Olhar para o alto, observar o céu de um modo refletivo, próximo de se escurecer, de cor rosa e sombria, aproximadamente ás dezessete horas de um dia comum, e sentir o vento balançar os fios de cabelo assim como a folhagem das árvores, com sopros moderados entre o forte, e o fraco.

Era um grande passatempo para Thomas, que em sua pequena mochila carregava suas ambições, a ambição de se sentir diferente em relação ao seu redor e à sua relação com a natureza. Queria ser escritor.

Era inútil para ele, sentia-se intimidado ao lembrar que queria escrever um livro, ou criar músicas com seu violão que havia herdado do pai, ou apenas segurar uma câmera fotográfica e recordar tudo o que o chamasse atenção. Era como se não conseguisse fazer o que pretendia, sentia que suas ambições eram bestas, se via diferente em relação à sociedade. Sentir que está perdendo a parte boa da vida, mas ao mesmo tempo amar aquilo o que faz.

Já era tarde e Thomas não havia voltado para casa. Teria passado próximo ao cais para observar a maré alta, que á essa hora já estava forte, onde sentara para observar as ondas que se formam. Não era lá alguém muito pensativo, realmente, sentia-se deprimido. Sentia-se diferente, porque gostava tanto daquilo, que lhe trazia ótimas sensações, mas que para outros era considerado monótono.

Para Thomas Peace era aterrorizante lembrar de seus problemas. Sofria de Autismo, e já convivia com isso á dezenove anos. Era outro problema a enfrentar, se sentir dependente de seus pais por causa de uma doença, que o priva de parte da vida. Seu medo, era de ser a parte feliz, achava complicado ser feliz de seu próprio modo.

Mas isso não lhe passava na cabeça. Aos olhares de Thomas, tudo o incomodava mais que o normal, aglomerações, movimento, pessoas aumentando seu tom de voz, ou até, sorrisos alheios.

Levantou-se do banco onde estava sentado, e foi em direção em casa, morava em uma cidade pequena, tão pequena á ponto de por sua privação, nunca se interessar pelo nome. Quando já estava próximo á sua casa, olhou para a janela e viu sua mãe, com um olhar de alivio.

“Voltei”, Disse Thomas ao entrar,

“Já era hora, ainda não entendo como passa tanto tempo naquele campo”, retrucou a mãe.

Com um sussurro seco á respondeu finalizando a conversa: “Eu estava no cais”.

Se trancou no quarto como de costume, tirou apenas os sapatos, e puxou de sua mochila um livro que ainda estava a ler: O Alquimista, de Paulo Coelho. Para ele era mais uma história, porém lhe despertou curiosidade para saber sobre o tesouro.

Como de costume, não teve paciência para ler mais de sete páginas, e logo se levantou, calçou os sapatos, pegou o casaco, e iria novamente sair para tentar fazer passar a angustia que até ele mesmo não sabia porque sentia.

Decidiu ir ao centro da cidade, ao restaurante famoso por lá, era o Paolla’s.

Ao entrar, sentou-se na primeira mesa vazia que viu, pegou o cardápio com ar de pressa e foi direto às bebidas. Vinho, champanhe, vodka, whisky. Não sentia necessidade de beber álcool mas sempre lhe despertou certa curiosidade.

Pedira refrigerante como sempre, e observava as pessoas ao seu redor, quando parou para observar uma família entrando pela porta. Havia uma garota, de aproximadamente sua idade, sendo guiada pelos pais. Thomas a observou até notar que já a vira mais vezes na região, mas apenas agora foi a notar que a garota era cega. Por um breve instante sentiu que a garota que acabara de perceber, sentia-se como ele, diferente.

Se sentiu incomodado com o fato de estar sozinho em um restaurante famoso, bebendo Coca-Cola. Não estava com fome, fora até lá apenas por não gostar dos bares da cidade, gostava de um ambiente mais formal.

Levantou-se, e foi em direção do balcão para pagar, quando por descuido, não percebe que a garota cega a quem tanto observou estava ao seu lado.

Por descuido, trombou o ombro na pequena garota, magra, quase esquelética, de cabelos pretos, e olhos profundamente azuis, muito claros, puxados para um tom quase branco. Antes que pudesse se desculpar, a garota logo disse, baixo, quase sussurrando: “Antes que diga, está tudo bem”. Thomas se sentiu envergonhado com a situação, e mesmo com a timidez a disse: “Perdão, Sou desatento”. A garota ainda calma, lhe respondeu “Não, você só se concentrou demais em algo e esqueceu do resto ao seu redor”.

Thomas se sentiu amargo para a situação, então logo, ainda por impulso, disse: “Eu não me referia a você como resto”. A menina abriu um pequeno amargo sorriso, mas sincero, e foi guiada até a mesa, onde sentara.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.