só ia dizer que você está deixando torrar o molho!

— Ai, minha Nossa Senhora!

Não foi a Nossa Senhora quem acudiu ao abençoado molho, mas Elano que, com rapidez, salvou o líquido de se tornar em carvão.

— Faltou alguma coisa…. — comentou ele, cheirando os destroços.

— Faltou. Mão boa para a cozinha. – riu-se ela.

O estudante de direito recomeçou rapidamente um novo molho. Elano tinha de fato jeito para a cozinha, mas a Cida o que mais lhe tinha chamado a atenção tinha sido a história por detrás disso.

Ele lhe tinha confessado que tinha aprendido na base da tentativa e erro, por conta das noites em que a irmã mais velha tinha que trabalhar até tarde e ele se via sozinho em casa tendo que dar o jantar para a irmã mais nova e para o sobrinho. Era um talento nascido de uma causa nobre.

Atraído pelo cheiro a comida caseira, Danilo Marra não se fez de rogado e invadiu o almoço quando eles se preparavam para começar a comer, pedindo licença em tom de ator shakespeariano:

— Quem faz a esmola de oferecer um pouco desse prato gourmet a um nobre vagabundo?

Elano não achou muita piada ao ver o seu almoço a dois transformado em almoço a três, mas riu enquanto colocava mais um prato na mesa:

— Marra, cê anda passando muito tempo com esses grupos de Humanas. E se você precisa de uma esmola, esse mundo está perdido.

Danilo não precisou de mais nenhum incentivo para se sentar à mesa com eles:

— Qual o menu, minha dama? – perguntou ele, fazendo uma reverência a Cida.

— Rosbife de forno ao molho de champignon, meu senhor.- respondeu ela, rindo — Mas, se estiver bom, a responsabilidade é toda do Elano.

O estudante de direito sorriu também. Era um sentimento bom, o da cumplicidade que crescia entre eles:

— Não diz isso, Cida. Você também deve ter uma especialidade culinária, não tem?

Ela ficou parada, pensando um pouco sobre a pergunta de Elano, quando abriu os olhos para lhe responder diretamente:

— Faço uma geleia muito boa. Um dia você vai ter que provar.

Foi aquele o momento em que Danilo se entalou com um pedaço de carne demasiado grande. Ou talvez ele se tenha atrapalhado com uma inferência surpreendente. Colocando o guardanapo diante da boca para esconder o riso, o Marra disfarçou os pensamentos sobre o amigo e a vizinha.

O rosbife estava, de fato, muito bom. Tanto, que Danilo não se fez de rogado e repetiu duas vezes mas, sabendo que a máquina estava avariada, o Marra resolveu sair de fininho na hora de lavar a loiça, deixando Elano e Cida encarregues do trabalho.

Eles já acabavam de enxaguar a loiça, mas continuavam conversando sobre tudo, sobre nadas, sobre o que tinham vontade de partilhar:

— Não é que eu fizesse muita questão de viajar, mas eu queria apostar na minha formação. Daí, quando tive a oportunidade, vim pra cá. – explicava ele.

A motivação dela tinha sido algo diferente:

— Eu nunca, nem tinha saído do Rio, mas eu queria ver o mundo.

Ele sorriu, acabando de arrumar o último prato:

— Então pega a sua bolsa, que hoje eu vou te levar para ver o mundo!

Cida riu de novo, tendo sido pega de surpresa pela oferta:

— Quê, Elano? Cê tem o jatinho pronto?

— Não, mas tenho o segundo melhor meio de transporte: o ônibus que passa aqui na porta.

Confiando na palavra do bom moço, Maria Aparecida desceu com ele e apanhou o ônibus com destino a Santa Clara. Elano poderia querer levá-la a ver o mundo mas, chegados à última paragem, tiveram que fazer o resto do percurso a pé.

Elano segurou nela para a ajudar a saltar uma poça de água quando passavam perto do mosteiro de Santa Clara-a-velha. O complexo ficava bem abaixo do nível da rua e Cida se esticou para ver melhor o edifício isolado.

— Bonito, não é? – perguntou Elano – É muito antigo. Começaram a construir no século treze…

— …e a gente está vendo o edifício de pé no século vinte e um. Acho bonito ver algo assim antigo, que sobreviveu à passagem do tempo. A dona Sônia diz que as coisas antigas têm charme, mas eu acho que têm a esperança de que é possível sobreviver a tudo.

Elano achou engraçado como eles já completavam o pensamento um do outro:

— Você diz coisas muito bonitas, Cida. Já pensou em ser jornalista?

Ela riu, mas ele continuou falando:

— Teve uma inundação em Janeiro e tiveram que fechar tudo. Quando reabrir, te trago de volta.

Cida beliscou suavemente o braço dele:

— Ai, vai ter uma próxima vez?

— Vai ter as vezes que você quiser. — respondeu Elano sorrindo – Só que a gente ainda não chegou no destino.

O destino ficava a poucos metros de distância.

O parque temático Portugal dos Pequenitos tinha sido concebido e construído como um espaço lúdico, pedagógico e turístico, para mostrar aspetos da cultura e do património português, em Portugal e no mundo.

Diversas miniaturas de réplicas de construções e monumentos portugueses e de países de língua portuguesa se encontravam no parque, dividido em zonas temáticas.

Puxando o braço de Elano na direção oposta, Maria Aparecida estava morrendo de vergonha de entrar:

— Elano, isso é um parque para crianças!

— E? – perguntou ele, encolhendo os ombros e puxando Cida pela mão.

Mesmo tendo que contar moedas, Elano fez questão de oferecer a entrada de Cida.

Por umas horas, eles foram crianças despreocupadas de novo. Ou, talvez, Cida tenha sido criança pela primeira vez. Ela não tinha tido tempo para isso na altura devida porque tinha estado demasiado ocupada a trabalhar para adultos.

Elano cumpriu a sua promessa. Saltando entre os edifícios envoltos em vegetação própria de cada região, numa tarde ele a levou numa volta ao mundo.

Eles voltaram ao Brasil, tiraram fotos em frente de um mini-pagode de Macau, ela quase tropeçou na miniatura de uma casa típica de Timor e Elano se viu com dificuldade para se soltar quando ficou preso numa réplica de casa indiana.

As surpresas ainda não tinham terminado. Quando saíram do parque, o bom moço a queria levar numa viagem no tempo. Nada mais fácil quando a famosa Quinta das Lágrimas ficava quase do lado.

Como uma romântica incurável, Maria Aparecida já tinha ouvido falar da sua história.

No século XIV, Pedro, o príncipe herdeiro de Portugal, tinha colocado um país a ferro e fogo por conta de uma história de amores impossíveis entre ele e uma dama galega, Inês de Castro.

A paixão avassaladora tinha resistido a um exílio forçado, a uma guerra civil e a várias tentativas de casar Pedro com outras mulheres, depois da morte da sua esposa Constança.

Pedro não queria a outra, senão a Inês. Se colocando contra toda a Corte, Pedro e Inês passaram a viver como marido e mulher. Em Coimbra, eles tinham encontrado um pequeno oásis de felicidade, mas tudo terminou em tragédia quanto o pai de Pedro, temendo a influência que ela poderia ter na política do país, a mandou assassinar.

Era para o palco dos amores de Pedro e Inês que Elano dirigia Cida naquele momento. Ela ficou eufórica, mas apontou para a placa informativa, julgando que ele se tinha distraído:

— Elano, para comprar o ingresso, a gente tem que ir para o outro lado.

Ele estava tudo, menos distraído:

— Vem comigo. Eu conheço outro caminho.

Feliz, ela deixou que ele a conduzisse pela mão:

— O doutor advogado vai cometer um delito?

— Por você, cometo todos.

Não seria necessário cometer um crime. Elano conhecia bem a Quinta, por lá ter trabalhado algumas vezes em algumas festas e, acenando para um segurança que o reconheceu, ele e Cida entraram na direção da Fonte das Lágrimas.

De acordo com a lenda, tinha sido naquele local que Inês de Castro tinha sido degolada, por ter sido encontrada culpada de um amor que fez arder um país e transcendeu a morte.

Cida se ajoelhou em cima de umas pedras do lado da fonte e tocou na água, vendo o fundo vermelho que fascinava os turistas.

Os céticos diriam que a cor se devia a algas com aquela coloração específica, mas os românticos jurariam que se tratava do sangue de Inês, preservado para todo o sempre.

Elano se ajoelhou do lado dela, vendo como os olhos de Maria Aparecida ficavam progressivamente mais húmidos. Aquilo não se podia dever apenas a uma história antiga de amor:

— Cê tá emocionada. Dá pra ver.

Ela sorriu, refeita do afluxo de sentimentos:

— A última promessa que eu fiz para minha mãe, antes de ela morrer, foi a de que eu ia conseguir vir estudar aqui. Era o sonho dela e o meu também. É um sentimento muito bom conseguir cumprir.

— Eu sei, Cida.

Acabaram o dia num restaurante no centro da cidade que, não por casualidade, era o mesmo em que Elano trabalhava em part-time.

Era um restaurante tradicional, típico aos olhos de turistas. Pouco sofisticado, mas com o calor de um acolhimento caseiro.

Deixando Cida sentada numa das melhores mesas, Elano se dirigiu ao seu gerente, que ficou surpreso com a sua presença:

— Mas até em dia de folga apareces aqui…

— António, eu preciso pedir um favor.

— Essa é nova.

De fato, o estudante de direito não gostava de fazer aquele tipo de pedido, mas se tratava de Cida e ele tinha que contornar o problema de falta de liquidez financeira:

— É que eu vim com uma garota e eu queria saber se… ahmmuhmm se seria possível eu depois trabalhar de graça até chegar no valor do nosso jantar.

António riu com o pedido, resolvido a fazer Elano suar um pouco:

— Mas isso não é trabalhar de graça. Isso é pagar uma dívida!

Vendo a cara do garoto, o gerente teve pena de continuar a brincadeira:

— Tudo bem. Eu estava a brincar contigo. Consome o que quiseres e depois fazemos contas.

Elano agradeceu e voltou para junto de Cida, fazendo o pedido com um colega. Felizmente, o cozinheiro do restaurante tinha real aptidão para o cargo e o metabolismo dos dois agradeceu as porções generosas de comida:

— Cê tá gostando? – perguntou Elano, quando se preparavam para pedir a sobremesa.

Ela respondeu sinceramente, mas não se apercebeu da reação que estava causando no bom moço:

— Muito. Na semana passada, o Conrado me levou num restaurante muito chique e eu fiquei tão aflita, com medo de passar vergonha. Eram tantos talheres, sabe? E pratos com nomes tão esquisitos. Nunca tinha visto uma coisa assim, nem quando a dona Sônia dava festas lá em casa.

Para Elano, um dia perfeito tinha sido arrasado em poucos segundos. Restou-lhe se despedir dos colegas e regressar a casa com Maria Aparecida.

Havia muito que Cida era esperada na entrada do prédio. Só faltava saber a qual filme Conrado tinha ido buscar inspiração para o espetáculo público. A rua tinha sido iluminada com dezenas de velas de cheiro e bastou um aceno de Werneck para a tuna masculina composta por cerca de trinta jovens começar a tocar e a cantar. Contratar toda aquela gente não poderia ter ficado barato.

A canção, romântica como não poderia deixar de ser, falava de amores antigos, impossíveis e perenes, embalados pelos sons das cordas das guitarras tangendo com sentimento.

Elano se deixou ficar para trás enquanto Conrado colocava a sua capa pelos ombros de Cida, como a tradição exigia. Ela sorriu com a surpresa excessiva. Maria Aparecida nunca se tinha visto como a heroína, como a protagonista de um filme, com todos os olhos fitos nela. Ela, que só sabia viver como sombra transparente.

Elano se sentiu como se tivesse levado com um pedregulho em cima que o puxava para baixo. Aquela estava muito longe de ser a forma como ele tinha pensado acabar aquele dia, mas aquela era apenas uma batalha e não toda uma guerra.

Decididamente, ele não estava gostando nada daquilo e foi ainda pior quando abriu a porta do apartamento e Danilo já o estava esperando para lhe contar a novidade:

— Cara, cê não vai acreditar no que eu acabei de ouvir.

Excerto do diário da Cida

Coimbra, 14 de Março de 2016

Mãezinha,

Estou tão feliz! Acho que dei muita sorte. A cidade é linda e a faculdade é ótima. Sinto falta da madrinha, mas não é como se estivesse sozinha, não é? Tenho as meninas e conheci gente muito boa.

A senhora se lembra das histórias de príncipes e princesas que me contava quando eu era bem pequena? Conheci um garoto que é um príncipe. Ai, mãezinha, o Conrado me diz coisas tão bonitas. Nos últimos dias ele tem andado sempre atrás de mim, me elogiando, dizendo como eu sou bonita, me levando para fazer coisas que eu só tinha visto em novela. É estranho, mas é muito bom. Não sei como é que alguém como o Conrado foi olhar para uma ninguém como eu.

Tem também o Elano e o Danilo. Eles têm sido uns amigões. Principalmente o Elano. Sabe quando a gente bate o olho em alguém e sente na hora que pode confiar de olhos fechados? É assim que eu me sinto com ele.

Notas finais
O engraçado do diário da Cida é ver como ela distorce a realidade. Este universo alternativo não só existe na minha cabeça doida, como é o mesmo universo da fanfic “Nós estamos juntos”, em que se reescreveu a história Megavi. Para quem não leu “Nós estamos juntos”, sempre que se justificar, vou escrever notas de rodapé para explicar as diferenças no percurso do clã Marra. No capítulo 27, Jonas diz que Danilo, depois de receber 0,5% das ações da Marra, decide estudar Administração em Portugal. Os pontos se vão encaixando.