Amor Marginal
1 Capítulo I
Notas iniciais
"O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue."
EMMA SWAN
O dia
Quando penso em minha esposa, penso sempre em sua cabeça. No formato dela, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, foi na parte de trás da cabeça que eu reparei, e havia algo adorável nela, em seus ângulos. Como um grão de milho duro e reluzente, ou um fóssil no leito de um rio. Era o que os vitorianos chamariam de uma cabeça belamente formada. Dava para imaginar o crânio com bastante facilidade.
Eu reconheceria sua cabeça em qualquer lugar.
E o que havia dentro dela. Também penso nisso: sua mente. Seu cérebro, todas aquelas espirais, e seus pensamentos disparando por essas espirais como centopeias rápidas e frenéticas. Como uma criança, culhando-o, tentando capturar e entender seus pensamentos. No que você está pensando, Regina? A pergunta que eu fiz com maior frequência durante nosso casamento, embora não em voz alta, não à pessoa que poderia responder. Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras sobre todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?*
Acordei às cinco e meia da manhã, subitamente, sem auxílio de um despertador. Não era o horário em que eu deveria acordar. Pontualmente falando eu teria de acordar seis e meia, então poderia dormir por mais uma hora, mas simplesmente despertei, completamente acordada, arregalando os olhos como um vampiro que aguarda até que alguém abra a tampa do seu caixão. Estava dormindo e de repente não mais, despertando sem resquícios de sono.
Me levantei como uma verdadeira zumbi, arrastando os pés e nem precisei do habitual bater de cílios. Meus olhos estavam tão arregalados que eu parecia uma viciada que havia passado a madrugada toda consumindo heroína, mas eu não era uma viciada. Pelo menos não em heroína e minhas olheiras e olhos esbugalhados eram por causa do cansaço que eu sentia. Um cansaço mental tão grande que atingiu gradativamente meu físico.
Isso porque eu era uma mulher forte. Fisicamente falando. Com quase um metro e setenta de altura, eu tinha 52 kg muito bem distribuídos entre seios e bunda num tamanho médio, e músculos muito bem definidos por uma alimentação regrada ao longo dos anos e bastante exercícios físicos para compensar as porcarias — como minha esposa chamava — que eventualmente eu comia. Porcarias como fast food, pizza e sanduíches com pasta de amendoim, que um dia Regina amara comer ao meu lado, mas que hoje ela simplesmente detesta.
Minha esposa era uma verdadeira incógnita. Completávamos cinco anos de casamento, sete de relacionamento, e eu não sabia mais quem ela era. Acho que nunca soube. Regina era o tipo de mulher que te instigava completamente, que te fazia querer decifrá-la a todo custo, mas nunca consegui — não completamente.
Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu só tinha vinte e oito anos, um emprego de bosta no jornal mais meia boca de Boston, o The Boston Tribune, e uma vida fodida. Morava num apartamento fuleira em South End e era viciada em tarja preta, remédios que eu comprava com receitas falsas, porque não tinha saco nenhum em ir regularmente ao psiquiatra. Eles eram bem chatos.
Eu precisava dos remédios porque era ansiosa. Tinha uma ansiedade tão grande que chegou no nível físico. De sudorese a palpitações, qualquer situação muito estressante ou lugares lotados me deixavam beirando crises de pânico. Sem os comprimidos eu não conseguia dormir, não conseguia ficar calma, muito menos sociável. Se é que sociável era uma palavra aceitável para quem eu era — e ainda sou.
Nunca fui de muitos amigos, desde a época do abrigo. Eu e minha irmã Elsa crescemos em um abrigo no interior do Maine, numa cidade minúscula e considerada "esquecida por Deus" chamada Storybrooke. Na verdade passamos parte parcial da infância no abrigo, porque ao completarmos nove anos respectivamente — éramos gêmeas, mas não idênticas — papai foi nos buscar.
Nossa mãe, Mary Margareth, era comprovadamente insana e não poderia cuidar de nós, tanto que tentou nos afogar assim que nascemos e logo foi internada em um hospital psiquiátrico do governo por onde ficou nos próximos anos até falecer, pouco antes que eu me mudasse para Boston.
Nunca liguei mundo para o fato de Storybrooke ser um lugar pequeno e pacato. Acho até que combinava comigo, porque eu sou uma mulher bem quieta, entendem? Sou assim desde criança, na minha. Não gosto de grandes eventos, de pessoas efusivas, de sorrisos e toques demais. Mesmo assim eu sorria. Sorria sempre, em qualquer situação, para qualquer pessoa. Seja simpática. Sorria, Emma. Era o que o meu pai me dizia, ele e sua esposa afetada que tentou, em vão, substituir o papel de minha mãe e de Elsa. Cruella parecia ter saído de um filme mórbido de terror, sua gargalhada se assemelhava a de uma bruxa e a mexa branca nos cabelos pretos lhe davam um ar ainda mais horripilante. Ela não tinha nenhuma característica que poderia atrair uma criança...
Mas minhas motivações em ir embora de casa e partir para Boston foram bem fortes. Minha infância e adolescência foram permeadas de abusos e muita violência, o que me deixou ainda mais apática e à deriva na vida, como se eu fosse um objeto. E se eu continuasse onde estava, provavelmente teria morrido antes dos trinta, então parti para Boston sozinha, com uma mochila nas costas, um diploma de uma faculdade qualquer e sonhos de grande carreira, que logo foram esmagados pela realidade da cidade grande.
Demorei até conseguir um emprego como jornalista — minha profissão. Ao invés disso, precisei ficar limpando mesas de bar e servindo cerveja a homens tarados que vira e mexe davam tapas em meu traseiro, e eu tinha que resistir ao impulso de socá-los se quisesse receber no final do mês o dinheiro do meu aluguel. Quando a situação ficava muito feia, eu recorria a minha irmã. Elsa sempre me mandava um dinheirinho e me ligava todos os dias, preocupadíssima, como se fosse uma irmã mais velha. Tecnicamente eu era a mais velha por dois minutos, mas Elsa sempre foi mais centrada que eu.
Tomei uma ducha gelada e vesti uma roupa qualquer. Você deveria se arrumar, dizia minha consciência. Deveria, no mínimo, vestir algo mais decente. Hoje é seu aniversário de casamento. E quem se importa?
Fiquei no andar de baixo reparando em minha casa. Havia sido um acordo entre Regina e eu quando nos mudamos para Storybrooke. Não comprar uma casa, apenas alugar, como se isso significasse que nossa mudança era algo provisório. E Regina desejava que fosse. Se dependesse dela, nós nunca teríamos nos mudado. Ela odiava com todas às forças Storybrooke, sua praia gelada, seu rio com "cara de morto" (como ela dizia) e todos os pequenos pontos turísticos. Minha esposa, que nasceu em Boston e viajou o mundo. É claro que ela odiaria a cidade, eu sabia disso, e mesmo assim lhe arrastei, como um homem das cavernas. Queria que ela entendesse que não foi minha culpa.
Nós nos mudamos porque um dia Elsa me ligou desesperada. Nosso pai estava com alzheimer, a doença evoluindo rápido, fazendo com que ele se perdesse e se machucasse constantemente, e nossa madrasta-mãe havia adquirido um câncer intestinal que pouco a pouco foi devorando a pouca dignidade que lhe restava. Se é que aquela criatura desprezível tinha alguma dignidade...
Eu odiava Cruella. Odiava e amava ao mesmo tempo. Sei que parece loucura, mas não conseguia evitar. Por isso tive de voltar. Ela precisava de cuidados e Elsa não poderia fazer isso sozinha, então voltei à Storybrooke e arrastei minha esposa bostoniana, fina e sofisticada para o fim de mundo aonde ela não poderia ser contemplada.
Regina Mills, aquela que havia inspirado a série Regina Exemplar que foi um sucesso durante os anos oitenta e noventa. A filha única do aclamado e perfeito casal Cora e Henry Mills, os autores dos livros que narravam a infância e juventude de uma personificação perfeita da verdadeira Regina, da minha Regina.
Por alguma razão, essa mulher rica, sofisticada, muito mais educada e inteligente que eu, dona de um Doutorado em Psicologia e com um bom gosto para artes, havia decidido casar-se comigo. Simples assim. Dentre todas as suas inúmeras opções, homens e mulheres por todos os cantos do país, Regina Mills me escolheu e isso me fez me sentir especial. Mais que especial. Eu me sentia incrível. Estar ao lado de uma mulher como Regina fazia com que eu quisesse me superar, sabem? Para estar no mesmo nível que ela. Uma incensante corrida para adivinhar seus desejos, um esforço descomunal para me inteirar sobre seus gostos, adquirir seus conhecimentos que pareciam inesgotáveis. Até o dia que me cansei...
Cansei de tentar inutilmente agradar minha esposa que sempre — eu disse sempre — reclamava de alguma coisa. Regina nunca estava satisfeita depois dos primeiros anos. Como se nada fosse bom o bastante para ela, à realeza. Nem mesmo eu parecia boa o suficiente, embora ela não dissesse isso explicitamente, mas eu poderia ler nas entrelinhas. Ou eu era tachada de esposa fria, apática, que não fazia absolutamente nada para tentar agradá-la, ou eu fazia alguma coisa, mas essa coisa não era o bastante. É, eu sei, uma merda.
Não sei bem dizer quando nos perdemos uma da outra. Claro que as coisas não foram sempre assim, senão nem teríamos nos casado (ainda mais de papel passado). No começo tudo era incrível. Regina surgiu no meu céu como um verdadeiro foguete e todas as emoções que ela me trouxe eram suficientes para inteirar uma vida toda. Penso que talvez muitas pessoas com noventa anos de idade, não tenham experimentado todas as emoções que eu, em menos de quarenta anos havia experimentado. Disso eu não poderia me queixar.
Talvez o declínio da nossa relação tenha sido mesmo quando decidi embrulhar minha esposa bostiana, com interesses bostianos, com pais bostianos, e simplesmente trazê-la para a pacífica e gélida Storybrooke. Eu jamais poderia supor o quão infeliz a minha vida se tornaria após aquela estúpida ideia...
Cheguei no Black Swan por volta do meio dia. Estacionei meu fusca amarelo na rua de trás, porque o estacionamento na frente do nosso bar/restaurante aumentava o preço absurdamente nos finais de semana. Enquanto dava a volta pelo quarteirão, eu podia ver o mar e o pier. Era o que eu mais adorava em Storybrooke. A facilidade de acessar todos os lugares, inclusive a água, o meu elemento favorito.
Entrei no bar e haviam uma ou duas pessoas solitárias nas mesas comendo porcarias e lendo jornal. Aproximei-me do balcão ao ver minha irmã atrás dele, com os cabelos platinados amarrados em um enorme rabo de cavalo e me sentei em um dos bancos, de frente para Elsa.
Sua visão era um achado para mim. Minha irmã era muito bonita, mais do que eu — na minha opinião. Na opinião dos outros, nós éramos terrivelmente lindas, cada uma da sua maneira específica, pois tínhamos traços diferentes e estilos também.
Minha irmã tinha olhos maiores, grandes e expressivos olhos verdes. Exceto pela cor, seus olhos lembravam-me os de Regina.
Ver minha irmã todos os dias era tranquilizador. Como se fosse uma grande esperança: as coisas não estão lá boas, mas tudo ficará bem.
— Então hoje é o grande dia — falou afim de me provocar, sem precisar me olhar para notar minha presença — Quantos anos mesmo? — ergueu os olhos para mim.
— Cinco — respondi sem ânimo algum. — Cinco anos de casamento.
— Muito corajosa você — zombou, com seu sorrisinho sardônico — Cinco anos é o que mesmo? Bodas de papel?
— Papel foi no primeiro ano. No quinto é bodas de madeira ou de ferro.
— Não sabe nem se é de madeira ou de ferro? — Elsa lavava copos por de trás do balcão e os organizava metodicamente. — Que bela esposa você é, Emma.
— Não é isso não, Elsa. O quinto ano pode ser comemorado com madeira ou ferro — ela me olhava meio confusa — Ou pelo menos foi isso que o google me disse...
— Pesquisou no google? — acenei positivamente com a cabeça e ela gargalhou. — É, como eu disse: que bela esposa. Quer café?
— Só se tiver álcool nele... — Elsa gargalhou — Só com muito álcool serei capaz de suportar o que Regina tem preparado.
— De novo o jogo de caça ao tesouro? É quase que um ritual para ela, não é?
— Um ritual satânico. Regina quer me enlouquecer, aposto que deve estar preparando algo bem terrível esse ano para me punir. Com certeza vai utilizar pistas de coisas que eu sequer me lembro. Ela sempre faz isso. Para jogar na cara o quanto sua marida era uma cretina que não se lembrava de nada do que ela dizia.
Elsa pegou dois copos e colocou-os sobre o balcão, pegou uma garrafa de Scotch Highland Park e encheu-os até a metade.
— Um brinde ao casamento perfeito! — ergueu seu copo, debochando-me ao máximo, mas eu com certeza merecia. Elsa havia me dito para não me casar, mas eu não a ouvi como uma boa irmã faria... Se eu tivesse escutado o que aqueles lindos lábios finos e rosados haviam me falado...
— Quer parar com isso? — falei meio irritada, bebericando uma boa golada do meu uísque escocês. — Devia ser grata a Regina, sem ela nós não teríamos o Black Swan. Vai dizer que não ama passar suas noites rindo das confusões que as pessoas fazem aqui? Ou que não gosta de passar o dia vendo casais e famílias se deliciando com as guloseimas que suas belas mãos preparam? — meu tom galanteador fez com que suas bochechas corassem. Isso acontecia desde à infância, sempre. Sempre.
— Darei créditos à sua esposa por isso — olhava-me com um arquear de sobrancelhas divertido. — Mas ela perde muitos pontos comigo por não te fazer mais feliz.
Virei meu copo e Elsa me acompanhou, apertando os olhos numa careta engraçada que me fez rir.
— Você odeia bebidas — comentei — Não precisa me acompanhar só porque hoje estou completando cinco anos incríveis de casamento.
— Mas eu amo minha irmãzinha — esticou sua mão delicada em cima do balcão, pondo-a sobre a minha — Amo o suficiente para beber Scotch ao meio dia e xingar sua esposa vadia. Aliás, já sabe o que dará para Regina de presente?
Joguei a cabeça para trás. Puta merda. Não havia pensado nisso. Balancei a cabeça negativamente, com uma expressão de tola impotente.
— Sequer pensei nisso... Nada está no nível de Regina Mills... O que eu posso dar à ela de madeira ou ferro?
Ela coçou o queixo por um instante, olhando para o nada e então voltou a me olhar, um sorriso de pura diversão expandindo em seu rosto angelical.
— Um brinquedinho erótico! — ri na mesma hora — É sério. Você compra um pau de madeira ou ferro, prende na cintura e dá uma boa surra nela...
Nós duas caímos na gargalhada, mas então o clima ficou estranho. Eu e Elsa éramos muito próximas desde criança, compartilhávamos uma intimidade que poucas pessoas no mundo possuíam, mas falar sobre sexo, ainda mais sexo entre eu e minha esposa era um limite nosso. Um limite que se ultrapassado causava incômodo para ambas.
Houve uma ocasião em que nossa madrasta má — apelido que Cruella honrava majestosamente — tentou bater em minha irmã. Nós tínhamos onze anos. Eu não me lembro bem do que ocasionou a briga, mas sei que Elsa estava se divertindo com várias tintas coloridas na sala, fazendo desenhos em papéis que nada mais eram do que borrões de criança, e quando Cruella presenciou aquilo, enlouqueceu.
— Que diabos você pensa que está fazendo, sua cretina infeliz? — berrou feito uma louca, correndo até o chão, agarrando minha irmã assustada pelos braços. — Eu vou te dar uma surra para aprender a não bagunçar minha casa!
— Solta minha irmã agora! — gritei ao aparecer na sala e presenciar aquela cena, o sangue subindo a minha cabeça.
Cruella me olhou de sobrancelhas erguidas, duvidando da minha ousadia.
— Eu mandei soltá-la! — falei enfaticamente, os olhos faiscando de ódio — Ela é minha irmã e você não tem o direito de machucá-la!
Atônita, Cruella soltou Elsa, que veio correndo para meus braços, aos prantos e eu a levei para o chuveiro, lavando-a e lhe tirando aquela tinta grudada da pele. Elsa ainda estava assustada, por isso nós dormimos de conchinha naquela noite.
— Não vou deixar que ninguém te machuque — sussurrei em seu ouvido no meio da noite — Você é minha irmã e eu vou te cuidar para sempre.
Aquela promessa era verdadeira e eterna, eu só não sabia o quanto me custaria aquele ato de audácia para defendê-la...
— Eu tenho um encontro essa noite — soltou ela, subitamente.
— Um encontro? — franzi o cenho. Elsa nunca tinha encontros. — Com quem? — perguntei meio autoritária, mas era automático.
— Killian — ela quase sussurrou o nome e eu arregalei os olhos.
— Aquele bêbado viciado em sinuca que está aqui toda semana acompanhado de uma nova vadia? — exaltei-me — Por que você sairia com um cara desses, Elsa?
Ela encolheu os ombros e seus olhos verdes expressivos caíram, como se fosse um cãozinho murchando diante das broncas do dono.
— Porque estou farta de ficar sozinha, Emma! — elevou a voz, em tom alterado — Estou cansada! Quando estou aqui no Black Swan eu me distraio, tenho você, tenho nossos funcionários para conversar e brincar, converso com clientes... Mas quando vou embora... Quando chego em casa sou apenas eu.
— Você tem a mim! — agarrei sua mão com possessividade, lhe encarando — Sempre terá a mim, Elsa. Não é o suficiente?
Ela me olhou profundamente, tão profundamente que seu olhar me deixou perturbada, lembrou-me uma noite em que algo muito estranho aconteceu entre nós. Algo constrangedor de lembrar, que dirá de compartilhar. Prefiro não dizer.
— Mas você tem a Regina — aquilo soou como uma reclamação, apesar de sua voz estar triste — Nós somos irmãs, Emma. Eu preciso de um namorado ou namorada. Tanto faz.
— E o Killian é a sua melhor opção? — soltei sua mão, contrariada. — Porra, Elsa. O cara é um lixo. E você é... Uma princesa!
Novamente suas bochechas coraram e ela me deu um sorriso tímido, arremessando contra mim um pano de prato que eu segurei espertamente.
— Se você usasse seus galanteios e charmes com sua esposa, aposto que Regina estaria te maltratando menos! — mudou o assunto.
Antes que eu respondesse aquela sua falácia, o telefone tocou e Elsa atendeu, passando para mim em seguida.
— É o senhor Geppeto, seu vizinho querido — o querido foi um adjetivo irônico, porque o velho era louco e insuportável.
Revirei os olhos, pegando o telefone.
— Bom dia, seu Geppeto. O que foi?
— Ei, Emma. Bom dia! Tudo... Tudo bem? Olha, desculpe ligar no seu trabalho, não quero incomodá-la não, viu? É que eu fui sair para tomar um arzinho, sabe como é? Tomar um ar pela manhã é sempre bom e vi que seu gato escapou, a porta da sua casa está aberta e o pobrezinho escapou.
— Tudo bem, seu Gepetto. Vou dar uma checada. Obrigada por ligar — e desliguei, impaciente.
— O que aconteceu? — Elsa perguntou em tom de preocupação.
— Nada demais. Parece que o Batman escapou.
Sim, o nome do nosso gato era Batman e eu não sabia ainda como Regina havia deixado que eu o nomeasse assim. Ela sempre detestou super-heróis.
— É melhor você ir resgatá-lo. Seja bem boazinha, porque hoje é seu aniversário de casamento e você nem ao menos comprou um presente.
— Obrigada pelo conselho, maninha — pisquei para ela antes de dar meia volta e sair do bar.
Caminhei sem pressa alguma até meu carro. A perspectiva de ter que retornar a minha casa tão cedo e provavelmente cruzar com minha esposa no dia do nosso aniversário de casamento, deixava-me extremamente desanimada. E isso não era algo legal de se admitir, mas o que eu poderia fazer?
Os últimos meses haviam sido péssimos entre Regina e eu. Nossos diálogos — se é que eu poderia chamá-los assim — eram os mais restritos possíveis. Perguntas da vida doméstica, como: Você fez compras essa semana? Ou: você colocou a comida do nosso gato? Fora isso, nós trocávamos farpas. Regina trocava, eu apenas me limitava a balançar a cabeça e concordar. Sim, querida. Você tem toda razão. No final das contas eu havia me tornado "o marido adestrado". Que bela bosta, Emma Swan.
Dirigi de volta para casa e antes mesmo de estacionar vi que a porta de nossa casa estava aberta, e não era um aberto estreito, do tipo: sai para levar o lixo e volto já. A porta estava realmente aberta... Escancarada.
Parei o carro na nossa vaga e desci. Em menos de três passos avistei Batman deitado preguiçosamente no jardim, ele me olhou com seus intensos olhos azuis felinos e miou alto, o que achei bem estranho. Geralmente Batman não tinha disposição alguma durante o dia, sequer para miar. Ele dormia em sua cama e só à noite se mostrava afim de "passear" ao ponto de escapar pelo vão da porta aberta.
Mas retornando a porta... Não era um vão aberto. A porta estava totalmente aberta. Caminhei e parei no degrau do meio de minha casa, com a testa franzida, depois subi a escada rapidamente, dois degraus de cada vez, chamando pelo nome de minha esposa.
Nenhuma resposta.
Silêncio.
— Regina, você está em casa?
Corri para o segundo andar. Nada de Regina. A tábua de passar estava montada, o ferro ainda ligado, um vestido esperando para ser passado.
— Regina!
Corri escada abaixo, fui para a sala e parei de repente, assustando-me. O carpete reluzia com cacos de vidro, a mesa de centro quebrada. As mesas de canto estavam caídas, os livros espalhados pelo chão como cartas de baralho. Até o pesado divã antigo estava de cabeça para baixo, seus quatro pequenos pés no ar como algo morto. No meio daquela cena confusa de CSI, havia uma tesoura afiada.
— Regina!
Comecei a correr, berrando seu nome. Atravessei a cozinha, onde uma chaleira queimava, desci para o porão, cujo quarto de hóspedes estava vazio, então saí pela porta dos fundos. Atravessei correndo nosso quintal até o estreito cais de barcos que se projetava sobre o rio. Espiei do lado para ver se ela estava em nosso barco a remo, onde a encontrara certo dia, o barco amarrado ao cais, balançando na água, o rosto dela ao sol, olhos fechados. E enquanto eu fitava os estonteantes reflexos do rio, seu lindo rosto imóvel, ela de repente abrira os olhos avelãs e não me dissera nada, e eu não disse nada em resposta e entrara em casa sozinha.
— Regina!
Ela não estava na água, ela não estava na casa. Regina não estava ali.
Regina havia sumido.
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