American Girl

10 Enquanto caía não conseguiu permanecê-los fechados


Notas iniciais
Observações: O canal britânico de televisão BBC One é o principal canal da BBC, com notícias, comédia, drama, documentários, filmes e também apresenta a programação das redes locais da BBC. Surgiu em 1936 como BBC TV Service. É do canal as séries Doctor Who e Sherlock. America's Next Top Model é um reality show competitivo criado e apresentado pela supermodelo Tyra Banks. Em edições anteriores, as vencedoras tiveram contratos com a Ford Models, com a IMG Models, capa da Marie Claire e da ELLE Magazine. Pessoal, vou atualizar a trilha sonora ainda hoje de manhã, então quem quiser conferir tá aqui no site: http://stepspc.wix.com/americangirl

RIO DE JANEIRO, 30 de setembro de 2022.

Sexta-feira.

– Você não precisa fazer isso.

– Dad... Dad... – ela pôs a mão direita na bochecha do pai. – Eu quero fazer isso.

Jonas suspirou mexendo a cabeça negativamente e então a puxou para um abraço, confortando o corpo magro da moça.

– Qualquer coisa você só pede para parar.

– Eu estou bem. – ela se soltou dele lhe dando uma piscadela.

– Certo.

A sala da cobertura quase parecia um dos estúdios da Parker TV. Iluminadores e microfones dispostos e uma câmera posicionada de frente para um dos sofás. O equipamento era ajustado e alguns desconhecidos conversavam entre si. O logotipo BBC One ilustrava algumas camisas da produção e as laterais dos acessórios de filmagem.

Já fazia um bom tempo que Megan evitava as lentes, então se levar a frente de uma conscientemente causava uma estranheza incontestável. A decisão fora estudada minuciosamente antes de ser tomada. Sua mãe principalmente era contra, mas aquilo não interviria em sua resposta. Ela devia isso a ele. Não deixaria seus dias juntos serem completamente deturpados.

– Hi Megan. – Janice Hayes se aproximou dela. Os dedos apreensivos mexendo uma caneta de um lado para o outro. — So, we’re just going to ask you to describe some moments, ok? It’s just a conversation.

Só uma conversa. Sobre tudo o que ela precisou evitar nos últimos meses. Só isso.

– Yes, ok. I’m fine. We may start it already.

Ela se sentou no sofá e sentiu mãos tocarem seu rosto verificando sua maquiagem. Com a aproximação Megan se moveu instintivamente para trás. A mulher ficou parada a encarando, provavelmente julgando sua atitude.

– I’m sorry, you can... Sorry...

Ao ouvir o sinal verde a maquiadora voltou a retocar sua maquiagem. Bateu o pó na pele clara. Alongou os cílios negros. E ainda deu uma mexida nos fios claros do seu cabelo que batia ondulado no seu ombro. Em outros tempos talvez fizesse uma referencia em seu blog de como estava lembrando o corte Alexa Chung, mas a realidade é que Mode + Culture= my otp continuava intocado.

Finalmente, Megan e a repórter da BBC se viram sozinhas, ou ao menos, com a equipe distante das duas. Janice fez sinal para que o câmera começasse a gravar.

– Ok... Megan, ahm, I really wanted to go to the begginning.

– Yeah.- Megan balançou a cabeça positivamente.

– How did you meet Oliver?

Ela engoliu a saliva piscando para se situar. Os olhos castanhos buscaram a câmera, meio incomodados. Megan alisou os joelhos.

– In a party. A Channel party to celebrate the 2020 collection.

“Oliver Mouret is STARING at you!”

– He... I loved his music, but I’ve never had met him before, until... Until that night...

“Are you alone or may I sit here?”

“You’ve already sit.”

“I’m sorry... I have a memory problem. What year is this?”

– He stared at me from the bar, and a friend, Carol, she... She noticed. Then he went to the stage and sang Born to Die from Lana Del Rey looking at me like we were... Like we were alone there. And I fell in love... – ela riu sozinha no silencio sepulcral da sala. – Later we passed all night chatting. He was a very charmous man, graceful! He knew what to say, the timing... It was perfect...

“You’re crazy. Youre almost more crazy than me.”

“That’s good, let’s be crazy together all night.”

– Did you already have knowledge of his polemics?

– I might have heard something about it at the time, but I wasn’t quite aware of all the situation. In fact Oliver, he didn’t liked his life too public, you know, he loved the fame, he loved recognition, but he hated all his personal stuff making money to the magazines... Or wathever... He had some principals, we can put like that, of respect, and for him, that was disrespect. – ela lambeu os lábios secos antes de continuar. — I didn’t think I was going that far. We didn’t know, both of us, that that night could means so much. But it meant...It meant...

– Me desculpe pelo atraso Davi. Eu estava tendo que verificar um outro paciente.

– Tudo bem doutor.

Davi estava sentado na cadeira com Nicolas no colo e Pedro em pé andando pelo consultório, provavelmente querendo mexer em algo que não deveria. Estavam ali há quase dez minutos, mas pelo o que a moça da recepção lhe explicara um cachorro estava sendo tratado por uma emergência. Aparentemente tinha sido atacado por outros em uma fazenda do dono do animal e chegara todo machucado, com um ferimento horrendo no pescoço que pingara sangue por onde passava o que deixara o funcionário da limpeza emburrado.

– Como está o senhor Linus aqui? Algum problema?

– Meninos se afastem do Linus pra o doutor poder olhar ele direitinho, ok? – Davi disse tirando Nicolas do colo e se referindo a Pedro que montara nas costas de um Linus sonolento como um cowboy em fuga. — Bom, a gente percebeu, eu e minha ex-mulher, que ele está com os olhos mais brancos do que o normal. – falou enquanto ajudava o veterinário a levantar o cachorro para a maca metálica. — Já estavam claros, só que agora de um jeito esquisito.

– Vamos dar uma olhada. Linus, isso, paradinho, bom garoto.

Fabrício Barros examinou o animal cuidadosamente. Já sabia o que era ao pôr os olhos em Linus, mas ainda sim precisava fazer um check up e verificar se não tinha nada mais preocupante. Há pouco costurara uma mordida aberta em um Chow Chow que afetara seu coração geralmente controlado. Infelizmente, se via mexido pelos casos que pegava. Os anos não o fizeram insensível, apenas aumentaram seu amor pelos animais.

– E ele anda se batendo nos cantos, sem enxergar direito. Eu pensei em catarata.

– E pelo jeito você pensou certo. – Fabrício voltou a colocar o estetoscópio no pescoço. — Pronto, Linus, pode relaxar. – esfregou a cabeça do cão que se deitou na maca relaxado. — Os Golden Retriviers já tem uma predisposição genética para a catarata e essas chances aumentam com a idade. O Linus já tem quantos anos? Oito? Nove?

– Dez. – Davi respondeu dando uma olhada no Golden. Como o tempo passava rápido.

– É... É um bom tempo.

– Ele é quase um ancião.

Os dois riram descontraídos.

– Certo. A catarata é uma doença oftalmológica que faz com que haja um distúrbio no estado natural das lentes dos olhos. Isto causa a perda da transparência do cristalino, e a diminuição ou a perda da visão. Ela se forma quando as lentes dos olhos são mantidas em um sistema desidratado. Eles são compostos de um terço de proteínas e dois terços de água. Quando este sistema falha, mais água começa a se acumular nos olhos. Isto acarreta na mudança da transparência e na formação da catarata.

Aquela parte era a que Fabrício usava seu real tom de veterinário, explicando a situação em termos técnicos. Davi prestava uma atenção minuciosa na explicação do doutor.

– E como nós podemos tratar? Tem cura?

– O único tratamento eficaz contra a catarata é a cirurgia.

– Cirurgia? – a preocupação o aflorara de repente. Nada que envolvesse abrir e fechar um ser vivo poderia deixa-lo relaxado.

– Sim, o tratamento da catarata canina consiste de remoção cirúrgica. Atualmente não há boas alternativas à cirurgia, mas para termos sucesso o Linus vai precisar passar por diversos exames. Por exemplo, animais diabéticos com a glicemia desregulada, animais agressivos ou com problemas cardíacos normalmente não são bons candidatos.

– Claro... Então é a única alternativa.

– Sim, infelizmente sim.

Ok, então ele precisa fazer esses exames que o senhor falou.

– Pai, o Linus tá bem? – Nicolas perguntou puxando sua mão.

– Tá sim, tá sim... Não se preocupem.

– Eu vou passar aqui os exames, Davi, e nós podemos fazer logo agora. – o veterinário disse se voltando ao computador.

“The body was found on the garden.”

A foto em um quadrado no lado direito da tela estampava em preto e branco um corpo quase que não visível por meio da quantidade de policiais ao redor. Fitas com as palavras scéne de crime rodeavam o lugar. Em meio aos homens carrancudos era-se possível ver um rosto enjoado observando o cadáver.

“The singer died according to the police two hours ago and the principal suspection is suicide, but other options were not discarted yet.”

Breaking News cintilava como rodapé enquanto a mulher falava séria. A foto mudara e agora se via cena de um outro ângulo. Oliver Mouret usava um terno preto ensanguentado. Seu corpo estava em uma posição esquisita, como um boneco, todo esparramado. Ele deixara-se cair da sacada de braços abertos e de costas. Quando seu corpo atingiu o solo a parte de trás da cabeça rachara-se deixando a vista seu crânio e permitindo o escape de uma grossa camada de sangue que empapava seus cabelos negros e formava uma poça ao seu redor. Ele tinha os olhos abertos. Enquanto caía não conseguiu permanece-los fechados.

– Você foi incrível, sweetie. – Pamela apareceu as suas costas.

– Hello, mom.

Megan Parker mexia em uma caixa grande no seu quarto. Ali dentro ela guardava as coisas que Oliver deixara para ela em sua carta de despedida. Entre eles seu diário em formato de moleskine repleto de rabiscos e letras de música. Megan preenchia oitenta por cento das páginas, além de textos melancólicos e palavras sem sentido.

Há um ano se despedira de Oliver, duas semanas depois ele fora encontrado morto abaixo de uma das sacadas do palácio de Versailhes. Ela lembrava-se de quando assistia televisão na sala comum da clínica e, de repente, uma chamada urgente preencheu a tela. Breaking News. Megan parara de assistir porque foi segurada pelos enfermeiros e levada ao seu quarto. Aparentemente seus gritos perturbaram a paz comum.

No dia seguinte não conseguia mais chorar, era como se tivesse perdido toda a água que preenchia seu corpo. No fundo quando disseram adeus Megan compreendera as entrelinhas na conversa. Oliver a avisava que o fim estava próximo. Seu fim. Enquanto namoravam a morte era um assunto recorrente nas conversas coloquiais. Ele sempre cogitara aquela possibilidade, e viver separados impulsionou o ato.

– Muito corajosa em falar tudo. Espero que eles não distorçam nada.

– Não há o que distorcer. O que eu contei já é suficientemente polemico para o documentário deles.

Crystal Noir: the definitive hits. – Pamela leu de um cd tirando-o da caixa. A capa era branca com um símbolo de bateria quase descarregada, com apenas com um por cento. – He died so young.

Yeah. So Young.

A morte de Oliver surtira um efeito calmante em Megan. O carinho que recebera da família e amigos lhe fez abrir os olhos para algo esquecido. Estava disposta a voltar para o mundo, mesmo em passos lentos.

“Keep going with the treatment. Take the poison away. You own me that.” Lera na última página do moleskine. Não bebia mais, nem fumava e finalmente começava a ganhar o peso que perdera, apesar de ainda se incomodar com o corpo ossudo. As fotos nas paredes refletiam outro tempo, em que sua alma não tinha tantas cicatrizes. Esses dias se foram e agora eram apenas memórias penduradas. Ela quase ouvia as risadas vindas das imagens.

Não se diria feliz. Era um ser fragilizado que respirava como se usasse aparelhos. Mecanicamente avançava. Seu coração fora afogado ao enterrar Oliver Mouret, então só o que precisava era de alguém que segurasse sua mão.

Já fora uma rainha sentada em um trono dourado, só que não usaria mais a coroa quebrada. Ainda assim, nada lhe tiraria a chance de ser feliz novamente. Não era a escolhida, com toda a certeza. As pessoas até lhe olhavam com medo. Constituíra-se numa sombra, porém não pensaria mais em seus pecados, nem falaria sobre os de Oliver. Estava na hora de dar espaço para as virtudes.

– Eu sinto falta dele.

– Eu sei, honey.

– Megan? – Jonas e Verônica Marra entraram no quarto. – Nós estamos indo.

Oh, ok Dad, bye. – ela correu até o pai lhe dando um abraço apertado.

– Bye, bye, peanuts. – Jonas a afagou. — As coisas vão melhorar. Existe um plano maior pra você. – sussurrou em seu ouvido.

– Até mais, Megan. – Verônica se despediu lhe dando um sorriso.

– Até, Verônica.

As duas trocaram um olhar sentimental e o casal deixou o local.

– É melhor eu ir me vestir, mom.

– Você vai sair?

– Sim, Davi e eu vamos comer alguma coisa. E eu encontrei o lugar perfeito.

– Eu não acredito nisso.

O letreiro no lado de fora do pequeno local piscava em cores neon a palavra KARAOKE.

– Você só pode estar de brincadeira. – Davi olhou esperançoso para ela como se fosse possível a moça dizer que erraram de endereço.

– Claro que não! Vamos lá! – Megan o arrastou para dentro.

Os dois se acomodaram em uma mesa relativamente distante do palco porque Davi se recusou a se aproximar demais. Megan sorria enquanto via-o examinar o cardápio, seu fervor comentando as opções. Ele tinha estrelas em seus olhos. Era como estar em casa.

– E então? O que você vai querer? – perguntou por fim, após de citar quase tudo nas páginas.

– Acho que umas dessas batatas fritas com cheddar e bacon.

– Você leu minha mente! Boa pedida.

Em dez minutos as batatas chegaram.

– O seu livro é muito bom senhor Reis.

– O quê? Você leu o meu livro? – Davi a olhava em um misto de surpresa e felicidade.

– Bom... Algumas páginas porque foi ficando chato. – ela respondeu brincalhona.

– Claro. – ele revirou os olhos. – Como eu cogitei a possibilidade de você ter realmente lido o livro.

– Maaas, enquanto eu lia parecia bem interessante nos quesitos tecnológicos.

– Sim, os “quesitos tecnológicos.”. – Davi colocou um pouco mais de refrigerante no seu copo.

– Só que gostei principalmente quando você fala de mim.

Davi se engasgou com a bebida. Ela o observava.

– Você... Você gostou?

– Não sabia que tinha sido tão importante assim, afinal, você sempre dizia que a Manuela era mãe do JUNIOR, então... Eu só fui pega de surpresa.

– Meg... – ele respirou fundo, a boca aberta como se fosse continuar a falar. – Eu... Eu não te dei o verdadeiro valor àquela época, e hoje, na verdade já faz um bom tempo que... Que eu me dei conta do quanto você é especial.

– Obrigada, Davi. Você também é muito especial pra mim. O seu apoio foi... É, muito importante pra mim. – ela aperta a sua mão na mesa. Os olhos dos dois se envolvem calados. – Você é meu melhor amigo.

Eles sorriem um para o outro, acolhedores.

– Oh, olhe só! A última batata!

– O quê? – Davi pergunta perdido, ainda concentrado em admirar Megan.

– A última batata é minha!

– Isso definitivamente não é justo, e enquanto ao papo de melhores amigos, sua falsa?

– Tudo bem, tudo bem. – ela ri. – Vamos fazer assim, ganha a batata quem merecer a batata.

– Isso parece interessante e assustador ao mesmo tempo, continue.

– Bom... Porque você acha que merece essa batata Senhor Reis? – ela levanta as sobrancelhas em tom desafiador.

– Vamos ver... Por eu ser um cara legal?

– Ai Davi, seja mais criativo, c’mon.

– Ok, ok... Eu mereço essa batata porque... Porque é o meu premio por tantos anos de dieta! Ei, essa foi boa, pode ir passando pra mim...

– Não tão rápido, little boy.

– Você acha que ganha disso? Tudo bem... Vá em frente.

– Eu passei seis meses dentro de uma clínica de reabilitação comendo nada além de salada. Eu só não mereço essa batata, eu preciso dela!

– O quê? Você realmente acha que vai sensibilizar alguém com esse papinho de internada? Rehab virou moda já, não vale. Mas eu trabalho quinze horas do meu dia e ainda preciso passar todo o almoço ouvindo minha ex-mulher falando como foi a noite dela de amor com o namorado. E aí? Agora posso comer minha batata?

– Você quer pegar pesado? Eu tenho vinte e oito anos, ainda moro com a mãe e meu marido se jogou de uma janela na França. Eu não posso ir para nenhum lugar sem ser seguida por algum paparazzi idiota, por exemplo, os dois que nos seguiram até aqui e a última nota que li sobre mim tinha a frase “Megan, a heroína que literalmente tem como poderes: heroína.”

Davi parece estuda-la com o olhar.

– Não, não... Megan, querida, você ainda tem tanto o que aprender... – ele balança a cabeça negativamente e ela ri na espera. — Semana passada meu sábado à noite foi no teatro assistindo o Musical Gabriela, a elefanta que queria ser fada.

Megan cuspiu o guaraná em meio a uma risada.

– Exatamente. Sinta pena de mim.

– Você tem toda razão, eu não sou digna dessa batata. Pode ficar.

– Muitíssimo obrigado.

– Olha! Eles vão cantar!

Davi seguiu o olhar dela para o palco, enquanto várias pessoas batiam palmas e assoviavam. Um casal com pouco mais de dezesseis anos seguravam microfones e escolhiam a música no repertório.

Oh, so sweet. – Megan comentou como se olhasse um filhotinho.

Você é tão linda. Davi pensava enquanto a observava e Megan nem percebia o amor transbordando do seu olhar. Sentimentos sempre foram difíceis para serem perfeitamente definidos, mas ele sabia que tristeza poderia ser descrita como o fato de não a ter de volta.

O tempo que gastavam de mãos dadas, ou quando riam como crianças era incrível. Quando a possuía ele não a queria por perto, era um jovem tolo e imaturo. Ele se questionava se não era tão tarde para ele ter aquela segunda olhada. Ele só queria ter a chance de mostra-la que ele só precisava de mais uma chance para se por novamente em seu coração.

O casal no palco terminou de cantar I Wanna Hold Your Hand sendo recebidos por uma salva de palmas.

– E então, quem quer ser o próximo? – o funcionário do bar perguntou no microfone. – A senhora? – ele apontou para uma mulher lá na frente.

– Não te avisei, eles implicam com os que ficam ali perto. – Davi comentou assistindo a cena.

– Eu vou.

– O quê?

– Eu vou cantar.

Megan se levantou e caminhou em direção ao palco. O homem a recebeu e lhe ouviu perguntar por uma música específica. A plateia voltou a assoviar empolgada quando ela se posicionou a frente do microfone. Davi esperava atento aos movimentos da mulher e a percebeu um tanto estranha. A intro da música começou a tocar e ele engoliu em seco. Conhecia aquela letra.

– Essa música é para alguém muito especial. Eu só quero que ele... – Megan subitamente parou. No fundo do salão Oliver estava recostado ao bar, lhe observando. Ele tinha um sorriso nos lábios. – Que você, saiba... – os olhos começaram a lacrimejar. – Que eu te amo. E que eu sinto... Muito a sua falta. I really miss you Oliver.

Pessoas a filmavam, mas ela não se importava. Nada importava.

– So... So you think you can tell.

Heaven from hell.

Blue skies from pain.

Can you tell a green field from a cold steel rail?

A smile from a veil?

Do you think you can tell?

Did They get you to trade your heroes for ghosts?

Hot ashes for trees? Hot air for a cool breeze?

Cold comfort for change?

Did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?

How I wish... How I wish you were here.

We’re just two lost souls swimmings in a fish bowl year after year.

Running over the same old ground.

What have we found?

The same old fears.

Wish you were here.

O público a observava em silencio, um pouco extasiados pela visão a sua frente. A melancolia na pronuncia das palavras da loira e o olhar apaixonado que ela depositava na parede adiante lhes deixaram encantados. Davi começou a bater as palmas tirando-os do limbo e os fazendo aplaudir também.

– Thank you... Obrigada! Obrigada. – ela falou sorrindo limpando as lágrimas que haviam descido pelo seu rosto.

– Outra, outra, outra! – as pessoas pediam. Megan não sabia ao certo se fora por sua apresentação, ou pelo fato de que era uma celebridade, mas se empolgou com a ideia.

Ok, ok... Mas só se aquele homem ali: Davi Reis! Me acompanhar. – ela disse travessa vendo a cara de Davi embranquecer feito gesso. – Sim, você mesmo, vem aqui! Você gosta dessa música. Sobe aqui, Davi.

Ela então caminhou até o funcionário pedindo uma canção em especial enquanto um coro pedia para que Davi compusesse o palco. Ele balançava a cabeça negativamente. Ela só pode estar maluca. Não vou nem arrastado!

Vamos lá Davi! Tá ouvindo? Você conhece a letra, hein?

Ele ouviu a batida de Crocodile Rock soar nos seus ouvidos. O funcionário caminhou até ele tentando convencê-lo a ir até palco.

– Não, eu não vou subir ali!

– Vamos lá, você não precisa cantar. Só ir que então as pessoas se acalmam.

– Tudo bem, tudo bem! Ah, mas que merda. – Davi levantou irritado e acenou sem jeito para o salão que comemorou animado.

A música recomeçou. Tan tan tan dan tan tan tan dan tan tan tan dan tan tan tan dan.

– I remember when rock was yoooung. – ela gesticulava para que ele lesse o visor.

– Não, não, não, nem adianta, Meg...

– Me and Suzie had so much fuuun holding hands and skimming stones. – ela jogou o outro microfone nas mãos dele.

– Um microfone... Que legal. – Davi olha para o chão envergonhado ao perceber a quantidade de pessoas que os assistem. Uma palestra já lhe causava um frio na barriga, mas aqueles estranhos com celulares sedentos por um vídeo constrangedor incomodava muito mais. – Você é doida...

– Had an old gold Chevy and a place of my own. – ela cantava animada e a plateia gritava o nome de Davi.

– Tá bem, tá bem! – ele se concentrou no visor. – But the biggest kick I ever got was doing a thing called the Crocodile Rock.

– Yeah! – ela gritou animada continuando a letra. — While the other kids were Rocking Round the Clock, we were hopping and bopping to the Crocodile Rock.

Davi adorava aquela música e a atmosfera pareceu envolvê-lo. Luzes coloridas tremiam por cima deles.

– WELL crocodile rocking is something shocking when your feet just can’t keep still! – se viram soarem juntos, com sorrisos nos lábios.

– I never knew me a better time and I guess I never will. – Megan continuou dançando mexendo os quadris de um lado pro outro.

– OH LAWDY MAMA! – Davi gritou surpreendendo a todos com sua empolgação, e sendo assim recebido por gritos de aprovação. Megan riu surpresa. – Those Friday nights when Suzie wore her dresses tight and...

– The Crocodile Rocking was ooout of sight! Laaaa la lalala! Laaaa la lalala! Laaaa la lalala! – ela o acompanhou. A dupla cantou sendo acompanhada pelos outros.

Linus recebia carinho de Megan deitado no sofá em cima dela. Na outra mão a mulher segurava um porta retrato com uma foto dos gêmeos de Davi fantasiados para o carnaval da escola. Ela e Oliver nunca falavam sobre filhos, até mesmo porque ela sabia que a ideia nunca o convencera. Talvez por não achar que seria um bom pai, mas ainda assim, ela sonhava em silencio de que um dia eles pudessem ter uma família. Oliver e ela indo assistir alguma apresentação das crianças. Os dois sendo acordados por pequeninos cheios de energia.

– Não acredito... Você deixou ele subir no sofá? Agora onde eu vou sentar? – Davi reclamou entrando na sala. Ele trazia dois copos de chá e entregou um para a loira. – Sim, eu falando de você. Seu folgado. – disse para o cachorro ao vê-lo virar a cabeça em sua direção. – Mister Magoul.

– Mister Magoul?

– Ele tá cego.

– Eu bem notei.

– Como está o Barack?

– Tá ótimo. Hoje de manhã a gente deu uma volta no quarteirão e ele latiu para umas senhorinhas. Se sentiu o predador.

– Realmente, ele amedronta qualquer um.

Os dois riram.

– Como foi a tal entrevista?

Davi perguntou tentando fazer com que a conversa continuasse informal, e para seu conforto, Megan não ficou tensa.

– Foi boa. Eu falei o que eu podia. Espero que eles não pintem ele nem como um demônio, mas também não como um anjo.

Megan lembrou-se de quando Oliver morrera. Era como se gritasse e ninguém pudesse ouvir. Ninguém jamais entenderia o quanto doía. E quando acabou pediu todas as coisas ruins de volta, para que também pudesse ter as boas.

– Olha, eu nunca gostei muito dele...

– Você odiava ele. – Megan jogou uma almofada em Davi.

– Tudo bem, eu... É, eu não gostava muito dele, maaas... Mas eu sei que ele gostava muito de você.

– É, e eu dele. O problema da gente nunca foi ele, Davi. Eu sei que todo mundo pensava isso, mas no final das contas o problema sou eu.

– Megan...

– Não, olha... Não tem problema. Eu nunca disse isso pra ninguém só que essa é a verdade. Eu sempre tento mudar quando eu me apaixono, the thing is... Desculpe, a coisa é...

– Não me importo de você falar inglês.

– A coisa é que eu nunca acho que alguém me amaria pelo o que eu sou, então eu tento ser outra coisa e acabo fodendo com tudo.

– Não é verdade. Você nunca foderia com nada. Tá me ouvindo? – ele espantou Linus do sofá tomando seu lugar.

– Todos a minha volta se dão mal, Davi. Essa é a verdade.

– Mas isso não é culpa sua! Megan, isso... O amor nunca é fácil. E a gente sempre dá um jeito de fazer umas burradas. Tá? Olha pra mim! Eu sou uma prova disso.

– Você é muito azarado, minha nossa. Como foi mesmo com a Sabrina? Ela tinha alergia a cachorros?

– Exatamente, passei a noite com ela no hospital. – ele sorriu ao vê-la rir.

Davi lembrava-se do tempo em que conhecera Megan, uma garota definitivamente diferente. Nossa, como eram jovens. Pensou nela antes e hoje. Como tudo mudara, e ao mesmo tempo continuava a mesma coisa. Por ele, Meg podia lhe contar tudo o que acontecera, tudo o que vira, para sempre. Nunca ficaria entediado.

– Há corações mortos em toda parte. – ela constatou sombriamente.

– E é isso o que nós somos, dois corações mortos bebendo chá.

Para ela era difícil de acreditar que ele ainda conseguisse se importar, mas a amizade dos dois realmente se mostrara forte. Havia uma confiança gostosa. Ele estava cansado. Seu coração pesado pelo trabalho que levava para continuar respirando no dia a dia. Cometera erros, mas sabia que ela podia lhe dar seu descanso. Como seria bom se ela o deixasse ver a redenção. Ele remendaria seu coração. E tudo o que estaria morto por dentro seria reconstruído.

Oh Davi, obrigada. Obrigada por você ser assim.

– Assim?

– É, ser você. – ela segurou a mão dele.

A vontade de beijá-la era inimaginavelmente forte. Os olhos uns nos outros. Os corpos próximos, tão claramente precisando de amor. E então as bocas se tocaram, mas fora ela que tomara a atitude. Megan quis experimentar e não se negou os lábios dele. Por algum motivo aquilo parecia certo.

Se distanciaram. Davi estava paralisado a observando, pego de surpresa por seu movimento. Megan achava graça de sua reação. Talvez não o tivesse feito, eram amigos e ele provavelmente não tinha aprovado. Ela já se preparava para se deitar com a cabeça em seu colo e tentar cochilar, mas então mãos a impediram.

– Eu quero tentar uma coisa. – Davi falou a colocando novamente de frente para ele.

Seu rosto se aproximou lentamente do dela. No silencio do apartamento sua respirações pareciam sair de caixas de som. Os olhos castanhos desceram pelo rosto de Meg, pousando em seus lábios. Ele envolveu os dele nos dela experimentalmente. Era doce. Aquele gosto. Eram bom. Era melhor do que bom. Tinha sabor de saudade.

O beijo ficou mais rápido enquanto eles se deixavam levar. As mãos dele apertaram suas costas enquanto se colocava por cima da moça. Respirações ofegantes enquanto roçava o nariz por sua pele. O toque era familiar, confortável. Megan o ajudou a tirar a camisa social que caiu do outro lado do sofá. Os dedos rápidos dela começavam a abrir sua calça enquanto ele beijava seu pescoço. Megan depois se desvencilhou dele para puxar o vestido por cima da cabeça e ele a ajudou gentilmente.

A língua do homem desceu do seu ventre até seu sexo, abrindo com as mãos suas pernas um pouco mais. O corpo de Megan tremia enquanto ela gemia e agarrava os cabelos de Davi. De repente ela se moveu descontroladamente, e ele a apertou ao sofá para prolongar o orgasmo. Ao desprender a boca de seu clitóris ele se viu rindo. Megan também descansou no sofá com um sorriso bobo no rosto.

– Você melhorou, pretty boy.

Davi beijou sua coxa antes de levantar.

– Vou pegar a camisinha, volto em um segundo. Um segundo. Não vá embora! Um segundo! – ele falou andando rápido e desaparecendo no corredor.

Abriu as gavetas do banheiro e encontrou uma cartela lá dentro. Correu de volta para a sala, chegando ofegante com um sorriso ainda radiante. Megan calçava os sapatos e se levantou do sofá. Vestida. Ele a olhou confuso. Perdera alguma coisa?

– Davi, eu acho melhor eu ir.

– O quê? Não! Por quê?

Ela se aproximou dele. Seu olhar era carinhoso, mas ainda assim não conseguia confortá-lo. O que estava acontecendo? Porque ela não podia se despir de novo e eles voltarem a se amar como antes?

– Eu fiz algo de errado?

– Não... Não! É só que... Isso é muito complicado. – ela disse segurando o seu rosto. – You know, nós somos amigos. E eu gosto muito, muito de você. Eu acabei de perder my husband Davi. Eu não queria me envolver assim.

– Claro... Eu entendo. – ele olhava para os próprios pés. Incomodado, Megan concluiu.

– Então eu vou indo. A gente se fala amanhã.

Davi não conseguia se mover. Aquilo só podia ser um pesadelo.

– Espera! Megan!

Ele gritara de repente e ela se virou.

– Você também não precisa ir. Já está tarde. Você pode dormir aqui. – ele disse puxando a calça do chão e a vestindo novamente. – A gente vê um filme. Eu durmo no sofá, não se preocupe.

Megan sorriu para ele.

– Eu adoraria.

Os dois então se jogaram no sofá novamente.

– O que tá passando uma hora dessas? – ele começou a mudar os canais.

Oh, oh! Stop it! Maratona America’s Next Top Model!

– Sobre o que é isso?

– É um concurso pra escolher a próxima top model americana. Tipo um reality show, e elas precisam ser avaliadas. Eu estou torcendo pra Hayley.

– Qual é a Hayley?

– Aquela ali.

– O quê? Nossa, Megan, que mau gosto.

– É que você não viu ela desfilando.

– Prefiro essa aqui, qual o nome dela?

– É a Trisha.

– Trisha é incrível. Go Trisha go!

E então eles passaram quase toda a noite na frente da televisão. Discutindo sobre modelos e passarelas até adormecerem e sonharem, sem saberem, um com o outro.

Notas finais
Muito obrigada por toda a cobrança, pessoal! Isso é surreal! Queria me desculpar da demora para escrever os capítulos, acho que vou acabar postando um por semana, mas pra compensar vão ser grandes. Esse passou das cinco mil palavras, hein. Um agradecimento especial a Jennifer pela recomendação LINDA que recebi. Cheguei a ler até para o meu pai hahahah Pra quem percebeu as falas em português de Megan não tem mais muitas palavras em inglês, isso se dá pelo fato de que eu tentando condizer a realidade pense que ela já estaria fluente, e eu quando falo qualquer outra língua não fico metendo português no meio porque é estranho, assim como ela já tá na hora de parar de falar half english, metade português. A cena da batata frita quem percebeu é inspirada em uma cena de Notting Hill. Anna vai ao aniversário da irmã de Will e lá eles disputam o bolinho falando qual vida é a mais trágica. A cena em que Megan canta para o Oliver imaginário Wish You Were Here é inspirada em uma cena de P.S. Eu Te Amo. Espero que gostem do capítulo e continuem acompanhando! Beijos de luz!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.