Amelia
2 c a p í t u l o 1

06 de fevereiro; Vancouver — Canada, 6 da manhã.
Querido diário, eu te odeio. Eu não sou boa em escrever meus pensamentos ou meus dias. Minha cabeça é uma grande bagunça, como meu guarda roupa ou a louça na pia que eu deveria ter lavado ontem a noite mas esqueci, e agora minha mãe grita da cozinha algum tipo de xingamento acompanhado com uma bronca mas eu nem ligo. A verdade é que essa é a primeira e ultima vez que escrevo aqui. Só estou escrevendo na verdade porque foi minha avó que me deu e ela faleceu uma semana trás. Estava procurando maneiras de me reconectar com ela mas a unica coisa que tenho dela é esse diário velho. Sou boa com leitura mas não sou lá uma das melhores com escrita. Minha mãe me deu a ideia de ao invés de escrever, colar minhas fotos da polaroid aqui e fazer meio que um diário de fotos. Eu gostei da ideia.
Por hoje e eternamente, é só isso. Bom dia.
"Amelia Hunter, se eu chama-la mais uma vez, você terá que ir de ônibus para a escola!" minha mãe grita do andar de baixo.
Jogo minha mochila sobre meus ombros, coloco o fone já no ouvido mesmo não escutando nada ainda, dou uma checada em minha aparência no espelho e desço a escada velozmente. Ir de ônibus não me parecia uma boa ideia, pelo menos não era na Califórnia. Era nojento, barulhento e cheio de adolescentes medíocres que só abriam a boca para machucar.
Chego a cozinha e pego uma maça sobre a fruteira, dando uma grande mordida enquanto minha mãe se virava para mim com sua xícara de café na mão. Quente e bem preto como sempre. Minha vó costumava dizer que o café da minha mãe era melhor que enérgico.
A verdade é que todos tem a sua maneira de lidar com a dor. A minha maneira era lembrar por fotos e trocar o choro por gritarias de letras de musicas em meus ouvidos. Já minha mãe, quis voltar para sua cidade natal, Vancouver, e voltar a falar com sua família como se eles realmente se importassem com a gente ou com a vovó.
"Essa blusa é minha?" minha mãe diz apontando para a blusa preta básica que uso e eu balanço a cabeça concordando.
"Não tenho muitas roupas adequadas para o frio daqui, então peguei a sua mesmo" digo e ela ri.
"Minha entre aspas, Amelia. Eu usava isso com a sua idade. Nem sei porque ainda tenho. Pode ficar para você".
Ela pega a chave do carro no chaveiro e coloca a xícara dentro da pia, logo abrindo a torneira para colocar água dentro da mesma. E então, problema. Água começa a vazar por baixo da pia e a encharcar o chão.
Minha mãe olha para o chão encharcado, fecha a torneira e revira os olhos respirando fundo.
"Ótimo, o cano estourou. Quando eu voltar resolvo isso. Não é como se fosse o maior problema de nossas vidas".
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