Notas iniciais
Oii, esse capítulo foi bem difícil de escrever, mas eu gostei bastante dele, espero que vocês gostem também Beijos Bia =*

Era Tomás, mesmo estando de costas para mim eu sabia que era ele, sabia que aquela era a minha camiseta, e aquelas costas não me enganavam. Eu congelei, não sabia o que ia fazer, o que ele ia dizer ao me ver naquele estado bêbada, toda molhada e ainda por cima com roupa de balada, sendo que minha avó tinha acabado de morrer. Vi que ele estava falando com Vanessa e procurei um lugar para me esconder dele, toda vez que ele se virava ou andava eu dava um jeito de sair de seu campo de visão ou ficava de costas para ele, mas isso não durou muito, uma vez que eu comecei a ficar meio tonta e apoiei em uma parede para não cair e não notei que ele se aproximou.

— Você está bem – Senti sua mão no meu ombro direito

— Sim, estou meio tonta, mas já vai passar – Respondi tentando disfarçar minha voz

— Alguém já colheu seu depoimento? – Ele ainda não tinha feito esforço para me encarar.

— Ainda não, se me der um instante eu já falo com alguém – Eu não ouvi sua resposta, em vez disso ele me virou para entregar um copo de água. Ele demorou alguns segundos para registrar que era comigo que ele estava falando. Enquanto isso eu peguei o copo e fiquei olhando a água dentro dele como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

— Bom, preciso que você me diga seu nome completo e idade para ficar registrado – Tomás me tratou friamente, como se não me conhecesse.

— Meu nome é Ana Julia Magalhães dos Anjos, tenho 16 anos – Demorei para responder e tenho a impressão que minha voz saiu quase como um sussurro.

— Certo, há quanto tempo você está aqui nessa festa? – Ele enfatizou o fim da frase.

— Não sei, acho... acho que umas duas horas – Pude ouvi-lo soltar uma risadinha cínica.

— Você viu quando ocorreu o incidente com armas?

— Armas? Não, eu ouvi um barulho de briga lá fora quando estava sentada ali no sofá conversando e depois vi a porta ser derrubada.

— E o que aconteceu depois disso?

— Me levaram para aquele quarto mais no fundo e me pediram para esperar que estavam vendo o que estava acontecendo. – Eu não lembrava dessa parte, mas era melhor do que falar que eu estava muito bêbada e precisei de uma ducha gelada.

— E por que está molhada?

— Eu.... Tinha alguém brincando com água no quarto e me molhou.

— Ok – Ele me olhou cinicamente, sabia que eu estava mentindo – Uma última coisa. Você bebeu?

— Eu... – Hesitei, sabia que não podia falar que tinha bebido, eu era menor de idade, ia ser presa, mas eu devia estar exalando cheiro de álcool – Sim, eu bebi.

— Mesmo sabendo que você é menor de idade e que pode ser presa por isso?

— Sim.

— Está certo, vou pedir para que fique aqui até terminarmos de colher os depoimentos, para o caso de alguém discordar da sua versão. – Ele se afastou rapidamente e foi falar com alguém que eu deduzi ser o supervisor dele.

Voltei a me sentar no sofá e logo depois Mikael sentou ao meu lado.

— Ei, você está legal? – Suas roupas estavam amarrotadas por conta da ducha.

— Sim e você? – Ele assentiu sem falar nada. – O que aconteceu?

— Pelo que eu entendi alguém que estava na festa puxou briga com um morador do prédio que convenientemente tinha uma arma e não hesitou em usar, mesmo que não tenha ferido ninguém

— Nossa, que horror – Eu voltei a olhar meu copo de água que agora estava vazio.

— Sim... – Ele bebeu algo de uma garrafa de plástico que carregava – Quer?

— Porque alguma coisa me diz que isso não é água – Eu olhei meio rindo para a garrafa.

— Porque você é esperta – Ele estendeu a garrafa para mim e eu tomei um gole enorme. – Nossa, você realmente nasceu pra isso.

Demos risada, e isso fez alguns policiais olharem para nós, Mikael não ligou, só escondeu a garrafa, mas eu fiquei meio acuada, se Tomás falasse que eu havia bebido eu iria presa, essa ideia estava começando a me encher a paciência.

Depois de mais ou menos meia hora, os policiais começaram a liberar todo mundo levando apenas dois caras com eles. Sai do prédio com Mikael, que pegou um carro que estava estacionado na quadra do lado do prédio e parou bem em frente ao mesmo.

— Ainda vai recusar minha carona? – Ele perguntou saindo do carro.

— Não sei, como eu disse não quero que você tenha problemas por dirigir embriagado e agora que já está escurecendo não quero ti tirar do caminho de casa.

Antes que ele pudesse responder Ian e Vanessa saíram do prédio e ele a colocou dentro do carro.

— Vou deixar em casa Vanessa antes de passarmos para comprar algo para comer – Disse Ian entrando no banco do motorista.

— Bom, acho que essa foi a confirmação que não haverá carona – Eu disse meio sem graça e ele concordou com a cabeça, mas antes de entrar pegou uma caneta e um pedaço de papel onde rabiscou alguma coisa e me deu.

— Quando precisar é só me chamar. – Ele piscou e me deu um beijo na testa. Fiquei observando o carro ir embora e depois me voltei para a rua em busca de um ponto de ônibus, mas antes que eu pudesse achar, uma mão agarrou meu braço e me puxou, eu gritei, mas não tinha ninguém para me ouvir. Tentei me soltar, sem prestar atenção na pessoa que me agarrara e que estava me puxando para o beco na lateral do prédio. Quando ele parou eu percebi que era Tomás, ele parou do lado de uma moto.

— Me solta Tomás – Eu puxei meu braço mais uma vez, mas foi em vão.

— Pega – Disse Tomás me entregando um capacete com a mão livre. – Vou te deixar em casa.

— Não precisa.

— Pega essa porra de capacete logo, Ana e vamos embora. – Ele apertou meu braço com mais força. Mesmo assim eu fiquei parada, sem pegar o capacete. O olhar de Tomás parecia me desmembrar bem devagar. – Vamos do jeito difícil então. – Ele mexeu no bolso de trás da calça e tirou um par de algemas e prendeu minhas mãos.

— TIRA ISSO AGORA TOMÁS – Ele fingiu não me escutar e colocou o capacete na minha cabeça, enquanto ele colocava o dele eu sai andando, mas não conseguia enxergar direito por conta do capacete e mais uma vez ele me puxou, dessa vez me levantando e me pondo sentada na moto. Eu comecei a me mexer, queria derrubar a moto.

— Essa ideia não é boa Ana, você vai se machucar e eu ainda vou te levar para casa, talvez depois de uma passada no hospital. – Ele puxou o visor do capacete e eu consegui respirar melhor. Ele subiu na moto atrás de mim – Tente não causar confusão nesse nosso pequeno trajeto.

— Você não pode dirigir, não tem 18 anos nem carta de motorista – Minha vez de não prestar atenção no que ele estava dizendo.

— E essa gata, é uma das vantagens de se trabalhar numa delegacia. – Ele deu partida e tirou a moto do beco com muita facilidade.

O trajeto até minha casa foi rápido e sem imprevistos, tirando o fato de eu estar ficando cada vez mais enjoada e por achar que seria muito bem feito para Tomás derrubar a moto com nós dois, fazendo ele ter que contar toda aquela história no hospital, mesmo assim me contive. Quando chegamos Tomás me ajudou a descer, pegou minhas chaves na minha bolsa e me levou até meu apartamento, ele abriu a porta e eu corri para o banheiro e mesmo com as mãos amarradas consegui abrir a tampa do vaso e vomitar. Tomás surgiu atrás de mim soltou minhas mãos e segurou meu cabelo. Eu me sentia péssima, meu corpo começou a doer e eu fiquei bem tonta.

Devo ter ficado uns cinco minutos sentada ali, quando consegui levantar com a ajuda de Tomás, fui até meu quarto e peguei um remédio para ressaca e encontrei com Tomás na cozinha com um copo de água na mão. Ele me levou até o sofá onde me deixou sentada.

— Ana... – Ele deixou as palavras no ar e passou a mão pelo cabelo.

— Tomás, desculpa, olha eu sei... – Ele não me deixou terminar.

— Você sabe o que Ana? Sabe que isso foi besteira, que você podia ter se machucado, que alguém podia ter estuprado você? Ana você estava bêbada, que não sabia nem que horas havia chegado lá, não se lembra de ter ouvido tiros e depois bebeu mais ainda, na frente de policiais. – Tomás andava de lá para cá mexendo os braços e falando alto.

— Eu esqueci dela também... – Ele parou e me encarou, lágrimas saltavam dos meus olhos – Por sei lá, umas três horas, eu esqueci que ela tinha morrido Tomás, por três horas eu não senti dor nenhuma, nem remorso, nem culpa. Sim eu errei, mas talvez tenha sido um dos meus melhores erros, Tomás. – Eu olhava para ele com os olhos já começando a embasar por conta das lágrimas, depois começo a encarar o chão e sequei as lágrimas com as costas das mãos.

Ele passou as mãos no cabelo e depois sentou no outro sofá, olhando para o chão. Fiquei olhando para ele por um tempo e quando percebi que ele não iria falar nem fazer nada, fui tomar um banho. Decidi demorar bastante, não queria brigar com Tomás de novo, quando sai o apartamento estava todo escuro, achei estranho, então me troquei bem rápido e fui até a sala e acendi a luz, Tomás não estava lá, só havia uma pizza com um bilhete em cima da caixa, sentei no sofá puxando o bilhete.

Precisei ir para casa, depois nos falamos

— Tomás

Amassei o bilhete e joguei longe, abri a caixa da pizza e comi duas fatias, sem prestar atenção do que era, coloquei o resto dentro do forno e fui para o meu quarto. Não conseguia dormir, fiquei vendo o tempo passar, levantei fui à cozinha e tomei um copo d’água e na volta entrei no quarto da minha avó e deitei na cama, puxei o lençol até o rosto e fiquei sentindo o cheiro dela e comecei a chorar até dormir.

Notas finais
E ai?? O que acharam?