Ametista

24 Espelho, espelho meu, me leve pra casa antes que eu vire um picolé


Notas iniciais
Oi, gente. Aqui estou eu, sonolenta e com dor de cabeça, mas com o capítulo. Semana passada eu fiquei sem internet por alguns dias, por isso não consegui postar.

Jack tinha marcado uma reunião, mas ainda não tinha aparecido. Ianto distribuiu café e sentou o mais longe possível de mim.

Tive uma péssima noite de sono, então estava quase dormindo na cadeira mesmo.

—Ânimo, Tis. -Jack pediu, entrando na sala de reuniões e dando um tapinha no meu ombro. Mostrei o dedo do meio pra ele. -Desculpem a demora.

—Nós quase nunca temos reuniões. -Owen comentou. -O que é tão importante?

—Precisamos discutir licença maternidade. -Como se combinado, todo mundo encarou Jack com uma expressão de “WTF?” no rosto. -Tis está grávida. Nunca houve muitas gestantes na Torchwood, nenhuma desde que comecei a trabalhar no Instituto.

—É mesmo uma pauta importante. -Tosh declarou. -Acredito que a licença deva ser no mínimo de um ano.

—Como é que é?-Gritei. -Um ano? Vocês acham que eu vou ficar um ano em casa, sem fazer nada?

—Você vai estar cuidando de um bebê. -Gwen lembrou.

—Não é a mesma coisa que o meu trabalho aqui. Se ficar em casa um ano, eu vou surtar.

—É só um ano, Tis. -Jack disse.

—Então fica você um ano em casa com o bebê.

—Um bebê precisa muito mais da mãe. Quem você acha que vai amamentar?-Okay. Ele tinha um ponto.

—A gente coloca meu leite numa mamadeira e pronto. -Jack suspirou.

—Tis, não é exatamente assim que funciona.

—Como é que eu ia saber? Eu avisei que não sirvo para ser mãe.

—Você é esperta. Vai ficar tudo bem. -Suspirei, me inclinando para trás na cadeira.

—Não tenho tanta certeza.

***

Eu devia estar trabalhando numa arma nova, mas minha mente estava bem longe disso, e quando percebi, pesquisava sobre abortos no Reino Unido e como exatamente poderia chegar nisso. Talvez me ache horrível por sequer pensar no assunto, mas não importa. Escolhas precisam ser feitas, sejam elas horríveis ou não.

Distraída, demorei a notar alguém atrás de mim. Me virei, dando de cara com Ianto.

—Jack sabe disso?-Perguntou.

—Sabe. -Cruzei os braços.- Sabe e disse que me apoia em qualquer que seja minha decisão.

—E você vai... Você vai mesmo...

—Eu não sei. Sinceramente não sei. Só quero ter certeza de que tenho todas as opções possíveis. -Assentiu.

—Não julgo você. É a sua decisão. Mas o que você disse antes, sobre não servir pra ser mãe? Se você amar seu bebê, acho que o resto realmente não importa. -Se afastou, recolhendo algumas xícaras largadas por ali.

Voltei a encarar o computador, sem realmente ver o que estava na tela. Ianto tinha soado bem clichê, mas parecia fazer sentido.

Fechei a guia aberta na minha pesquisa e voltei a trabalhar num rascunho de arma que Jack tinha pedido.

Se eu olhasse para a Ametista que entrou na Agência do Tempo, anos atrás, podia ver a diferença entre nós como se fosse algo totalmente visível. E isso estava começando a me incomodar, como uma falha em algo que devia ser perfeito. Talvez fosse apenas drama, talvez eu tenha ficado mais humana. Então por que parecia, pela primeira vez, que eu não sabia quem era?

Sempre tive consciência de quem eu era. Ametista, a sem sobrenome, aquela que fazia de tudo para conseguir o que queria, que tinha um passado obscuro rondando sua mente e guardava seus segredos a sete chaves. Nunca me considerei do time dos bonzinhos, mas sabia que não era má. Numa escala em preto e branco, eu era cinza.

***

—Que silêncio nessa base. -Tirei os olhos do meu rascunho, encarando Martha Jones, que sorria. -Olá, pessoal.

—Invasão, doutora?

—Sou praticamente uma associada da Torchwood.... Ah, tudo bem, foi uma invasão sim. Precisava falar com você e decidi dar um oi pra equipe.

—Estamos só nós. -Apontei para Ianto.

—Tudo bem. -Se aproximou da minha mesa. -Eu queria dizer que... -Franziu a testa. -Isso é uma aliança?

—É. Jack e eu nos casamos.

—Jura? Parabéns! Eu te abraçaria... Mas você não é fã de abraços.

—Não mesmo.

—Mas vocês... Casaram tão depressa...

—É. Eu... Jack e eu nos casamos por que eu estou... Grávida.

—Essa parte é discutível. -Ianto resmungou. Olhei feio na direção dele. Voltei a encarar Martha, que não pareceu ter ouvido o comentário.

—Então... Nós acabamos casando e... É isso.

—Parabéns. Já sabe o sexo do bebê?

—É muito cedo.

—Alguma preferência?-Assenti.

—Que seja um engano. -Ela olhou para Ianto, um pouco confusa, e voltou a me encarar. -Queria falar comigo?

—A UNIT gostou muito dos seus modelos de armas. -Franzi a testa.

—Meus modelos...?

—Jack enviou alguns, ele acha que algumas armas deviam ser compartilhadas. A UNIT e a Torchwood estão se unindo um pouco. E... Disso surgiu uma oferta de emprego.

—A UNIT quer me contratar?-Assentiu. -Sinto muito, já tenho um emprego.

—Não quer nem ouvir sobre o salário?

—Melhor não, pode acabar me convencendo. -Riu.

—Certo. Mas avise se mudar de ideia.

—Pode deixar.

***

Três meses se passaram, eu ainda estava grávida. Jack e eu acabamos decidindo ir adiante nessa maluquice de sermos pais.

Tudo parecia normal... Menos meu trabalho. Agora, quando eu mais queria estar nas ruas, estava proibida. Todo mundo (menos eu), até o Doutor, concordou que havia muitos riscos em ser uma agente da Torchwood e que eu não devia estar “interagindo” com aliens perigosos.

—Tipo assim, sem querer reclamar... -Comecei, largando o lápis na mesa.

—Lá vamos nós. -Owen murmurou.

—... Estou perfeitamente bem para ir trabalhar nas ruas. Caçar aliens, chutar o traseiro deles se precisar...

—Tis, você está grávida. -Tosh lembrou.

—E daí? Isso é uma doença agora? Eu estou em plena forma.

—Estamos apenas protegendo você e o bebê. -Jack disse, pacientemente.

—Posso fazer isso, muito obrigada.

—Não adianta, a decisão já foi tomada.

—Mas...

—Tis, chega. -Cruzei os braços. -Seja racional.

—Eu não sou racional.

—Pensando bem...

—Harkness, cuidado com as próximas palavras. Podem ser as últimas.

—Você sabe que não pode me ameaçar de morte.

—Não é por que você é imortal, que não morre. Lembre-se disso.

—Tudo bem, você precisa sair um pouco antes que enlouqueça todo mundo. -Ficou de pé, vestindo o casaco.

—Missões?

—Claro que não. -Estendeu a mão. -Mas primeiro você tem que prometer não beber nada com álcool.

—Sabe há quanto tempo eu não bebo? Três meses. -Levantei.

—E ainda tem mais seis pela frente. -Suspirei.

—Eu já disse que estar grávida é um saco?

—Já. Umas trinta vezes... Só essa semana.

***

Jack e eu temos a “incrível” capacidade de nos agarrarmos em qualquer lugar. Às vezes era obra de muito álcool, e às vezes era apenas falta de vergonha na cara. Mas, ei, a vida precisa ser vivida, não é? Principalmente por aqueles que talvez não vão viver para sempre. Não que eu já tenha desistido da imortalidade. Minhas investigações tinham dado em nada, assim como os exames que fiz em Jack, mas eu não tinha desistido.

—Tudo bem, temos que falar sobre isso.

—Agora?-Empurrei Jack.

—Temos que chegar numa conclusão. Se grávida eu posso fazer “coisas” num banheiro de bar, posso sair para missões. -Cruzou os braços.

—Não é a mesma coisa. Não dá nem pra comparar.

—Jack...

—Eu sei que acha injusto não poder trabalhar como quer, mas isso não é pro seu mal. Três meses passaram voando, o tempo vai passar depressa e tudo vai voltar ao normal. -Suspirei.

—Não acho que vai voltar ao normal. Vamos ter um bebê. Nós. Um bebê. Isso é tão... Tão assustador. Tudo está mudando depressa, nossa relação, nossas vidas... Meu corpo tá mudando... E tudo vai continuar a mudar.

—Mudanças são necessárias. Não significa que seja ruim.

—Parece ruim.

—Nem tudo é o que parece. -Assenti.

—Talvez você tenha...

Então uma mão fria saiu do espelho e agarrou meu pulso, me puxando. Fechei os olhos, tentando me preparar para o impacto, mas passei pelo espelho como se fosse água e caí num chão gelado.

—Jack?

Eu não estava mais no banheiro do bar. Era uma floresta, com neve no chão e cristais de gelo nas árvores. Tudo era branco, branco demais.

Havia várias pessoas em volta de mim, mas não pareciam exatamente pessoas. Eram extremamente brancas, desde os cabelos até a pele. Os olhos eram de um tom de azul que eu nunca tinha visto antes. Eles usavam roupas brancas, de diferentes tipos, mas nada de casacos.

Me encolhi, com frio, e encarei o homem mais perto de mim. Havia um espelho na frente dele, mas não refletia nada, e sim mostrava o lugar que eu estava antes, assim como Jack.

—Tis?

—Sua companheira está bem. -O homem disse.

—O que quer com ela?

—Com a fêmea humana? Nada. Com você, um acordo. -Jack moveu a mão para o coldre, atento. -Eu sou Tsuj. Falo em nome do meu povo. Nosso príncipe, Sonet, caiu através de uma fenda, no seu mundo. Nossos estudiosos afirmam que a fenda se localiza na cidade de Cardiff.

—E você quer que eu o encontre.

—Exatamente. Quando nosso príncipe estiver de volta, sua companheira será devolvida.

—Se queria minha ajuda, não devia sequestrar minha esposa.

—Não podemos arriscar a vida e segurança do príncipe. Com sua companheira conosco, você não faria nada contra o príncipe.

—Eu jamais...

—Você tem apenas algumas horas antes que a fêmea humana morra de frio. Nosso planeta não é feito para humanos. -O olhar de Jack se transformou em pura fúria.

—E você a levou para aí...

—Exato. Encontre o príncipe e ela viverá.

—Ametista?

—Estou bem. -Levantei, ficando visível pelo espelho-portal. -Encontre o príncipe deles. -Abracei a mim mesma. -Vou ficar bem.

A imagem de Jack desapareceu, dando lugar ao reflexo do espelho. A conversa tinha se encerrado.

Uma das mulheres se aproximou, colocando um tecido fino por cima dos meus ombros.

—Lamento, não temos nada mais quente. -Me fez sentar num tronco caído. -Sou Salia, a propósito.

—É tudo branco aqui?- Olhou para as minhas roupas escuras.

—Agora que não tudo.

—Como falam minha língua?

—Não falamos. O portal traduz seu idioma e vice versa.

Exatamente como a TARDIS. Isso me fez lembrar do Doutor e de suas orientações quando nos falamos pela última vez. “Não faça muito esforço, não se meta em confusão e pense num nome para o bebê. Ah, e evite ser sequestrada”. É... Eu não segui nenhuma das orientações.

Jack tinha dito que queria o nome Gray caso o bebê fosse menino. Se fosse menina, ele ainda não sabia. Não pensei em nome nenhum, até por que não me sentia pronta pra isso.

E talvez nem precisasse pensar, havia chances de que eu virasse um picolé graças aos aliens branquelos que me sequestraram.

—Consegui pegar mais isso pra você. -Salia disse, entregando mais um tecido longo, porém fino. -Seus lábios estão ficando azuis.

—Talvez por que seu planeta seja frio pra cacete. -Me encolhi, tentando parar de tremer. -Vocês não sentem?

—Não. -Sentou ao meu lado. -Então... Você será mãe. -Olhei pra ela. -Ouvimos parte da conversa. E já estamos observando Jack Harkness há alguns dias, por causa do desaparecimento do príncipe. É na Terra em que comem os bebês?

—O que?

—Ah, não, é outro planeta. Não sei exatamente como funciona a Terra. Ainda não estou estudando sua galáxia. -Colocou o cabelo liso e branco atrás da orelha pontuda como a de um elfo. -Você está com medo de ser mãe, mas não precisa. Quando acontecer, você verá que o medo é uma coisa tão pequena e desnecessária que não haverá espaço para ele.

—O que... O que sabe sobre isso?

—Eu tinha medo... Antes de ter meus vinte e sete filhos.

—Vinte e sete? Você parece muito jovem... Q-quantos anos tem?-Sorriu.

—Cento e treze.

—Uau. -Me encostei na árvore atrás de mim. -Estou c-congelando.

—Ametista?

—S-se f-ficar a-aqui...

—Tsuj!-Salia ficou de pé. -Ela vai morrer. Temos que devolvê-la antes que congele. A temperatura do planeta está baixa como nunca.

—O príncipe ainda não está de volta.

—Se ela morrer, Sonet jamais retornará. Fizemos um acordo, lembra?

—Eu fiz um acor...

—Eu sou a princesa desse planeta!-Mudou de postura. -Eu ordeno que...

—O príncipe Sonet é o futuro rei. Estou fazendo de tudo para que ele retorne, com permissão de seus pais.

—Que corajoso... Sequestrando uma fêmea humana grávida e a pondo em risco de vida. Certamente não poderíamos fazer nada sem você, o que seria de nós?

—Princesa...

—Se essa humana... Se Ametista morrer aqui, eu farei de tudo para que perca seu cargo e seja devidamente punido. -Voltou a sentar ao meu lado, em tempo de me segurar quando comecei a cair. -Ametista?

—P-por que.... T-tão frio?-Perguntei.

—Ao contrário do seu planeta, Zlattio não tem um sol por perto.

Então, por que a droga do planeta branco não tinha um sol, eu ia morrer congelada.

Acho que apaguei por um tempo, por que Salia começou a me sacudir, desesperada.

—Não durma. Fique desperta.

—F-frio.

—Eu sei. Mas tem que aguentar. Na Terra, se passou três horas que falamos com seu marido. O tempo passa diferente aqui. Mas... Você tem que aguentar só mais um pouco. Tenho certeza que... -Fechei os olhos. -Ametista!-A encarei. -Só mais um pouco. Você consegue.

Mas “só mais um pouco” pareceu levar uma eternidade.

Sem Salia, falando comigo e me despertando de minuto em minuto, eu teria apagado e não acordaria mais.

Pessoas como eu chegam num ponto em que acreditam poder suportar qualquer coisa, por motivos diversos. Mas isso? Isso era difícil de aguentar. Eu só queria que acabasse, não importava como.

—Ametista? Acabou. Ametista?

Eu podia ouvir Salia, mas não conseguia me mexer mais ou sequer abrir os olhos. Estava cansada... Tão cansada...

***

—Bem vinda de volta. -Pisquei, confusa, encarando Jack. Podia ver Owen de longe, andando de lá pra cá enquanto fazia algumas coisas.

—Estou... Na base?

—Tsuj abriu o portal aqui dessa vez. -Me mexi na maca, incomodada. -Como se sente?

—Melhor que antes, com certeza. Achei que ia mo... O bebê!-Tentei me sentar, Jack me segurou.

—Calma. Está tudo bem, o bebê... -Sorriu. -Nossa menininha está bem.

—Menina? É... É mesmo uma menina?

—É. Owen acabou de confirmar. Tem uma mini Ametista à caminho. Isso não é ótimo?

—O mundo não costuma ser gentil com meninas.

—Vai ficar tudo bem.- Beijou minha testa. -Todos nós ficaremos bem.

Notas finais
Trabalhar na Torchwood sempre foi mostrado como um trabalho muito difícil, e era difícil manter relações fora do trabalho. Se isso era complicado, agora imagine ter filhos trabalhando pra Torchwood. Martha apareceu de novo. Depois da aparição dela na série, eu acho que ela poderia aparecer mais vezes em Torchwood (isso se a série não tivesse simplesmente entrado num limbo e nunca mais houve atualizações). Gray era o nome do irmão mais novo do Jack. Imaginei que se fosse pai de um menino, ia escolher esse nome. Yep, tem uma mini Ametista chegando. Será que isso dá alguma pista do que está por vir? O próximo capítulo é o penúltimo. Até mais. ♥