Amor Submerso
4 Capítulo 4: Mirante da Baía dos Golfinhos
Notas iniciais
Naquela mesma noite Lorena entrou em meu quarto quando eu me preparava para dormir. Ela usava uma camisola velha, mas que amava por ter sido um dos últimos presentes que ganhou de uma tia que viajou para o exterior e não entrava mais em contato. Minha amiga trazia copos com cappuccino, nosso pequeno vício. Porém soube que isso queria dizer que a noite seria inteira de conversas, por isso a levei direto para a pequena sala que tinha nos quartos do hotel. Apesar de ser uma suíte em um hotel bom, meu quarto não era o melhor que tinha a oferecer, na verdade era o mais simples apesar de todo o conforto. Possuía uma sala com televisão e dvd, logo ao lado o quarto e uma sacada que contemplava ambos os cômodos e tinha até mesmo uma rede e cadeiras rústicas. Fora isso tinha mais nada, o resto do hotel supria todas as minhas outras necessidades.
-E o Rodrigo? – questionei com um sorriso de lado – Vai ficar em abstinência essa noite?
-Eu disse que era uma noite de meninas, mas pretendo voltar para lá – Lorena explicou e sentou no sofá – Agora venha cá, sei que precisa conversar sobre certa morena.
Suspirei exasperada. Desabei no sofá e por um momento fiquei com o olhar perdido. Desde o que aconteceu na subida para o mirante eu não conseguia tirá-la do pensamento. Lembrava-me do calor, da cor daqueles olhos verdes, do cheiro dela e de como era linda. Isso estava me deixando louca, porque geralmente no minuto seguinte as lembranças dela com Eric vinham para estragar tudo e me deixar com uma sensação de culpa.
-Ela é namorada do Eric. Fim. – falei com uma convicção que realmente não tinha.
-Sim, mas você está com um tombo por ela – Lorena foi direta – Eu te conheço Fernanda, eu vi os olhares que você pensa que é discreto.
-Ou talvez porque você me conheça demais? – tentei contornar a situação – Você sabe que eu não sou tão obvia.
-Se todos não estivessem preocupados com a Dianna teriam visto como estavam as duas – Lorena fez que não com a cabeça – Você vai se encrencar mais ainda se não tratar de esquecê-la. Vai se envolver mais ainda e no fim um dos três vai sair magoado.
-Eu sei, eu sei! – choraminguei encolhendo no sofá – Mas ela é tão linda, tão delicada e com uma risada tão gostosa!
-Isso até mesmo eu admito, ela é bonita e chega a dar inveja àquela cintura e comissão de frente. Mas... É namorada de seu irmão.
Fechei os olhos em derrota. Obviamente que ela estava certa, Dianna não era mulher para mim e nunca seria. Era de Eric e ponto final, não podia fazer uma traição a meu primo-irmão tentando roubar a sua garota. Foi pensando nisso que tomei todas as minhas forças, peguei o cappuccino na mão de Lorena e continuamos a conversar e a brincar com formas de esquecer alguém. Ela me fez prometer que enquanto estivesse em Natal, na semana que iria passar lá, iria tratar de sair para me divertir e passar por uma terapia intensiva com outras garotas. Eu não era nenhuma santa, gostava do jogo de sedução e de conhecer novas garotas. Quando mais jovem costumava brincar que tinha de fazer as garotas felizes, não podia me concentrar em uma só, seria injusto com as outras. Depois da faculdade, e principalmente depois de Gabrielle eu passei a ter mais cuidado e a diminuir o meu ritmo o que me fez amadurecer e conhecer mais as garotas com que ficava. Porém, naquele momento, era uma necessidade que iria me fazer cair na noite da cidade litorânea.
-E não esqueça, tente pensar nela apenas como uma amiga, trate ela assim e ela será – Lorena aconselhou quando estava para sair de meu quarto.
-Yes, sir – brinquei com ela – Pena que você não vai estar nas baladas comigo.
-Sou uma moça comprometida agora, não daria certo da mesma forma. Mas porque não começa ligando para Bianca e Brenda?
Meu sorriso malicioso traduziu tudo o que eu achava de chamar as gêmeas mineiras para sair. Lorena riu e saiu para o quarto dela no meio da madrugada. Mas assim que eu fechei a porta deixei mais um suspiro escapar, apoiei a mão na parede e encostei minha testa, repetindo me minha mente como um mantra que Dianna seria apenas uma amiga...
O que se provou um pequeno erro. No dia seguinte levei Rodrigo e Lorena para a Praia da Cacimba do Padre, lugar conhecido pelos surfistas. Lorena amava surfar e talvez essa nossa paixão em comum com a água tenha apenas no unido mais ainda. Éramos praieiras de carteirinha. Rodrigo por ter a pele muito branca ficou na barraca enquanto eu e ela íamos curtir aquelas ondas lindas e a água gelada do mar. Ficamos ali por quase uma hora, rindo e brincando. Sinceramente? Aquilo serviu para lavar a minha mente de qualquer pensamento confuso. Quando estava em uma onda, deslizando por ela e fazendo algumas manobras em brincadeira, ou até mesmo caindo e recebendo um belo de um caldo... Minha mente se esvaziava e restava apenas a mais pura sensação.
Porém quando voltava com Lorena para a barraca para podermos almoçar... Lá estavam Dianna e Eric rindo de algo que Rodrigo falava. Lancei um olhar para Lorena e ela falou duas palavras: Apenas Amigas. Respirei fundo, me benzi com um sinal da cruz fazendo a minha amiga rir e me aproximei repetindo o mesmo mantra mental do dia anterior. Quando nos aproximamos abri um belo sorriso e sentei animada depois de guardar a prancha.
-Estou morrendo de fome, vamos pedir um belo prato já que estamos todos aqui? – sugeri.
-Vamos pedir em dobro – Lorena disse em um tom provocativo – A Nanda quando está assim come por três pessoas.
-Eu ainda estou em fase de crescimento! – reclamei fazendo-me de ofendida.
-Sim, para as laterais – Rodrigo logo perturbou.
Nem mesmo eu pude deixar de rir. Nós três sempre fomos assim, unidos e brincalhões o que tornava nossa convivência na república muito boa. Tínhamos nossos momentos tensos, afinal faz parte de morar com outras pessoas, mas geralmente estávamos brincando e nos zuando eternamente. Pedimos catado de siri como entrada e depois dois pratos de peixe com escaldado. Eu tentava a todo custo não prestar atenção na mão de Eric entrelaçada a de Dianna, me incomodava ainda, mas depois de tanto repetir para mim mesma que isso era normal e que eu tinha de aceitar, passei a relevar tal detalhe. Mas ai cai na besteira de me deixar solta na conversa e Dianna logo tratou de puxar assunto comigo.
Ai que estava o problema. Começamos a conversar e não paramos mais. Éramos apaixonadas pelos seres marinhos e de inicio falamos da diferença dos assuntos dado em nossas faculdades, que apesar de ter sido o mesmo curso tinha um sistema completamente diferente... Mas logo estava tão curiosa sobre ela que não resisti em fazer perguntas em uma ânsia incontrolável de conhecê-la. E o que eu descobri? Que ela era completamente romântica e até mesmo sem jeito quando as coisas ficavam íntimas. Eric mal percebia, mas quanto mais ele ajudava a falar de Dianna, mais eu me encantava. Logo percebi também nossas diferenças, a morena gostava de filmes românticos, de drama e comédia. Eu preferia ação, aventura, filmes de terror. Mas ambas gostávamos de desenhos e das mensagens que alguns deixavam. Ela gostava de livros juvenis e estrangeiros, eu preferia os clássicos e inclusive brasileiros, como alguém não poderia gostar de Clarisse Lispector? Eu preferia esportes, ela preferia dançar.
Depois de um tempo eu já podia perceber como Dianna era. Delicada e romântica, mas de um jeito simples e simpático, tímida em alguns assuntos, mas direto em outros. Não gostava de ficar parada e amava o mar tanto quanto eu e Lorena. E principalmente tinha uma mania de falar olhando nos olhos, sempre! E isso algumas vezes me fazia perder-me em pensamentos e desejos. Sabia que muita gente ficaria sem jeito de ser encarada por tanto tempo, mas eu adorava ter os olhos dela sobre mim. O problema? Eu ainda estava terrivelmente encrencada.
{...}
Era final de tarde de sábado. Na manhã seguinte eu estaria partindo para Natal e só retornando no próximo final de semana. Então como sempre fazia para me despedir da ilha, fui ver o pôr-do-sol no penhasco na Baía dos Golfinhos. Era proibido ir até ali sozinha já que fazia parte de uma das trilhas do Parnamar, mas já fui ali tantas vezes que já havia gravado todos os caminhos e rotas de fuga. Se bem que aprender isso já fui pegar por guardas várias vezes.
No entanto, ali em um penhasco de 70 metros eu tinha a melhor visão de todas. Eu costumava pensar que aquele lugar era o meu refúgio, quando estava zangada ou confusa vinha parar ali. O esforço de chegar e a paisagem tinha um efeito calmante poderoso em todo o meu ser. E era exatamente disso que eu precisava. Então ali estava eu, sem me importar com o frio que começava a fazer, com o vento abraçando meu corpo e deixando meu cabelo loiro e pintado nas pontas esvoaçando em seu ritmo. Estava sentada próxima a beirada do precipício, encarando o mar e vendo um golfinho ou outro saltando nas ondas. Ali era apenas eu, a natureza e aquela sensação de paz...
-Opa, parece que eu não sou a única a fugir para cá.
Meu coração saltou no lugar assim como meu corpo. Isso era perseguição? Virei meu corpo rapidamente para um ponto atrás de mim para descobrir Dianna parada com um sorriso culpado no rosto. Ela usava um short floral, uma blusa branca e um casaco por cima, provavelmente sabendo que durante a noite ali sempre fazia frio por causa da altura do penhasco.
-O que faz aqui? Como chegou? – perguntei ainda em um estado de surpresa.
-Minha primeira trilha foi pra cá – Dianna explicou enquanto se aproximava de mim, eu havia paralisado no lugar – Eu fiquei apaixonada por esse lugar e aprendi a vim sozinha para cá. Eric me ensinou como evitar ser pega.
Eric. Meu estado de choque foi quebrado com isso, mas mesmo assim a observei sentar em meu lado. Mordi o interior da boca lembrando a mim mesma: é apenas uma amiga, namorada de Eric. Tornei meu olhar para o mar e para o céu alaranjado, o pôr-do-sol começou e nenhuma das duas ousou falar algo. Era a visão mais bela do paraíso, não precisava de palavras ou de adjetivos, apenas sentir o fenômeno natural e agradecer por ter tido a chance de apreciá-lo. Naqueles poucos minutos minha paz retornou um pouco, absorta na beleza que tomava conta de toda a paisagem. Dobrei um joelho meu e o abracei ao sentir um pouco do frio, eu amava a sensação, deixava-me viva e acordada apesar de no inicio pegar um pequeno resfriado por ter ficado tão exposta ao sereno.
-Se quiser eu posso ir – Dianna falou ao meu lado quebrando o silêncio – Esse santuário parece ser seu primeiro e não quero incomodar.
A olhei e descobri o olhar mais fofo e sem jeito. Naquele momento meu mantra foi desligado e tudo o que eu podia pensar era que a luz do crepúsculo a deixava ainda mais bela e encantadora. Tive de conter um suspiro de pura admiração, ao invés disso sorri e fiz que não com a cabeça.
-Fique, eu gosto de sua companhia – admiti sem querer, virando logo meu rosto fingindo estar olhando para o mar para que ela não percebesse que estava sem jeito por ter revelado algo que não tinha planejado – As vezes fico pensando como seria nadar lá embaixo, com os golfinhos.
-Pena que é proibido. Mas é por uma boa causa – Dianna comentou – É o santuário deles, onde namoram, se casam e tem filhinhos.
A minha risada escapou sem que eu percebesse. O jeito que ela falava, com aquela voz tão potente e sedutora, mas ao mesmo tempo tratando o assunto como uma menina doce e boba... Deus, como não me encantar?
-Você tem sorte por ter conseguido um trabalho tão legal – falei finalmente a olhando – Acho que eu ficaria mais brincando com os animais do parque aquático do que trabalhando realmente.
-E é assim – Dianna sorriu mais ainda – Se não for como uma brincadeira para eles, seria muita crueldade. Tento fazer isso da melhor forma para os animais e que acabe resultando em um bom show.
-Por isso dizem que é tão incrível. Quando eu voltar eu querer ver seu show bem de perto.
-Não se esqueça de trazer uma toalha. No final vai ficar toda molhada.
Abri um sorriso altamente malicioso e provavelmente ela entendeu para onde meus pensamentos foram, pois ficou vermelha e me empurrou com o ombro rindo. Não me fiz de santa, dei de ombros e voltei a encarar o horizonte. Ainda havia traços vermelhos, mas a noite estava se sobrepondo ao dia com seu véu negro e pontos brilhantes. Como sempre me distraí olhando as constelações tentando identifica-las. Era quase um ritual, ali tão no alto e sem as luzes artificiais da cidade as estrelas ficavam tão perto e tão belas que me seduziam a ponto de me perder naquela imensidão chamada universo.
-O que tanto procura? – Dianna perguntou curiosa.
-Estava olhando as constelações, desculpe, eu me distraio fácil com essas coisas – expliquei sorrindo para ela com um pouco de culpa.
-Gosta das estrelas? – ela continuou dessa vez olhando para o alto.
-Sim, são tantas e é lindo pensar que há outras mais... Acho que é o verdadeiro infinito, não podemos ver todas, mas sabemos que existe muito mais e a muito além – expliquei e me aproximei, apontando o dedo para o alto para que ela acompanhasse com o olhar – A mais fácil de localizar é o Cinturão de Órion, porque é feita pelas Três Marias, aquelas três estrelas que sempre estão alinhadas. Elas são o cinto, as duas estrelas abaixo formam as pernas e as três de cima a parte superior do corpo.
Voltei a olhar para ela e a vi buscando a constelação, mas quando a achou abriu um sorriso ingênuo e verdadeiro. Meu coração disparou sem permissão, estava tão perto dela que não sentia mais frio e o vento tão traiçoeiro trazia o perfume natural dela para mim. Dianna virou o rosto e por alguns segundos ficamos assim, olhando nos olhos uma da outra sentindo o momento tão propício a um beijo, mas sem nenhuma das duas mover um músculo. Ainda assim, meu corpo inteiro reagia e aquele olhar parecia enlaçar-me em um novo mundo... Um mundo que teimosamente pensava que era só meu e dela.
-Pode me mostrar mais? – ela pediu em um tom baixo.
Pisquei algumas vezes e engoli em seco. Dianna não tinha cortado a ligação que se criava... Mas ainda assim não tinha se afastado nem um pouco. Sorri ao perceber que só por ela estar perto daquele jeito e pedindo para que eu fizesse uma das coisas que eu mais gostava me deixava satisfeita e feliz. Comecei a mostrar algumas constelações, toda orgulhosa e contente por estar impressionando a garota que tomava conta de meus pensamentos. Dianna era curiosa e esperta, não demorou de entender todos os pontos de ligação entre as constelações que eu mostrava.
-Se eu pudesse faria uma constelação como tatuagem – revelei de forma distraída, ainda olhando para o alto – Só que nunca consigo me decidir qual, então não fiz ainda.
-Acho que se fosse fazer tatuagem eu faria de lírios – Dianna contou.
-Lírios?
-Sim, amo os lírios, são minhas flores favoritas... Porque eram as de minha mãe. O cheiro me lembra ela, assim como os desenhos que ela fazia das flores, ela sempre se empenhava mais quando desenhava lírios. Apesar de pensarem que gosto de orquídeas, na verdade amo os lírios.
A olhei e pude ver aquela tristeza que eu tanto conhecia. Por um impulso peguei sua mão e sentei melhor, virando meu corpo para o dela.
-Sinto muito por sua mãe – falei baixo e de forma carinhosa.
-Como soube? – Dianna me fitou surpresa.
-Porque conheço esse olhar – dei de ombros e sem perceber entrelacei meus dedos com os dela – Porque eu já o tive quando notava que não tinha minha mãe de verdade ao meu lado. Nem mesmo o meu pai. Eu os perdi desde muito cedo, tio Saulo e tia Rita tomaram conta de mim como uma verdadeira filha e eu os tenho como meus pais... Mas antes eu ficava pensando como meus pais seriam, qual seria o gosto de minha mãe. Sinto até um pouco de inveja, gostaria de saber qual era a flor favorita dela.
De uma forma surpreendente Dianna inclinou o corpo para o meu e com o braço livre envolveu-me em um abraço. Sua mão apertou ainda mais a minha. Sempre vivi essa angustia de não conhecer meus pais em silêncio. Não mostrava isso para meus tios com medo de que eles se sentissem culpados e menos amados, mas aquela sensação de que algo estava incompleto ainda embalava o meu ser em uma canção triste. Mas ali, nos braços de Dianna, sabendo que ela também estava compartilhando de uma dor parecida... Eu me senti entendida, eu me senti amparada. Quando nos afastamos sorrimos cumplices.
-Acho melhor voltarmos – eu disse ainda em um timbre mais baixo – Se ficar tarde demais podem pensar que eu sequestrei você.
-E você é do tipo sequestrador? – Dianna brincou quando levantou.
-Não, sou do tipo assaltante. Pego e não devolvo mais.
Ela riu, mas Dianna nunca saberia que naquele momento eu queria roubá-la para mim e fazê-la só minha. Eu não tinha como negar essa vontade, apesar de saber que era impossível não me impedia de sonhar.
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