Amor Marginal

13 Capítulo XIII


Notas iniciais
Estamos na reta final... Façam suas apostas!

REGINA MILLS SWAN

Três semanas sumida

Eu não poderia simplesmente voltar para minha casa depois de tudo. Com todas as pistas minunciosas que criei para incriminar meu marido, se eu voltasse de súbito sem uma boa história para contar certamente quem acabaria se estrepando com a polícia seria eu, afinal, me acusariam de forjar minha própria morte. O país inteiro me odiaria, acharia que eu era uma louca e isso não estava nos meus planos.

Na verdade voltar para a Emma também não estava. Inicialmente o meu plano era incriminá-la e por fim me matar de verdade, mas as coisas saíram um pouco diferente do que o esperado. Confesso que fui pega de surpresa pela entrevista perfeita de Emma. No programa de Ingrid, ela se mostrou claramente apaixonada e devota, mostrando-me que ela não só sabia e entendia minhas razões para estar lhe punindo como também implorava para que eu voltasse para ela, prometendo mudar seu comportamento e resgatar nosso casamento que um dia fora exemplar.

Jefferson estava sempre por perto, querendo me lembrar sempre como eu era segura e amada. Ele dizia que eu estava segura e era amada embora não me deixasse sair de casa, o que não fazia com que eu me sentisse segura e amada. Ele não deixava as chaves de nenhum carro. Nem chaves da casa nem a senhra de segurança do portão. Eu era uma prisioneira — o portão tinha quatro metros e meio de altura, e não havia escadas na casa. Eu imaginava que poderia arrastar vários móveis até o muro, empilhá-los, escalar e saltar para o outro lado, fugindo mancando ou me arrastando, mas essa não era a questão. A questão é que eu era a estimada e querida hóspede dele, e uma hóspede deve poder partir quando quiser. Eu mencionei isso há alguns dias.

— E se eu tiver de partir? Imediatamente?

— Talvez eu devesse me mudar para cá — retrucou — Então poderia estar aqui o tempo todo e mantê-la em segurança, e, se algo acontecer, poderíamos partir juntos.

Não soube mais o que dizer.

Um dia depois de almoçarmos, Jefferson brincou comigo: meus cabelos, minha pele, minhas roupas, minha mente.

— Olhe só para você — comentou, colocando meus cabelos para trás das orelhas do modo como ele gostava, desabotoando uma casa de minha camisa e a afrouxando no pescoço para poder olhar para o vazio em minha clavícula. Ele colocou o dedo na pequena pressão, enchendo o vazio. Era obsceno. — Como Emma pode ter machucado você, não tê-la amado, ter traído você?

Ele sempre tocava nesses pontos, cutucando verbalmente a ferida.

— Não seria adorável simplesmente esquecer Emma, esses cinco anos medonhos, e seguir em frente? Você tem essa chance, sabe, de recomeçar totalmente com a pessoa certa. Quantas pessoas podem dizer isso?

Quero recomeçar com a mulher certa, a nova Emma. As coisas estavam parecendo feias para ela, horríveis. Apenas eu poderia salvar Emma de mim. Mas eu estava presa.

— Se um dia você saísse daqui e eu não soubesse para onde foi, teria de procurar a polícia — disse ele — Não teria escolha. Precisaria ter certeza de que você está segura, de que Emma não está... prendendo você em algum lugar contra a sua vontade. Violando você.

Uma ameaça disfarçada de preocupação.

Agora olho para Jefferson com uma aversão absoluta. Às vezes sinto que minha pele deve estar quente de nojo e do esforço de esconder esse nojo. Eu havia me esquecido de como ele era. A manipulação, a persuasão ronronante, o tormento delicado. Um homem que acha a culpa erótica. E se ele não tiver as coisas do seu jeito, puxará algumas alavancas e colocará a punição em andamento. Ao menos Emma foi mais homem que ele, homem o bastante para enfiar seu pau em alguma coisa. Jefferson empurra e empurra com seus dedos lustrosos e finos até eu dar a ele o que deseja.

Achei que poderia controlar Jefferson, mas não posso. Sinto que algo ruim está prestes a acontecer.

EMMA SWAN

Um mês desaparecida

Os dias eram frouxos e longos, e então se chocaram contra um muro. Saí para fazer compras certa manhã de agosto e quando voltei para casa encontrei Gold em minha sala de estar com Graham e Lily. Na mesa, em um saco plástico para provas, estava um comprido e grosso bastão de madeira com sulcos delicados para dedos.

— Encontramos isso perto do dio logo abaixo de sua casa naquela primeira busca — disse Graham — Na época não pareceu nada, na verdade. Apenas algum destroço estranho na margem do rio, mas nós guardamos tudo em uma busca como aquela. Depois que você nos mostrou os bonecos de Punch e Judy, relacionei tudo. Então mandamos para o laboratório examinar.

— E? — perguntei. Apática.

Graham se levantou, me olhou diretamente nos olhos. Parecia triste.

— Conseguimos identificar o sangue de Regina nele. Este caso agorra está classificado como homicídio. E acreditamos que esta é a arma do crime.

— Graham, espere aí!

— Chegou a hora, Emma — informou ela — Chegou a hora.

A parte seguinte estava começando.

REGINA MILLS SWAN

Quarenta dias sumida

Encontrei um pedaço de barbante velho e uma garrafa de vinho vazia, e os tenho usado para meu projeto. Também um pouco de vermute, claro. Estou pronta.

Disciplina. Isso exigirá disciplina e concentração. Estou à altura da tarefa.

Eu me arrumo como o visual preferido de Jefferson: flor delicada. Meus cabelos em ondas soltas, perfumados. Minha pele empalideceu após um mês dentro de casa. Estou quase sem maquiagem: um toque de rímel, bochechas rosadas e gloss transparente nos lábios. Uso um vestido rosa justo que ele comprou para mim. Sem sutiã. Sem calcinha. Sem sapatos, apesar do frio do ar-condicionado. Tenho o fogo aceso na lareira e há perfume no ar, e quando ele chega depois do almoço, sem ser convidado, eu o recebo com prazer. Passo os braços ao redor dele e enterro o rosto em seu pescoço. Esfrego minha bochecha na dele. Tenho sido cada vez mais doce com ele nas últimas semanas, mas isso é novo, esse contato.

— O que é isso, querida? — pergunta ele, surpreso e tão satisfeito que quase me sinto envergonhada.

— Tive um pesadelo horrível na noite passada — sussurro — Com Emma. Acordei e tudo o que queria esta ter você aqui. E de manhã... Passei o dia inteiro desejando que você estivesse aqui.

— Posso estar aqui sempre, se você quiser.

— Eu quero — digo, e, erguendo meu rosto para ele, deixo que me beije.

O beijo dele me enoja; é mordiscado e hesitante, como um peixe. É Jefferson sendo respeitoso com sua mulher violentada e agredida. Ele mordisca de novo, lábios molhados e frios, suas mãos mal me tocam, e eu só quero que isso termine, quero acabar com isso, então eu o puxo para mim e abro seus lábios com minha língua. Quero mordê-lo.

Ele se afasta.

— Regina. Você passou por muita coisa. Está indo rápido. Não quero que você tenha pressa se não quiser. Se não tiver certeza.

Sei que ele vai ter de tocar meus seios, sei que vai ter de se enfiar dentro de mim, e quero que acabe logo, mal consigo me segurar para não arranhá-lo: a ideia de fazer isso lentamente.

— Tenho certeza — respondo — Acho que tenho certeza desde que tínhamos dezesseis anos. Só que tinha medo.

Isso não significa nada, mas sei que irá deixá-lo duro.

Eu o beijo novamente, e então pergunto se ele não quer me levar para nosso quarto.

No quarto, ele começa a me despir lentamente, beijando partes do meu corpo que não têm nada a ver com sexo — meu ombro, minha orelha -, enquanto eu delicadamente o mantenho longe dos meus pulsos e tornozelos. Me coma logo, pelo amor de Deus. Dez minutos disso e eu agarro a mão dele e a enfio entre minhas pernas.

— Você tem certeza? — pergunta, se afastando de mim, corado, um cacho de cabelo caído na testa, como no ensino médio. Poderíamos estar de volta ao dormitório a julgar pelo progresso que Jefferson fez.

— Sim, querido — digo, enquanto pego timidamente seu pau.

Mais dez minutos e ele enfim está entre minhas pernas, bombeando suavemente, lentamente, lentamente, fazendo amor. Parando para beijos e carícias até eu agarrá-lo pelas nádegas e começar a empurrar.

— Me coma — sussurro — Coma com força.

Ele para.

— Não precisa ser assim, Regina. Eu não sou a Emma.

Isso é bem verdade.

— Eu sei, querido, eu só quero que você... me preencha. Eu me sinto tão vazia...

Isso o excita. Faço uma careta por cima do ombro dele, enquanto ele mete mais algumas vezes e goza, eu me dando conta disso quase tarde demais — Ah, esse é o seu patético som de gozo — e fingindo ohs e ahs rápidos, delicados barulhos de gato. Puxo um canivete que havia escondido em baixo do travesseiro e antes que Jefferson abra os olhos, eu corto com precisão seu pescoço e o sangue quente dele cai sobre mim como uma chuva torrencial.

Ele me olha, seus olhos claros esbugalhados, Jefferson parece estar sufocando e tenta fazer algo a respeito, mas eu o impeço. Prenso minhas coxas em seu quadril e agarro seus pulsos, impedindo-o de tocar seu pescoço cortado que continua a jorrar sangue. Impulsiono meu corpo no seu, deitando-o na cama e seu sangue quente continua subindo na direção do meu rosto como um chafariz, pintando-me toda de vermelho sangue, literalmente.

EMMA SWAN

Quarenta dias sumida

Libertada sob fiança, aguardando julgamento. Passei pelos procedimentos e fui liberada — a despersonalizada entrada e saída da cadeia, a audiência sobre fiança, as digitais e fotos, a rotação, a passagem, a manipulação; isso não fez com que eu me sentisse um animal, fez com que eu me sentisse como um produto, algo criado em uma linha de montagem. O que eles estavam criando era Emma Swan, Assassina. Meses se passariam até que meu julgamento começasse (meu julgamento: a palavra ainda ameaçava me desfazer completamente, me transformar em uma mulher de gargalhadas agudas, uma louca). Eu deveria me sentir privilegiada por estar solta sob fiança: permanecera ali mesmo quando estava claro que seria presa, então se considerava que não havia risco de fuga. Graham talvez tivesse falado bem de mim, também. Então pude permanecer em minha própria casa mais alguns meses antes de ser levada para a cadeia e executada pelo estado.

Sim, eu era uma mulher de sorte, muita sorte.

Estávamos em meados de agosto, o que eu achava permanentemente estranho. Ainda é verão, pensava. Como pode ter acontecido tanta coisa e ainda não ser nem outono? O calor era violento. Clima de mangas de camisa, era como minha madrasta teria descrito. Para mim esse ano seria clima de algemas, depois possivelmente clima de macacão de penitenciária. Ou clima de roupa de funeral, pois eu não planejava ir para a cadeia. Eu me mataria antes.

Eu estava em casa e ouvi um barulho estranho. Logo em seguida a campainha tocou três vezes seguidas: Emma-Emma!, Emma-Emma!

Não hesitei. Eu parara de hesitar no último mês: traga logo o problema, que também é a solução.

Abri a porta.

Era minha esposa.

De volta.

Regina Mills Swan estava descalça na minha porta com um vestido rosa fino que grudava nela como se estivesse molhado. Seus tornozelos estavam marcados com um anel violeta-escuro. Um pedaço de barbante pendia de um pulso enfraquecido. Os cabelos estavam curtos e desgastados nas pontas, como se tivessem sido cortados descuidadamente com tesouras cegas. O rosto dela tinha hematomas, os lábios estavam inchados. Ela soluçava.

Quando lançou os braços na minha direção, pude ver que seu tronco inteiro estava sujo de sangue seco. Ela tentou falar; a boca se abriu uma, duas vezes, silenciosa, uma sereia largada na praia.

— Emma! — gemeu finalmente, um uivo que ecoou em todas as casas vazias, e caiu em meus braços.

As câmeras disparavam sobre nós, os repórteres avançando com microfones, todos gritando o nome de Regina, berrando, berrando mesmo. Então fiz a coisa certa, o que eles esperavam que eu fizesse: eu a abracei e uivei seu nome de volta.

— Regina! Meu Deus! Meu Deus! Meu amor! — enfiei o rosto no pescoço dela, meus braços apertados ao seu redor, e deixei as câmeras conseguirem seus quinze segundos, e sussurrei bem no ouvido dela: — Sua piranha desgraçada.

Depois acariciei seus cabelos, amparei seu rosto em minhas mãos amorosas e a puxei para dentro.

Do lado de fora da porta, parecia um concerto de rock exibindo um bis: Regina! Regina! Regina! Alguém jogou pedrinhas em nossa janela. Regina! Regina! Regina!

Minha querida, desejada, amada e odiada esposa louca estava de volta.

O que eu faria agora?