Amor Marginal
12 Capítulo XII
Notas iniciais
REGINA MILLS SWAN
Uma semana desaparecida
Assim que coloquei meu plano de vingança em prática, peguei o carro barato e enfiei o pé na estrada. Desde o primeiro instante fora de Storybrooke, comecei a comer bastante. Eu precisava engordar, mudar de aparência. Hambúrgueres, chocolate e refrigerante eram um ótimo modo de fazê-lo.
Minha primeira parada na estrada foi em um desses restaurantes baratos. Fui ao banheiro vazio e tingi meu cabelo com uma tinta vagabunda, deixando-o num tom quase cor de salsicha, totalmente morto, como eu deveria estar. Cortei com uma tesoura qualquer meu lindo cabelo, deixando-o todo picotado, um pouco mais curto do que antes.
Mudei-me para um hotelzinho em uma cidade não muito distante e ainda menor que Storybrooke. Apresentei um RG falso e paguei minha estadia com dinheiro vivo. Eu havia sacado uma boa quantia para sobreviver. O bom é que com dinheiro vivo não precisamos de cartões. Eu não poderia ser identificada.
Eu não tinha tendência a engordar então meu corpo não mudou muito, apenas meu rosto deu uma arrendondada com meu excesso de comilância, mas o cabelo horrível, o óculos falso que comprei e as roupas de velha que eu usava eram mais do que suficientes para esconder a beleza e exuberância de Regina Exemplar.
Além de comer bastante, eu me mantinha ocupada assistindo à televisão. Claro, eu precisava me manter a par de tudo o que estava acontecendo com Emma. Queria acompanhar de perto a sua queda. Assistia a cada jornal, a cada programa de tv cheio de exageros sensacionalistas para venderem e me divertia ao ver todas as pessoas acusando deliberadamente Emma de ser uma assassina.
Ela matou a esposa, diziam. É uma psicopata com certeza. Sua relação com a irmã é muito íntima, quase incestuosa. Essas afirmações eram uma constante na mídia.
Devo admitir que a respeito da relação de Emma e Elsa eu desconfiava que fosse verdade, embora eu me negasse a aceitar a ideia de que meu marido poderia estar fodendo aquela garota sonsa e sem graça na minha ausência.
Como uma excelente psicóloga que sou — ou costumava ser — eu não pude deixar passar despercebido a relação extremamente íntima do meu marido e sua irmã. Elas eram praticamente unha e carne e a maneira como Elsa olhava para Emma, a maneira como falava com ela não me deixava dúvidas de que aquela cretina a desejava. Por vezes me diverti imaginando Elsa sozinha em sua decadência masturbando-se enquanto gemia o nome de Emma. A minha Emma.
Agora que desapareci, é provável que Elsa tenha aproveitado sua chance. Eu não deveria me irritar com isso pois Emma já se provou ser uma maldita traidora fodendo sua aluna mais jovem durante um ano inteiro. Mas pensar na relação de Emma e Elsa me deixa muito nervosa, tanto que começo a comer mais do que já estou.
Não consigo imaginar Emma amando alguém tanto ou mais do que eu. Não consigo imaginá-la numa relação tão íntima quanto a nossa. Sou possessiva demais para isso. Tenho vontade de quebrar tudo ao imaginar tal acontecimento. Mesmo odiando o fato de ter sido traída, a coisa toda com a biscate da Ruby não era tão ruim quanto se Emma ficasse com Elsa. Porque eu sabia que aquela garotinha de peitos grandes não era páreo para mim em nenhum sentido. Ela jamais dominaria Emma como eu. Jamais seria capaz disso, ou de ter uma relação com tamanha intimidade.
Vejam bem, eu conheço Emma Swan muito profundamente. E só outra pessoa no mundo a conhece da mesma maneira: Elsa. Mas não quero pensar nisso agora.
Há dois dias fiz amizade com uma "vizinha". Uma garota mais jovem de péssima aparência. À primeira vista soube que era uma dessas vadias que apanham dos caras. Seu nome é Grace. Ela puxou papo e eu tive que ser cordial, manter as aparências. Frequentemente ela vem ao meu quarto e assistimos algo juntas. Outro dia assistimos um desses programas falando sobre o caso de Regina Exemplar e Grace teve a ousadia de chamá-la de "vadia mimada" e afirmou que provavelmente ela mereceu o fim que teve. Eu não podia deixar barato, então quando ela foi ao banheiro, cuspi em seu refrigerante. Isso me fez sorrir.
O meu plano todo estava indo bem, eu tinha tudo sobre controle ou achava que tinha até ter meu quarto invadido por Grace e um homem do mesmo estilo que ela. Os dois me atacaram, roubando todo o dinheiro que eu tinha. Eu não pude fazer nada a respeito, obviamente eu não poderia chamar a polícia então tive uma crise de raiva e choro, juntei minhas coisas, peguei o carro e desapareci dali, pensando no que diabos eu faria a seguir.
EMMA SWAN
Duas semanas desaparecida
Minha vida se tornou um verdadeiro inferno. Ao redor da minha casa ficavam carros de jornalistas estacionados dia e noite esperando para me dar o bote. Era só eu colocar os pés para fora de casa e lá estavam eles gritando meu nome, tirando fotos. Eu sequer podia deixar as cortinas abertas, não tinha privacidade alguma.
Meu advogado Robert Gold era excelente, o que poderia justificar o fato de minha irmã precisar hipotecar sua casa para pagar seus honorários. Gold estava trabalhando incasavelmente em meu caso e havia se instalado em um hotel em Stoybrooke enquanto cuidava do meu caso. Apesar disso, não havia muito que ele pudesse fazer.
Gold dizia que eu não poderia ser presa sem um corpo, mesmo que todos os indícios apontassem para mim. Então enquanto o julgamento não chegasse, eu ficaria no conforto do meu lar aguardando e é claro, ouvindo todos me chamarem de assassina.
Uma denúncia anônima fez com que o detetive Graham encontrasse todas as coisas que eu não comprei — mas que estavam constando na fatura dos meus cartões de crédito — no depósito da minha irmã e eles a prenderam, o que me desesperou. Eu jamais imaginei que a coisa toda pudesse chegar naquelas proporções, mas Gold foi rápido em retirar Elsa da cadeia, não deixando sequer que ela passasse a noite em uma cela fétida.
Eu sabia que Regina estava viva e querendo me incriminar, mas não fazia ideia de onde ela estava e esse era o grande problema. Gold acionou homens a seu serviço para procurá-las, mas Regina parecia ter evaporado do mapa, nenhum sinal dela, o que era um grande problema para mim.
A cada dia eu sentia mais sua falta. Eu não estava mais preocupada em ir para a prisão ou para a cadeia elétrica. A falta que Regina me fazia, a dor, a saudade, a necessidade que eu tinha dela eram bem maiores do que meu medo da morte. Na verdade eu estava morrendo a cada instante em sua ausência.
Depois de tudo que aconteceu em meu casamento, da minha traição, da crise terrível na qual entramos, das brigas intermináveis, do ódio que adquirimos uma pela outra, agora eu estava sofrendo de saudades. Quem poderia me entender?
Sentia falta do perfume de Regina, da imagem dela na cozinha logo pela manhã preparando nosso café, dos lábios vermelhos e carnudos sorrindo para mim, dos olhos intensos, de suas conversas inteligentes, da risada rouca, mas principalmente eu sentia falta do poder que ela exercia em mim e que ironicamente continuava a exercer mesmo a distância.
A forma como minha esposa me dominava era absurdamente fora do normal. Ao seu lado eu sentia como se não tivesse o controle de nada em minha vida, nem ao menos do meu corpo que contra a minha vontade reagia à ela sedento de desejo. Eu precisava de Regina para viver e não podia mais negar tal fato.
Fosse pela situação complicada na qual eu me encontrava, pela carência, pelo tempo que Regina estava longe, eu e Elsa aprofundamos ainda mais nossa relação — se é que tinha como aprofundá-la ainda mais. Vivíamos sob o mesmo teto constantemente, longes das câmeras, longe do mundo. E entre quatro paredes dávamos vida aos nossos instintos mais sacanas e eu me surpreendia a cada dia mais com a força erótica de Elsa que parecia fazer de tudo para conseguir me dominar como a Regina, mas ela não entendia que ninguém poderia fazê-lo, não como Regina.
— Você me parece tão distante — Elsa comentou, olhando-me da cama.
Eu estava nua, sentada na poltrona ao canto do meu quarto com Regina. Eu tragava um cigarro na tentativa de acalmar meus nervos.
— Impressão sua — respondi com voz mecânica, não a encarando.
— Eu te conheço bem, Emma — como se eu precisasse lembrar desse fato.
Eu não queria olhá-la, porque eu sabia que seus olhos azuis estavam me mirando daquela maneira que ultimamente andava me incomodando. Um olhar de quem ronda, de quem quer saber demais.
— Deveria saber, então, que estou assim porque estou fodida — disse com exaltação, arrependendo-me logo em seguida. — Muito fodida... Droga.
— Você não será presa, Emma.
— Como pode ter certeza? Tudo aponta contra mim...
— Mas a Regina está viva!
— E daí? Se ela não aparecer, quem vai morrer sou eu.
Elsa fica em silêncio, um silêncio sepulcral. Encerrei meu cigarro e olhei em sua direção, seu olhar era triste, como se estivesse sofrendo.
— Ela irá aparecer. Aquela vadia vai aparecer. Ela tem que aparecer!
Não respondi nada.
REGINA MILLS SWAN
Duas semanas desaparecida
Depois de ser roubada, sem ter como sobreviver sozinha, decidi recorrer a única pessoa que poderia me ajudar naquele momento sem estragar meu plano: Jefferson Collins.
Jefferson era um ex namorado da época do colégio. Nós tivemos uma relação problemática, porque ele era verdadeiramente obcecado por mim. Ainda é. E possui um histórico de doença mental, mas é minha única salvação agora.
Liguei para ele e nos encontramos discretamente em um bar de nosso nível social. Jefferson era extremamente rico, mais do que eu fui outrora. Contei a ele todas as mentiras que estavam em meu diário e com lágrimas e uma encenação teatral me fiz de vítima que fugira do algoz para sobreviver.
Ele prometeu que cuidaria de mim, que me deixaria segura e longe das garrafas de Emma, levando-me para uma bela e enorme casa de campo. Longe de todos, eu poderia dar continuidade aos meus planos.
Jefferson me ofereceu todo o luxo e conforto, comprou roupas novas e que combinavam com minha real personalidade, me trouxe tinta para retornar a cor antiga de meus cabelos que estavam horríveis e assim em poucos dias eu voltei ao normal. Voltei a ser a magra e linda Regina que sempre fui, só que agora com os cabelos mais curtos, na nuca. O que devo admitir que me caiu muito melhor do que meus cabelos compridos de antigamente.
Emma resolveu dar uma entrevista a grande apresentadora Ingrid White que era conhecida por sempre denunciar casos de agressões e assassinatos matrimoniais. A essa altura do campeonato, Emma devia estar desesperada tendo plena noção de que estava prestes a se foder em breve graças a mim.
Fiquei tão excitada com a ideia de rever minha maldita e submissa Emma que sentei-me no sofá meia hora antes e não desgrudava os olhos da tela, mesmo enquanto comia as delícias que Jefferson trouxera para nós. Ele estava ao meu lado para assistir. Quando o programa começou já tive meu primeiro choque: Emma estava usando um casaco que eu havia lhe dado, um casaco que ela nunca usara e eu soube que aquilo significava algo.
— O que essa mentirosa vai dizer? — o tom de Jefferson era irritadiço.
A entrevista começou e meu coração saltitava. Emma me surpreendia a cada palavra que escapava dos seus lábios. Ela estava tão diferente do meu marido dos últimos tempos. Ela agia exatamente da forma que eu gostaria, da maneira que eu desejava que ela agisse e isso estava deixando-me totalmente aturdida e eu meu peito se inflava, enchendo-se de uma paixão súbita por ela, uma paixão que nunca morreu.
O ápice da entrevista chegou no momento em que Ingrid disse:
— Emma, olhe para a câmera agora. Se sua esposa estiver viva e puder te ouvir, fale com ela. Diga o que gostaria que Regina soubesse.
— Regina, eu te amo. Eu sei que nos últimos tempos eu não venho sendo o "marido" que você merece. Fiquei descuidado e distante, não cumpri minhas promessas, desrespeitei nosso matrimônio, e eu sinto muito por isso. Volte para mim, Regina. Eu prometo que vou melhorar, que vou fazer de tudo para consertar as coisas. Eu te amo. Volte para casa.
Meu queixo estava praticamente caído quando Emma encerrou sua performance. Eu jamais pensei que a preguiçosa traidora da minha mulher poderia voltar a ser como era antes, ou poderia tornar-se ainda melhor.
Emma entendeu tudo! Ela sabia que havia errado, sabia que eu estava lhe punindo e então ela aparecera em rede nacional para se desculpar, para dizer que me ama, entrando totalmente no personagem que eu criei para ela, assumindo toda a culpa do nosso fracasso matrimonial e me implorando para voltar.
Minha doce Emma, minha garota do interior perdida... A submissa que me enlouqueceu. Ah, como estava orgulhosa dela! Como estava vibrante após assistir sua entrevista. Emma havia entendido tudo direitinho, havia entrado no meu jogo e desempenhado seu papel de forma excelente.
Não, eu não poderia negar que era louca por ela. Emma me pertencia e assim seria até na morte. Tudo o que eu estava fazendo era justamente por amá-la demais. Eu não merecia sua traição, seu descaso, por isso decidi vingar-me dela. Porque Emma não tinha o direito de me descartar, de jogar fora todo aquele amor por pura preguiça de se esforçar, de ser tão extraordinária quanto eu.
Meus olhos estavam esbugalhados, a boca aberta, eu ainda sentia meu corpo todo vibrante enquanto relembrava a imagem de Emma, sua expressão perfeita, os olhos verdes cheios de tristeza e arrependimento quando ela olhava para a câmera, como se olhasse para mim e implorasse. "Me foda, majestade.", "Volte para casa, Regina."
Depois que o programa acabou e Jefferson desligou à televisão com evidente incômodo após assistir a declaração de Emma, eu sabia exatamente o que deveria fazer.
Voltar para Emma.
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