Amor Submerso
36 Capítulo 36: O grupo Fênix
Notas iniciais
Peço paciência a vocês com esses capítulos, para alguns podem ser até chato, mas é importante para o enredo da história!
O local ficava em uma rua estranhamente deserta. Certamente que com o passar dos anos São Paulo ficava cada vez mais superlotada de construções, chegando a ter cada vez mais arranha-céus gigantes, dignos do primeiro mundo. Porém ali havia apenas pequenas construções, sendo bastante complicado chegar ao endereço deixado pela Alexia. Assim que sai da van alugada meus olhos alcançaram o céu negro e carregado por causa da poluição. Não haviam estrelas, talvez apenas um tímido brilho de uma estrela solitária que poderia ser facilmente confundindo por uma luz de algum prédio. Perguntava-me com uma tristeza inconsolável se Dianna também estaria vendo as estrelas agora, ou se estaria trancafiada em algum lugar. Deixei escapar um suspiro desolado e olhei para os lados depois de ver Scarlet seguir em direção a um galpão grande e com aspectos de abandonado.
-É aqui? – Lynn foi a primeira a se manifestar.
-Está com medo, princesinha? Não é um palácio, mas sim um esconderijo – Scarlet não tardou a provocar minha mãe.
-Por favor, chega – reclamei impaciente com aquelas atitudes das duas – Não agora, quanto mais rápido tivermos informações, mais rápido vamos achar Dianna.
-Está tentando me dar ordens? – o tom da pirata mudou completamente, ela parecia tão tensa quanto eu, finalmente.
-Estou sendo sensata, é minha mulher que está desaparecida, desculpe se estou um pouco desesperada! – explodi sem consegui conter as palavras, meu peito sendo bombardeado por um coração em angústia.
-Escute aqui pirralha – Scarlet aproximou com um olhar transtornado – Você ainda tem esperança de algo, então não ouse me questionar se estou te ajudando!
-Não, você está solitária, precisando de vingança e encontrar aquele maldito Dante quanto eu – neguei teimosa, sentindo minhas palavras com um veneno que nem eu mesma esperava – Agora se pudermos parar de perder tempo, eu agradeceria educadamente até!
-Chega vocês duas – Nathan me puxou com um pouco de delicadeza tentando quebrar aquele clima tenso que se formava – Estamos todos abalados, a última coisa que precisamos é uma briga interna. Então vamos entrar e descobrir as coisas que TODOS nós queremos saber.
Resmunguei e Scarlet fechou o seu semblante. Ela passou direto por minha mãe sem nem ao menos olhá-la, parecia realmente transtornada. Porém a culpa não veio, sei que havia provocado aquele estado, mas não me arrependia. Estava cansada, estava desesperada e tudo o que eu menos precisava era ficar vendo aquelas duas de joguinhos. Lynn aproximou-se com um olhar complacente, passou um braço sobre meu ombro e me deu um beijo carinhoso no topo da cabeça.
-Vamos encontra-la meu amor, eu prometo – a sereia disse com uma voz serena, capaz de me acalmar apesar da tempestade que me tomava.
Suspirei e engoli o meu choro. Não era momento de fraquejar, de deixar que aqueles pensamentos negativos que me circulassem dominassem meu raciocínio. O desespero não me traria Dianna de volta, eu precisava ser fria, ao menos por enquanto, para encontra-la. Então reuni minha coragem e entrei no galpão, seguindo o vulto de Scarlet que ia mais a frente parando no meio do recinto. Ao entrarmos foi uma verdadeira surpresa com o que encontramos. Ou melhor, com o que não encontramos. Tinha absolutamente nada ali dentro, nenhum móvel ou adereço. O piso era de madeira ainda e o cheiro que pairava o ambiente era de coisa velha. Peguei o meu celular e olhei as horas no exato segundo que se formava o horário da meia noite.
-Estamos mesmo no lugar certo? – perguntei desconfiada.
Scarlet abriu a boca evidentemente pronta para reclamar, mas um leve tremor a parou. Um som de engrenagens nos fez recuar por puro instinto defensivo. O chão a um metro de distancia começou a se abrir e a revelar uma escada para o subterrâneo, havia uma iluminação fraca nas paredes internas e de lá saiu uma Alexia completamente diferente. De dia ela parecia uma verdadeira garotinha patricinha cuja única preocupação era não repetir a mesma roupa. Porém ali a nossa frente apareceu outra pessoa completamente diferente, usando roupas negras justas, cabelo preso em um tradicional rabo-de-cavalo e absolutamente sem maquiagem. O que não tirava a sua beleza de forma alguma, apenas a deixava ao natural. Os olhos estavam sérios apesar de um pequeno sorriso estar desenhado em seus lábios bem desenhados.
-Espero não tê-los feito esperar – Alexia falou e fez um gesto com a mão como se nos chamasse – Vamos descer, isso aqui é só uma faixada barata. Às vezes os locais óbvios são os últimos a serem investigados afinal de contas.
Olhei para Lynn e ela apertou meu braço como um apoio que eu necessitava desesperadamente. Suspirei e fui a primeira a me mover, seguindo Alexia escada abaixo. A descida foi mais longa do que eu pensei, como se tivesse caminhado cerca de três andares para baixo. O silencio reinava entre nós, a curiosidade se mesclava com a ansiedade. No fim, fomos parar em algo que me lembrou vagamente um fliperama de alta tecnologia. Era uma sala ampla cheia de computadores de ultima geração, cadeiras e até mesmo uma máquina com salgadinhos e refrigerante. No fundo havia uma enorme tela digital onde apareciam várias informações, provavelmente advindas do computador principal. O ar estava gelado, denunciando em algum lugar tinha um ótimo ar-condicionado. Havia mais três pessoas ali, todos homens.
Um deles estava sentado em uma cadeira de escritório flutuante, usava um óculos antigo e de aro grande, seu cabelo negro estava bastante bagunçado e seu corpo era magro. Outro estava nos esperando perto da escada, de braços cruzados e um olhar indecifrável, a pele era escura e seus olhos castanhos. Sinceramente me lembrava um general do exército. O último parecia distraído mexendo em um iPad, ruivo e jovem, tinha sardas evidentes nas bochechas.
-Pessoal – Alexia chamou a atenção – Eles chegaram. Essa é a princesa sereia, Lynn e seus filhos Nathan e Fernanda.
-Olá – cada um disse de seu respectivo lugar.
-Esse cara aqui é o Sr. Anderson, nunca o chamamos pelo primeiro nome – Alexia apresentou o cara general – Ele é responsável pelo nosso armamento. Aquele lá com o iPad é o nosso nerd Felipe, ele é um monstro na tecnologia, um dos melhores hackers do mundo. O outro é o Zack, nosso inventor e mecânico.
-Vamos para a sala de reunião – Sr. Anderson falou em um verdadeiro tom de ordem.
Os garotos levantaram sem questionar e nós os seguimos até uma porta que abriu automaticamente. A sala de reuniões era como a de um escritório. Uma mesa redonda com um projetor no centro, cadeiras confortáveis e flutuantes. Sentei em uma e ao meu lado Nathan e Lynn, a nossa frente estavam os outros, sendo que Alexia parece ter feito questão de sentar ao lado de meu irmão. Ou era apenas o meu instinto de irmã querendo ver coisas onde não havia.
-Recebemos um alerta hoje – Zack começou – Nele estava contando brevemente que o Canção foi destruído e que você até agora não havia dado notícias.
-Não tive tempo de fazer um relatório – Scarlet argumentou incomodada – Preciso resolver essa situação o quanto antes. Então vou resumir mais ainda o que realmente aconteceu. Dante me traiu e se uniu ao Povo das Sombras, levando como refém Dianna, uma novata que é a namoradinha da pequena sereia aqui.
-Você é lésbica? – foi a pergunta surpresa que Felipe fez.
-Isso não vem ao caso agora – respondi, porém não estava sendo grossa, suspirei e completei a fala de Scarlet – Ele a hipnotizou, mas de alguma forma ela saiu do transe e acabou sendo capturada realmente.
-Então vocês vieram nos procurar em busca de ajuda? – Sr. Anderson tentou deduzir com um semblante cada vez mais sério e preocupado.
-Mais que isso – Scarlet inclinou sobre a mesa encarando diretamente a Alexia – Dante teve ajuda de um Exilado, segundo Taurus, o único que sobreviveu para nos contar o que aconteceu, era um Draccon.
Era visível ver como a menção desse nome deixou todos do grupo Fênix tenso, ainda mais a caçadora. Porém só naquele momento prestei realmente atenção ao nome Draccon. Lancei um olhar de dúvida a minha mãe e antes mesmo que a pergunta se formulasse ela já estava respondendo com o seu jeito gentil e calmo.
-Draccons é como um pequeno clã, formado pelos Exilados. São a espécie mais perigosas pois muitos os consideram como semideuses que foram corrompidos. Cruéis, impiedosos... Em guerra é como todos os pesadelos materializados.
-E foram eles que aniquilaram o meu povo – Alexia completou em um tom rígido – Eu sabia que algo estava acontecendo, mas não pensei que fosse algo tão grande.
-Pode ser maior do que qualquer um de nós esteja esperando. O elemento surpresa sempre ajuda na decisão da batalha – a pirata ponderou – Estamos encontrando cada vez mais grupos organizados fazendo ataques específicos, e agora essa aparição.
-Sim, por isso dobramos a nossa vigília – Felipe intrometeu-se, seus dedos passearam pela película na mesa, ativando um computador digital de alta tecnologia, ele digitou algumas coisas e um holograma apareceu a nossa frente mostrando imagens das ruas e até mesmo de alguns estabelecimentos – Estamos monitorando o máximo possível o movimento do Submundo e das Sombras. Mas eles estão sendo discretos até demais.
-Porém a cerca de um mês algo aconteceu – Zack falou ativando o teclado virtual a sua frente na mesa, ele fez alguns gestos e um gráfico apareceu mostrando uma linha quase constante – Esse é um detector de energia, sempre que há uma grande movimentação no mundo sobrenatural, há uma oscilação. Mas um mês atrás isso aconteceu.
Ele apertou um botão e a linha do gráfico disparou para o alto, manteve-se constante e depois caiu drasticamente voltando a se manter quase constante. Franzi o cenho encarando as informações.
-Um mês... Essa data bate com a da minha visita à caverna – comentei quase em um murmúrio, mas que foi escutado.
-Claro, todos sentiram isso. Mas não pensei que se prolongaria até aqui – Lynn concordou e tombou a cabeça para o lado demonstrando estar pensativa – A revelação de Anfritite pode ter desencadeado uma corrente de eventos.
-Revelação de Anfritite? – Sr. Anderson questionou mal demonstrando estar confuso.
Então de uma forma resumida, Nathan contou o que aconteceu naquele dia na caverna de forma resumida, o que foi suficiente. Ficamos discutindo um pouco, porém nada poderia ser dito sobre isso, ao menos por enquanto. Comecei a beber café sem parar, estava começando a ficar sonolenta, mas me recusava a demonstrar qualquer tipo de fraqueza.
-Zack, verifique as gravações desses últimos três dias, concentrando na região Nordeste – Alexia ordenou por fim – Precisamos de pistas para ter um caminho.
Minha vontade era de brigar, de jogar aquela caneca contra a parede e gritar com todos ordenando continuar até me mostrarem onde estava a minha Dianna. Mas isso nada adiantaria, sabia disso.
-Vocês precisam dormir – Sr. Anderson observou – Principalmente vocês duas, nenhum guerreiro é bom se não tiver energia suficiente.
Olhei para Scarlet e pude ver o brilho teimoso idêntico ao meu. Não queríamos dormir, mas perante as circunstancias nada poderia ser feito mais. Então seguimos até outro compartimento daquele lugar subterrâneo, um corredor onde havia quartos e banheiros. Tomei um rápido banho e ao sair, vestida com um short e blusa folgadas que foram pegos emprestados, deparei-me com Alexia conversando com Nathan. Ela tinha um sorriso divertido e ele uma face um tanto quanto corada. Franzi o cenho completamente desconfiada, mas mesmo ao me ver Alexia não perdeu o sorriso.
-Venha, vou te levar até seu quarto – ela se ofereceu gentilmente.
Lancei um olhar inquisidor para meu irmão e ele ficou mais vermelho. Revirei os olhos, deixaria isso para depois. Por enquanto segui a Fênix até um quarto, o interior era simples, uma cama de solteiro, uma estante e mesa de escritório. As paredes e piso eram brancos e sem nenhum tipo de decoração. Já estava pronta para virar e me despedir da garota quando a vi sentando-se na cadeira perto da mesa.
-Estou curiosa, se importa de conversar um pouco? – Alexia pediu com seus olhos castanho-esverdeados brilhando em expectativa.
-Não vou conseguir dormir mesmo – dei de ombros e me joguei na cama, era mais macia do que aparentava.
-Você sempre soube que era uma meio-sereia? – Alexia não se fez de rogada.
-Não, foi tudo muito recente. No meu aniversário sofri um acidente de lancha em meio a uma tempestade. Lynn me salvou e finalmente se apresentou como minha mãe. Fui criada pelos meus tios – contei sem ver problemas em compartilhar minha história – E você? Não é justo que apenas eu seja a vitima do interrogatório aqui.
-Ah, tudo bem! – Alexia sorriu rapidamente e depois suspirou – Meus pais não sabem que eu sei que eu sou adotada. Descobri por causa de Laura, que era minha madrinha. Não foi difícil descobrir que eu sou meio-celestial por causa de meus poderes. Sinceramente não sei se meus pais sabem que eu sou apenas metade humana.
-Poderes? Você também tem?!
-Claro! Meu corpo é mais ágil e rápido, não tenho asas, mas posso dar grandes saltos o que me dá uma vantagem. O Povo Celestial não é ofensivo, são puros e tem a magia de cura, algo que também posso fazer muito bem, porém usando ao meu favor. Como deixar alguém com uma parte do corpo imobilizada, cortar internamente os músculos. Isso graças a minha parte meio humana. Ah, também tenho alguns truques com o ar.
E como que para demonstrar isso Alexia fez um movimento de mãos, uma corrente de ar atingiu-me forte o suficiente para me fazer deitar sobre o colchão. Como vingança olhei ao redor e encontrei uma garrafa com água, não hesitei em manipular a água e jogar em Alexia, atingindo o seu rosto com uma quantidade até mínima. Nos encaramos por alguns segundos e acabamos por gargalhar juntas. Era estranho, mas ao mesmo tempo reconfortante saber que existe alguém similar a mim.
-Mas diga-me – pedi depois da crise ter acabado – Você sofre de dupla personalidade ou algo assim? Poderia jurar que você tinha uma gêmea no shopping.
-Ah isso – Alexia riu mais – É parte do disfarce. Primeiro que não quero meus pais metidos nessa confusão, se eles soubessem das coisas iriam querer tomar partido.
-Eu bem sei o que é querer proteger os parentes – lamentei e suspirei – Briguei com meus tios e tecnicamente roubei a namorada de meu primo-irmão.
-Dianna era namorada de seu primo?!
-Sim, mas foi inevitável o nosso amor. Algo que está predestinado a acontecer, simplesmente acontece!
-Você a ama.
Não foi uma pergunta, mas ainda assim sorri bobamente ao responder.
-Se ela estiver no inferno, estarei buscando um caminho para lá para resgatá-la.
-Um dia almejo ter um amor assim – Alexia deu de ombros e levantou – Vou deixa-la descansar, nossos dias vão ficar turbulentos. Quer um remédio para apagar?
-Eu agradeço, senão não vou pregar os olhos.
Alexia foi até uma gaveta abaixo da mesa e pegou para mim um comprimido. Agradeci e a observei sair. Ok, minha concepção sobre a garota começava a mudar, mas ainda assim era uma desconhecida. Respirei fundo, tomei o remédio sem o auxilio da água e deitei na cama. Assim como imaginei, minha mente flutuou por pensamento sobre Dianna. Ergui minha mão e toquei o nosso anel de compromisso, abrindo um sorriso ao ser invadida pela lembrança do nosso primeiro encontro no Mirante da Baía dos Golfinhos. Assim adormeci, com uma doce lembrança e relaxando, ao menos um pouco, antes da verdadeira loucura começar.
{...}
Acordei apenas porque meu corpo estava sendo balançado bruscamente. Resmunguei e com dificuldade abri os olhos, apesar do sono ter sido intenso, meu corpo pouco havia se recuperado. Quando minhas vistas capturaram a figura de meu irmão, resmunguei e tentei empurrá-lo com força.
-Pare com isso! – exclamei com a voz rouca de sono.
-Vamos Nanda! – o tom dele era urgente – Precisa levantar! Zack encontrou o Dante!
Meu coração disparou no mesmo instante. Eu estava preparada para esperar por alguns dias, mas saber que já haviam encontrado aquele maldito despertou em mim uma avalanche de sensações que afastou qualquer sono, qualquer cansaço. Saltei da cama e nem me preocupei em trocar de roupa ou coisa parecida. Finalmente, finalmente! Eu iria encontra-la, eu tinha certeza que sim!
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