Amianto
1 Amianto - Capítulo único.
Notas iniciais
Por favor, conte-me depois o que achou ;)
Boa leitura!

Eu ando lidando muito com a depressão, não de minha parte, aliás de modo algum eu estaria sofrendo ou algo do tipo, apenas a frequência de pacientes com os sintomas desta bendita. Soa como uma cobra, vem bem devagar em sussurros, primeiro ela lhe abaixa a auto estima e depois lança-te num poço de mágoas. Valorizando sempre o "Eu"
E era sobre isso que eu discutia com uma nova paciente, não só no consultório, mas sim por aparência; mas pude notar em sua vivencia certa maturidade. Intrigou-me
— Bom senhorita Estela, pelo que pude anotar de nossa conversa. Você tem vontades constantes de suicídio, mas até agora não entendi o motivo — Enquanto eu folheava minhas anotações, ela abriu um sorrisinho esguio, parecia levar a situação séria como algo natural.
— Moço, você nunca se sentiu sozinho? Ou até mesmo distante da vida? — Ela me lançou um olhar curioso, e pude estuda-la com dificuldade, pois sua beleza extrema fazia com que eu me perdesse as vezes — Afinal, há uma grande diferença entre existir e viver, não acha?
Fiquei ainda mais fascinado com a inteligência da garota, tão nova mas tão esperta.
— Sim, de fato está correta. Mas porque essa fissura em suicídio? Vejo também aqui que você adora lugares altos — Revisei a ficha, arrumando meus óculos. Ela abriu um olhar sonhador, como se estivesse sonhando acordada
— Você nunca esteve no topo de uma montanha? Ou de uma passarela... Até mesmo de uma sacada com uma bela vista e pensou — Fez uma pausa, sorrindo — "Eu sou livre?"
A cada minuto, a loucura misturada com realidade da garota me deixava curioso. Ajeitei meu óculos novamente.
— Façamos o seguinte, semana que vem você retorna e nós dialogamos mais sobre isso... Sei como é complicado abrir-se logo na primeira consulta — Ela nada disse, apenas assentiu, despediu-se com delicadeza e foi embora.
Passei quase a metade do final de semana pensando naquela garota, em suas palavras tão naturais e absurdas. Decidi então, após reavaliar sua ficha vinte vezes que, o caso dela era grave e não podia ser adiado. Havia pego seu número e lhe mandei algumas mensagens, nos veríamos em uma cafeteria de nome aqui no Rio.
Eu a estava esperando com meu cappuccino, e então ela chegou com um olhar entristecido. A convidei para sentar
— Fico muito feliz que tenha topado em vir, sua mãe deve estar muito brava com isso — Disse, como se não quisesse incomodar.
— Eu não tenho meus pais comigo, então sem problema — Ela sorriu, mas senti que fui grosseiro.
— Me desculpe, não queria tocar no... — Ela me interrompeu.
— Não sem problemas. Sabe, ela sempre me obrigava a comer os vegetais, vivia dizendo que fazia bem... E sabe, eu odeio vegetais até hoje — Estela abriu um sorriso nostálgico, e tive de rir junto com ela. Pensei em perguntar do pai enquanto seu café era servido, mas ela mesma tomou posse do assunto.
— E meu pai... — Em um tom frustrado esfriou seu café — Bem, ele tinha problemas com bebida. Batia sempre na minha mãe, mas um dia... Ele a tirou de nós e eu fugi de casa — Pude perceber na moça que havia perdido sua infância por completo, não teve o prazer de brincar.
— Eu lamento, lamento muito. — Estava sem palavras, mas então ela começou a me perguntar algo esquisito.
— Não lamente moço. Mas deixe eu perguntar, se você fosse morrer, onde morreria? — senti um tom de brincadeira, mas com anos experientes em psicologia, sabia que toda brincadeira tinha um fim verdadeiro
— Não sei, nunca parei pra pensar.
— Ah, eu me jogaria da ponte Rio-Niteroi, vários flashes em cima de mim e aquela imensidão me esperando... Seria ou não morrer com estilo? — Ela riu, era gozado como ela via graça na morte.
Depois de várias conversas lhe dei uma carona, ela morava num bairro nobre do Rio. O prédio em que morava era muito lindo.
— Não esqueça da nossa consulta na semana — Ela sorriu e me deu um beijo na bochecha, subindo a entrada do prédio e acenando.
Dias se passaram, e ela não apareceu.
— Está louco Marco? Nunca te vi tão empolgado por uma paciente! Tudo bem que ela é bonita, mas não tome doses de exagero. Não é porque ela faltou a uma consulta, que está com problemas. Acontece... — Meu colega Roberto mandou-me essa mensagem de texto quando lhe disse que ia atrás da tal garota, afinal, ela faltou na nossa consulta e bom de certa forma cativou-me.
Peguei sua ficha e chequei o endereço novamente, não ousei em pegar o carro e aventurar-me pela zona mais glamourosa do Rio de Janeiro.
Parei o carro pois uma multidão estava cercando o prédio alto. Desci e sai no meio do pessoal, olhando pra cima. Para meu susto era ela, de lindos saltos altos, cabelos bem penteados e lágrimas decorando seu rosto. Ela me viu lá embaixo, e acho que aquilo a deixou mais triste.
— ESTELA! — berrei em plenos pulmões, mas ela não ia me ouvir, era muito alto. Peguei meu celular e liguei pra ela. Ela lá de cima atendeu.
— Moço, por favor você não... — A voz dela parecia perplexa, mas eu a interrompi.
— Não, "moça" você que precisa me escutar agora — Meu medo dela se jogar dali era tremendo, e a multidão filmava e me observava tentar reverter tal situação.
— Você é muito nova, nova demais pra brincar com a morte. Nova demais pra brincar de morrer! — Eu tentava aparentar calma na voz, mas parecia impossível. Seu choro era audível pelo celular, e notei que ela estava olhando pra baixo constantemente — Calma, não olha pra baixo, ai é muito alto pra você se jogar. Se você quiser podemos ir para o café de novo, e você me conta o que há, o que tanto lhe fascina na morte!
— Mas... — Ela tentou me interromper, porém eu tive que ser mais forte.
— Apenas lembre da sua mãe. Lembra? Você me contou que ela fazia o jantar e a obrigava comer os vegetais, pois sabia que ia lhe fazer bem, e a vida não é diferente! A vida nos coloca em situações complicadas, mas sabe que isso nos fará bem, que nos evoluirá — Ela pareceu entender, e se afastou um pouco da ponta devagar.
— E o seu pai; você havia me dito que ele roubou seu prazer de brincar, roubou sua infância. E a morte é assim, vai fechar esse parque de diversões incrível chamado vida, então por favor — Uma lágrima escorreu em meu rosto — Desce daí.
Ela desceu, e me abraçou tão forte que senti toda sua dor. Afoguei seu pranto e enfim ela me contou tudo. Após sua fuga teve de vir morar com o tio para não ir ao orfanato, mas o tio a estuprava constantemente. Noite passada ele abusou da menina, e ela então decidiu dar um fim nisso.
O tio agora estava na delegacia, claro que denunciei e não deixei barato. Por um breve enquanto, Estela moraria em minha casa.
Nesse meio tempo um paciente querido em São Paulo precisou de minha ajuda. Seria uma viagem rápida.
— Volto de noite, jure pra mim que não vai tentar nada! — Perguntei pra ela, preocupado.
— Relaxe, juro pra você que ficarei muito bem! — e então ela sorriu, era fascinado em seu sorriso. Senti confiança e peguei o avião sem mais demora.
Mas eu devia estar crente em saber que, quem jura mente.
Quando cheguei não a vi em casa, chamei por seu nome pelos cômodos e nada de sua presença. Até que um bilhetinho na mesa da cozinha fez meu coração disparar.
Eu o abri, e em suas cursivas estava:
" Moço, ninguém é de ferro, somos programados pra cair"
Logo comecei a chorar. Pensei em onde ela estaria e lembrei de uma conversa antiga.
Peguei o carro e corri para a ponte de Niterói, a qual não ficava tão distante. Em meio a uma grande multidão meu coração se apertou, eu vi o que meus olhos não queriam...
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