Amor & Preconceito
4 Lágrimas de Sangue
— Sim, eu enlouqueci. Há tempos estou louco de amor por você.
— Eu não sei… Essa decisão é muito precipitada. Eu não tenho nem o dinheiro da passagem.
— Fique tranquila, eu tenho um dinheirinho guardado.
Eu não sabia se aquilo era uma boa ideia. Era claro que o meu maior desejo era poder ser feliz com Guilherme, mas apesar de tudo eu amava muito o meu pai e não queria deixá-lo sozinho.
— Passarei na sua casa depois da meia noite.
— Eu não disse que aceitava fazer isso — protestei.
— Nós precisamos fazer isso, só assim poderemos ser felizes.
Não disse mais nada, apenas dei um longo e intenso beijo em Guilherme, em seguida fui para casa.
No caminho fui pensando no que o meu amado havia dito e ele tinha razão. Nós nunca poderíamos ser felizes naquela cidade, papai nunca nos deixaria em paz. Ele usaria cada dia da sua vida, apenas para nos amaldiçoar, o melhor era partir.
Mudar-me para Salvador não significava, de forma, alguma abandonar o meu pai. Eu sabia o quão era importante para ele e nunca o deixaria só, sempre daria um jeito de vê-lo.
Quando cheguei em casa encontrei papai na cozinha. Ele estava fazendo um bolo.
— Quer ajuda?
— Sim, Ângela, por favor.
O ajudei a fazer o bolo e enquanto isso nós conversávamos. Há tempos não tínhamos uma conversa tão leve quanto aquela. Eu sentia uma enorme confiança no meu pai e era como se pudéssemos falar de tudo.
— O seu João veio aqui hoje. Estava com um dor de dente horrível, dei umas ervas pra ele e aí ele começou a chorar, dizendo que não tinha como pagar, que eu sempre salvava ele e blá blá.
— O seu João é sempre emotivo mesmo, às vezes dá agonia.
— Sim, verdade. Mas e você? O que fez hoje?
Naquele momento, me lembrei que talvez, aquela fosse a última vez na qual meu pai e eu conversaríamos. Talvez, depois da minha fuga, nunca mais ele fosse querer falar comigo.
— Estava com ele não foi? Por isso não quer falar?
— Pai, eu estudo na mesma escola que o Guilherme, é meio difícil eu não estar com ele.
Ele deu um longo suspiro e depois mudou de assunto. Fiquei feliz por ele não fazer o mesmo drama de sempre ou vociferar as mesmas ofensas racistas.
Conversámos por um longo tempo e sobre variados assuntos.
— Tenho que te mostrar uma coisa — anunciou em tom de animação.
Papai foi até o quarto dele e quando voltou trouxe consigo um enorme caderno com capa de couro.
— O que é isso? — indaguei curiosa.
— Um caderno de anotações, que alguns chamam de grimório. Aqui estão todas as minhas rezas e receitas com ervas.
— Eu pensava que o senhor guardava tudo na cabeça.
— Seria burrice.
— Por que está me mostrando isso?
— Porque estou lhe dando.
— Mas por quê? O senhor ainda deve ter muita coisa pra escrever.
— Acho que não. No auge dos meu sessenta anos o que mais eu posso descobrir? Ah, estou de dando esse caderno apenas para você se guiar, mas se você me suceder no curandeirismo, é importante que você tenha o seu. Num grimório, também se anotam pensamentos e aflições, é uma espécie de diário místico.
— Eu não consigo entender o porquê do senhor estar me dando isso.
— Não é pra entender, é pra aceitar.
Não me sentia muito à vontade para aceitar aquele caderno, pois sabia que iria para Salvador e que não seguiria o caminho do curandeirismo. Mas como diria aquilo ao meu pai? Não, não existia uma forma de dizer aquilo. Eu não poderia contar pra ele, de forma alguma, o meu plano de fuga.
[...]
Por volta das 20h disse a papai que estava morrendo de sono, por isso, iria dormir mais cedo. Obviamente estava mentindo, na verdade, eu iria arrumar as minhas coisas para mais tarde poder fugir com Guilherme.
Às 22h recebi uma mensagem do meu amado, perguntando se estava tudo certo. Eu confirmei e ele disse que às 2h da madrugada estaria me esperando na minha varanda.
Sentia uma enorme dor por ter que me afastar de papai daquela forma, mas aquilo era o melhor a se fazer. Afinal, ele nunca aceitaria o meu amor por Guilherme.
No horário combinado pulei a janela do meu quarto e encontrei com o meu namorado me esperando na varanda. Nós cumprimentamos com um beijo curto.
— Vamos logo, meu pai tem sono leve. Não quero que ele acorde — sussurrei.
Naquele momento percebi algo que não gostei muito: era noite de Lua Minguante. Entretanto, preferi não falar nada com Guilherme, não era hora de misticismo, nós precisávamos sair dali o quanto antes.
— Sim, vamos.
Antes que pudéssemos nos afastar da minha casa. A luz da varanda se acendeu e em segundos meu pai estava lá, bradando:
— Parados aí ou eu atiro.
Virei-me para trás e vivi papai com um revólver nas mãos. Nunca eu poderia imaginar que papai tinha uma arma em casa. Isso não combinava com o perfil calmo dele.
— Pai, não faça isso — pedi com um grito desesperado.
— Ângela, volte pra casa.
Mantive-me imóvel, apesar do medo que eu tinha dele atirar.
— Ângela, volte pra casa agora ou eu atiro nesse maldito — vociferou.
Acabei obedecendo e fui para a varanda, ficando próxima a papai, de onde eu poderia observar tudo que viesse a acontecer.
Mesmo depois de eu ter atendido ao pedido dele, ele continuava com a arma levantada em direção a Guilherme.
— Talvez agora seja um bom momento para acabar com isso — disse papai.
— Seu Luis Antônio, nós podemos resolver isso de forma diferente, nós podemos conversar — sugeriu Guilherme aproximando-se.
— Mas eu não quero conversar.
O semblante de papai era o de alguém consumido pela raiva. Era como se ele estivesse possuído, aquele não era o seu usual rosto calmo, existente até mesmo em momentos de irritação, era como se aquele não fosse o meu pai.
— Por favor, deixe a sua filha ir comigo, o senhor sabe que nós nos amamos.
— Você acha que eu enlouqueci? Por que eu consentiria que a minha filha fugisse com um preto? — interrogou aos berros.
— Quer saber? Eu estou cansado desse seu racismo — declarou Guilherme, extremamente irritado.
— Ficou irritadinho, foi preto? — provocou papai.
Meu pai saiu da varanda e foi em direção a Guilherme, ficando frente a frente com ele. Então, papai colocou o cano da arma sobre o peito de Guilherme e começou a ameaçá-lo. Isso deixou o meu namorado ainda mais irritado, fazendo com que ele desse um forte empurrão em papai, fazendo o cair no chão.
Meu pai obviamente revidou a agressão e logo eles estavam em pleno confronto.
Aquela situação me deixou extremamente desesperada, eu sentia que aquilo não acabaria bem, mas por mais que eu implorasse para que eles parassem, os dois pareciam não me ouvir e continuavam a se atacar. Até que em um determinado momento os dois caíram no chão, um sobre o outro, em seguida, pude ouvir um disparo. Tal disparo meu deixou ainda mais nervosa, pensar que qualquer um dos dois pudesse ter se ferido me fazia entrar em pânico.
Após alguns instantes, Guilherme levantou, mas papai não. Ele tinha sido atingido no peito e sangrava bastante.
Corri desesperada na direção dele, porém quando cheguei até meu pai ele já estava morto. De nada adiantou que eu sacudisse o seu corpo e implorasse para que ele me respondesse.
— Você matou o meu pai, assassino — gritei.
— Ângela, você viu que foi legítima defesa — argumentou.
— Você podia simplesmente ter ido embora e desistido dessa fuga idiota.
— Então você queria que eu aceitasse o racismo do seu pai para sempre?!
— Ele era tudo que eu tinha, minha única família — expus desesperada.
— Meu amor… — disse aproximando-se de mim.
— Suma daqui — bradei com todas as minhas forças.
Guilherme hesitou um pouco para ir embora, todavia acabou atendendo ao meu pedido. Então, eu fiquei ali, sozinha, com o corpo do meu pai. Eu chorava e gritava de forma completamente desesperada. Lágrimas insistentes rolavam descontroladamente pelo meu rosto. No entanto, mesmo sentindo uma profunda raiva de Guilherme, eu sabia que elas não eram culpa dele, mas sim do meu pai e do seu maldito racismo.
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