Amor Desconhecido
1 Capítulo Único
Ela corria entre as árvores quase como uma cega. Esbarrando em tudo que houvesse na sua frente, constantemente tropeçava e caia pelo chão. Sua camisola já estava imunda, enlameada e rasgada em vários lugares, não que ela se importasse com isso, apenas queria alcança-lo.
Passou por uma grande rocha e se jogou no rio, a correnteza forte tentava arrasta-la rio abaixo, em direção à cachoeira, mas ela não parava de bater os braços e pernas desesperadamente. Nem mesmo quando a água subiu e a terra sobre seus pés deslizou e ela afundou na escuridão sem fim.
Qualquer um poderia ter desistido agora, ter cedido aos machucados no corpo e ao cansaço físico e psicológico. Mas ela não.
Ela não podia desistir dele.
Nunca poderia desistir dele.
Tirando energia de um lugar desconhecido se impulsionou para a superfície novamente. Agora seu cabelo curto e cheio estava grudado em sua testa e pescoço e o vento lhe chicoteava quando saiu na outra margem do rio. A cidade em chamas estava na sua frente
Até tentou correr, mas suas pernas não mais respondiam, então apenas se arrastou até o centro da cidade. Era onde ficava a praça principal.
O tempo parecia ter parado ali, nada das chamas ou das cinzas que alastravam a cidade parecia conseguir alcançar aquela parte do mundo. Até o ar parecia estar mais leve. E estranhamente a água da fonte brilhava límpida. Do lado esquerdo da fonte como sempre, havia um pequeno banco de madeira branco com braços de ferro.
E sentado ali, olhando para a fonte estava ele...
Seus olhos ainda eram os mesmos; quentes e acolhedores, que a faziam se sentir amada e protegida. Aqueles belos olhos de tom castanho esverdeado que tanto amava. Bem acima de seus olhos a franja negra cobria sua testa. Nada nele havia mudado. Nem mesmo seu ar cafajeste, ou o sorrido indo de uma orelha a outra.
Ele parecia tão bem, tão forte, tão vivo!
E assim ela foi capaz de perceber uma coisa...
Como ele, seu sentimento também estava forte e vivo.
Ela o amava.
Com cautela se aproximou, mas recuou quase caindo para trás quando sua voz soou firme.
- Essa praça... – Ele murmurou fechando os olhos e ela gemeu de desconforto ao não poder mais ver a cor de seus olhos, o que resultou num sorriso malandro – Foi aqui onde nos conhecemos. Ainda se lembra?
Ela não respondeu, não conseguia soltar a voz. Mas é claro que se lembrava daquele dia, havia sido o dia mais feliz de sua vida. Ela, a mãe, e as duas irmãs tinham acabado de sair da missa de domingo, quando ela o viu na praça. Curiosa por nunca ter visto um rapaz tão belo e tão formoso se aproximou e o chamou.
Ele havia sido tão encantador.
- Você estava linda naquele vestido amarelo – Completou abrindo os olhos – Brilhava mais que o Sol.
- Oh, Augusto... – Ela suspirou se aproximando novamente.
- Eu me apaixonei assim que a vi – Augusto confidenciou andando em sua direção – Eu te amo tanto.
- Você é meu amor! – Exclamou a moça o abraçando.
Os dois corpos se encontraram ali na frente da fonte que agora brilhava mais intensamente ainda, e um beijo nasceu.
Os lábios se encostaram e um choque transpassou o corpo de ambos quando as línguas se encontraram. Elas se moviam com perfeição, como se tivessem nascido para beijar um ao outro. Os braços de Augusto se encontravam na cintura da moça, enquanto os braços dela puxavam de leve seu cabelo negro.
O casal parecia tão alegre que até uma aura brilhante os envolvia, e num local distante com toda a certeza os anjos cantavam, dançavam e festejavam aquela união.
Eles eram verdadeiras almas gêmeas.
Quando o beijo morreu e as testas de ambos se encostaram a garota o olhou de forma tão amorosa e especial que seus olhos castanhos se tornaram azuis e seu curto cabelo ruivo se transformou em um longo cabelo branco.
E sua alma brilhava em azul.
A alma de Augusto também brilhou.
- Dai! – Ela exclamou surpresa.
- Como você se sente Mi?
- Por que estou nesse corpo tão estranho? – Mi perguntou franzindo o cenho – Por que Dai?
- Se acalme Mi – Pediu a abraçando – Só relaxe e saiba que daqui a pouco você entenderá.
Mi assentiu e olhou para o resto da cidade, as chamas ainda queimavam em alguns pontos e a fumaça se espalhava depressa. Aquilo a enjoou tanto que foi obrigada a engolir a bile.
- Dai... – Sussurrou tampando a boca – Podemos sair daqui?
- Claro, claro! – Concordou a pegando pela mão e a guiando pela área menos afetada da cidade.
Passaram em frente a um grande casarão que ainda estava inteiro e Mi levou a mão livre até a cabeça gemendo de dor, o que fez Augusto/Dai a arrastar dali.
Andaram até um grande jardim público na beirada da cidade e eles se sentaram ali. Augusto/Dai pegou uma de suas mãos e a beijou ainda a olhando, parecia que ele não queria tirar o olhar dele por nenhum só segundo, como se ela fosse desaparecer a qualquer momento.
- Quer me dizer agora o porquê de estarmos aqui? – Mi perguntou colocando a mão sobre o peito dele, assim o fazendo ficar reto.
- Mi... – Ele começou cauteloso – Ainda se lembra da última vez q nos vimos?
- Claro que eu me lembro! Naquele dia você e eu decid...
Mi jamais teve tempo de terminar a frase. Pois assim que teve consciência do que havia acontecido seu corpo se autodestruiu.
Seu coração perdeu seu próprio controle e passou a bombear o sangue para fora. Saindo pelos seus poros, nariz e boca. A vida se esvaia como uma corrente de água de seu corpo, e longos cinco minutos depois apenas um corpo mole e ainda quente coberto de sangue estava jogado nos braços de Augusto/Dai, que apenas cantava uma canção de ninar numa língua estranha.
Qualquer que o visse naquela situação o acharia um psicopata por apenas cantar ao ter sua tão amada mulher largada em seus braços; mas na realidade não havia nada disso.
Ele já havia sofrido tanto pelas mortes dela que não mais chorar conseguia e para expressar sua tristeza cantava a mais triste música que conhecia.
Mas no fundo ele sabia, e ainda sabe, que em alguma vida o amor de ambos vai durar.
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