Notas iniciais
Capítulo III saindo do forninho para vocês!!! O que estão achando dessa Regina extremamente dominadora? E dessa Emma toda "traumatizada"? E o sumiço da Regina? O que vocês acham que aconteceu? Elas são um casal apaixonado ou não? Aproveitem o capítulo. Beijos.

EMMA SWAN

Primeiro dia sumida

Liguei para a polícia e esperei que eles chegassem. Com uma tranquilidade assustadora até para mim mesma, sentei-me no banco do balcão de minha cozinha que ficava bem perto da nossa porta de entrada e aguardei. Batman olhava-me intensamente, como se me analisasse. Estava em pé, próximo da porta, mas logo saiu correndo dali quando a campainha tocou.

Levantei e abri a porta, deparando-me com um homem barbudo de olhos azuis acinzentados, usando jeans e um casaco chamativo com seu distintivo de detetive bem visível, no cinto de sua calça. Ele estava acompanhado de uma mulher fardada, uma policial de olhos escuros e um olhar durão.

— Bom dia — cumprimentei, dando um sorrisinho nervoso.

— Senhora Swan? Sou o detetive Graham Humbert e essa é a policial Lilith Page, mais conhecida como Lily.

Os dois entraram em minha casa e a policial me deu um sorriso rápido, polido.

— Está preocupada com o sumiço de sua esposa, certo? — notei que o detetive era um homem bonito, mas não parecia muito modernizado, pois ao falar a palavra "esposa", ele pareceu um pouco constrangido, certamente não deveria estar acostumado a lidar com casais gays em Storybrooke.

— Não sei onde ela está e encontrei isto ao chegar — indiquei com a mão a nossa sala revirada.

Detetive e policial trocaram olhares e o detetive Graham se aproximou sorrateiramente, olhando fixamente para os cacos de vidro no chão.

— Não sou de entrar em pânico, mas é estranho, não é?

— Podemos olhar? — o detetive me encarou de uma forma estranha.

— Por favor!

— Há quanto tempo moram aqui? — ele quis saber.

— Dois anos em setembro. Morávamos em Boston — comecei a subir às escadas e os dois me seguiram. — Eu era escritora, nós duas éramos escritoras. Regina era psicóloga também.

— Por que se mudaram? — Graham questionou.

— Minha madrasta adoeceu.

— Lamento. Como ela está? — havíamos chegado no andar de cima.

— Faleceu — disse simplesmente, lhe encarando.

— Oh, eu sinto muito. Meus pêsames.

Segui até meu enorme quarto e abri as portas para que eles pudessem entrar. Notei olhares surpresos de ambos. O detetive, que carregava em uma das mãos um copo de café, pegou com a outra mão um par de luvas dentro do seu casaco.

— Em que você trabalha agora?

— Eu e minha irmã somos donas do Black Swan.

— Black Swan? — ele sorriu abertamente — Adorei à referência ao cisne negro.

— Obrigada — falei sem jeito, de braços cruzados.

Ele cruzou o quarto e deu uma olhadinha no enorme closet que eu e Regina tínhamos.

— Bela casa.

Saímos do quarto e eu fechei as portas novamente. Fui conduzi-los pelos cômodos, o próximo seria meu escritório, mas o detetive parou e olhou fixamente para a tabua de passar roupa estendida. Um belo vestido de Regina estava sobre a mesma e o ferro de passar continuava ligado.

— Que belo vestido — comentou, antes de puxar o fio do ferro da tomada. — Ocasião especial? — olhou para mim.

— Nossas bodas.

— Hm — foi a única coisa que disse, dando passos e olhando as portas abertas e eu fui descrevendo o que eram cada uma.

— Meu escritório, quarto do gato... Eu já olhei aqui também — falei meio ansiosa e ele voltou a se aproximar da tabua com o ferro, tirou um papelzinho amarelo do bolso do casaco e grudou o mesmo ali.

Descemos em silêncio e os levei até a cozinha. Eu já estava pronta para seguir adiante, mas ambos pararam com olhares analíticos e o detetive observou o chão da minha cozinha, e logo encontrou uma manchinha vermelha no armário branco, que poderia ser sangue. Talvez o sangue de Regina... Isso me deu calafrios.

Detetive Humbert pôs outra folinha amarela ali, para demarcar o que havia encontrado. Troquei um olhar com a policial, que me encarou fixamente, como se desconfiasse de mim. Sempre desconfiavam do marido primeiro, e não é porque eramos um casal de lésbicas que isso seria diferente.

Logo depois da cozinha estava o escritório de Regina.

— Esse é o escritório da minha esposa — apresentei, adentrando o lugar e ficando de canto para que eles pudessem explorar.

Com a mão enluvada, Graham passava os dedos por uns arquivos que Regina tinha organizado em cima da mesa. Logo sua atenção foi chamada pelos títulos acadêmicos de minha esposa que ficavam expostos, pendurados na parede como quadros. Quadros que não me deixavam esquecer-me do quão brilhante minha esposa era, e do quanto eu era medíocre perto dela.

— Uau! — exclamou ele, impressionado. — Impressionante.

— É, eu sei...

A policial se aproximou do detetive e ambos pararam juntos em frente a uma mesinha que carregava a coleção dos livros Regina Exemplar. Na parede a cima havia um quadro e algumas fotos de Regina na infância e ao lado desenhos idênticos da Regina Exemplar.

— Me lembro deles! Eu adoro esses livros! — a policial Lily comentou.

— Eu conheço também... Espere aí! — o detetive viu a semelhança das fotos e dos desenhos — Sua esposa é a Regina Exemplar?

— É, sim.

— Uau! — ele estava de novo impressionado. E eu não sabia se isso era bom ou ruim. O fato de Regina ser uma pessoa "famosa".

Nunca liguei muito para isso. Na verdade achava uma puta sacanagem seus pais terem plagiado sua infância, exibindo-a para o mundo todo afim de arrecadar dinheiro. Regina também não gostava, embora não dissesse. Ela era grata pelo dinheiro que os pais haviam arrecadado para ela com as vendas dos livros, e de certa forma eu também deveria ser. Foi esse dinheiro que nos sustentou quando a crise se abateu em Boston e eu fui demitida. Foi com esse dinheiro que Regina me comprou o Black Swan, alugou nossa casa em seu nome, comprou nosso carro também em seu nome e todo o resto, e isso era só mais um motivo para eu odiá-la.

REGINA MILLS

Anotação em Diário

04 de Outubro de 2008

Estou insana. Insana demais. Hoje fazem três meses que estou com Emma — não, não. Não nesse sentido que vocês pensaram. Fazem três meses que iniciamos o processo terapêutico. É, não saímos disso... Até agora. Hoje demos um passo a frente.

Semanalmente Emma está em meu consultório, e dessa vez com pontualidade. Ela não se atrasa nem por um minuto sequer, entra em minha sala quase que correndo e se senta em sua poltrona como um ritual. Começa a falar antes mesmo que eu pergunte e não está tão hostil quanto antes, embora ela goste de brincar.

Brincar. Algo perigoso para uma terapia. Sou sua psicóloga, estou ali para tratá-la, para colaborar com sua evolução como pessoa, para que ela possa encontrar novas formas de lidar com seus problemas e questões. Bobagem. Isso é a teoria. Na teoria eu deveria fazer isso por Emma, na teoria eu deveria ser apenas sua psicóloga, mas não era.

Havia alguma coisa a mais entre nós. Era inegável. Um clima, uma bolha de tensão que nos envolvia, uma atração implacável como se fossemos dois ímans, algo místico, enfim. Existia alguma coisa que me interligava à Emma de maneira diferente, especial. Eu não tinha uma ligação dessas com ninguém, muito menos com um paciente.

Três meses de terapia e acho que estamos evoluindo, ou não. Às vezes tenho a impressão de que Emma está jogando comigo. Ela me conta tudo, tudo. Dá os detalhes mais sórdidos de suas vivências, não impõem barreiras para que eu faça meu trabalho... No entanto... Ela é resistente, resistente a mim. Até que hoje finalmente consegui acessá-la.

— Eu não sei o que fazer com você — admiti, de pernas cruzadas. — Não sei o que você espera que eu faça, Emma. Estamos há três meses aqui e ainda não sei o que você busca.

— Será mesmo que não sabe? — ergueu uma sobrancelha. — Ou finge não saber?

— E por que eu fingiria? — lhe olhava com curiosidade.

— Porque talvez você tenha medo.

— Não sou do tipo de mulher que tem medo.

— Qual tipo de mulher você é? — perguntou espertamente.

— Não posso te dar essa informação, Emma. Sou sua psicóloga.

— E daí? Eu não ligo.

— É anti ético e interfere no meu trabalho com você — expliquei.

— Não ligo — repetiu, com descaso. — Você toca piano.

Franzi o cenho, lhe estudando. Ela fez uma afirmação sobre mim. Sobre algo que nunca comentei. Eu não poderia falar de mim ou da minha vida para ela.

— Vai ficar chutando coisas sobre mim e ver como eu reajo?

— Você toca piano desde os seis anos, sua cor favorita é preto, sua fruta favorita é maçã.

— Regina Exemplar — falei, tendo um insight. — Claro! Você descobriu essas coisas lendo os livros dos meus pais.

— Aquela é uma versão melhorada de você, não é? — olhou-me com um sorrisinho de deboche. — Você não virou uma pianista profissional.

— Não, eu virei psicóloga. Regina Exemplar é perfeita, eu não.

Emma ficou estudando meu rosto, como se quisesse encontrar em minhas feições alguma reação para o assunto que ela trouxe à tona.

— É sobre isso que vai querer falar hoje? Sobre os livros que narram a minha infância?

— Seus pais são cuzões demais por plagiarem sua infância.

— Tecnicamente eles não plagiaram, eles melhoraram-na e venderam às massas.

— E você não liga? — apoiou o pé em cima da coxa, sentada quase que jogada na poltrona.

— Claro que não. O dinheiro das vendas serviram para me dar uma ótima educação e me garantir um excelente futuro — respondi com o rosto inexpressivo.

— Dinheiro é bom...

Silêncio.

— Regina Exemplar namora.

Olhou-me de uma maneira estranha e eu franzi o cenho, esperando que ela continuasse, imaginando o que viria a seguir.

— E você?

— Não sei como essa informação pode ser útil na terapia — falei de forma provocativa, ao mesmo tempo tentando manter nossa relação num nível profissional.

— Claro que essa informação é útil, porra! — respondeu meio agressiva.

— Por quê? Faz diferença se eu namoro ou não?

— Faz.

— E se eu namorar? — descruzei as pernas e cruzei de novo, trocando a posição e notei seus olhos caírem sobre minhas coxas nuas.

— Eu vou embora.

Encarei seus olhos fixamente.

— Vai? Por quê?

— Porque eu não quero que você namore. Gente apaixonada só faz cagada. Você não vai me atender bem se tiver um namorado.

Soltei uma gargalhada rouca ao ouvir aquilo e Emma não viu graça, aliás, pareceu ofendida.

— Por que está rindo?

— Porque você é péssima mentirosa — afirmei em tom sério.

— Quem disse que estou mentindo?

— Eu sei que está. Sou psicóloga, esqueceu?

— Merda. Você me pegou. Eu estou, sim.

— Emma... — suspirei, joguei os cabelos para trás com uma das mãos e eu notava que ela acompanhava todos os meus gestos com os olhos. — Se nós quisermos que isso aqui dê certo, você precisa colaborar comigo. Preciso de toda sua sinceridade.

— Mas eu sou sincera. Pediu que eu te contasse minha vida, eu contei. Contei todos os detalhes.

— Contou. Mas você nunca diz o que sente. Eu sei cada coisa pela qual você passou, mas não sei o que você sentiu. Sua madrasta é uma louca pervertida que te espanca, estupra, sodomiza desde à infância. Ótimo. E o que você sentiu? Como isso te afetou?

Seu rosto todo se retorceu numa expressão de dor e eu quase me arrependi por ter feito aquele questionamento. Quase. Era excitante imaginá-la sofrendo, era excitante ver a sua expressão de dor, ao mesmo tempo que me dava vontade de consolá-la. Uma dualidade de sentimentos... Foda.

— No começo eu sofria. Sentia medo. Muito medo. Eu queria fugir, queria dividir isso com alguém, mas não podia, então ficava angustiada e sofria muito. Mas aos poucos o medo foi passando, conforme as coisas iam se repetindo, o tempo ia passando e eu crescendo... Foi passando. Não havia como ter medo de algo que eu já conhecia bem. Ela podia me bater o quanto fosse, podia inventar novas coisas para fazermos, mas... Eu sempre sobrevivia. Eu tinha certeza que ficaria bem no final, então não sofria mais e nem sentia medo.

Assenti com a cabeça, em silêncio.

— E o que mais você sentia? No momento das práticas?

— No começo eu sentia medo e muita dor. Raiva. Eu tinha muita raiva da Cruella. Queria matá-la. Depois passei a sentir... Prazer — falou meio envergonhada. — É estranho admitir isso, mas é verdade. Sentia prazer.

Meus olhos brilharam ao ouvir aquilo.

— Até hoje tenho um sentimento ambíguo por aquela puta. Quero matá-la, mas a amo. Não como mulher, mas como uma espécie de mãe. Apesar de tudo, Cruella cuidou de mim. Ela me criou. E eu sentia certa segurança ao lado dela. Pelo menos em uma parte do tempo. Ela era... Assustadora, cruel, mas também carinhosa.

— Carinhosa?

— Sim. Depois das surras, depois das coisas mais punks, ela sempre me dava carinho, como se fosse uma espécie de consolo, não sei. Talvez ela seja louca. Deve ser louca. Mas eu me apegava muito na parte do carinho, deve ser por isso que tenho esses sentimentos confusos.

— Síndrome de Estocolmo — disse.

— O quê?

— Síndrome de Estocolmo é quando uma vítima de sequestro ou de qualquer tipo de abuso acaba desenvolvendo sentimentos afetivos pelo seu carrasco. É uma maneira que o nosso cérebro encontra de auto defesa. Você se afeiçoa aquele que te domina e causa dor — expliquei e Emma parecia chocada.

— Uau. Que foda. É, eu devo ter isso. Devo ter tido isso. Sei lá.

— Sim. Mas qual é o ponto da questão, Emma? — cruzei meus dedos e ela me olhou confusa. — Porque desde que começamos a terapia, você me traz sempre essas memórias relacionadas aos abusos que sofreu com Cruella. Já revivemos cada momento, com detalhes. Mas por quê? Anos se passaram, você é adulta, está longe dela, protegida, sã e salva. O que eu quero entender é onde essas memórias atrapalham a sua vida atualmente.

— Eu não sei o que fazer — admitiu. — Eu não sei o que diabos fazer com a minha vida. Tudo parece... Vazio. Sem sentido. Parece que estou nadando num mar cheio de merda. Não consigo respirar. Estou sufocando, na merda. Minha vida é horrível, sempre foi horrível... — seus olhos se encheram de lágrimas — Tão horrível que minhas únicas memórias boas são a minha relação com a minha irmã, e os carinhos que eu ganhava da Cruella depois de passar por essas merdas todas. É insano.

Durante o seu desabafo, fiquei pensando e só uma coisa vinha na minha cabeça. A mesma coisa que eu pensava desde a primeira vez que Emma esteve em meu consultório. Algo que escondi dela, que escondia de todo mundo, algo que só era revelado a poucos privilegiados, em situações bem específicas, mas que eu achava que poderia ser útil à ela.

— Emma, por que nós não tentamos uma terapia alternativa?

— Terapia alternativa? — secou suas lágrimas com as mangas da camiseta e me olhou confusa. — Seria tipo irmos ao cinema juntas?

Ri, balançando a cabeça.

— Não exatamente. Isso seria acompanhamento terapêutico, algo que eu também faço. Mas para o seu caso... Pensei em algo mais específico, que eu acredito que possa ser útil, que possa te ajudar a descobrir quem você é. Uma forma libertadora de encarar os seus fantasmas e superá-los.

Ela me olhava com bastante curiosidade, pois o que eu lhe estava oferecendo era praticamente uma salvação.

— Se isso pode me libertar... Vamos lá! — parecia empolgada.

— Devo alertá-la sobre os perigos de utilizarmos esse meio... — falei em tom baixo e sério — Não é algo utilizado na psicologia, não é ético, muito menos aceitável. Eu poderia ser caçada se alguém descobrisse... E eu não estou segura se você realmente irá querer fazer isso quando souber do que se trata.

— Me mostre. Só vou saber se você me mostrar.

— Tem certeza?

— Me mostre! — insistiu.

Agora eu não poderia voltar atrás. Teria que lhe mostrar e correr o risco das consequências. Emma poderia ficar tão abalada que passaria mal. Ou poderia dar na minha cara, me xingar, ir embora e me denunciar para o CFP e pronto. Minha carreira estaria arruinada. Sairia na capa de todos os jornais: Psicóloga sádica, mais conhecida como Regina Exemplar tem seu registro caçado.

Levantei-me da minha poltrona e Emma me seguiu pelo meu enorme consultório. Parei em frente uma mesinha e tirei de dentro uma chave a qual utilizei para abrir uma porta que ficava no fundo de um corredor. Abri a porta e dei espaço para que Emma entrasse, lhe advertindo:

— Você não é obrigada a nada. Podemos ir embora e fingir que isso nunca aconteceu.

Emma ignorou minhas palavras e entrou na sala.

Minha sala particular era grande e bem escura. As paredes pintadas de roxo, com alguns detalhes em preto. Barras de ferro extensoras foram instaladas, presas no teto, onde eu poderia amarrar os meus pacientes, fosse com corda, algemas, ou seja lá o que eu escolhesse utilizar. A maior parte dos meus equipamentos eram pretos.

Havia um sofá de couro preto em um canto da sala, nas paredes estavam pendurados de forma simétrica vários chicotes diferentes. Possuía duas mesas pretas, em uma delas ficavam minhas algemas, braçadeiras, prendedores, beliscadores, vários vibradores e dildos em tamanhos, cores e formatos diferentes. Tudo arrumado com perfeição.

Em uma extremidade da sala, estava meu cabideiro com várias fantasias penduradas, a maioria delas também pretas. No meio da sala estava uma cama em tom de roxo, mas com as madeiras pretas. Os lençóis eram roxos também.

Emma ficou perdida dentro da minha sala. Ela não sabia para onde olhar, e ia andando cada vez mais adentro. Eu a seguia e olhava para seu rosto tentando compreender o que ela estava sentindo. A princípio ela parecia chocada, como se nunca tivesse imaginado nada do gênero vindo de mim. Depois pareceu assustada, como se tivesse medo, especialmente ao se aproximar dos meus chicotes.

Olhou para mim profundamente.

— Você é como a Cruella! — acusou-me, nervosa — Você faz as mesmas coisas tenebrosas que ela! Como? Como você...

— Emma, deixe-me explicar — pedi, em tom calmo — Por favor... Eu não sou como a Cruella. Eu não abuso de crianças inocentes, não ameaço adolescentes para mantê-las sobre o meu domínio.

— E o que significa isso, então? Que porra é essa?

— Isso aqui é o que eu sou — admiti, sincera. — Você queria saber mais de mim, me conhecer. Pois bem: isso é o que eu sou. Eu sou uma dominadora sádica que tem uma forma estranha e diferente de obter prazer, e que me utilizo de técnicas sadomasoquistas para ajudar os meus pacientes a encontrarem alívio.

— Alívio? Ajuda? Você traz seus pacientes pra cá? Todos eles? — estava chocada demais.

— Não todos, apenas alguns... São casos específicos. Quando eu percebo que a terapia normal não está dando certo, e que talvez o BDSM seja eficaz, eu proponho a eles essa terapia alternativa, eu os trago até aqui, mostro a eles o que estou te mostrando e deixo que eles pensem, mando que pesquisem sobre o assunto, que vejam vídeos. Eu não obrigo ninguém, Emma. Não induzo ninguém. Só mostro um caminho, uma possibilidade diferente — expliquei em tom calmo, sendo o mais sincera possível.

— Isso é... Surreal pra caralho! — falou, pondo a mão na testa, como se tivesse passando mal. — Você é... Uma dominadora sádica?! — assenti e ela riu, como se aquilo fosse absurdo demais. — Uau. Você trepa com seus pacientes, abusa deles física e mentalmente e quer me convencer que isso é algo bom? Que é para o bem deles?

Respirei fundo, afim de me manter calma. Emma era uma das poucas pessoas que conseguia tirar-me a calma com facilidade, como se ela conseguisse acessar partes minhas que ninguém mais conseguia.

— Em primeiro lugar: eu não transo com pacientes, nunca transei. Caso você não saiba, BDSM não necessariamente inclui sexo. O que eu faço com determinados pacientes, que escolhem de livre e espontânea vontade a terapia alternativa, são sessões de submissão e sadismo.

— Você faz seus pacientes de submissos e os agride? É isso? — encarava-me de forma hostil e intensa.

— Exatamente. Para o bem deles, para beneficiá-los.

Ela gargalhou na minha cara e o meu desejo foi de esbofeteá-la, mas me contive.

— Beneficiá-los? Sério? Como? Qual o benefício em ser submisso e apanhar?

— Não aja como se não soubesse — falei, meio irritada. — Você está chocada, ok. Eu entendo. Não esperava que eu fosse "isso". Talvez durante esses meses de terapia você tenha me fantasiado por causa da transferência, tenha pensado, tenha desejado que eu fosse uma coisa, mas isso é quem eu sou. É assim que eu trabalho. Achei que utilizar do BDSM fosse ser útil no seu caso, mas se você discorda, ótimo, sem problemas. Não faremos isso. Mas se estiver decepcionada ou irritada demais comigo para continuarmos, encerramos com a terapia por aqui. Eu ficaria muito feliz em indicá-la para outro profissional.

— O quê? — olhou-me assustada depois da minha explosão. — Outro profissional? Uma ova! Eu quero você! Eu não quero outro! — disse em tom alto e nesse momento a tensão entre nós explodiu. — Porra... Eu não devia ter dito isso... Mas, eu quero você, Regina. Eu quero você, não como minha psicóloga, eu quero você. Eu desejo você desde a primeira vez que vim aqui e sei que isso é errado pra caralho, que isso vai estragar a terapia, mas eu desejo você e agora que me mostrou isso aqui... Eu te desejo ainda mais.

Emma Swan me desejava. Ela me desejava e estava nervosa, tremendo na minha frente, porque não sabia lidar com isso. Eu havia conseguido lhe arrancar aquela confissão em um momento de ápice. Estávamos ambas envolvidas profundamente uma com a outra, dentro de uma sala de BDSM totalmente erótica, e ela havia acabado de dizer que me desejava. Puta merda.

Não resisti. Avancei em sua direção, agarrando seu rosto e beijei sua boca de forma selvagem. Emma pôs suas mãos em mim, se escorando, pois eu a empurrei com força contra a parede. Peguei seus pulsos e os segurei possessivamente a cima de sua cabeça enquanto lhe beijava. Sua língua era tão furiosa quanto a minha e o nosso encaixe foi perfeito. Perfeito!

Aquele foi o primeiro beijo que demos. O primeiro de muitos que viriam.

Nós nem havíamos começado a terapia alternativa e eu já havia quebrado regras. Não beijava paciente, não trepava com eles. Eu só os dominava e fazia que por meio da dor se libertassem, mas é óbvio que eu não conseguiria respeitar os limites com Emma.

Nós estávamos só começando uma relação que viria para quebrar todas e quaisquer regras que fossem. Eu e Emma destruiríamos as convenções, desprezaríamos os avisos de perigo. Nós éramos fogo e gasolina e estávamos prestes a explodir.