Amor Marginal
2 Capítulo II
Notas iniciais
REGINA MILLS SWAN
Anotação em Diário
4 de Agosto de 2008
Todos dizem que na vida sempre existirão momentos dos quais jamais nos esqueceremos. Concordo. Há muitos momentos memoráveis na vida de um ser humano, o primeiro baile do ensino médio, formatura da faculdade, o primeiro emprego, o primeiro namoro, à primeira vez. São momentos meio que universais na vida de todo mundo. Mas acredito que existem datas, existem dias que fogem à regra desse padrão, dias bem específicos e particulares na vida de uma pessoa que as marca para sempre. Esse foi o meu dia.
Conheci uma mulher. Uma mulher linda, gostosa pra caralho (sinto muito, mas é verdade), estilo caminhoneira (meus gostos são peculiares, eu sei). Ela não é muito educada, mas tem senso de humor, é esperta, pensa rápido e eu gosto disso. Eu sei, eu sei, eu sei. É o grande clichê das lésbicas: conheci uma gostosa com um jeitão meio rude, e isso é atraente para caralho, mas não significa nada.
No meu caso significa. Sério. Se vocês a vissem... Entenderiam o que quero dizer.
Não faço a menor ideia do que pode rolar a partir daqui, entendem? Foi algo muito inusitado. Graças a uma amiga, não, não uma amiga. Eu jamais seria amiga de uma pessoa tão chata e terrivelmente tediosa como Aurora, mas nós havíamos estagiado juntas, éramos colegas de profissão (psicólogas), então mantínhamos um contato profissional.
Um dia aleatório Aurora me ligou com aquela sua voz entediante e exageradamente doce e perguntou se eu teria um tempo disponível para atender uma amiga sua. Meu pensamento imediato foi: Não, é claro que eu não perderei meu tempo atendendo uma amiga sua, piranha chata. Porque provavelmente sua amiga deveria ser tão chata quanto ela, e eu detestava pacientes chatos, mas por ser exageradamente educada acabei aceitando. A tal amiga chamava-se Emma e ligou para minha secretária Zelena, marcando uma sessão para o dia de hoje, segunda-feira, dia 4 de agosto, às quatro da tarde.
Eu atendia como psicóloga clínica há alguns anos, desde que me formei. Eu tinha um distanciamento muito grande das pessoas, sentia pouca — ou nenhuma — empatia por elas. Achava que a raça humana era um grande caos que deveria ser extinta, e mesmo assim me tornei uma boa psicóloga. Talvez o segredo fosse porque além de muito inteligente e aplicada aos estudos, eu gostava de lidar com sofrimentos e angústias alheias. Meus amigos íntimos insinuavam que isso eram tendências sádicas. Eles não faziam ideia do quão certos poderiam estar.
Meu consultório ficava em um grande e clássico edifício no bairro Back Bay, porque sofisticação e bom gosto sempre foram coisas as quais prezei muito. Um andar inteiro era ocupado pelo meu consultório. Os pacientes ou clientes (cada um chama como quer, dependendo da abordagem teórica que segue) saíam do elevador e puff: estavam pisando em terreno perigoso, o terreno da Regina Mills.
Haviam poltronas pretas idênticas enfileiradas de ambos os lados, separadas milimetricamente em uma distância que eu considerava perfeita para preservar o espaço pessoal de cada paciente meu. Uma máquina multibebidas que preparava desde café a chocolatto era a parte favorita de quem se consultava comigo, todos, sem exceção, sempre a elogiavam. Um belo truque para agradar viciados em café e chás.
Na parede esquerda, ao lado do bebedouro, estava uma pequena estante que guardava um acervo meu de revistas e livros de assuntos diversos, os quais deixei ali, disponíveis para o meu grande público. Nas paredes haviam quadros de Edvard Munch e Van Gogh, respectivamente: O Grito e A Noite Estrelada. E haviam cinco pequenos retratos com os desenhos dos livros de meus pais, que narravam a trajetória da Regina Exemplar — outra ideia brilhante a minha, deixar aqueles retratos ali, para que os meus pacientes chegassem pensando que sabiam coisas da minha vida só porque tinham lido os volumes dos livros. Coitadinhos. Eles não sabiam de nada.
Zelena bateu na porta do meu consultório às 16:15. Estava sentada em minha mesa de vidro olhando alguns prontuários.
— O que foi? — sequer ergui os olhos para avistá-la.
— Senhora Swan está aqui — avisou-me com seu sotaque britânico que por vezes me irritava.
Olhei para ela de cenho franzido. Achava que àquela altura a tal da Emma não fosse mais aparecer. Se tinha algo que me deixava muito irritada era a falta de pontualidade, e eu não admitia isso com os meus pacientes. Aliás, com ninguém.
— Mande-a entrar — pedi, levantando-me de minha mesa.
Zelena apenas assentiu, desaparecendo da minha vista. Então ela surgiu, como o sol. Emma Swan entrou em meu consultório com as mãos enfiadas nos bolsos traseiros do seu jeans vagabundo, seus olhos verdes cintilantes e rápidos começaram a vasculhar minha sala, como se fosse um animal acuado, querendo investigar o terreno novo no qual pisava.
Minha secretária fechou a porta para nós e esse gesto a fez mover-se, como se estivesse assustada. Apenas fiquei lhe observando, esperando que ela me notasse e ela notou. E como notou.
Pousou seus olhos em mim, me medindo da cabeça aos pés, avaliando-me, como se farejasse perigo. Me encarou e eu sustentei seu olhar. Era hora de nos comunicarmos.
— Sente-se, por favor — indiquei com a mão qual era a poltrona que ela deveria se sentar, uma poltrona preta, é claro. — Ou se preferir, pode se deitar no divã.
Emma franziu o cenho e olhou para o divã, claramente desaprovando-o e foi direto para a poltrona. Sentei-me em sua frente na minha poltrona e cruzei as pernas, porque usava uma saia preta. Ela captou meu movimento, na verdade ela captava todo e qualquer movimento meu, me analisando tanto quanto eu lhe analisava.
— Foi difícil chegar aqui? — rapport era uma técnica que todos os psicólogos utilizavam com os pacientes. Falar do trânsito ou do clima, qualquer papo bobo de dois segundos para quebrar o clima antes de começar o "trabalho".
Ela não parecia estar prestando atenção no que eu falava, seus olhos fixos no retrato de Freud que estava pendurado em minha parede.
Em um único olhar eu percebi que Emma era arredia, fechada. Sua linguagem corporal indicava isso. E também indicava que ela gostava de mulheres. Se bem que só de observar suas roupa eu já poderia concluir isso. Botas nem um pouco femininas, na verdade acredito que fossem coturnos. Usava uma simples regata branca e um casaco de couro vermelho por cima. E ela gostava de pisar no chão fazendo barulho.
— Emma? — chamei e então ela me olhou. — Teve dificuldades em encontrar a clínica?
— É para isso que vim aqui? Falar do meu problema de geografia? Porque isso é uma questão que posso resolver facilmente... É só pesquisar os endereços na internet ou em um mapa.
Dei-lhe então o meu primeiro sorriso. O mais predatório.
— Diga-me você. Por que está aqui?
Cruzei as mãos em cima do meu colo e Emma mantinha as pernas abertas como um verdadeiro homem, não um homem elegante, é claro, mas sim como um homem rústico e muito mal educado.
— Porque minha amiga mandou — falou meio nervosa.
— Mandou?
— Pediu — se corrigiu. — Aurora pediu que eu viesse. Disse que achava que eu precisava de terapia, que faria bem. Essas coisas.
— Está aqui porque sua amiga "pediu" — enfatizei a palavra — Então você é uma submissa, Emma? — ela me olhou ferozmente, como se eu tivesse lhe ofendido.
— Não! — estava nervosa — Não sou submissa.
— Mas você obedeceu uma ordem...
— Não foi uma ordem! Foi um pedido de uma amiga!
Passei a língua por entre meus lábios pintados por um batom vermelho à prova d'água.
— Certo. E o que você acha disso? Aurora disse que você precisava de terapia. Por que acha que ela pensa isso?
Emma apoiou o pé direito na perna esquerda, num gesto confortável, mas ainda rude e masculino. Seus braços estavam apoiados nos braços da poltrona e ela mexia os dedos finos compulsivamente, batendo-os.
— Não sei. Talvez porque ela é psicóloga, e todos vocês acham que todo mundo precisa de terapia. Algo assim.
— Não estou interessada no que os outros acham — avisei e ela me olhou surpresa — O que me interessa é o que você acha, Emma.
Silêncio.
Nós nos olhávamos fixamente.
— Eu não sei o que eu acho. Nunca vim aqui antes — falou de forma esperta e com humor, roubando-me a primeira de muitas gargalhadas.
— Comece me dizendo o que achou do retrato do Freud.
— Assustador — respondeu com sinceridade e eu ri novamente. — Você é psicanalista?
— Talvez.
— O que isso quer dizer?
— Que talvez eu seja, talvez não.
— Por que teria um retrato do Freud aqui se você não é psicanalista?
— Por que você está aqui? — descruzei meus dedos e coloquei as mãos sobre os braços da poltrona, assim como ela.
Novamente Emma se moveu, pondo ambos os pés no chão e se desencostando da poltrona. De repente ela apoiou os cotovelos nas coxas e se inclinou para frente.
— Porque eu acho que sou fodida da cabeça — disse em tom baixo e nesse momento eu soube que ela era diferente das outras pessoas.
— Acha?
— Só quem pode me dar a certeza é você.
— Por que precisa que eu te dê uma certeza? Por que precisa de uma certeza? — questionei espertamente, tombando um pouco a cabeça para o lado.
— Por que você me faz tantas perguntas?
— Não estou aqui para te dar respostas.
— Então pra que fazer terapia? — estava irritada de novo, os lábios se apertando e eu me controlava para não rir.
— Para você mesma encontrar suas respostas. Mas você só pode encontrá-las se souber suas perguntas. Você sabe, Emma?
— Isso parece papo de louco — tentou desconversar. — Tem uma bebida?
— Café? — arquei a sobrancelha.
— Não, bebida. Álcool. Você tem?
— Não posso te fornecer bebida em uma sessão de terapia, Emma — falei tranquilamente, embora eu tivesse secretamente um mini bar no meu consultório.
— Foda-se. Ninguém saberia.
— Gosta de coisas proibidas?
— Gosto de álcool. Ele me acalma.
— Está nervosa? — perguntei em tom provocativo, mas eu já sabia a resposta. Ela não parava de mover-se na poltrona. — Por quê?
— Esse lugar... — olhou ao redor — Você... É intimidadora.
— Sou? — sorri largamente — Acho que todos os psicólogos são, a princípio.
— Aurora não é. Você é.
— Então você gosta de beber. O que bebe, Emma?
— Álcool, já disse.
— Não pode ser mais específica? — fiquei um pouco irritada e deixei isso transparecer, o que a fez sorrir.
— Scotch. Gosto de Scotch. Mas bebo tudo que for destilado. Tequila é bom também.
— Gosta de beber por que te deixa calma?
— E excitada também — ela estava tentando me provocar, tentando fazer algum tipo de jogo que eu não conseguia decifrar tão de cara.
— Precisa de álcool para ficar excitada? — provoquei de volta e seu semblante ficou sério.
— Claro que não. Mas eu gosto do sabor da bebida.
— Há sabores muito melhores...
Silêncio. Nós nos estudávamos como duas felinas territoriais que preparavam o bote.
— Fale-me sobre você, Emma.
— O que você quer saber?
— Tudo. Conte sua história.
E ela o fez, bem relutante. Emma resumiu a história de uma vida de alguém com vinte e oito anos em menos de meia hora. Contou que havia nascido em Storybrooke, que tinha uma irmã gêmea que não parecia gêmea, que o pai era um alcoólatra ausente, a mãe uma louca que já havia morrido e a madrasta era o que ela chamou de "puta desgraçada", mas não entrou em detalhes sobre suas relações com essas pessoas. O que notei foi indiferente ao falar do pai e muita raiva ao falar da madrasta. A irmã parecia ser a única figura a qual Emma tinha um apego forte.
Contou-me que sempre foi uma solitária, que detestava a escola e que estudou jornalismo. Falou do emprego, que não era o que havia sonhado, mas pagava suas contas e lhe proporcionava fazer o que amava: escrever.
— Você me disse no começo da sessão que estava aqui porque acha que é fodida da cabeça. Bom, após ouvir sua história, Emma, não acho que você seja fodida da cabeça só por ter ficado em um orfanato até os nove anos, nem por ser meio anti social e ter se dado mal na escola.
Ela ergueu as sobrancelhas e me olhou muito, muito brava. Ofendida. Como se eu tivesse menosprezado sua história e o que havia por de trás dela: seus sentimentos. E sim, eu realmente estava menosprezando, propositalmente, para ver sua reação.
— Você não sabe de porra nenhuma.
— Na verdade eu sei sim, você acabou de me contar. Acho que você é só uma garotinha do interior que não teve a vida transformada em um conto de fadas como imaginou, e por isso se sente frustrada — inventei, jogando-lhe as palavras com força abrupta.
— VÁ SE FODER! — explodiu, levantando-se com tudo e aquilo não me assustou, era exatamente o que eu esperava. — Você não sabe de nada! Não sabe o que ela me fez passar! O que eles fizeram! Ela me sodomizou! Me estuprou várias vezes! Eu apanhava, eu apanhava muito, sem motivo. Fiquei dias sem comida, amarrada... Com os braços pendurados... — Emma estava histérica, totalmente alterada, os olhos com lágrimas, o rosto retorcido em pânico e as mãos trêmulas. — Eu tenho marcas pelo corpo todo pelo que ela fez comigo. E ninguém me ajudou. O desgraçado não me escutava. Bêbado inútil.
Mesmo que ela não estivesse sendo clara nas palavras, eu deduzi que "ela" se referia à madrasta, e "ele" ao seu pai.
— Ninguém mais sabia disso? — perguntei em um tom calmo. Ela balançou negativamente a cabeça. — E sua irmã?
— Nunca! Ela jamais saberá! — exaltou-se de novo — Fiz tudo o que podia para proteger Elsa disso. Me sacrifiquei por ela. Cruella... É louca. E ela quis muito foder a vida da Elsa, mas eu não deixei. Tínhamos um acordo. Ela podia fazer essas coisas... Comigo, mas em troca Elsa ficaria de fora.
Emma Swan estava ficando cada vez mais interessante...
Ela pareceu se acalmar de repente e voltou a se sentar, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse mandado eu ir me foder há dois minutos atrás.
— E o que ela fazia com você? Sexo? E te batia?
— Sim. Ela... Gostava de fazer coisas bizarras. Gostava de me ofender, de me subjugar. A violência física era feita com todo o tipo de coisas possíveis. Desde surras com varas e cincos até pequenos cortes com faca. Cruella gostava que eu a obedecesse, mesmo sabendo que era contra minha vontade. Ela mandava eu fazer coisas...
— Que coisas?
— Massagear seus pés... Lambê-los... Me mandava rastejar como um cachorro, me mandava chupá-la com frequência.
Notei na sua forma de falar uma grande ambiguidade. Ao mesmo tempo que Emma parecia carregar um grande sofrimento, algo traumático por esses fatos, ao mesmo tempo ela parecia "confortável" em relatar aquelas coisas, e dependendo do que falava, parecia até mesmo... Gostar.
— Isso começou quando, Emma? Quantos anos você tinha?
— Onze.
Ergui as sobrancelhas, ligeiramente chocada.
— E durou até quando?
— Até eu ir embora da cidade.
— Isso dá mais ou menos uns dez anos! — falei bem surpresa. — É muito tempo, Emma. Por que simplesmente não encerrou com isso quando cresceu?
Então ela finalmente me olhou nos olhos desde o início de sua confissão de criança que havia sido abusada, um olhar profundo e assustador.
— Porque eu amava.
— A Cruella? — perguntei ingenuamente, achando que ela poderia ter se apaixonado pela madrasta sádica.
— Não, eu amava o que ela fazia comigo.
De alguma forma eu soube naquele momento que Emma Swan em breve estaria entrelaçada a mim e que nossa relação iria muito além de terapeuta/paciente. Mesmo que isso fosse perigoso, errado e anti ético, eu sabia que seria inevitável.
Emma Swan estava destinada a mim.
Fale com o autor