Amor Marginal

8 Capítulo VIII


Notas iniciais
Mais um capítulo só para aguçar ainda mais a curiosidade de vocês e fazer com que suas imaginações voem longe em teorias ;) Desfrutem e comentem!

EMMA SWAN

Três dias sumida

Acordei nos braços de minha irmã. Minha cabeça repousada entre seus seios nus. Suas mãos angelicais acariciando meus cabelos. Eu podia ouvir seu coração, podia ouvir sua respiração. Era a primeira vez em muito tempo que me sentia viva daquela maneira.

Nos primeiros dez segundos consegui me esquecer de que minha esposa havia desaparecido e que provavelmente ela estaria morta. O que por um lado poderia ser bom. Se Regina estivesse morta, cedo ou tarde seu corpo aparecia e todo aquele caso seria resolvido. Eu ficaria livre. Finalmente livre.

— Você é tão linda — sussurrei ao olhar para o rosto de minha linda Elsa, que sorriu para mim e me beijou suavemente.

Fizemos sexo matinal e descemos para tomar café da manhã. Comemos de forma tranquila e não tocamos no assunto da minha esposa desaparecida ou do meu casamento fracassado ou de nada que fosse ruim. Só falamos de coisas boas.

Meu celular não descartável tocou. Era o detetive Graham me chamando para comparecer até a minha residencia o mais rápido possível. Fiquei nervosa. Ele não quis adiantar o assunto, não quis me falar se havia alguma pista. Ele só requisitou minha presença.

— Será que eles a encontraram? — Elsa perguntou com evidente desgosto, como se aquilo fosse algo terrível.

— Eu não sei. Graham não quis me adiantar nada, só exigiu que eu comparasse à minha própria casa. Acho melhor eu ir até lá imediatamente.

Elsa suspirou com tristeza, os olhos caindo, murchando como uma linda flor.

— Ei, não fique assim — aproximei-me dela, segurei seu rosto e beijei sua testa. — Nós somos irmãs, nós somos amantes, nós somos almas gêmeas. Não importa o que aconteça, eu voltarei, ok?

Olhou-me esperançosa, abrindo um pequeno sorriso.

— Promete?

— Prometo, meu amor. Não irei demorar...

Selei seus lábios doces antes de partir para minha casa.

Quando cheguei, fui conduzida até uma cadeira. Sentei-me de frente para Graham e Lilly. Os dois olhavam-me de forma estranha, me analisando, me estudando como se eu fosse um animal, uma criatura rara. Tentei não me intimidar, mas era bem difícil.

— Alguma notícia da minha esposa?

— Infelizmente não — respondeu a policial.

— Mas estamos investigando e achamos algo interessante — jogou sobre a mesa alguns papéis. — O seguro de vida da sua esposa foi aumentado recentemente.

Franzi o cenho, não conseguindo conter minha expressão de surpresa.

— Foi?

Graham olhou-me como se não acreditasse que eu não sabia.

— Sim. E pelo que descobrimos, você tem muitas dívidas no Black Swan, não?

Remexi-me na cadeira, me sentindo muito desconfortável. Eu realmente não deveria ter ido tão rápido até a delegacia...

— Algumas — respondi. — O que mais vocês acharam?

— Vimos as faturas do cartão de crédito e achei curioso o fato de que essa lista — apontou com o indicador para um papel que eu peguei nas mãos. — Essa lista é uma compra exacerbada para quem está cheia de dívidas, não?

— Não entendo qual seja a importância de uma lista de compras para o caso de desaparecimento da minha esposa — falei um pouco irritada — Por um acaso vocês investigaram o Jefferson Collins?

Jefferson Collins era um ex namorado de Regina dos tempos de colégio. Eles namoraram durante um ano e Regina terminou com ele, que tentou se suicidar. O cara era maluco! Totalmente fanático pela minha esposa, passou todos esses anos lhe escrevendo cartas, que ela respondia na tentativa de "contê-lo", pois tinha medo dele. Tinha medo de sua obsessão por ela.

Meus sogros e eu havíamos contado sobre ele à polícia, assim como também mencionados outras pessoas do passado de Regina, pessoas com quem ela teve desentendimentos que poderiam justificar que algum deles tentasse... Ferí-la.

— Jefferson e a mãe negam que ele tenha perseguido Regina, ou mesmo que ele tenha tido muito contato com ela nesses últimos anos, a não ser por meio de bilhetes eventuais — respondeu.

— Minha esposa lhes diria algo diferente. Ele escreveu para Regina durante anos, anos e depois ele apareceu aqui para a busca, Graham. Você sabia disso? Ele esteve aqui no primeiro dia. Vocês falaram sobre ficar de olho em homens se metendo na investigação...

— Jefferson Collins não é um suspeito — interrompeu Graham, erguendo uma das mãos.

— Mas...

— Jefferson Collins não é um suspeito — repetiu.

A notícia me feriu.

— Vamos voltar ao que interesse. Por exemplo ao lugar que você estava na manhã que sua esposa desapareceu.

— Quando eu estava na praia.

— E ainda não se lembra de ninguém ter visto você lá? — perguntou Graham — Ajudaria se pudéssemos eliminar essa coisinha de nossa lista.

— Acredite, eu gostaria disso tanto quanto você. Mas não. Não me lembro de ninguém.

Graham sorriu um sorriso preocupado.

— É estranho, nós mencionamos para algumas pessoas, apenas de passagem, que você estava na praia, e todas elas disseram... Todas ficaram surpresas, digamos assim. Disseram que não era muito a sua cara. Que você não era uma pessoa de praia.

— Bom, eu vou à praia e fico deitada o dia inteiro? Não. Mas para tomar meu café, de manhã? Certamente.

— Ei, isso pode ajudar — disse ele, se animando — Onde você comprou o café naquela manhã? — perguntou, se virando para Lilly como se buscasse aprovação. — Poderia pelo menos reduzir o espaço de tempo, certo?

— Eu fiz aqui — respondi.

— Ah — exclamou ele, franzindo a testa. — Isso é estranho, porque você não tem café aqui. Em nenhum lugar da casa. Lembro-me de achar isso estranho. Um viciado em cafeína repara nessas coisas.

Certo, apenas algo que você notou por acaso, pensei.

— Eu tinha uma xícara de café sobrando na geladeira que esquentei — disse, dando de ombros novamente. Não era nada demais.

— Hm. Deveria estar lá havia muito tempo; não tinha embalagem de café no lixo.

— Alguns dias. O gosto ainda fica bom.

Ambos sorrimos um para o outro. Eu sei e você sabe. Manda ver. Eu realmente pensei nestas palavras idiotas: Manda ver. Mas de certa forma fiquei contente: a parte seguinte estava começando.

Graham se virou para Lilly, mãos nos joelhos, e acenou de leve com a cabeça. Lilly morde o lábio mais um pouco e finalmente apontou: para o divã, a mesa de canto, a sala de estar agora arrumada.

— Veja, o nosso problema é o seguinte, Emma — começou — Já vimos dezenas de invasões de residência.

— Dezenas e dezenas e dezenas — interrompeu Graham.

— Muitas invasões de residência. Isto, toda esta área bem aqui, na sala de estar, lembra? O divã virado, a mesa virada, o vaso no chão — colocou uma foto da cena na minha frente — Toda esta área deveria parecer uma briga, certo?

Minha cabeça se expandiu e depois voltou ao lugar. Fique calma.

— Deveria?

— Tinha alguma coisa errada — continuou Lilly — Assim que nós vimos. Para ser sincera, a coisa toda parecia encenada. Para começar, há o fato de que tudo estava concentrado nesse único lugar. Por que nada mais estava bagunçado na casa a não ser esta sala? Isso é estranho — ele pegou outra foto, um close. — E veja aqui, esta pilha de livros. Eles deveriam estar na frente da mesa lateral; a mesa lateral é onde eles ficavam, certo?

Confirmei com um gesto de cabeça.

— Então, quando a mesa lateral foi derrubada, eles deveriam ter se espalhado principalmente na frente dela, seguindo a trajetória da mesa em queda. Em vez disso, estão atrás dela, como se alguém os tivesse empurrado antes de derrubar a mesa.

Fiquei olhando abobada para a foto.

— E veja isto. Isto me parece muito curioso — continuou Lily. Ela apontou para três finas molduras antigas sobre a lareira. Bateu o pé com força, e todas tombaram imediatamente. — Mas de alguma forma elas permanceram de pé enquanto tudo caía.

— Não sei o que querem que eu diga — murmurei — Isso é totalmente... não sei bem o que pensar. Só quero encontrar minha esposa.

— Nós também, Emma, nós também — disse Graham — Mas há outra coisa. O divã. Lembra como estava virado de cabeça para baixo?

Ele deu um tapinha no divã baixo, apontou para suas quatro pernas cilíndricas, cada uma com apenas dois centímetros e meio de comprimento.

— Veja, esta coisa é pesada e estável por causa das perninhas minúsculas. O assento está praticamente no chão. Tente virá-lo.

Eu hesitei.

— Vamos lá, tente — me incentivou.

Dei um empurrão, mas ele deslizou pelo carpete em vez de virar. Balancei. Concordei. Era estável.

— Sério, abaixe se for preciso e vire essa coisa de cabeça para baixo — ordenou Graham.

Ajoelhei, empurrei de ângulos cada vez mais baixos, finalmente coloquei uma mão sob o divã e o impeli. Mesmo então ele levantou, um lado pairando, e caiu de volta no mesmo lugar; finalmente tive de virá-lo à força.

— Esquisito, né? — questionou Graham, não soando assim tão intrigado.

— Emma, você fez alguma faxina no dia em que sua esposa sumiu? — perguntou Lily.

— Não.

— Certo, porque o perito fez uma varredura com Luminol, e lamento dizer que o chão da cozinha acendeu. Uma boa quantidade de sangue foi derramada lá.

— Do tipo de Regina: B positivo — interrompeu Graham. — E não estou falando de um pequeno corte, estou falando de sangue.

— Ai, meu Deus — um coágulo de calor surgiu no meio do meu peito. — Mas...

— Sim, então sua esposa conseguiu sair desta sala — disse Lily. — Teoricamente, de alguma forma, conseguiu chegar à cozinha; sem deslocar nenhuma daquelas quinquilharias na mesa bem na frente da cozinha; e então desabou lá, onde perdeu muito sangue.

— E depois alguém o limpou cuidadosamente — completou Graham, me observando.

— Esperem. Esperem. Por que alguém iria querer esconder sangue, mas depois bagunçar a sala de estar... ?

— Vamos descobrir isso, não se preocupe, Emma — afirmou ele em voz baixa.

— Eu não entendo, simplesmente não...

— Vamos voltar a nos sentar. Você já comeu? Quer um sanduíche, alguma coisa?

Balancei a cabeça em um gesto negativo.

— Como vai seu casamento, Emma? — perguntou Graham — Quer dizer, cinco anos, isso é perto da crise dos sete anos.

— O casamento estava bem — menti — Está bem. Não perfeito, mas bom, bom.

Ele torceu o nariz: você está mentindo.

— Você acha que ela poderia ter fugido? — perguntei, esperançosa demais. — Fez isso parecer uma cena de crime e foi embora? Tipo esposa em fuga?

Graham começou a dar razões para negar essa hipótese:

— Ela não usou o celular, não usou cartões de crédito, não sacou dinheiro. Não fez grandes retiradas em dinheiro nas semanas anteriores.

— E há o sangue — acrescentou Lily. — Quer dizer, novamente, não quero soar bruta, mas o volume de sangue derramado? Isso exigiria um sério... Quer dizer, eu não poderia ter feito isso a mim mesma. Estou falando de ferimentos profundos. Sua esposa tem nervos de aço?

— Sim, ela tem.

Também tinha uma profunda fobia de sangue, mas eu preferi esperar e deixar que os brilhantes detetives descobrissem isso.

— Parece bastante improvável — disse Lily — Caso ela ferisse a si mesma tão gravemente, por que iria limpar depois?

— Então, de verdade, sejamos sinceros, Emma — falou Graham, se apoiando nos joelhos para fazer contato visual comigo enquanto eu olhava para o chão — Como estava seu casamento? Estamos do seu lado, mas precisamos da verdade. A única coisa que a deixa mal é esconder coisas de nós.

— Tivemos problemas.

Eu vi Regina no quarto naquela última noite, o rosto tomado pelas manchas vermelhas que ganhava quando estava com raiva. A veia saltada na testa. Ela estava cuspindo as palavras — palavras maldosas, brutais -, e eu estava escutando, tentando aceitar as palavras porque elas eram verdadeiras, eram tecnicamente verdadeiras, tudo o que ela disse.

— Descreva os problemas para nós — pediu Graham.

— Nada específico, apenas desentendimentos. Quer dizer, Regina é uma pessoa explosiva. Ela acumula um monte de pequenas coisas e bum! Mas então passa. Nunca fomos para a cama com raiva.

— Nem na noite de sexta-feira?

— Nunca — menti.

— É principalmente sobre dinheiro que vocês discutem?

— Nem sei sobre o que discutimos. Coisas aleatórias.

— Que coisa foi na noite em que ela sumiu? — indagou Lily com um sorriso torto, como se tivesse pronunciado o mais inacreditável peguei você.

— Foi por causa de uma lagosta.

— O que mais? Tenho certeza de que vocês não gritariam por causa de uma lagosta durante uma hora inteira.

— Outras coisas de casa. Coisas de casal-casado. A caixa de areia do gato — falei — Quem ia limpar a caixa do gato.

— Vocês estavam discutindo aos gritos por causa de uma caixa de gato — afirmou Graham.

— Sabe, o princípio da coisa. Eu trabalho muitas hora, Regina não, e acho que seria bom para ela se ela fizesse alguma manutenção doméstica básica. Apenas faxina básica.

— Então você só queria uma dona de casa — concluiu, fazendo a ideia parecer razoável.

— Eu queria... Eu queria o que a Regina quisesse. Eu realmente não me importava. Regina não conseguia resolver o que fazer aqui. Não conseguia encontrar um emprego, e não se interessava pelo Black Swan. O que não é um problema, se você quer ficar em casa, tudo bem, eu disse. Mas quando ela ficava em casa também se sentia infeliz. E ficava esperando que eu consertasse isso. Era como se eu estivesse encarregada da felicidade dela.

Graham não disse nada, me mostrou um rosto inexpressivo como água.

— E, quer dizer, é divertido ser a heroína durante um tempo, ser o cavaleiro branco, mas isso na verdade não funciona por muito tempo. Eu não conseguia fazê-la feliz. Ela não queria ser feliz. Então eu achei que se ela começasse a cuidar de algumas coisas práticas...

— Como a caixa do gato.

— É, limpar a caixa do gato, fazer compras, chamar um bombeiro para resolver o vazamento que a deixava louca.

— Uau, parece um plano de felicidade e tanto. Que maravilha.

— O que eu queria dizer era faça algo. Seja lá o que for, faça algo. Tire algum proveito da situação. Não fique sentada esperando que eu resolva tudo por você.

Eu me dei conta de que estava falando alto, e soava quase irritada, certamente moralista, mas era um grande alívio. Eu começara com uma mentira — a caixa de areia do gato — e transformara aquilo em uma explosão surpreendente de pura verdade, e entendi por que os criminosos falavam demais, porque é bom contar sua história a um estranho, alguém que não irá dizer que é besteira, alguém obrigado a escutar o seu lado. (Alguém fingindo escutar o seu lado, corrigi.)

— E a mudança para Storybrooke? — perguntou Graham — Você trouxe Regina para cá contra a vontade dela?

— Contra a vontade dela? Não. Fizemos o que tínhamos de fazer. Eu não tinha emprego, Regina estava cansada do consultório, minha madrasta estava doente. Eu faria o mesmo por Regina.

— Que gentil de sua parte — murmurou Lily.

E de repente ela soou exatamente como Regina: as malditas respostas quase inaudíveis ditas no volume perfeito para que eu tivesse quase certeza de ter ouvido mas não pudesse jurar. E se eu perguntava o que devia perguntar "O que você disse?" ela sempre respondia a mesma coisa: Nada. Olhei furiosa para Lily, minha boca apertada, e então pensei: Talvez isso seja parte do plano dele, ver como você age com mulheres irritadas, insatisfeitas. Tentei me obrigar a sorrir, mas isso só pareceu lhe causar mais repulsa.

— E você pode bancar isso, Regina trabalhando, não trabalhando, tanto faz, você podia dar conta das finanças? — indagou Graham.

— Tivemos alguns problemas de dinheiro recentemente — respondi. — Quando nos casamos Regina era rica, tipo extremamente rica.

— Certo, aqueles livros da Regina Exemplar.

— É, eles fizeram uma tonelada de dinheiro nos anos oitenta e noventa. Mas a editora cancelou a série. Disse que Regina já tinha dado o que devia dar. E tudo desmoronou. Os pais dela tiveram de pegar dinheiro emprestado conosco para não falirem.

— Com sua esposa, você quer dizer?

— Certo, isso. E depois usamos a maior parte do restante do pecúlio de Regina para comprar o bar, e eu tenho nos sustentado desde então.

— Então quando você se casou com Regina ela era muito rica? — perguntou Lily.

Confirmei com um gesto de cabeça. Estava pensando na história do herói: o marido que ficava ao lado da esposa durante a horrível decadência da situação financeira da família dela.

— Então vocês tinham um belo estilo de vida.

— É, era ótimo, era sensacional.

— E agora ela está quase falida, e você tem um estilo de vida muito diferente daquele que tinha quando se casou. Daquele com o qual você concordou.

Eu me dei conta de que minha história estava totalmente errada.

— Porque, certo, nós examinamos suas finanças, Emma, e, caramba, elas não parecem nada bem — começou Lily, quase transformando a acusação em preocupação.

— O Black Swan está indo bem, até — falei — Normalmente demora dois ou três anos para que novos negócios saiam do vermelho.

— Foram aqueles cartões de crédito que chamaram minha atenção — comentou Graham — Duzentos e doze mil dólares em dívidas de cartões de crédito. Quer dizer, eu fiquei sem fôlego. — exibiu uma pilha de extratos vermelhos.

— Nós não... Pelo menos eu não... Mas não acho que Regina iria... Posso dar uma olhada?

Gaguejei bem no momento em que um bombardeiro voando baixo sacudiu as janelas. Uma planta na cornija da lareira imediatamente perdeu cinco belas folhas roxas. Forçados ao silêncio por dez segundos de sacudir o cérebro, todos assitimos às folhas flutuarem até o chão.

— Toda essa briga que deveríamos acreditar que aconteceu aqui, mas nenhuma pétala estava no chão então — murmurou Lily com desgosto.

Peguei os papéis com Graham e vi meu nome, apenas meu nome, versões dele — Emma Swan, Emma Nolan Swan, Emma N. Swan, em uma dúvida de cartões de crédito diferentes, débitos de sessenta e dois dólares e setenta e oito centavos até quarenta e cinco mil, seicentos e dois dólares e trinta e três centavos, todos em diferentes graus de atraso, grandes ameaças impressas em letras sinistras no alto: PAGUE AGORA.

— Porra! Isso é, tipo, falsidade ideológica ou algo assim! — exclamei — Eles não são meus. Quer dizer, olhem para algumas dessas coisas, caramba: eu nem jogo golfe.

Alguém havia pagado mais de sete mil dólares por um conjunto de tacos.

— Qualquer um pode dizer a vocês: eu realmente não jogo golfe.

— Sabe a Belle Gold? — perguntou Graham — A amiga de Regina que você disse que ela não tinha?

— Espere, eu quero falar sobre as contas, porque elas não são minhas — interrompi — Quer dizer, por favor, falando sério, precisamos rastrear isto.

— Vamos rastrear, sem problemas — disse ele, inexpressivo — Belle Gold?

— Certo. Eu disse para vocês darem uma investigada nela porque ela tem circulado por toda a cidade se lamentando por causa da Regina.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Você parece irritada com isso.

— Não, como eu disse, ela parece um pouco abalada demais, meio que de modo falso. Ostensivo. Buscando atenção. Um pouco obsessivo.

— Conversamos com Belle — explicou Graham — Ela diz que sua esposa estava muito perturbada com o casamento, chateada com a coisa do dinheiro, com medo de que você tivesse casado com ela por causa do dinheiro. Diz que sua esposa se preocupava com seu temperamento.

— Não sei por que Belle diria isso; não acho que ela e Regina tenham trocado mais de cinco palavras na vida.

— Engraçado, porque a sala de estar dos Gold está cheia de fotos de Belle e sua esposa — disse Graham, franzindo a testa.

Eu também franzi a testa: fotos reais dela e Regina?

Ele continuou:

— No zoológico em outubro passado, em um piquenique com os trigêmeos, em um fim de semana de junho passeando e bote. Junho no sentido de mês passado.

— Regina nunca pronunciou o nome de Belle durante o tempo que moramos aqui. Estou falando sério.

Revirei meu cérebro pensando em junho passado e esbarrei em um fim e semana que viajei com... E disse a minha esposa que faria uma viagem com amigas. Voltei para casa e a encontrei com a veia da testa saltada e com raiva, reclamando de um fim de semana de coisas ruins na TV a cabo e leituras tediosas no cais. E ela estivera em um passeio pelo rio? Não. Não podia pensar em nada que interessasse menos Regina do que o típico passeio de Storybrooke: cerveja boiando em recipientes amarrados a canoas, música alta, jovens bêbados, acampamentos salpicados de vômito.

— Vocês têm certeza de que era minha esposa nas fotos?

Eles trocavam olhares que diziam: ela está falando sério?

— Emma — chamou Graham — Não temos razão para crer que a mulher nas fotos, que é exatamente igual à sua esposa, e que Belle Gold, mãe de três filhos, melhor amiga de sua esposa na cidade e que diz que é sua esposa, não seja sua esposa.

— A esposa com quem, devo dizer, segundo Belle, você se casou por dinheiro — acrescentou Lily.

— Não estou brincando — falei — Atualmente qualquer um pode montar fotos em um laptop.

— Certo, então há um minuto você tinha certeza de que Jefferson Collins estava envolvido, e agora passou para Belle Gold — concluiu Lily — Parece que você está mesmo procurando alguém para culpar.

— Além de mim? Sim, estou. Olhe, eu não me casei com Regina por dinheiro. Vocês realmente deveriam coversar mais com os pais dela. Eles me conhecem, conhecem meu caráter.

Eles não conhecem tudo, pensei, meu estômago dando um nó. Graham estava me observando; ele parecia estar meio com pena de mim.

— Você aumentou o seguro de vida de sua esposa para um milhão e duzentos mil — disse Lily com cansaço fingido.

— Foi a própria Regina quem fez isso! — expliquei rapidamente. — Quer dizer, eu preenchi a papelada, mas a ideia foi de Regina. Ela insistiu. Eu juro, eu não estava nem aí, mas Regina disse... Ela disse que, considerando a mudança em sua renda, se sentia mais segura ou algo assim, ou era uma decisão de negócios inteligente. Porra, não sei, não sei por que ela quis fazer isso. Não perguntei a ela.

— Há dois meses alguém fez uma busca em seu laptop — continuou Graham — Corpo flutuando no rio Storybrooke. Pode explicar isto?

Respirei fundo duas vezes, nove segundos para me controlar.

— Deus do céu, foi apenas uma ideia idiota para um livro — respondi — Eu estava pensando em escreber um livro.

— Hummm.

— Olhe, o que eu acho que está acontecendo é o seguinte — comecei — Acho que muita gente assiste a esses noticiários em que o marido é sempre a pessoa horrível que mata a esposa, e está me vendo dessa forma, e algumas coisas muito inocentes e normais estão sendo distorcidas. Isso está se transformando em uma caça às bruxas.

— É assim que você explica essas faturas de cartão de crédito? — perguntou Graham.

— Eu já disse, não consigo explicar a porra das faturas de cartão de crédito porque não tenho nada a ver com elas. É o trabalho de vocês descobrir de onde elas vieram, porra!

Eles ficaram sentados em silêncio, lado a lado, esperando.

— O que está sendo feito para encontrar minha esposa? — perguntei — Que pistas vocês estão seguindo, além de mim?

Graham se inclinou na minha direção, mãos entrelaçadas.

— Nosso trabalho é ter certeza de que você está cem por cento limpa, Emma. Sei que você também quer isso. Agora, se você puder simplesmente nos ajudar com algumas complicações... porque é o que elas são, e elas ficam nos fazendo tropeçar.

— Talvez seja a hora de eu arranjar um advogado.

Os policiais trocaram outro olhar, como se tivessem encerrado uma aposta.