Amor Submerso

47 O fim de um novo começo


Notas iniciais
*chega carregando a cruz* poupei vocês e já trouxe a cruz para a minha morte. Nossa, eu nem sei quanto tempo passou para eu postar isso daqui. Sei que eu poderia trazer mil e um motivos para ter demorado tanto, sei que poderia até inventar alguns. Sei também que muita gente pode ter até deixado de ler A.S por causa de meu erro, assim como muita gente pode ler o final e nem ao menos comentar. Acho mais do que justo, afinal eu demorei pra caralho pra atualizar justo o fim da fic. Pior ainda, comecei outra fic sem nem ao menos finalizar essa daqui (que aliás faz tempo que eu n atualizo também, mas isso é outra história). Gostaria apenas de falar em minha defesa é que eu escrevo para distrair a mente, para relaxar, para desabafar até. Mas eu nunca escrevo por pressão ou obrigação, sinto muito >

Passar por aquela trilha foi como relembrar de um passado recente, mas ainda assim distante de minha realidade. A última vez em que fui à Baía do Sancho Dianna ainda namorava Eric e eu havia beijado Amanda apenas para provoca-la. Eu ainda era apenas uma humana com pensamentos pecaminosos contaminados pela imagem de uma bela morena. Por mais que aquele lugar tivesse feito parte do inicio disso tudo, não eram essas as lembranças que invadiam a minha mente enquanto cruzava a rota correndo pela mata sem dificuldades em manter um ritmo e desviar dos obstáculos. Minha mente estava focada em dois objetivos obsessivos: resgatar Eric, acabar com o Dante. Dianna corria um pouco atrás de mim, seguindo meus passos. Nenhuma palavra foi trocada, não havia necessidade ou tempo para isso.

Poderia ser uma armadilha. Poderia ser um golpe de sorte. Nada disso importava além do fato do ser que eu mais odiava nesse universo ter capturado uma das pessoas mais importantes para mim. Por mais que Eric estivesse sendo um idiota nesses nossos últimos encontros, ele ainda era minha família, meu primeiro irmão e parceiro de crimes nas noites de festa. Não poderia abandoná-lo. Perdê-lo estava fora de cogitação! Dessa vez não demoramos a chegar até o lugar, porém assim que ele revelou-se em nosso campo de visão eu parei quase bruscamente. Dianna parou ao meu lado e me puxou para um lugar onde a vegetação camuflaria a nossa presença. Agachamo-nos e com o coração disparado meu cérebro absorvia o que estava acontecendo ali.

Eric estava na praia, caindo sobre os joelhos e amarrado por todo o tronco de seu corpo, consequentemente tendo os braços completamente imobilizados. Uma mordaça cobria a sua boca e ele tinha a cabeça tombada para o lado. A preocupação rivalizava com o ódio que ferveu em minhas veias ao ver Dante parado ao seu lado. O protótipo de elfo estava parado de braços cruzados observando uma lancha que se aproximava do mar. Eu só percebi que estava indo em sua direção para atacar quando a mão de Dianna segurou firme o meu braço impedindo o meu avanço.

–Precisamos de um plano! – ela exclamou em um tom baixo, porém urgente.

–Eu sei! Mas ele está bem ali e está com Eric! Nós...

–Ora, ora, quem eu tenho o prazer de encontrar?

Aquela voz ecoando atrás de nós provocou um susto forte o suficiente para nos fazer levantar bruscamente e sacar nossas armas. Meu bastão transformou-se em uma lança e logo Dianna sacava sua arma. Nós duas apontávamos para o mesmo ser a nossa frente. Ele era alto e possuía um sorriso soberbo que demarcava ainda mais as rugas que se formavam nas laterais dos olhos. Aquele homem tinha um olhar frio e avermelhado, mas cada traço pertencia a alguém que se provava o maior pesadelo reencarnado. Literalmente.

–Pedro – murmurei por entre os dentes.

Minha mente estava entrando em confusão com os sentimentos conflituosos que cresciam dentro de mim. Pela primeira vez via a meu pai. Um pai que estava morto, mas um homem que marcou a história do mundo sobrenatural de uma forma romântica e até heroica. O homem que tio Saulo tirava suas tardes para contar suas proezas humanas, a sua paixão pelo mar, o seu jeito nobre e desleixado. Mas ali também estava um demônio. Um que prometia trazer para aquela terra um verdadeiro inferno sem direito a metáforas. A ponta de minha lança tremeu um pouco denunciando a minha hesitação e confusão, aquilo foi o suficiente para aquele ser a minha frente ri alto e fazer um gesto com a mão. Foi como se uma verdadeira onda de força invisível chocasse contra meu corpo e me jogasse a metros de distância. Eu tive a sensação de voar por alguns segundos, para logo depois sentir meu corpo atingindo a areia da praia, começando a girar graças à força usada. Tive de usar as minhas mãos para tentar quebrar aquela velocidade e parar de rolar.

Maldição! Aquele não era meu pai! Aquele não era Pedro!

Por mais que eu repetisse isso em minha mente, algo dentro de mim teimava em vacilar, mesmo que um pouco. Cuspi a areia de minha boca e mesmo tonta pelo movimento brusco ao qual fui submetida, comecei a erguer meu corpo. Meu coração gelou ao ver que Pedro havia imobilizado Dianna com apenas uma mão e com a outra segurava meu bastão ainda em forma de lança, sendo que a ponta laminada estava apontada diretamente para a garganta de minha mulher. Recuei um passo sentindo meu mundo girar mais uma vez, mesclando a raiva e o medo junto com o desespero e a angústia de estar desarmada e encurralada. Escutei ganidos estranhos vindo a minha direita e ao olhar para o lado vi Eric com os olhos arregalados e se debatendo, como se mandasse eu fugir. Dante ao seu lado possuía um sorriso diabólico e vitorioso.

–Parece que temos visitas! – Pedro disse com bom humor na voz.

–Solte-os! – eu exigi firmemente – Deixe-os ir agora! Sua luta é comigo!

–Que filha mais rebelde! – o demônio brincou e riu em deboche – Dante, acabe logo que essa criatura inútil, precisamos prosseguir logo com a cerimônia.

–Cerimônia? – Dianna repetiu.

Dante sorriu plenamente satisfeito e estalou o pescoço em um movimento.

–Não machuque a humana, mestre. Ela será minha escrava – Dante pediu com mais outro sorriso repugnante.

–Desgraçado!

Eu não conseguia raciocinar muito bem. A pressão e aquele jeito soberbo daquele garoto combinados resultou em uma perfeita idiotice. Eu corri em sua direção pronta para acabar com a raça dele com minhas mãos, literalmente. Quando perto o suficiente eu comecei uma sequência de socos diretos, mas Dante era muito bem treinado e conseguia desviar tranquilamente e até mesmo prever alguns golpes. Logo ele bateu em meu pulso desviando de um golpe de direita ao mesmo tempo em que aplicava um gancho poderoso o suficiente para lançar meu corpo para trás. Minhas costas bateram no chão e eu cuspi sangue para não engasgar.

–Fernanda! – Dianna gritou e eu a vi tentar se aproximar, mas a lança em seu pescoço a impediu de andar pois provocou um leve corte abaixo de seu maxilar.

–Tão patética, pensei que aquela princesa sereia tivesse ensinado melhor – Dante provocou.

Aquilo foi o tempo da lancha se aproximar da praia. Um enorme ser de pele acinzentada se aproximou, ele possuía um corpo humano, mas sua cabeça careca possuía tatuagens tribais negras por toda a parte. Um Exilado! Ele trazia em suas mãos um baú de tamanho médio que fez o demônio dar um sorriso de satisfação.

–Finalmente! Dante, acabe logo com isso! – ordenou Pedro parecendo perder a paciência.

–Sim, meu senhor.

Só nesse momento eu levantei rapidamente. Dante fez brotar do chão algumas raízes de árvore pontiagudas, e em um movimento de mão em minha direção àquelas raízes vieram como verdadeiros chicotes. Desviar delas foi como uma verdadeira dança, eu tinha de girar de um lado para o outro, abaixar o corpo e até mesmo saltar. E mesmo assim uma delas atingiu a minha cintura e perna, causando uma ferida de raspão, mas que ardia o suficiente para provocar lágrimas em meu olhar colérico. Eu precisava contra atacar, precisava bater naquele garoto até esvair toda a minha ira, precisava salvar Dianna e resgatar meu primo! Enquanto eu tentava me livrar daquelas raízes, minha visão pouco capitava o que acontecia ao meu redor. O exilado aproximava de Eric ao mesmo tempo em que Pedro também o fazia, só que arrastando Dianna que tentava libertar-se.

–É só o que sabe fazer? – Dante falou em um tom nojento de soberba, soltou um risinho e fez movimento com ambas as mãos – Pensei que iria me divertir mais em acabar com você!

As raízes pareciam triplicar em quantidade e ganhar mais velocidade e força. De repente me via cercada e encurralada. Sem nenhuma arma e com os sentimentos extremamente confusos, não conseguia me concentrar o suficiente para dar o meu máximo ou sequer pensar em um encanto mágico. Assim, quando o pior ataque veio, eu não consegui me defender de maneira alguma. Uma raiz veio como uma lança, perfurando o meu ombro atravessando a carne de meu corpo. O grito que comecei a soltar em pura dor e agonia foi abafado, pois outras raízes começaram a envolver meu pescoço e a apertar como um verdadeiro abraço de cobra. Para completar senti meus pés se afastando do chão, meu corpo estava sendo levantado ao mesmo tempo em que as raízes começavam a imobilizar minhas pernas.

–FERNANDA! – Dianna gritou.

Meus olhos buscaram os dela, mas eu mal poderia enxergar naquela altura do campeonato. Ela se debatia e Pedro se divertia em contê-la. Naquele momento eu pensei que poderia morrer pelas mãos de meu inimigo. Mas isso não era o pior, pois meu verdadeiro temor estava longe de se referir a mim mesmo. Se eu perdesse ali, quem protegeria Dianna e Eric? O quão patético seria cair morta ali entregando a minha mulher e ao meu irmão desse jeito para o inimigo? Meus pulmões começaram a arder e minha visão a escurecer. Minha consciência começava a esvair de meu corpo ao mesmo tempo em que o desespero parecia aumentar cada vez mais. Faça algo, Fernanda!

E em momentos como esse que a ideia mais louca e brilhante passa por sua cabeça e você se pergunta por que não pensou nela antes.

Todo ser vivo possuía água em seu corpo, porém no processo de árvores isso se torna um elemento ainda mais que fundamental, pois é necessário para a fotossíntese. Tudo começava pelas raízes, que absorviam a água e transportava pelo xilema toda essa substancia. Toda a explicação de botânica pareceu em minha mente por questão de segundos, destacando apenas um fator que importava para mim: aquelas raízes possuíam água. E, pelos deuses, eu poderia controla-la!

Em segundos eu tentei reunir toda a coragem que eu não tinha e toda a vontade de sobreviver para proteger aqueles que eu me importava. Meu corpo pareceu ganhar a verdadeira força de batalha da qual eu necessitava desde o inicio. Não precisava me ver naquele momento para saber que meu corpo estava sendo revestido por tatuagens arroxeadas e que meus olhos assumiam a tonalidade derivados do roxo e do lilás. Naquele momento nem mesmo palavras de encantamento foram necessárias, eu apenas deixei que meu fluxo de energia se mesclasse com a vida que existia naquelas raízes, buscando uma conexão com a água que ali existia. Depois disso foi como se elas se tornassem uma extensão do meu próprio eu. Mais que rapidamente fiz com que as raízes em meu pescoço se desenrolassem, busquei ar com desespero, sentindo um alívio quase dolorido ao ter o oxigênio circulando novamente em meus pulmões.

Controlar as raízes a partir de então foi como se eu movimentasse meus braços ou controlasse bonecos marionetes. Movi uma mão e todas as raízes se soltaram em meu corpo finalmente me libertando. Apesar de toda a dor que possuía em meu corpo, eu me sentia mais poderosa do que nunca. Dentro de mim as emoções ainda ferviam parecendo explodir ainda mais, porém isso já não estava mais contra mim, mas sim ao meu favor!

–O que infernos! Dante resolva isso! – Pedro ordenou finalmente parecendo tenso.

Dante recuou um passo e fez mais movimentos, dessa vez quando novas raízes vieram em minha direção eu fiz um movimento horizontal com meu braço, as guiando em direção a meu pai aumentando ainda mais a velocidade delas. O ataque foi surpreendente já que dessa vez a conexão com a água foi ainda mais eficiente, então chegava a parecer que era Dante quem estava atacando o próprio mestre! As raízes seguiram impiedosas, atacando o braço que segurava a minha lança e a coxa esquerda do ser que mantinha o corpo de Pedro ainda vivo. Dianna finalmente encontrava-se livre e não tardou em agir, mesmo que tropeçando um pouco para recuperar o equilíbrio que foi perdido no ataque. Ela logo pegou o meu bastão e correu para o meu lado.

–Você está bem? – murmurei sentindo uma grande vontade de apenas abraça-la e leva-la para bem longe dali, mas ainda tinha Eric próximo ao meu inimigo.

–Destrua aquele baú! – Dianna disse rapidamente, jogando o bastão em minha direção – Seja o que for aquilo, aquele demônio se importa demais e envolve o Eric!

–Eu vou abrir uma brecha, você pega o Eric e o leve para longe daqui – planejei de última hora.

–Fuja logo depois – Dianna olhou-me seriamente.

Minha vontade era a de ficar e lutar até o fim. Todo o meu ser gritava por uma batalha intensa e mesmo que sangrenta, meu desejo era o de derrotar a todos aqueles seres das trevas. Por isso, não consegui prometer aquilo, apenas desviei meu olhar e comecei a correr em direção a Dante, que era o meu principal alvo e o mais próximo de Eric. O Exilado parecia ajudar o demônio a se erguer, o levando em direção à floresta e não para o mar. O que parecia a coisa mais lógica, já que eu era uma sereia e dessa vez não me esqueceria de que o meu elemento estava logo ali ao lado. Assim enquanto Dante tentava usar de suas raízes para me deter, eu lutava contra elas desviando usando da água interna ou simplesmente as cortando com meu bastão em forma de uma espada. Eu avançava e ele recuava em direção ao mar, por trás dele eu fazia uma enorme onda vim em sua direção, já estava prestes a colidir com aquele ser miserável quando o grito de Dianna roubou toda a minha atenção inerentemente. A morena estava libertando os braços de Eric quando o Exilado retornou e a golpeou, jogando o corpo dela ao chão com uma força que a afundou na areia. A onda que eu formava perdeu completamente sua força, eu já estava para correr em direção a ela e ajuda-la, quando uma dor alucinante passou por vários pontos de meu corpo. Eram como vários cortes feitos ao mesmo tempo e eu só vim a entender que Dante lançava folhas cortantes em minha direção quando ele lançou o seu segundo ataque.

Cai sobre um joelho sentindo meu corpo fraco, mesmo que ainda pronto para a batalha, os resultados até agora não me dava um saldo positivo. Dante vinha em minha direção, dessa vez formando uma espada feita de raízes e folhas em sua mão. Ele pensava que eu estava acabada, eu podia ver isso em seu olhar. Talvez devesse usar isso ao meu favor e foi isso o que fiz. Levantei fingindo cambalear e ele chegou a abrir um sorrisinho. Apontou a espada em minha direção e estava para dar o ataque quando eu dei um passo rápido a frente e finquei meu bastão ainda em seu formato de espada em seu coração. O golpe fora rápido, o pegando desprevenido e de guarda completamente baixa já que aquele Elfo acreditara que iria me dar o golpe misericordioso. Por puro ódio eu fiquei ainda mais a lamina até atravessa-la por todo o corpo de Dante. Eu não saberia descrever as emoções que transpassavam o meu corpo, mas definitivamente eu não tinha piedade ao ter fincado minha arma no coração daquele garoto. Eu praticamente podia sentir as batidas contra a minha espada, machucando ainda mais o órgão vital que ia perdendo pouco a pouco as suas forças.

–Vá para o inferno, seu miserável – murmurei sem impedir todo o meu rancor.

Puxei minha espada lentamente e empurrei o corpo dele em direção ao chão. Escutei o barulho de metal colidindo com algo e logo minha mente me alertou de que Dianna ainda estava em batalha, Dante já não era mais relevante. Virei bruscamente tendo o vislumbre de minha namorada lutando bravamente com um monstro que era praticamente o dobro de seu tamanho. Ela poderia ser humana, mas ainda assim era incrível. Ela movimentava-se com uma precisão guerreira, dançando de maneira assassina para desviar dos golpes e contra-atacar a cada brecha que encontrava. Foi então que lembrei o que ela falou sobre o baú, corri em direção a ele meio que aos tropeços por conta das feridas em meu corpo. A adrenalina parecia me manter em pé, mas o sangue que eu perdi em todas aquelas feridas deixava um rastro fortemente vermelho por onde quer que eu passasse. Ao chegar ao item, cai de joelhos e apontei minhas mãos em direção àquela madeira escura.

–HEY! – gritei para chamar atenção.

O exilado desviou de um golpe e lançou um olhar rápido em minha direção, que retornou mais rapidamente ainda quando viu que eu estava com o baú. Dianna pareceu hesitar em ataca-lo, mas ao invés de aproveitar a distração foi em direção ao Eric finalmente terminar de soltá-lo. Ele parecia tão atordoado como a um drogado vendo suas mais loucas alucinações.

–Espero que isso tenha muito valor para vocês! – desejei a ele.

Comecei a murmurar um encantamento enquanto o exilado corria em minha direção, apressei as palavras bem a tempo de poder congelar a todo o item. Por incrível que pareça aquilo deveria ter sido rápido e fácil, mas pareceu consumir todas as minhas energias para poder congelar a todo o item. Pior ainda foi quando eu usei o feitiço que estraçalhou ao gelo criado, fragmentando todo o baú em cubos de água congelada. Escutei um grito vindo da floresta e para aqueles que olhavam para aquele lugar veriam uma fumaça saindo furiosamente em direção aos céus. A energia que foi gasta para realizar aquelas duas magias fez meu corpo começar a cair no chão, mas antes que eu beijasse a areia mais uma vez, o Exilado me alcançou e segurou minha cabeça, puxando meu corpo pelo cabelo provocando mais uma dor inescrupulosa pelo meu corpo. Mas nem mesmo energia para gritar eu tinha.

–Você vai pagar por...

Ele mal teve tempo de terminar a sua frase. De repente ele soltou o meu cabelo me fazendo cair de mau jeito na areia. O homem acinzentado foi caindo lentamente a minha frente, revelando em suas costas um tridente prateado e que soltava faíscas. Olhei em direção ao mar e vi que dele estavam saindo Aaron e Katreen. Senti meu corpo sendo movido e gemi em agonia, Dianna estava me colocando em seu colo e mesmo que o calor dela e a proximidade fossem um balsamo para minha mente e coração, meu corpo dolorido sentia cada movimento que ela fazia como um golpe.

–Calma meu amor, você vai ficar bem – Dianna tentava me consolar com uma voz mansa, mas seus olhos denunciavam toda a preocupação que ela tinha ao encarar o meu estado.

–Eu sou... Muito teimosa para morrer, não se preocupe – falei com a voz cortante, minha garganta ainda sofria sequelas do estrangulamento – Só vou dormir... Um pouco, me chame antes do meu seriado favorito começar, ok?

Tentei brincar enquanto minhas forças finalmente se esvaiam de meu corpo, abandonando o meu ser e me entregando a uma escuridão.

(...)

Acordei de em um sobressalto. A sensação que eu tinha era de que ainda estava na batalha, que precisava salvar Dianna e Eric. Saltei da cama mal notando o fato de que estava deitada, meus olhos encaravam a tudo ao meu redor tentado assimilar como a praia havia se transformado em um quarto. Minha cabeça começou a doer tão forte que parecia que iria entrar em erupção vulcânica! A segurei por entre as mãos e fui caindo na cama novamente ao mesmo tempo em que a porta era aberta.

–Uou! – era a voz de Eric que se aproximava de mim – Vai com calma Nanda, não tão rápido.

–Eric? – chamei incerta, encarando ao meu primo ao meu lado que tentava me deitar – Você está bem? Está machucado?

–Estou bem – ele disse um pouco sério e deixou um suspiro cansado escapar – Em que confusão você se meteu mana?

–Em uma bem grande, daquelas do tamanho do big bang – falei em um tom cansado e olhei mais uma vez ao redor. Aquele era um quarto diferente, feito de madeira e bem rústico. Havia apenas uma cama e uma mesa pequena de madeira – Onde estamos?

–Na Ilha Prometida.

Dessa vez a voz pertencia a Dianna. Prontamente meu olhar buscou a sua origem, a encontrando encostada a batente da porta. Meu corpo agiu primeiro que minha mente, mais uma vez estava de pé e indo a sua direção como se necessitasse simplesmente estar mais perto. Ela prontamente me abraçou com carinho e delicadeza, como se soubesse onde estava cada machucado de meu corpo. Escondi meu rosto na curva de seu pescoço e inspirei forte aquele perfume natural que parecia acalmar meu ser. Ela estava bem, ela estava viva e independente de ver que Eric estava vivo, era saber que Dianna estava ali que me deixava tranquila de verdade.

–Eu ainda estou aqui – Eric reclamou depois de pigarrear duas vezes.

Afastei meu corpo e o encarei com um sorriso sem graça. Afinal estava demonstrando carinho com a ex-namorada dele. O analisei hesitante, mas tudo o que eu recebi em troca foi um surpreendente sorriso debochado dele. Deixei que Dianna me levasse novamente para a cama. Sentamos nós duas, eu a sua frente com meu corpo colado ao dela, Eric ajeitou-se de modo a poder encarar a nós duas. Respirei fundo e dei uma olhada em mim mesmo, não me surpreendendo ao ver nenhum arranhão em meu corpo.

–Quem me curou? – perguntei.

–Aurora, ela chegou logo depois de Kat e Aaron – Dianna explicou.

–O quanto você sabe? – indaguei olhando para Eric com certo medo.

–O suficiente para entender algumas coisas e outras desistir de tentar entender – ele respondeu e passou a mão na nuca – Você tem mesmo um rabo de peixe?

–Não ouse me zoar por causa disso! – reclamei apontando o dedo para ele de forma ameaçadora – Meu rabinho lindo de peixe é fofo e bonito, demorei em aceitar isso então sem bullying!

Dianna tentava inutilmente conter a risada. Eric sorria divertido, mas lançou um olhar distante antes de voltar a encarar-me. Ele respirou fundo e sentou ao chão parecendo querer ficar mais confortável.

–Dianna disse que era melhor você contar a história por inteiro. Poderia me contar? – ele pediu.

–Eu vou deixar vocês dois a sós – Dianna disse começando a se levantar – Vou preparar algo para você comer e distrair Kat, ela foi à única que ficou e está lá impressionada assistindo televisão em realidade virtual. Se bem que eu fiquei surpresa em saber que aqui tinha sinal para isso.

–E quanto aos outros? – questionei mais com medo do que curiosa, ela sabia que eu me referia ao restante de minha família.

–Estão vindo, devem chegar pela noite – Dianna suspirou e deu de ombros – Provavelmente vamos apanhar mais delas por ter lutado terrivelmente. Scarlet vai apontar todos os defeitos dessa batalha.

–Já posso até imaginar – disse sentindo um calafrio – Mas o que importa é que tudo deu certo.

Ela balançou a cabeça de forma positiva, deu uma última olhada em Eric e partiu lançando um beijo para mim. Sorri bobamente e cocei minha cabeça tentando inutilmente disfarçar. Eric ainda parecia incomodado, mas não teceu nenhum tipo de comentário. Respirei fundo e deitei direito da cama e comecei a contar a meu irmão tudo desde o inicio, e quando digo inicio foi desde quando comecei a sentir atração por Dianna assim que a vi pela primeira vez. Tive de resumir algumas coisas, poupando eles de detalhes que levariam horas para serem explicados. Por muitos momentos o flagrei olhando-me incrédulo e cético, parecendo não acreditar no que eu dizia, mas nada poderia exigir muito dele afinal se estivesse em seu lugar estaria rindo e me chamando de louca. Meu monólogo terminou na batalha contra Dante e lembrar ela me fez estremecer. Dianna tinha razão, eu havia perdido o controle tão facilmente que tinha colocado não só a minha vida em risco, mas a de Eric também. Passamos alguns minutos em silêncio até que Eric o cortou.

–Eu não consigo acreditar em algumas coisas, mas tem algo que está me incomodando – ele falou levantando para sentar ao meu lado na cama – Você assassinou alguém, você está bem com isso?

Colocar aquelas coisas naquelas palavras me fez olhá-lo confusa e surpresa. Sim, eu havia matado a Dante, pior, havia desejado isso com todas as minhas forças. Isso não era errado? Eu não deveria ter simplesmente derrotado ao garoto e ter entregado a justiça seja lá qual for? Engoli em seco e me perdi em meus próprios pensamentos até finalmente deixar o ar escapar pesadamente.

–Eu já não sou como antes, me transformei em algo a mais – disse devagar, ainda pensando em cada palavra que estava proferindo – Ainda sou a mesma garota que era a sua prima, mas também esse poder todo me fez ser algo novo. Passei maior parte do tempo lutando para sair viva de batalhas que você só ver nos videogames, vivendo uma história de fantasia... Mas isso tudo me fez crescer em uma nova realidade que faz parte de mim agora. Eu não me arrependo de ter matado Dante. Procuro dentro de mim esse tipo de sentimento, mas ele não existe, porque eu sei que se não fizesse, nós três estaríamos mortos agora. A piedade existe Eric, mas para aqueles para que ainda há esperança de salvação. Aquelas coisas eram o mais puro mal, teria morrido ou assistido vocês morrerem se não fizesse aquilo. Estou em uma guerra da qual nem mesmo eu tenho uma real noção de sua magnitude.

Ele apenas balançou a cabeça e passou um braço por sobre o meu ombro, não hesitei em aconchegar meu corpo ao dele, deitando minha cabeça em seu peito. Era tão bom estar ali com meu primo novamente que eu mal poderia explicar o alívio que estava sentido. Finalmente tudo parecia encaixado no seu devido lugar, me permitindo ficar sem nenhum remorso que fosse corroer meu bom senso.

–Agora que penso sem o ciúme me consumindo ou a raiva – Eric começou falando de forma tranquila – Vejo que vocês duas parecem estar mesmo predestinadas uma a outra.

–Dianna é minha vida – murmurei com peso em minha voz, aquela era a verdade que regia a minha existência.

–Nunca pensei que escutaria você dizendo isso, você era tão liberal nessa questão de namoro. Só mesmo uma macumba para te fazer mudar!

Não pude conter a risada, ele estava certo. Se fosse parar para analisar o quanto eu havia mudado em tão pouco tempo qualquer um diria que eu era outra pessoa. Sabia que estava presa a Dianna, que dizer que ela era mais importante que qualquer coisa não seria um exagero. Mas não me importava, não ligava e chegava a necessitar disso. Colocando as palavras desse jeito parecia dar uma sensação de uma terrível prisão, mas na verdade era a minha mais pura liberdade, já que eu me sentia mais viva do que nunca. Três batidas na porta me tiraram do devaneio, ela foi empurrada e Katreen apareceu com um sorriso sem jeito.

–Dianna está terminando de por a mesa, pediu para chamar os dois – a sereia avisou.

Ela saiu deixando a porta aberta, estava para me levantar quando Eric segurou meu braço para chamar a minha atenção.

–Ela é mesmo sua tia? – ele perguntou timidamente.

–Sim, a mais legal pelo menos – concordei e o olhei desconfiada – Ela é muito bonita não é?

–Bem, todas as sereias não são? – Eric desconversou, mas mal sabia ele que estava ficando vermelho por causa disso.

Segurei a risada e me levantei, afinal estava morrendo de fome. Eu não conhecia aquela casa ainda, nem sabia quem havia construído. Em meus treinos não chegamos a explorar toda a ilha, afinal ela era relativamente enorme e mágica. Ela era feita toda de madeira, mas muito bem decorada e com uma brisa gostosa que retirava todo o calor tropical. Das janelas da sala eu podia ver todo o mar e parte da floresta. Era larga, não havendo outro andar e sem paredes para dividir os cômodos da sala, cozinha e sala de jantar. Assim quando sai do quarto pude ver Dianna terminando de ajeitar a mesa com bandejas de frutos do mar. E um prato mais a parte com carne ensopada já que ela não gostava muito de mariscos.

–Eu ainda não acredito que essa ilha existe – Eric sentou a mesa sem nenhuma cerimonia – Eu não reconheço metade dos animais que existem aqui!

–Muitos dos que foram extintos usaram essa ilha como abrigo, longe dos homens puderam procriar e manter sua raça – Katreen sentou a frente dele, explicando a tudo com certa animação – Foi o que aconteceu com a arara arco-íris, ela muda de cor a depender da luminosidade.

–Existe algo assim? Penso que a pigmentação deve mudar de acordo com os raios solares que são refletidos na penugem...

Eric começou a tecer várias teorias sobre os animais exóticos que existiam na ilha. Apesar de tudo, ali estavam estudantes da natureza o que tornou a conversa nada monótona. Dianna ao meu lado olhava de Eric para Katreen que haviam entrado em um debate sobre a geografia marinha.

–Isso vai dar confusão – ela murmurou terminando de beber o seu suco de manga natural.

–O que é normal para nós – falei dando de ombros e abri um grande sorriso ao escutar meu primo rindo de algo que Katreen havia contado – Fico feliz dele finalmente entender as coisas, veja como ele está até melhor de aparência.

Ela me fitou com seu lindo sorriso concordando comigo com um leve balançar de cabeça. Mas já era tarde demais, toda a magia do romance parecia sempre despertar quando nossos olhares se encontravam dessa maneira. Eu podia sentir o mundo desaparecendo e se focando apenas naquela bela morena ao meu lado. Acredito que poderia passar o tempo que fosse, essa mágica nunca iria se perder enquanto Dianna me olhasse daquela forma intensa e carinhosa ao mesmo tempo.

–FERNANDA!

O grito de Lynn assim que entrou em casa abrindo a porta bruscamente quebrou qualquer tipo de clima que estivesse começando a acontecer. Eric pulou de susto da cadeira enquanto Katreen levantava em um salto para abraçar a irmã. Minha mãe deu-lhe pouca atenção, pois logo estava vindo em minha direção, me puxou e começou a me analisar e tocar como toda mãe preocupada faria com sua filha que quase morreu.

–Eu estou bem! – exclamei tentando escapar dela.

Mas Lynn nunca facilitava o meu árduo trabalho de tentar não ser a filhinha da mamãe na frente dos outros. Ela me abraçou com força e eu não pude negar que aquele abraço me reconfortava de uma maneira surreal. A abracei de volta por algum tempo e finalmente consegui me afastar. Nesse meio tempo todos já estavam dentro de casa, Nathan e Alexia próximos encostados no balcão da cozinha, Scarlet conversando duramente com Dianna e Katreen tentando explicar quem era quem para um Eric completamente perdido.

–Não podemos sair para longe que vocês começam a fazer besteira feito criancinhas encapetadas! – Scarlet reclamou aproximando de mim – Se prepare para um treino mil vezes mais rigoroso, pois sou eu que vou te treinar agora!

Engoli em seco e apenas balancei a cabeça de maneira afirmativa, ela estava com um olhar tão assustador que eu não ousaria discordar dela nem se a pirata me ordenasse pular no precipício.

–Não ligue, ela estava realmente preocupada com você – Lynn falou carinhosamente enquanto beijava o topo de minha cabeça – Todos estávamos preocupados.

–Claro que eu estava preocupada! – Scarlet parecia querer explodir de raiva – Essas duas estúpidas caindo em uma armadilha evidente ignorando tudo o que eu arduamente ensinei!

–Estou vendo que você vai ser a mamãe estressadinha pela filha fugir de casa de madrugada – não resisti a provocação.

Scarlet lançou-me um olhar mortal e eu soube nesse exato momento que deveria começar a correr. O que provou que meus instintos estavam certos, pois logo estávamos correndo pela casa, a pirata xingando-me em várias línguas enquanto eu ria e tentava escapar de suas garras de ruiva embravecida. Paramos apenas quando Lynn ficou entre nós e segurou a mulher de cabelos vermelhos. Quando tudo se acalmou seguimos para a sala, Scarlet e Lynn sentaram no único sofá enquanto o resto ficava ao chão.

–Quero um relatório completo, nos mínimos detalhes – exigiu Scarlet que lançou um olhar para Eric – E é bom que esse dai fique com a língua dentro da boca e não fale nada, ou serei obrigada a arrancá-la com minha faca mais cega!

–Ninguém acreditaria em mim mesmo – Eric disse um pouco amedrontado, ele estava sentado ao meu lado e não tardou a murmurar para mim – Ela é assustadora assim o tempo todo?

–Não, quando está namorando minha mãe fica mansa como um gatinho – expliquei segurando o riso, recebendo uma cotovelada de Dianna que estava do meu outro lado – Ok, vamos começar.

Eu e Dianna começamos a contar tudo o que aconteceu e eu não preciso dizer todas as broncas que Scarlet e Lynn nos deram. Até mesmo Alexia apontou pequenas falhas que seriam facilmente evitadas se eu estivesse minimamente raciocinando. A conversa pareceu levar toda a noite, mas algo finalmente revelou-se relevante quando falei sobre o baú. Dianna conseguiu fazer um desenho quase que perfeito dele, com detalhes que eu mal havia notado. Katreen e Lynn analisavam os rabiscos com uma expressão que dava a certeza de que algo nada bom aquilo significava.

–Isso é um baú dos mortos – Katreen afirmou com um suspiro – Provavelmente ele carregava alguma alma do inferno ali dentro.

–Alguém muito importante pelo visto – comentei lembrando o cuidado que tentaram ter com o baú.

–E porque precisavam de mim? Quero dizer, onde me encaixo nessa história toda? – Eric perguntou levemente incomodado.

–Os demônios precisam de um receptáculo – Alexia começou a explicar – Assim como esse demônio precisou do corpo de Pedro. Você seria o corpo que seria tomado por esse novo demônio, sua alma seria consumida e perdida, sem ir para o céu ou o inferno ou até mesmo o purgatório.

Observei Eric empalidecer, mas não o culpava, eu mesmo estava com uma sensação nada boa quanto a isso. Minha família estava cada vez mais ficando envolvida em meu mundo e isso era extremamente perigoso. Como poderia protegê-los e salvar o mundo ao mesmo tempo?

–Não é todo corpo que pode servir como receptáculo – Nathan finalmente se pronunciou – Uns possuem mais resistência que outros, talvez seja algo em sua linhagem, já que Pedro resistiu a um demônio de grande porte, o resto de sua família também pode ter essa habilidade.

–O que me deixa particularmente intrigada. Eles estão planejando trazer outros demônios? Até onde eu sei eles são mesquinhos e ferram uns aos outros o tempo todo, uma aliança de um demônio para outro não é algo comum – Alexia comentou pensativa.

–A não ser que sejam da mesma família – dessa vez foi Katreen a analisar – Eu li em um escrito que demônios podem formar vínculos especiais e familiares, principalmente se as almas humanas fossem vinculadas desde a sua vida terrestre e ambos terem ido para o inferno. O que justificaria o demônio ter procurado algum familiar de seu receptáculo.

–Precisamos proteger tio Saulo e tia Rita também – falei começando a ficar cada vez mais tensa.

–Quanto a isso não se preocupe – Katreen abriu um sorriso confiante – Papai está ficando cada vez mais envolvido e se mostrando um verdadeiro líder de guerra, sei que posso convencê-lo a por guerreiros em Fernando de Noronha com a devida proteção. Talvez pedir auxílio a algumas raças por perto. Sua família humana será protegida, eu prometo.

–Parece cada vez mais importante descobrir quem é esse demônio, pelo menos um nome! – Scarlet exclamou com uma expressão desgastada – Conhecer o inimigo é o ponto chave para se vencer uma guerra afinal de contas.

Aquilo me deixou um pouco mais tranquila, mas não menos preocupada com o futuro. Continuamos a discutir mais algumas coisas até que Scarlet reclamou de que estava morrendo de sono. Lynn ainda tentou ficar um pouco comigo, mas a ruiva com todo seu lado “delicado” jogou minha mãe por sobre o ombro e a levou para o quarto. A princesa sereia reclamou e gritou durante todo o caminho, mas assim que entrou no quarto a voz de minha mãe foi cessada. Não precisávamos de uma bola de cristal para saber que Scarlet a calou da melhor forma que poderia ser feita: com um beijo arrebatador.

Katreen e Eric continuaram a conversar, a sereia contando sobre a Cidade Submersa enquanto Nathan e Alexia pareciam distraídos vendo televisão de mãos dadas. Aquele parecia ser definitivamente a última noite de calmaria que eu teria, então não hesitei em começar a puxar Dianna para fora da casa, indo em direção à praia. Seguíamos de mãos dadas e em um silêncio reconfortante. Era necessária apenas a presença uma da outra para ficarmos bem. Sentamos próximas do mar, com as ondas quase encostando a nossos pés. Dianna ficou entre minhas pernas enquanto eu a abraçava de forma carinhosa. A lua estava cheia e parecia iluminar a toda a ilha de uma forma poderosa, não era necessária nenhum tipo de luz artificial para poder enxergar quase que perfeitamente. Ficamos um bom tempo ali curtindo o calor do corpo uma da outra, observando o mar com ondas calmas e o luar.

–Fico me perguntando o que vai acontecer quando isso tudo acabar – Dianna comentou em um tom baixo apesar de estarmos sozinhas ali.

–Isso acabar? – repeti um pouco confusa.

–Sim, quando pudermos ter uma vida com cotidiano mais humano – ela explicou e virou o rosto para poder me olhar – Quando pudermos trabalhar, ter uma casa, às vezes sair em uma aventura ou outra.

–Hum, isso parece um pouco distante. Mas quando isso acontecer... Nós iremos nos casar.

–Casar? Você está me pedindo em casamento Fernanda?

Dianna parecia ao mesmo tempo surpresa e feliz. Eu havia falado aquilo sem pensar, com tanta naturalidade que mal tinha percebido o peso de minhas palavras. Afinal casamento era algo sério, mesmo que fosse apenas para comprovar o que já existia: que uma pertencia à outra. Porém nosso lado de costumes humanos falava mais alto nesses momentos, evidenciando a importância desse próximo passo. Mas enquanto fitava aquela morena eu tinha a mais plena certeza de que passaria a minha vida ao lado dela.

–Preciso pedir? – abri um sorriso divertido – Já está escrito, você vai se casar comigo e ponto.

–Quão romântica você é – Dianna reclamou tentando conter o sorriso e reclamar – Eu ainda tenho de dizer sim, eu aceito, ok?

–Então eu terei todos os dias para te convencer a me aceitar em sua vida definitivamente – repliquei sem conseguir evitar o mais bobo sorriso – Prometo tentar com todo o meu ser, já que você é a mulher de minha vida e tem de ficar comigo pra sempre.

Ela finalmente deixou que seus lábios desenhasse o sorriso mais belo de todos. Eu não resisti e a beijei. Um beijo lento e sem pressa, mas ao mesmo tempo intenso nas sensações que provocava em todo o meu ser. Minha boca parecia ter uma eterna fome da boca de Dianna, a buscava sem nunca se saciar ao provar daquele sabor. Não importava quantas vezes a beijava, sempre causava em mim todo o caleidoscópio de sensações que eu tanto amava. Nossas bocas se separaram apenas quando não tivemos mais ar, sorrimos ao mesmo tempo e eu logo levantei a levando junto comigo. Segurei na mão de Dianna e comecei a puxá-la para o mar. A água já batia em nossas cinturas quando fiquei a frente de minha morena e a abracei pela cintura, mas não parando de andar.

–E claro, haverá nossos filhos – comentei com um ar sonhador.

–Filhos? Não pensei que queria adotar – ela replicou um pouco surpresa.

–Adotar? Amor, eu não te contei da magia das sereias?

–Que magia?! – Dianna questionou em choque.

–Venha, vamos treinar – disse rindo e a puxando ainda mais para o mar.

–Treinar? Treinar o que Fernanda?!

–De fazer nossos filhos!

Ri mais ainda e a beijei com vontade, permitindo que minha energia transbordasse naquele beijo. Minhas tatuagens não tardaram a aparecer, mas isso em nada importava além de Dianna gemendo contra minha boca. Joguei meu corpo para trás nos fazendo mergulhar sem interromper o beijo e logo uma correnteza nos levou para mais fundo ainda. Assim ficamos ali, flutuando submersas na água em um beijo terrivelmente delicioso. Afastei nossas bocas apenas para poder passear meus lábios por outros lugares, mas assim que meus olhos a fitaram todo o mundo pareceu parar diante daquela imagem.

O cabelo castanho e encaracolado flutuava livremente ganhando uma tonalidade especial graças aos raios lunares que iluminavam a todo o oceano. Os olhos verdes ainda se mantinham claros, mesmo com a pouca iluminação. Mas era o sorriso que tomava aquela boca perfeita que transformava aquele conjunto na coisa mais bela que eu já havia admirado. Meu coração estava mais acelerado do que nunca, percebendo mais uma vez como eu a amava de uma maneira irrevogável.

Naquele momento eu sabia que seria capaz de enfrentar Deus e o Diabo por aquela mulher. E assim o faria todos os dias se fosse possível, para então poder casar e construir a mais bela família que eu poderia ter. Sabia que não seria fácil, que poderia levar anos de batalhas e mais batalhas. Mas enquanto Dianna estivesse comigo eu manteria esse meu sonho como a minha mais pura esperança.

Notas finais
Ah sim, feliz natal!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!