Among Other Kingdoms - Quinta Temporada
14 Os Piores e os Melhores
Notas iniciais
Após o longo silêncio na Cléota Chírte, trocando olhares com William, Estela sentiu que algo estava estranho com a comunicação de Hanekate.
-O que tem nas campinas de Pardóx? Onde elas estão?
Mégara deu um sorriso mostrando os dentes quase de forma insolente, Merope franziu o cenho.
-São longe do alcance de Saphiral e dos Reinos, é um local isolado, um cemitério...
-Correção, não é um cemitério! – Mérope chamou a atenção com um pequeno pigarreio. – É um jardim sobre uma longa planície, com montes rochosos e venenosos. Mas, não é um cemitério...
-Por favor, Mérope... – Mégara começou descendo da repouseira e se colocando ao lado de Hanekate, olhando Estela de cima a julgando com o olhar. Depois o devolveu para a Bruxa. – Venenoso significa que pode morrer se chegar lá. Foi para isso que vocês fizeram o feitiço não é? Para matá-lo caso algo desse errado...
-Como? – William engasgou com o copo de suco que haviam lhe servido, era uma boa desculpa para parar de beber o suco, nem era tão bom assim. – Matar Perseu? Fizeram um feitiço para matar o Perseu? Vocês querem matar o Rei de vocês? – Merope abriu a boca para intervir a ira dele e tentar explicar.
-Oh, não se preocupe, também temos o plano de matar Auterpe; já que ela pirou não é? – A jovem deu um olhar satisfeito para ele.
-Como vocês podem conspirar contra os Reis de vocês? – William se levantou com tudo chamando a atenção de quem estava aos arredores, entretanto ocupados com outras coisas como tratar dos feridos. – Vocês sabiam que iria acontecer?
-Em algum momento... – Hanekate disse com calma. Na qual os Guardiões presentes foram tomados por um choque, eles conheciam muito bem Perseu, o que ele estava fazendo, claramente não era ele. Mas, como eles iriam comprovar aquilo? Eles eram apenas sete contra um Reino inteiro
-Mas, aquelas campinas vão se tornar um cemitério de dois Monarcas extremamente perigosos; assim, a grávida coroada poderá se tornar Rainha Regente. – A última frase foi dita com nojo.
-(...)
-Eu disse aos Cléota para não alimentarem aquelas crianças de cabelos brancos amaldiçoados. – Deneb franziu o cenho com a frase de Hanekate, ele sempre foi um Cléota desagradável.
-Tio! – Um menino com cabelos pretos e olhos verdes berrou de alguns andares acima. Ele devia ter o tamanho de Elora, e foi descendo com tudo com ajuda de um tecido. – Você deveria se sentir horrível falando do Rei que te aceitou de volta depois de ter convidado assassinos, que tipo de Cléota você é?
-Tlayder, olhe o tom. – Ele tentou ameaçar, mas, o menino o encarou com determinação.
-Está assustando a Realeza, vocês estão os deixando desconfortáveis. – Estela observou o menino, que parecia ter muito mais responsabilidade que os demais. – Não é assim que a Casa do Extremo cuida dos seus convidados, não é assim que tratamos a Realeza.
-Oh pequeno... Se disser a verdade os deixa desconfortáveis, porque não os fazemos tampar os ouvidos? Não podemos os fazer desaparecerem, estamos apenas sobrevivendo a um caos, após uma catástrofe. Perseu escolheu uma parceira terrível e a irmã dele seguiu o mesmo caminho...
-Cala a boca Mégara! Apenas para de falar! – Nakumma avançou na garota a empurrando para trás enquanto William travou a mandíbula pelos comentários da jovem tão insolente. – Ninguém quer ouvir suas opiniões, Ninfa da discórdia não convidada... – A jovem tentou atacar a Guardiã que se esquivou.
-Ele já tem idade suficiente para não precisar ser defendido por crianças qualquer. E eu sou tão convidada quanto você foi. Perseu se tornou um Rei perigoso, cruel e um inimigo! Pare de defender ele!
-Sua inútil... – Imediatamente a Guardiã revidou fazendo a outra atravessar uma parede com a força do golpe. – Invejosa por ele não ter te escolhido!
-Nakumma! – Heratho chamou a atenção dela, que em seguida se virou para Estela e William fazendo uma reverência como se pedisse desculpas e depois olhou para Hanekate com o olhar fixo.
-Depois eu conserto... – Em seguida ela sumiu entre os corredores da casa, Deneb esfregou os olhos com incomodo e frustração. Antes que ela pudesse dizer algo Hanekate começou a falar.
-Desculpem pela nossa convidada, mas, em compensação eu lhes ofereço o melhor quarto para repouso. – Mérope estreitou os olhos com a oferta então se colocou na frente dos dois.
-Não. Você não. – Tlayder esticou os braços para o tio não se aproximar dos dois. – A Mérope pode levar eles para um cômodo mais adequado, seguro e confortável para mortais. – Ele fez uma expressão para a Bruxa que se pôs de pé e fez um gesto com a mão para Heratho ficar e olho ao redor enquanto ela estendia a mão para Estela se levantar da poltrona com ajuda de William.
-Com licença senhor Cléota... – Ele ergueu o queixo como reflexo, demorando em concordar, não parecia satisfeito, mas, o menino não o deixava se aproximar dos dois.
-Claro, Merope, o que a senhora quiser... – Ela então seguiu os guiando para um andar bem abaixo do solo, dava para notar a queda de temperatura e o silêncio que ecoava pela escadaria enquanto as vozes do andar acima iam desaparecendo.
-(...) Não é o melhor momento para vocês estarem em Pardóx... – A Bruxa quebrou o silêncio depois de descerem alguns degraus, na qual William arfou indignado.
-Sério que você só percebeu isso agora? Depois de um monte de coisas ruins acontecerem?
-William... – Estela olhou para ele com um olhar cansado.
-Estela, qual é. Casamos com dois loucos. O seu marido é um vulcão em erupção e a minha esposa é uma tempestade destruidora!
-Está achando que eles estão pensando nisso por causa de Ethan? – Ela sussurrou para ele enquanto Mérope mantinha a atenção nos degraus.
-E importa? Se for será pior, estamos nos refugiando juntos, podemos muito bem morremos juntos. – Mérope suspirou parando em um andar de aspecto acolhedor, com dimensões grandes, mas, estruturamente menos grandioso. Era simples, e em cada canto das paredes havia desenhos simbólicos. Havia enormes repouseiras saindo das paredes, onde eles puderam sentar.
-Eles não matariam vocês... Mesmo que pareça. – Mérope começou a falar arrumando o local com cuidado e atenta ao redor. – Subconscientemente, Auterpe não te vê como um inimigo... É algo muito mais profundo, você significa algo para ela Mortal William. – Ele fez uma expressão de animação e surpresa pelo modo que a Bruxa o chamou de Mortal, o que fez sorrir. – Ela sempre foi uma princesa assustada e responsável. Mas, o peso do Reino era todo de Perseu... Mas, não é uma desculpa para o que eles fizeram, nunca será. Sinto muito...
-Mérope esclareça para nós, realmente sempre foi o plano matar Perseu e Auterpe se as coisas dessem errado? – Estela perguntou um pouco assustada; na qual Mérope olhou para os próprios pés um pouco desconfortável com a pergunta mordendo os lábios.
-Vamos Bruxa! – Exclamou William tirando as botas e deitando na repouseira para descansar as costas e esticar o corpo. – Queremos saber se o que aquela mulher desrespeitosa falou sério.
Ela deu alguns passos para trás podendo olhar os dois diretamente e juntou as mãos com um olhar baixo.
-Durante a era de Éfellya, apenas quatro Guardiões sobreviveram e apenas três se tornaram Mestres; dois deles tinham o plano de matar ao menos Perseu e coroar Auterpe como Rainha de Saphiral.
-Porque iriam querer matar Perseu? Porque não o mandar para Ruphira? – Mérope não soube responder. – Certo que meu irmão era um Rei questionável, mas... Nem por isso queriam matar ele. Ao que eu imagino e o que eu me lembro... – William dizia, enquanto Estela acariciava a barriga com um sentimento de culpa e agonia.
Não sabia o que deveria fazer, não estava pensando em ser Regente, mesmo que Perseu virou um monstro não desejava a morte dele.
-Eu nunca soube mais do que me era permitido. – Ela respirou fundo. – Sei que está furioso Mortal, sei que está revoltado... Mas, lidamos bem com isso por anos... Sem nenhum defeito ou...
-E então, eu fiz tudo errado. – William disse passando a mão pelos cabelos se sentindo irritado. – Meus impulsos foram tão longe e eu estraguei não apenas um Reino perfeito, como três. – Ele deu uma risada satisfatória. – Eu consegui destruir Calasir, Ruphira e Saphiral; eu nem sabia que eu tinha essa capacidade...
-Ouh... – Mérope olhou para ele e depois para Estela que visivelmente não estava confortável na repouseira. – (...) Eu não sei se devo lhe parabenizar Mortal William; mas, eu preciso colocar a Rainha Estela em um quarto confortável...
-Sim, é o ideal, já deveria ter providenciado isso...
-William, ela está fazendo o melhor que pode.
-Só que o melhor que ela pode fazer é sempre devagar e incorreto.
Mérope fechou as mãos e soltou um longo suspiro, se desculpar não iria adiantar. Os quartos ficavam do outro lado do corredor, então foi fácil colocar Estela em um quarto de frente para William e espaçoso, cada um tinha o seu próprio conforto, mesmo que parecesse que eles estavam vivendo em meio a uma longa guerra. Demorou um pouco para ela ficar em uma posição confortável, quando ela repousou a cabeça, a Bruxa a olhou com uma pontada de culpa.
-Eu sei que está tudo bagunçado. Mas...
-Se Auterpe e Perseu chegarem à campina venenosa... O que acontece? Vocês não podem impedir isso de acontecer? Como ficaria os Reinos depois que eles morrerem?
-Você não precisa se preocupar com isso Rainha. – Mérope começou em um tom brando. – Apenas pense em você e no bebê que logo vai nascer, e dessa vez, nenhum maluco vai tentar impedir... – Ela deu um pequeno sorriso se lembrando de como foi um pesadelo durante o nascimento dos gêmeos.
-Pode ser até pior... – Estela disse sentindo o ventre queimando. – Sísifo é muito forte, e se ele for como o pai dele? – A Bruxa inclinou a cabeça.
-De cabelos brancos?
-Agressivo, cruel, violento.
-Porque está pensando nisso? – Ela questionou. – Perseu não nasceu mau, Auterpe não nasceu má; apenas Éfellya que jogou a maldição que caiu sobre Artemisa e Orion que agora estão bem... Eu entendo que nada justifica o que Perseu lhe fez ou falou.. Não precisa ficar tão desesperada, não fique tão triste...
-Parecia que ele nem me reconhecia, que não sentia nenhum remorso, que não se importava... – Estela respondeu com a voz embargada. – Ele se arrependeu de casar comigo. Ele me chamou de fraca e indigna...
-Rainha Estela... – Mérope colocou lençóis para manter os pés dela elevados. – Ele pode ter falado isso, e é inaceitável você ouvir isso do seu marido. Apenas quero que saiba de duas coisas... – Estela se sentia mais confortável na cama. – O jardim que o Rei Perseu fez para você não foi destruído. Muito menos o templo lunar que ele fez para você. – Ela ficou surpresa e arregalou os olhos.
-Um Templo lunar? Para mim? Ele fez?
-Sim, e sem muita ajuda. – Ela estralou as próprias costas. – São dias sem luz, não há como negar, mas... – Ela olhou para cima. – Um pouco do Perseu que você conheceu está em algum lugar tentando provar algo. Alguma coisa... E se ele te magoou, não volte simplesmente porque ele é o Rei e você está casada com ele. Volte porque ele se desculpar, se ele entender onde errou.
-Acho que não será fácil para ele. – Estela disse sem muita empolgação, o tratamento do silêncio sempre vencia Estevão, entretanto, ela não sabia o que poderia vencer Perseu.
Depois de mais um pouco de cuidados com o bem estar dela, Mérope se retirou, ainda havia tanta coisa para resolver, e no andar que os dois estavam ninguém iria os perturbar, ao menos uma noite em paz, eles precisavam descansar, a atmosfera estava esmagadora para quem ainda não era um Subimortal, ela estava admirada de como dois mortais ainda não pareciam estarem perecendo diante o clima assombroso.
Φ Φ Φ
-E se chamássemos a mamãe? – Elora perguntou novamente com a voz fina e insistente mais uma vez. – Ela saberia o que fazer, onde procurar...
-Elora... – Elisa tentou mais uma vez mantendo a voz calma, mesmo estando inquieta e estressada com a situação, a noite foi ótima, mesmo que os últimos dias tenham sido catastróficos, havia um meio termo. – Não vamos incomodar a mamãe, ela está ocupada cuidando de outro Reino, com um povo para cuidar... Conseguimos resolver!
-Conseguimos? – Elora perguntou um pouco hesitante. – Nós vamos conseguir?
Elisa fechou o caderno de anotações de Eilon procurando alguma informação relevante para saber onde poderia ter ido. Ela e Anne se olharam para tentarem explicar para a pequena Duquesa; ela estava insistente em que trazer sua mãe magicamente resolveria o problema.
-Elora, nós vamos conseguir, Eilon pode estar escondido, está tudo bem. – A menina olhou para o lado enquanto Anne pensava em cada lugar que eles não tinham procurado ainda, lugares simples, mas possíveis de se manter escondido.
Mandrik estava puxando os cabelos de frustração, Lincan dava pequenos sorrisos sutis com o acesso de raiva do Conselheiro, Connor, Max, Navi e Ethan passavam os olhos pelos inúmeros mapas de Drakoj, Interlok, e talvez até Craavos, rotas possíveis, pequenos caminhos, até os antigos esconderijos de Evie foram mencionados. Cada soldado foi avisado e já estavam procurando pelos locais mais próximos da Fortaleza, foi quando Evan entrou correndo pelo pequena sala do Conselho afobado e com olhos que demonstravam descoberta.
-Tenho duas noticias... Eilon estava no jardim. – Todos pararam e quase correram para fora para encontrar o Rei, mas o menino continuou. – Havia pegadas além das dele. Folhas esmagadas...
-(...) – Mandrik se aproximou de Evan se abaixando na altura dele. – Ele o que Evan?
-Ele saiu pelo jardim, e ele deve ter encontrado outras pessoas. – Navi bateu uma mão na outra respirando fundo e pressionando os lábios olhando para os demais.
-Ele não sumiu... – Disse depois de um longo tempo em silêncio. – Eilon não fugiu...
-Foi sequestrado... – Mandrik deu um soco na mesa com frustração e irritação. – Não tinham olhado no jardim antes?! – Os soldados presentes deram de ombros como se daquele lado não tivesse muita relevância. – Tá bom, tá bom... – Ele disse contendo a ira. – Sempre os cabelos brancos são sequestrados!
-Ainda bem né? – Navi falou em um tom de alívio e com sarcasmo. Mandrik apertou a glabela e respirou fundo repensando.
-Certo, agora é um sequestro, única pista, apenas o jardim... – Ethan inclinou a cabeça analisando a situação, franzindo a testa. O jeito que o garoto fez, foi semelhante á William e Lincan deu um grande sorriso com isso, lembrando-se da briga de Auterpe e Estela; como Connor se sentiria ao descobrir que colocou o ninho da águia sobre uma sombra de William? Será que o garoto sabia? Seria tão inesperado quanto foi do outro lado?
-Contamos para Elisa agora ou esperamos? – Ethan perguntou. Mandrik e Connor tinham pedido para que ela descansasse um pouco, mas, antes de qualquer coisa, Evan rompeu na frente para contar. O que fez o Conselheiro ranger os dentes.
-Desde quando ele é tão rápido?
-Deve ter aprendido em Saphiral... – Navi comentou com um sorriso divertido dando alguns passos para longe de Mandrik.
-O que fazemos agora? – Max perguntou observando os mapas com trilhas que levavam ao jardim, que ele havia saído com Artemisa, tinha uma possibilidade de eles terem um barco. – Procuramos pelos portos?
-Pelo Reino inteiro... – Mandrik falou colocando a mão no ombro de Connor, o olhando com a mesma expressão que Estevão fez quando Estela foi raptada. – Cada canto dele, cada condado vizinho, o que nós pudermos fazer, nós faremos... Certo? – Connor concordou, eles estavam determinados, eles tinham dragões e eram filhos da última Deragoniana viva. Os Balaur.
Eles convocaram os soldados, a guarda do dragão, cavaleiros e aliados mais próximos, os grupos de busca eram mais centrados em certos lugares, Elisa ousou montar em Jaspe dessa vez, cada um pegou seu dragão e alcançaram os céus fixados em alguns pontos, condados, floresta, montanhas, rochas, em cada canto. A Rainha de Calasir sentia que estava girando no vazio, sem nenhuma pista importante, sem um local concreto, apenas uma incerteza, era uma busca astuta, porque na vez dela? Porque com ela? Porque eles? Sinceramente, eles pensavam que viveriam juntos como uma grande família feliz e não precisariam enfrentar essas turbulências que deveriam acontecer quando eles tivessem vinte e sete estações. Ethan estava com raiva, ele sabia de quem era a culpa, como sempre, mesmo sem estar do mesmo lado, mesmo tendo mudado de nome, Eveline sempre trouxe problemas para a família perfeita que eles tinham.
Durante toda a movimentação, até mesmo de vários empregados do castelo empenhados nas buscas, Elora se esgueirou pelas trilhas escondida, chegando até uma caverna em um local afastado de todos. Foi quando ela viu a grande corda vermelha que vira um dos Guardiões de Perseu carregando.
A Duquesa segurava duas moedas de ouro em cada mão, e mesmo com vento bagunçando os seus cabelos, e cheia de incerteza se aquilo funcionaria ou não, ela fechou os olhos, entrou no círculo de corda vermelha, respirou fundo, jogou uma moeda de ouro no chão e começou a sussurrar baixinho com os olhos apertados querendo acreditar que conseguiria.
-Outro lado, outro lado... Me leve para o outro lado. Para o Reino das Safiras... (...) Por favor, para o Rei Perseu e a Rainha Estela...
De repente, ao redor de Elora tudo perdeu o som, antes dela conseguir abrir os olhos, um manto pegajoso passou pelo seu corpo a tirando daquele lado do Reino, ela não conseguiu gritar, foi muito rápido. Ela apenas tampou os olhos com os braços e se encolheu enquanto sentia a vibração escamosa passar pelo seu corpo, como se misturasse a sua pele exposta do pescoço e do rosto junto à sensação de euforia que ela sentia dentro de si, sem conseguir emitir nenhuma palavra.
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Já era manhã quando a porta fez um rangido suave e uma voz calma.
-Bom dia Rainha Estela...
Estela permaneceu deitada, se espreguiçando sobre a cama confortável, já fazia um tempo que ela tinha acordado, mas, permanecia deitada, assim nada a incomodava ou deixava seus pensamentos a torturarem, porque no momento, era como se ela estivesse cara a cara com uma força imensa da natureza, cuja totalidade não podia ser vista a olho nu; rodeada de seres fortes, que tinham um Rei que não poderia ser segurado por nada, não importava o quanto tentasse. Ela percebeu que a revolta dele se tornou muito opressora, principalmente para os Cléota; como eles poderiam pensar em morte? Como ela desejava que as coisas voltassem ao normal, como seria se tivesse trazido seus dragões? Teria ajudado ou Perseu os teria matado?
-Alteza? – A voz a chamou novamente, fazendo ela virar o rosto para uma menina, o que a surpreendeu. – Kalimera.
-Bom dia Rainha, dormiu bem? Eu sou Anniglesa. – A menina se apresentou. Ele possuía os olhos âmbar, mas, os cabelos eram pretos, por um momento Estela se perguntou se ela era uma Cléota também; ela negou com a cabeça o que fez Estela se assustar. – Eu não sou uma Cléota, eu sou uma auxiliar do Oráculo; estou onde precisam de mim.
-(...) – Estela recuou um pouco com um sorriso curioso sobre ela se antecipar. – Ouve o que eu penso? – Anniglesa assentiu envergonhada e com um olhar de desculpas constrangido. – Quantos anos você têm?
-12 anos Alteza, e está tudo bem. – Ela estava abrindo as cortinas pesadas refletindo uma pequena luz pelo quarto. Organizando as coisas e puxando uma bacia de água quente no outro canto do quarto e separava uma roupa para ela. – Sei que está com incômodos mentais, sei que está triste e com saudades do seu falecido marido e de seus filhos. Eu não queria ouvir, mas, seus pensamentos são um pouco... Altos.
Ela ajudou Estela a se levantar e a retirar o vestido já sujo e suado e a colocando na bacia.
-Você não precisa fazer isso, me desculpa por ter pensamentos altos. – Estela riu sem jeito. – Eu não sei como controlar.
-Está tudo bem. Eu me ofereci para te ajudar, já que a sua presença foi requisitada no Templo da nomeação... – Estela olhou para a menina confusa.
-Requisitada? Para fazer o que?
-(...) Bem; quando o sol nasceu e passou pelas montanhas, — Anniglesa pegou a mão de Estela onde estava o anel de casamento com Perseu, notou que a pedra estava escura o que a assustou fazendo Sísifo se remexer com força.
-O que? – Ela perguntou preocupada. – O que isso significa? – Estela puxou sua mão devagar passando o dedo pela pedra rosa.
-Agora, vossa Alteza é a Regente... Deneb, Mérope, o Mortal exaltado e os Guardiões estão esperando por você; para poder avisar ao Reino todo.
-Não. Não! – Ela dizia em tom firme e sem saber como processar tudo. Com o coração batendo rápido e com um medo estranho. – Artemisa é a Rainha caso algo... – Sua voz falhou. – Perseu... – Ela ofegou tentando conter o choro. – Está me dizendo que.
Anniglesa a olhou sem saber como responder, mordeu os lábios e deu de ombros levemente. Ela apenas dizia o que era passado para ela, enquanto Estela tentava processar mais um luto, sem corpo dessa vez, sem ter certeza, com uma criança no ventre, completamente abalada e sem saber como seriam as coisas dali em diante. No mínimo assustadoras.
-Rainha, eu posso lhe dar conforto... – A menina esticou a mão a colocando na testa de Estela, imediatamente uma onda de calmaria e tranquilidade tomou seu corpo. Mesmo com as preocupações e outras coisas na cabeça, ela estava estranhamente calma, se possível dizer, parecia que estava em um transe de harmonia e paz.
Ela poderia sentir as dores e ter suas dúvidas e receios, mas, a calmaria a dominava, não precisava se preocupar com Saphiral, as coisas iriam dar certo, seus filhos estavam seguros, seja em Calasir, no Refúgio ou no seu ventre, estavam seguros; tinha certeza disso e mantinha esse pensamento.
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Em um leve suspiro e um pequeno grito, Elora foi jogada para fora do circulo vermelho rolando pela areia branca ao redor da linha. Seu penteado estava desfeito e o seu cabelo estava bagunçado, ela piscou várias vezes, antes de apoiar as mãos e levantar o corpo para olhar ao redor e com rapidez pegando a outra moeda de ouro na sua mão para poder voltar caso algo desse errado. Era incrivelmente lindo, havia muita cor ao redor, casas com cores novas aos seus olhos, parecia uma cidade. Ela se levantou batendo a areia dos cabelos, da roupa de montaria e começou a caminhar em direção as casas, havia uma estrada de pedras azuis, dava para uma floresta, e o resto para dentro da cidade. Era um lugar curioso e estava silencioso. Olhando para o sol, pode perceber que ainda estava no horário do desjejum, e pelas folhas nas árvores, ali era outono.
-Será aqui? – Ela começou a caminhar em direção à estrada tomando o rumo da cidade, entretanto; durante o caminho, ouviu pequenas risadas vindas da floresta, conversas; ela hesitou primeiramente, mas, em seguida começou a andar de costas em direção ao barulho, não parecia algo ruim.
Quando chegou em uma curva, pode ver um lago com estátuas pelo caminho, eram meninas, de cabelos soltos com flores na cabeça, com túnicas coloridas, roxo claro, rosa escuro, vermelho carmesim, verde água, cinza prateado, elas estavam enchendo baldes de água e colhendo flores, o que deixou Elora um pouco mais aliviada, porém, ainda na estrada. – Olá? – As meninas se viraram para ela surpresa, pela roupa azul estranha e o cabelo branco bagunçado, mas, ficaram imóveis. – Vocês, podem ajudar?
Uma delas, com cabelos loiros muito claros se aproximou dela com cautela, foi então que Elora deu dois passos para trás, ela tinha algo nos dois lados do pescoço, pareciam cicatrizes, mas, eram escamas. Seus olhos se arregalaram quando a menina de olhos violetas sorriu para ela tocando em seu cabelo ela tentou fugir, mas a outra tocou em seu ombro.
-Você é uma filha da lua? Você é adorável! – Elora começou a se sentir sufocada, eram apenas oito, que tocavam em seu rosto, cabelo, roupa, mãos, e ambas tinham escamas em volta dos pescoços e olhos violetas.
-Como você é graciosa... – Uma de cabelos castanhos claros disse segurando nos seus dedos e nas palmas das mãos rindo. – Precisamos ficar com ela!
-Sim! – Todas concordaram animadas.
-Não! – Elora recuperou sua voz. – Todas se afastaram dela como se ela as tivesse ameaçado. – Desculpa, não posso ficar. – Ela disse em um tom calmo e suave o que fez as meninas achar fofo, a deixando sem jeito. — Eu estou procurando uma pessoa, preciso de ajuda.
-Claro; filhas da lua sempre procuram pessoas. – A de cabelos loiros falou com um sorriso voltando a tocar o tecido da roupa de Elora que nem conseguiu falar quando sentiu as meninas pegando em partes da sua roupa, elas pareciam curiosas e assustadoras.
-Por favor... – Ela murmurou fazendo um gesto para elas se afastarem, o que elas fizeram com mais calma. – Preciso encontrar a minha mãe. A Rainha Estela. Onde eu estou?
As meninas inclinaram as cabeças visivelmente confusas, olharam entre si e depois voltaram a olhar ela.
-Você está em Despyn. Saphiral o Reino do Rei Perseu. – Uma de cabelos ruivos claros disse com delicadeza, fazendo Elora juntar as sobrancelhas confusa e assustada. – O que foi?
A Duquesa suspirou aliviada.
-Ótimo. Isso é muito bom, excelente. – Ela juntou as mãos com mais tranquilidade. – E como eu falo com ele? Como posso chegar até o castelo? Podem me levar até lá? – Elas se entreolharam novamente.
-O que foi?
-Bom, leva alguns dias para chegar até o castelo. – A de cabelos loiros voltou a falar. – Nunca fomos até o castelo... – Mamãe não deixa irmos muito longe cidade. – A menina entrou em pânico, como seriam “alguns anos de caminhada”?
-Quantos dias até o castelo? – Elas se entreolharam.
-Não temos certeza... – Elora as olhou em pânico.
-Mas, eu preciso ir até lá, preciso falar com a minha mãe! – Elas se olharam preocupadas com a menina, e ficaram pensativas. — Eu não tenho tempo.
-É o que a mamãe sempre fala, “não tenho tempo.” – Ela riu animada a levando até onde elas tinham deixado os baldes.
-Mas, sabemos que sempre sobra tempo! – A meninas de cabelos castanhos claros completou rindo. – Vamos apenas terminar nossas tarefas e te ajudamos a encontrar a sua mãe.
-Obrigada...
-Afinal, o Rei Perseu não é um deus! – Completou a de cabelos loiros. – Vamos te ajudar a chegar, elas ainda a tratavam como uma filha da lua, mesmo que ela não fizesse ideia do que isso significasse, mas, pode ver como elas eram animadas e não pareciam ter muitas preocupações, Evan estava certo em ter admirado aquele lugar.
Elora se sentiu mais tranquila sabendo que poderia contar com elas, talvez, pegassem um cavalo, carruagem, ou até mesmo um cavalo com asas como o de Artemisa, qualquer coisa que encurtaria o tempo de viagem. Embora, as meninas tinham boas intenções; ela não fazia ideia de que a mãe delas, a ninfa miseravelmente preguiçosa Quelone não era tão prestativa assim.
*
As campinas de Pardóx era uma forma mais amistosa de descrever as pedras e montanhas altas de rochas cristalinas e magmáticas altas, com um relevo mais baixo, era uma ilha afastada de todos os demais Reinos, o mais próximo por extensão era o Reino dos Rubis Negros. Passando por um corredor de rochas afiadas, havia um declive e sobre uma superfície plana no final, era um mar de flores negras com as pontas roxas, suas pétalas eram grandes, as sépalas sempre verdes com pequenas folhas pontiagudas, já o carpelo dela prata, seu aroma não era perceptível de longe, era apenas um mar de flores pretas que podiam ser observadas, entretanto, podiam tanto curar como matar, era apenas questão de quem sentisse seu gosto e o seu aroma.
Por alguma razão desconhecida, quando chegava uma época especifica do ano, Auterpe e Perseu iam para lá e ficavam. Isso era quando eram crianças, agora, já adultos, sabiam o que tinham que fazer para não irem parar naquele mar de flores venenosas, de um lado podia-se ir para Ruphira, do outro lado poderia ir para Saphiral, quando ambos cobertos de sujeira, cabelos sujos, sangue e os cabelos bagunçados se entreolharam ainda cheios de fúria, um de cada canto da campina começaram a correr com armas para atacar um ao outro.
-Eu te odeio! Isso é culpa sua! Como você estraga tudo ao seu redor? – Auterpe gritava segurando uma foice de duas laminas. – Você é um péssimo irmão! Como eu devia ter te envenenado quando você tinha só seis anos! O Rei medroso, o Rei infeliz que traria o mal ao seu povo!
Os cabelos da Rainha estavam cortados, não eram mais os longos e majestosos cabelos brancos, eles iam até um pouco abaixo dos seios, e havia sangue nele. Já os de Perseu estavam sujos de poeira, completamente bagunçado, havia sangue nos fios, mais, era sangue dele.
-Você sempre será a fraca e a infértil de nós dois! – Ele soltou uma risada amarga. – A Rainha indignada de ter filhos, a amaldiçoada pelo amor... – Ela avançou para cima dele com fúria. – A verdade dói não é?
-Dói saber que ela nunca ficaria com você? Você é só mais um, sempre foi e sempre será só mais um... Se você morrer, ela se casará novamente! – A risada estridente dela combinou com o choque da espada de Perseu sobre a foice. – Se eu sou indigna de amor, você é indigno de felicidade... Nem sua própria filha você criou!
-Ao menos eu não tenho um filho surdo! – Ele avançou e ela se defendeu.
-Você nunca será Estevão!
-Você nunca será Estela!
-(...) – Auterpe estreitou os olhos, sua visão estava embaçada. – Você nunca deve ser verdadeiramente amado. Você sempre será um monstro.
-(...) – A mão de Perseu oscilou e ele deu um passo para trás sentindo sua garganta fechar. – Você nunca será como as.. Outras Rainhas, você é desprezível.
O cheiro das flores, as folhas, os espinhos, o pólen, aos poucos foi invadindo cada órgão, cada músculo, até pararem o raciocínio, e respirando para tomarem um pouco de ar antes de atacarem, cada um caiu para um lado, inconsciente, sem pulsação, o coração parado, mortos, com as almas prontas para serem julgadas e condenadas. No topo de um uma das rochas, um trio de deuses observava como a fúria, de gêmeos amaldiçoados foi reduzida a um último suspiro em meio a tanta destruição e confusão nos Reinos.
Á luas eles não viam aquela briga na planície da morte, e como acabou foi de partir o coração de ambos, o pior lado deles, expondo e se odiando, de uma maneira fria e cruel.
-(...) Eita! – Houve quatro palmas. – Acho que as coisas saíram do controle... – Hades disse com um suspiro profundo em um tom de sarcasmo.
-Você acha? – Ares perguntou em tom de ironia incrédulo.
-Eu tenho certeza. – Atena disse com sua voz rancorosa. – Ainda bem que foi assim.
-Sobrinha, você é muito amarga. – Hades mencionou observando os corpos de Perseu e Auterpe no jardim da morte. – Pense em Estela e...
-Ela sofreu muito, merece sofrer ainda mais, levou meu melhor guerreiro.
-Ele é um Rei! – Ares berrou para a meia-irmã que o encarou. – Ela é uma mortal valiosa para a felicidade dele.
-Se você se contentou com o mero e pobre mortal da sua protegida, guarde para você, eu não quero ouvir. – Ela olhou para Perseu. – Ela o enfraquece, e eu a odeio. – Dizendo isso, ela se transformou em uma nuvem de penas de coruja e desapareceu deixando os dois deuses sozinhos. Hades deu de ombros.
-O mortal da Auterpe a enfraquece? – Hades perguntou com um olhar curioso.
-Bastante, mas é bom. – Ele respondeu observando o corpo da protegida. – Ela não precisa ser forte, ela não quer ser uma imortal ou uma deusa; ele a deixa mais... vulnerável e Subimortal.
-Huum... – O outro fez uma expressão de graça e deboche na qual, Ares deu um pequeno empurrão. – Ah, não acredito que você gostou daquele maluco.
-Ele é um maluco com habilidades fascinantes e bem astuto. – Ele deu de ombros. – Ele ri na cara do perigo e ainda faz piada.
Hades e Ares ainda ficaram muito tempo observando os corpos; vendo o dia avançar, apenas pensando em como em um ano, as coisas mudaram tanto. Não queriam que acabasse desse jeito, era apenas uma parte do destino, que sempre esteve ali.
ΦΦ
Em Calasir, duas horas depois do horário do almoço, os Balaur retornaram ao covil como combinado para descansarem em um pouco, se atualizarem, almoçar e descansar. Quando chegaram ao covil, Cora já estava dentro, o que significava que Elora já havia retornado da sua busca, o que era um alívio. Um tempo após estarem reunidos dentro do castelo, Navi havia dado uma pausa junto com alguns soldados quando Leodak começou a contar as crianças, foi quando Lincan, Max, e Mandrik chegaram cansados pela busca reforçada atrás do Rei Eilon.
-O que foi? – Mandrik logo perguntou.
-Está faltando uma... – Leodak falou baixinho, foi quando todos começaram a olhar em volta.
-Elora não está aqui? – Ethan perguntou exasperado. – Cora está no covil, como Elora não está aqui?
-Tem certeza que ela não está aqui? – Elisa perguntou em um tom firme mais começando a entrar em desespero. – No quarto, no salão, algum lugar?
-Tenho, eu revirei esse lugar até agora, cada canto da fortaleza, e não me lembro de ter visto ela. – A expressão de Connor ficou tensa.
-Eu também não a vi ir para o covil. – Disse Connor repensando devagar.
-Está dizendo que tem duas pessoas da realeza desaparecidos?! – Ethan exclamou demonstrando preocupação e raiva, onde ela poderia estar sem avisar a ele?
-Você disse isso... – Lincan deu um pequeno sorriso, o que fez Mandrik fechar a cara com raiva.
-Porque as pessoas insistem tanto em desaparecer nesse maldito lugar?!
Ele gritou tomado pela irritação, o que fez Elisa se sentir esgotada, seu corpo já estava exausto, sua mente confusa, foi quando sua cabeça foi para trás, suas pernas enfraqueceram a fazendo cair desmaiada no chão. Ethan tentou segurar ela, mas, quem a apoiou foi Max que foi rápido. As coisas não pareciam nada bem, em nenhum Reino, em nenhum lugar. Sem Estela para auxiliar, sem Eilon para decidir, pareciam que estavam em um castelo construído perto da areia, não em uma fortaleza com herdeiros dragões de ferro e fogo.
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