Amigos Certos no Tempo Errado
2 Capítulo 1
Ana Clara acordou cedo, como fazia todos os dias, desde que se lembrava. Apenas uma coisa tinha mudado, geralmente era seu pai que a chamava para acordar. Ela sentia falta dele, mesmo depois de três anos da sua morte. Tinha sido uma morte estranha e boba na opinião dela. O laboratório apenas disse que o experimento em que seu pai trabalhava havia explodido e ele estava por perto. Estilhaços o feriram e a fumaça o asfixiou e esse foi o fim trágico de Pedro Arthur Queiroz. Sua filha nunca se conformou com isso, mas tentava seguir em frente.
Sua mãe já estava tomando café da manhã quando Ana a encontrou.
—Demorou um pouco pra acordar hoje – apontou Rosa – está tudo bem?
—Sim, sim... – Ana se interrompeu, sua vontade era contar à mãe o que a estava aborrecendo, mas achou melhor não encher a mãe com seus problemas.
—Certo – a mãe aceitou a resposta da filha – não esqueça suas tarefas, e provavelmente eu vou voltar tarde hoje então... vai ter que se virar com a janta, e toma cuidado pra não queimar mais nenhum pano de prato.
—Sim, senhora – entendeu Ana.
—Eu vou indo, fica bem – respondeu Rosa.
—Tchau – A filha se despediu vendo a mãe sair.
Rosa era funcionária de uma fábrica de brinquedos, no setor de empacotamento, um trabalho que ela teve praticamente a vida toda. A mãe de Ana Clara era extremamente inteligente e tinha um dom nato com cálculos, mas a vida nunca lhe deu a chance de estudar e perseguir uma carreira, antes lhe apresentou dificuldades que não lhe deram outra alternativa a não ser trabalhar. Como ela tinha conhecido o pai de Ana Clara, que era justamente o oposto disso tudo, era um mistério para a menina. Ainda assim, junto com a saudade do pai, outra dificuldade que Ana Clara enfrentava era conseguir um emprego. Ela tinha acabado de completar 18 anos, e essa idade de responsabilidade pesava em seus ombros, ela queria muito ajudar sua mãe, pra que ela não precisasse trabalhar tanto, mas ao mesmo tempo, Ana Clara sonhava com uma carreira maior, algo grande de que ela gostava, como estudar História.
Quando se sentia dividida assim, era como ter que escolher ser como seu pai e sua mãe, escolher qual dos dois agradar. Para muitos, a escolha era óbvia, ela só tinha que arranjar um trabalho e seguir os passos de sua mãe, já que seu pai não estava mais ali. Mas não era isso que Ana Clara queria, mas querer não era poder. Antes de qualquer coisa, ela tinha o dever e a responsabilidade de ajudar sua mãe.
Já que conseguir entrar em uma faculdade não era tão possível no momento, Ana Clara tentava arranjar um emprego. Tentou o cargo de atendente em várias lojas, funcionária na fábrica de tecidos e na fábrica de brinquedos, mas nada tinha aparecido. Tentou também dar aulas particulares para ajudar alunos com dificuldade, ensinar era a única coisa que tinha conseguido fazer. Tinha dois alunos, Marcos de 7 anos, e Laura de 9, ambos com dificuldade pra ler e com a matemática. Ana Clara os instruía como podia, mas ganhava muito pouco, o que a frustrava. Deixava-a com uma sensação de vazio e estar perdida, sem saber o que fazer. Ana Clara, indiretamente, conhecia alguém que tinha passado por esses mesmos problemas.
Fale com o autor