American Girl
6 Noches de Mambo
Notas iniciais
HAVANA, 30 de setembro de 2018.
Domingo.
Megan Parker esperava o elevador chegar ao térreo enquanto olhava para si mesma no espelhinho do seu pó compacto. Yeah, it’s not so bad. Admitiu a si mesma endireitando a franja torta que lhe caía sobre a testa e olho esquerdo. Ainda estava com uma sensação de indecisão com o corte que fizera no seu cabelo e quase sempre se via indo dormir determinada a ir até a cobertura do Bergdorf Goodman na manhã seguinte e pedir que Marco Maranghello preenchesse o vazio que antes era o lugar de suas longas madeixas por apliques de megahair. De manhã, enquanto se vestia, mudava de ideia gostando do corte e deixando para trás a vontade de visitar o salão John Barrett.
Decidira mudar de visual após uma das suas aulas de Fashion Design na Parsons. Notava que como a história da moda se revolucionava, ela precisava desestruturar sua realidade. Estava cansada daquela mesma figura, a última vez que fizera alguma transformação considerável foram as mechas lilás três anos atrás. Então, seguira para Marco com uma foto de Agyness Deyn de boyish hair e saíra de lá se sentindo renovada. Hype.
Pouco a pouco, porém, dava por falta do sacudir dos cabelos para trás dos ombros e dos penteados diferentes para as festas, mas como sempre, no dia posterior sorria para a mulher no espelho. Gostando dos fios curtos. E sentindo-se numa vibe sexy e destemida.
As portas do cubículo móvel se abriram e ela o deixou andando habilmente sobre seu salto alto dourado. As pernas passavam uma a frente da outra com uma elegância magnífica que ela sabia estar atraindo atenção das pessoas a sua volta. Megan gostava daquilo, apesar de em suas autocríticas sempre considerar seu apego a contemplação como seu maior defeito. Só que no fundo o ignorava por ser um defeito, segundo ela, bem vindo.
Sabia que Davi lhe esperava lá fora sentado em uma das mesinhas de frente para o mar enquanto ouvia um grupo de trovadores tocando música típica cubana ao fundo. Aquele era definitivamente o lugar favorito deles durante a viagem. Não que o resto de Havana não fosse tão incrível, mas a sensação de se fumar um charuto, ou beber um mojito, olhando o pôr do sol da localização que o Hotel Nacional proporcionava era de tirar o fôlego.
Aliás, todo o hotel era de tirar o fôlego na opinião de Davi.
Quando chegaram Megan quase teve uma aula do homem que empolgado segurava um guia de viagens chamado Cuba narrando tudo o que conseguia se lembrar do conteúdo lido no último mês de preparativos para a viagem.
– Ele foi construído em 1930 por arquitetos nova-iorquinos. – Davi deu uma olhada significativa para a americana, que já estava morando em Nova Iorque desde o começo do curso de moda. — McKim, Mead & White. Aqui era o terreno da Bateria Santa Clara, do Século XVIII.
– And what else? – Megan perguntou enquanto os dois andavam em direção aos andares superiores seguindo o funcionário do hotel.
– Bom, na luta política entre o primeiro ditador de Cuba, Gerardo Machado e o segundo, Fulgêncio Batista, o hotel foi palco de tiroteios, emboscadas, tramas, prisões, preparação de golpes... Era o QG dos oficiais de Batista.
– Algo menos historic?
– Ah, hm... – Davi folheou o guia. — Winston Churchill, Frank Sinatra, o Duque de Windsor, ex-Rei Eduardo VIII, e Alexander Fleming já se hospedaram aqui.
Megan deu uma risadinha. Não fora isso que ela quisera dizer.
– Aqui tinha un famous International Casino e o night club Casino Parisien, além do charmoso Starlight Bar no terraço. – ela disse com os olhos cintilando. Até parecia que vivera aquela época. Que vira o show Dancing Waters. — Fidel Castro fechou o cassino in October 1960, quase dois anos depois da queda de Batista. After years of neglect por causa da inexistência turística causada pela revolução, o hotel was mainly used to accommodate visitas de diplomatas. O colapso da USSR forçou o Partido Comunista, ansioso por foreign exchange reserves, a reabrir Cuba para os turistas. Thank God, right?
Ela olhou para Davi que lhe observava com um sorriso no canto dos lábios. Ele pegou seu guia de viagens e guardou teatralmente na bolsa tiracolo que usava, um presente de Megan, aliás.
– What? – perguntou com os olhos semicerrados, correspondendo ao sorriso zombeteiro.
– Algo menos historic? – ele a imitou. – Fui humilhado! Nem sei pra quê comprei isso se eu já tinha uma guia do meu lado.
– O que eu posso fazer? Você não é o único que lê sobre os lugares. I’m a girl full of surprises, Mr. Reis.
As portas do elevador se abriram e eles então saíram seguindo o funcionário do hotel pelo corredor.
– Tô vendo... Fez todo o seu homework.
O homem que acompanhavam então parou a frente de uma porta branca, girando a maçaneta e estendendo uma chave para Megan Parker.
– This is your room, Ms. Parker. Anything you need, just call the reception, ok? 111. – ele disse com um sorriso acolhedor. – Your bagage is already inside.
– Thank you, Carlos. – Megan agradeceu lendo o nome do cubano estampado em seu crachá. – Well, that’s me. Nos vemos daqui a pouco. Eu, really, quero conhecer Habana Vieja. – disse se referindo a Davi enquanto fechava a porta.
O brasileiro confirmou com a cabeça e antes que saísse no encalço do funcionário, Megan assoviou em sua direção o fazendo olhar para trás.
– Eu li tudo isso depois de ver Dirty Dancing II. Havana Nights. Oh God, Diego Luna is so hot! – ela confessou rindo antes de desaparecer para dentro do quarto. Davi então voltou a seguir o cubano, rindo sozinho do que Megan dissera.
Agora, parado ali sobre o céu recém estrelado, ele curtia o som da música latina e o vento que soprava oriundo do mar. Aqueles dias estavam sendo incríveis e a hospedagem cara no hotel mais famoso do país se fizera valer a pena.
Cuba se revelara um refúgio maior do que ele esperava. As férias que Megan sugerira, tão merecidas, após um ano tão desgastante. Agora era um homem quase livre, apenas esperando a saída dos papeis do divórcio. Disposto a começar uma nova etapa em sua vida.
Não fora fácil. Ainda sentia um aperto no peito quando se lembrava do momento em que saíra do apartamento dele e de Manuela. Sabia que após passar por aquela porta não teria mais volta. Seria o fim. Ele parara no soslaio do portal, olhando para trás uma última vez. A futura ex esposa lhe olhava do balcão da cozinha, de braços cruzados, como se abraçando. Os olhos vermelhos. Isso não é fácil para nenhum de nós dois. Disse a si mesmo antes de ir embora.
Depois de cortarem a relação em si, Davi e Manuela precisaram resolver os outros assuntos pendentes. Como os filhos. Claro, que ele sabia que não conseguiria a guarda, e nem mesmo queria. O melhor para os dois era a custódia compartilhada. Ele não se importaria de pegar os meninos nos finais de semana, o problema é que Manuela Yanes não parecia muito contente com a ideia de não ficar com os filhos durante seus dias de folga. No fim, ele precisou aceitar finais de semana alternados, mas com o direito de quando achasse conveniente fazer visitas a Pedro e Nicolas nos dias úteis. O que ele fazia todos os dias.
O mais difícil em toda a situação era a solidão. Davi concentrava-se no sucesso da Brazuca para esquecer o fato de acordar todas as manhãs sem sentir o corpo familiar de Manuela encostado ao seu. De afagar seus cabelos. Aquela sensação de vazio lhe rendera algumas noites de porre no costumeiro bairro da Gambiarra, e fora justamente por causa de um deles que ele e Megan estavam ali.
A amiga se tornara seu chão no processo do divórcio, compreensiva e lhe dando um apoio incisivo. Em mais uma noite de exceção para a dor, Davi bebeu tanto que o dono do bar mandou chamar algum parente para tirá-lo de lá. Matias apareceu e após pedidos incessantes de um primo alcoolizado ele gravou um vídeo pequeno, de uns quarenta e cinco segundos, com Davi agradecendo a Megan por todo o seu apoio. De repente, no meio do filme ele começava a xingar Manuela, a cantar How You Broke My Heart e por fim, como que para fechar com chave de ouro, ele vomitava fechando os olhos grogues se preparando para dormir.
Megan estava acostumada com cenas trágicas daquelas, afinal, era uma típica festeira norte americana e quando viu o vídeo riu dos balbucios de um Davi bêbado. Ele lhe ligou no mesmo dia, a voz séria, se desculpando pelo ocorrido e repetindo que nunca mais o faria. Era uma raridade telefonemas entre os dois, então ela sabia o quanto ele ficara incomodado com aquilo.
– It’s ok Davi, você sabe de uma coisa? Eu acho que você fez foi certo. – ela falou por entre a ligação estática intercontinental.
– O quê? – ele perguntou pego de surpresa. – Mas eu estava horrível... Estou horrível, uma ressaca do caramba.
– Sometimes nós precisamos chorar mesmo. You know, encher a cara? Mas eu só acho que você está fazendo isso com pouco estilo.
Ele riu. Meg e o tão querido style.
– Ah é? E o que você sugere dona Megan?
– Sabe de uma coisa? Eu estou watching a show on E! sobre viagens... E Havana parece ser incrível!
Agora, um mês e meio depois eles estavam ali. Hospedados num tesouro nacional cubano. Dispostos a desfrutar de toda a mágica latina que a cidade poderia oferecer. Era uma viagem de diversão. Deixar os problemas para trás.
Megan aprendera a controlar seus sentimentos, pesá-los e organizá-los. Ela e Davi eram amigos. E era assim que devia ser. Não podia negar que tivera várias noites de recaída desde quando viera passar aquele mês no Brasil logo quando sua mãe e Ernesto começaram a morar juntos. Pessoalmente, ela sabia que precisava tentar ser amiga dele, talvez como uma vitória própria de superá-lo completamente.
Pouco a pouco ela não sentia mais ciúme de Manuela e era indiferente quando via Davi e ela compartilhando carícias e comportamentos românticos, provavelmente o fato de que como confidente do hacker ela soubesse que a situação entre os dois não estava tão perfeita quanto todos imaginavam. Dia após dia, Megan da Califórnia, depois de Nova Iorque, acompanhava de longe por meio das confissões de um Davi machucado um casamento desmoronar. Sentia uma compaixão por ele, e apesar de tudo de mal que ele lhe causara, algo ainda os prendia um ao outro.
Eles precisavam de suas personalidades opostas, de suas visões contrárias, de suas conversas em horários pouco convenientes no Skype. Davi não fora seu melhor amigo, muito menos namorado, na última vez que tentaram uma relação próxima, porém dessa vez, sem as obrigações de uma aventura amorosa tudo parecia mais confortável. Ela não tinha a incerteza de que poderia acontecer algo entre eles. Se aquele olhar significava uma súbita atração. Não, Davi aprendera a duras penas como ser seu amigo, e ela a ser dele. Ter orgulho próprio perante o homem que ela tanto metaforicamente, quanto literalmente, beijara os pés foi algo construído com tanto cuidado, gradativamente, que jogar fora uma experiência daquela por toques incertos não compensaria.
Pelo menos, isso era o que ela se repetia enquanto o via de longe. Usando um terno esportivo preto, com uma blusa social branca por dentro. E sapatos de bico fino. Tudo selecionado pela própria Megan quando eles fizeram as pre-trip shopping. Até aquele momento para Davi as compras deveriam ser feitas durante a viagem, e não antes delas. De qualquer forma, não se arrependeu ao se ver vestindo todas aquelas marcas caras. Os ternos que ela escolhera pareciam alongar seu corpo. Os relógios lhe deixaram mais inteligente. Os sapatos pareciam fazê-lo ser o homem mais seguro do mundo. Nunca pisaria em falso.
Davi sentiu certa movimentação ao ser redor e olhou para trás já com uma forte impressão do que encontraria em seguida. A loira estava mais uma vez impecável. Usava um vestido dourado todo em pedrarias num modelo anos 20. Os lábios pintados de um vermelho carmim aveludado e os recentes cabelos curtos lhe mesclando o vislumbre vintage com um toque moderno.
Ele se levantou indo até Megan com as costumeiras mãos nos bolsos. Aquela era a terceira noite deles em Havana e após tanto passearem pelas ruas da cidade, provarem dos restaurantes caseiros chamados Paladares, beberem do frozen típico e delicioso que era o daiquiri e dos mojitos ali no Hotel Nacional, finalmente sairiam para um típico night club cubano.
– So, how do I look? – ela perguntou girando para ele verificar. Davi a avaliou fazendo uma expressão concentrada, e por fim meneou a cabeça negativamente.
– Não, não, o batom deveria ser rosa.
– Really? Mas eu gostei tanto desse tom de vermelho. – Megan disse aflita puxando o pó compacto da carteira avaliando seus próprios lábios.
– Não, eu tô brincando. Vamo logo. – respondeu revirando os olhos com um sorriso nos lábios enquanto segurava seus braços por trás a empurrando para fora da varanda do hotel ao mesmo tempo em que ela ainda tentava se olhar sondando o Classic Rouge da MAC que usara na boca delineada.
Ao deixarem o hotel os dois foram logo em direção a um Mercedes 1956 azul claro, a única exigência feita por Davi Reis para a viagem. Sem carro clássico, sem Cuba. Era o que ele repetia enquanto a planejavam.
Entraram no carro alugado dando a instrução do destino. O motor do Mercedes acordou de repente e o casal de amigos virou para trás, olhando pela janela a bela arquitetura do hotel branco que ficava para trás;
O Noches de Mambo era um lugar abafado, com uma multidão de pessoas, dentro e fora, dançando e cantando em uma espécie de realidade alternativa. Lá dentro, as paredes de tijolos vermelhos pareciam apertar as pessoas umas contra as outras pela lotação, e lá no fundo, uma banda tocava músicas latinas num palco. O estereotipo de Davi se confirmou mais uma vez em relação aos indivíduos ao seu redor. Os homens eram másculos, com regatas brancas e alguns, ele até viu usando dentes de ouro. As mulheres eram morenas, ativas, com cabelos cheios e roupas de estampas extravagantes. Era uma atmosfera envolvente.
Após uns dez minutos de shots de tequila que Megan pedira, ela puxou Davi mais para perto do palco, ela não parecia intimidada por aquele ambiente alheio a suas costumeiras noites fora. De repente, a música parou de tocar e um homem de camisa abotoada estampada de seda tomou o microfone.
– Bueno, que pasa? ¿Quién está emocionado? – ele gritou fazendo muitas pessoas gritarem “Yo”.– ¿Quién está emocionado? – ele repetiu, e Davi, espremido viu uma Megan animada gritando “Yo” com o resto do clube. – Bueno... Bueno... Hoy como ustedes saben es el domingo... Y el domingo es un día de la danza! Así que coge tus compañeros y disfrutar!
O homem então deixou o palco e a banda assumiu novamente. Megan então se virou para Davi radiante.
– Você ouviu? Today is o dia da dança! – ela gritou em seu ouvido.
Nos cinco minutos seguintes Davi se sentiu a criatura mais deslocada do universo. Os casais dançavam colados uns nos outros, magnetizados, enquanto ele ficava as costas de Megan olhando-a dançar sozinha sem se importar de não estar acompanhada. Pensou em convidá-la, mas aquele ritmo era carnal demais para cogitar a possibilidade. Incomodado, ele já até cogitava em sugerir que fossem embora, mas fora surpreendido. Não de uma forma agradável.
Um homem moreno começara a se aproximar de Megan, puxando-a para si e murmurando coisas em seus ouvidos. Ela respondia cativante e Davi permanecia observando a cena com o maxilar contraído. De repente o novo acompanhante da amiga se virou para ele animado, ainda agarrando Megan pela cintura.
– Bienvenido a Habana! – ele disse sorridente. – Brasil, ham? Samba!
Davi ficou parado lhe observando tentando entender o que ele queria que ele fizesse, sambasse?
– Olá! Sí, Yo soy do Brasil. – foi o que conseguiu exprimir, com um sorriso convincente no rosto.
– Hermoso país! Espere, no estás bailando? – perguntou parecendo revoltado. — No, no, no puedes venir a Noches de Mambo y no bailar. Teresa! – ele chamou por uma mulher não tão distante deles. Ela se aproximou. – Teresa, esto aquí es... – olhou para o brasileiro esperando que ele se apresentasse.
– Davi Reis. – o hacker lhe ajudou, claramente acoado.
– Bueno, esto aqui es Davi Reyes. Él no tiene pareja para ser de noche y está deseando aprender algo de baile latino.
– Pues ven aquí, vamos a bailar! – ela disse lhe puxando para perto de si, abraçando-se ao seu corpo.
A próxima música continuou e Davi sentiu as mãos da mulher se prenderem ao seu pescoço e suas pernas se enlaçarem ao seu corpo. Perto demais, pensou ele. Teresa era experiente e seu quadril se movia intensamente, enquanto ele tentava acompanhar, sem o devido entusiasmo. Seus olhos postos em Megan, vendo-a sendo conduzida pelo cubano misterioso, mas diferente dele, ela pegava os movimentos.
Tudo o que Davi conseguia pensar era como estava quente, mas não de um jeito bom. O suor escorria por sua testa, refogava o seu peito por baixo da camisa abotoada e até os cabelos estavam molhados postos para trás. Ele queria ir embora dali e levar Megan com ele. Meu Deus, o que é isso? Ele se perguntou olhando para a amiga que subia e descia com o homem atrelado ao seu corpo. Davi não se aguentou e num movimento brusco afastou Teresa de si e puxou Megan do homem.
– Davi?
Meg o olhava perdida sem entender sua reação. Merda... Merda... Merda... O que é que eu faço? Davi se perguntava olhando para os cubanos dançarinos e uma americana claramente aborrecida.
– Eu adoro essa música. – ele disse de repente, como se uma luz irradiasse um túnel que estivesse vagando há horas. Megan ergueu as sobrancelhas, lhe indagando. – Eu adoro essa música! Eu preciso dançar essa música com você... É muito boa. – exclamou novamente segurando a amiga pela cintura. –Yo já aprendi, com Teresa... Sí, Yo puedo ensinar para Meg. Yo ensino. – Davi tentou um portunhol para o casal de cubanos que se entreolharam. Com certeza ele não tinha aprendido nada com Teresa, mas eles não se opuseram.
– Muy bien, vamos a ver lo que puede hacer! – o homem disse empolgado permanecendo parado com Teresa lhes observando.
Os braços de Davi envolveram a cintura de Megan a abraçando ao seu corpo. Ela também estava suada, seu odor misturado ao perfume Channel.
– Davi, você não está me ensinando. – ela disse irritada.
–Tudo bem eu vou falar só pra você... Eu não sei dançar isso. – sussurrou em seu ouvido, girando com ela para ver se os cubanos ainda os olhavam. E sim, olhavam.
– Oh, of course, como se eu não tivesse percebido.
– Porque eles não vão embora? Que saco!
– Eles não vão sair daqui até you do something.
– Eu estou fazendo alguma coisa, te salvando de um estranho simpático.
Megan se soltou de Davi e o olhou entediada.
– Davi, you’re teaching me valsa.
Droga, é mesmo. Admitiu, se virando para os cubanos e vendo-os se aproximarem.
– Chicos, ¿Qué está pasando? ¿Dónde está el fuego? La energía? – ele perguntou tristonho.
– ¿Sabes cuál es el problema: el traje. – Teresa disse com o dedo no queixo, avaliando Davi com o olhar.
– O que ela disse? O que ela tá fazendo? – Davi perguntou a amiga enquanto a cubana tirou seu terno. Realmente fizera muita diferença. O hacker se sentiu imediatamente mais solto.
– Venga, vamos a ayudarle. – o cubano disse empurrando Davi contra Meg, ajeitando seus corpos. Então, se encostou as costas da moça, enquanto Teresa fez o mesmo com ele. As mãos dos dançarinos foram postas em seus quadris e eles começaram a se mover. Guiando os brasileiros.
Megan observava o rosto contraído de Davi constrangido com aquela cena. Com tantos corpos encostados uns nos outros. Com o corpo dela no dele. Talvez aquele fosse o principal motivo.
– Pronto, pronto. Acho que pegamos. – Davi disse se desvencilhando do casal.
– Sí? – o homem lhe perguntou.
– Sí, sí, isso mesmo que você disse. – ele respondeu virando-se para Megan.
– So, você aprendeu?
– Não, eu sou horrível. – ele admitiu fazendo-a rir. — Você vai ter que me ajudar nessa.
O rosto de Megan então mudou instantaneamente. Ela parou por alguns segundos e começou a pular logo depois. Davi a olhava confuso.
– I love this song Davi! I love it!
– Megan, mas eu já inventei isso. Fala outra coisa. – ele murmurou vindo para mais perto dela.
– No, você não está entendendo, I really love thing song! La Tortura!
Davi tentou prestar atenção na música que tocava. Uma letra casteliana soava em seus ouvidos e ele sentiu o ambiente abafar mais. A fumaça de tabaco perfumava o ar. E as mãos de Megan deslizaram por sua cintura. Ela estava de olhos entreabertos. A boca mexendo-se em um canto espanhol narrando a letra que Davi não conseguia se concentrar.
Ela começou a se mover acoplada em seu corpo, embalada pela música e talvez pelas tequilas que pedira quando chegaram. Davi finalmente sentiu algo bater no seu ventre, fazendo-o se manobrar como ela. Subindo e descendo. Em equilíbrio.
– Ay amor, fue una tortura perderte. – Megan murmurou lascivamente em uníssono com a canção, e o homem sentiu os ombros ficarem leves. A respiração ofegante.
Ele a girou pondo-a de costas para si. As mãos dela subiram por seu pescoço, abraçando-o e fazendo carinho em sua nuca. Davi perpassava as dele em seu ventre, apertando-a ao seu torso. Ela deu uma risada e ele também se deixou revelar um sorriso longo e zonzo. O mundo girava ao seu redor enquanto se moviam juntos, enlaçados, com as bocas entreabertas tentando respirar em meio ao calor que os circundava.
Davi a jogou segurando sua mão e puxando-a de volta para si fazendo seus corpos se chocarem, suas testas e coxas encostadas. Eles sorriam com os olhos baixos, vidrados em seus respectivos lábios. Ele não conseguia pensar. Megan provavelmente não lembrava nem aonde estava. Apenas sabia que amava aqueles braços, aquele cheiro, aquele suor. E naquele segundo se prometeu que se Davi a beijasse até o nascer do sol ela seria dele. Ela tentaria de novo. Lamberia sua pele e arranharia suas costas.
A música então parou e a loira se soltou dele com as pernas um pouco bambas, rindo e girando o olhar em direção aos cubanos. Os dois os olhavam com uma expressão mista de alegria, e surpresa. O homem bateu palmas. Teresa abraçou Megan, a parabenizando falando em um espanhol rápido.
E só o que Davi pensava era que repetissem a música. Que por favor repetissem a música.
Ao deixarem o Noches de Mambo Davi e Megan dispensaram o Mercedes. Iriam a pé, acompanhados por seus dois novos amigos: Teresa e Miguel. Caminhavam bêbados e felizes pela Malecón. A avenida estava tranquila, abençoada pela madrugada que se postava sobre suas cabeças. O mar estava de ressaca, batendo forte nas pedras e até molhando a avenida. A caminhada até o Hotel Nacional fora longa e repleta de momentos como Davi e Miguel subindo cambaleantes no parapeito perigoso gritando coisas para o oceano revolto. Megan e Teresa riam dos homens e levavam as tequilas, já quase vazias.
Ao chegarem ao destino o casal de amigos se despediu encantada dos dançarinos latinos. Davi puxou cambaleante Miguel para perto de si, mas sua mente estava ficando um pouco mais organizada com a bebida perdendo o efeito.
– Olha Miguel... A Teresa, ela e você... Vocês tem uma coisa muito bonita. Eu vou te dar um conselho: acho que você deveriam ficar juntos. Tu e Teresa, besos. Se besar. – ele disse tentando se expressar, mas surpreendentemente Miguel o entendeu e deu um riso alto e frouxo.
– Teresa es mi esposa. – se explicou achando graça da expressão abobalhada de Davi.
– Como? Mas... Não... Não pode ser. Sério?
– Sí, Teresa es mi esposa. Tres años.
– Mas... Você e a Megan...
– No, no, lo que ocurre en la danza es en la danza.
– Então... Então para você não vale o que acontecer lá?
– Sí, usted no necesita preocuparse! – Miguel disse empolgado lhe dando batidinhas nas costas, mas Davi não pareceu se animar. Seus olhos buscaram Megan. O que aconteceu lá é como se nunca tivesse acontecido. Foi só uma dança. Ela só me quer como amigo. Pensou, ainda a observando querendo que alguém de repente lhe afirmasse o contrário.
O casal cubano os deixou e Davi e Megan precisaram de muito esforço para chegarem até o andar em que estavam seus quartos. A americana apoiava-se no homem, a cabeça encostada em seus pescoço, seu terno sobre seus ombros e as sandálias caríssimas perdidas pelo trajeto da avenida Malécon.
Ele decidiu levá-la ao quarto e com muito esforço tirou a chave da carteira que ela surpreendentemente ainda trazia consigo, provavelmente por causa da corrente metálica que a transformara numa tiracolo. Davi então abriu a porta do quarto e arrastou Megan Parker até a sua referente cama. A moça o fitava com os olhos cansados. Davi então ergueu seus dedos deslizando-os sobre suas pestanas fazendo com que ela descansasse. E ficou ali parado. A observando.
E ele queria beijá-la.
Sentiu seu corpo arquear, atraído pela forma serena da loira. Seus narizes próximos. Sua respiração calma. Ele desceu o olhar por seu pescoço claro. E por fim, aproximou seus lábios do dela.
Foi só uma dança. Lembrou-se, e então, relutante, se afastou abruptamente deixando o quarto cinco minutos antes do nascer do sol.
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