M
Ethan Feduncio.
29/10/2023
Das 18:00 até 18:15.
Eu caminhava enquanto suava frio, não vinha tendo nenhum mísero dia de paz desde o primeiro recado tenebroso.
“O QUE EU FIZ PRO MUNDO?” Eu pensava querendo gritar.
O vento estava gélido, mas não tanto quanto meu medo. Meus olhos estavam arregalados.
Eu não deveria estar caminhando sem rumo em um horário em que as lojas começariam a fechar, porém, eu mesmo não sabia mais o que estava fazendo. Só queria fugir daqueles grãos.
Aquela areia demoníaca insistia em me perseguir, essa era a mais pura verdade.
Quando eu entrava no Laboratório: lá estava a dita cuja com aquelas “mensagens motivacionais”, algo do tipo: “Ethan você vai morrer.”, “Ethan tenha cuidado, eu te observo.”
Eu não sabia o motivo daqueles aqueles grãos não cuidarem da própria vida (eles eram vivos?). Que graça deveria ter causar surtos e paranoias nos outros com escritos?
Chegava em casa, a areia continuava a me assombrar.
Nem minha casa era mais segura.
Minhas roupas ficavam infestadas com aquela coisa, meus sapatos pareciam um deserto e até no meu chuveiro as danadas estavam. No meu chuveiro, elas apareceram e começaram a escorrer da parede do banheiro até o ralo, fazendo questão de tocar em meus pés e deixarem uma mensagem com lama:
“Você está sem tempo, Feduncio.”
E eles ainda escreviam “Feduncio”. Caramba! Essa galera realmente gostava de cutucar na ferida.
Eu poderia dizer que esses grãos eram meus fãs e que meu trabalho na Flor de Lins tinha sido tão maravilhoso que ganhei uns “stalkers” de brinde, embora muito tenebrosos, pois, toda hora aquelas coisinhas horripilantes me deixavam mensagens de morte.
E eu também não conseguia entender que mal eu tinha feito para aquelas coisas, elas me odiavam mais do que Tarcísio. Já cheguei a pensar que elas poderiam ter sido contratadas por ele para me azucrinar, mas seria uma ideia muito viajada. Não teria sentido o diretor fazer algo assim.
Ou melhor, nada mais tinha sentido.
De qualquer forma, decidi evitar esbarrar com o diretor ou fazer contato visual com ele no Laboratório.
Um dia os grãos formaram uma faca, depois um revólver e depois um caixão. Eu tremi de medo.
Porém, algo que me fez estranhar era que constantemente recebia alguns recados do tipo: “LARGUE ESSE PROJETO DE BIOLOGIA.”
Eu não entendia, embora continuava trabalhando. Aqueles malditos grãos já estavam danificando minha sanidade, não queria que danificassem meu futuro profissional também.
Uma coisa interessante que descobri: a areia era uma ótima artista e os grãos eram incrivelmente ligeiros, demoravam apenas alguns segundos para se distanciarem um dos outros e formarem um novo desenho. Se não fossem tão assustadores e se não estivessem tão obcecados em tirar a minha vida, poderia guardá-los em uma caixinha e levá-los para uma exposição de arte. Eles seriam talentosíssimos.
Ah, mas não pense que eu já não tentei esse feito. Parecia fácil para eu aniquilá-los: só juntá-los, colocá-los em uma caixa e: PIMBA! Todos os meus piores medos em forma de areias que formam frases iriam embora. Depois eu jogaria a caixa no fogo para nunca mais me atormentar. Porém, notei que isso não era possível.
As danadas eram ligeiras, fugiam todas as vezes que eu tentava me aproximar delas, e eu nunca conseguia capturá-las. Por causa disso, comecei a pensar que os grãos poderiam ter uma inteligência, algo racional, então tentei conversar com eles pacificamente e implorei para que me deixassem em paz.
Acredita que a areia me ignorou?
Os grãos. A causa do meu desconforto, medo, desespero, insônia.
Eu não conseguia nem mais dormir e, quando essa proeza era feita, acordava com areia nas roupas, lençóis e até em minha boca. Não aguentava mais.
Outra coisa que eu também descobri: a areia aparece do nada, e quando eu digo “do nada” eu não estou exagerando. Eu vou olhar uma vitrine e a areia começa a escorrer por ela, vou sentar no sofá e acabo ficando completamente sujo, vou tomar um sorvete e me deparo com grãos dentro dele.
A parte boa é que eu não precisava mais evitar locais com areia como caixas de areia ou desertos. A parte ruim é que eu precisava evitar TUDO.
Como se tudo não pudesse ficar mais estranho, todas as mensagens vinham assinadas com “M”, o que me fazia ficar ainda mais confuso.
Eu sei, era uma completa idiotice duvidar do meu parceiro de trabalho então, tentei afastar esse pensamento por um tempo. Mas, foi ficando impossível.
O Mike estava obcecado por areia, era apenas isso que eu sabia.
Sabia que Mike poderia ser útil e até me ajudar com esse problema, porém, tinha chances dele ser o cara que causava esse problema. Ou seja, se eu contasse para meu parceiro que eu estava surtando com a areia ele faria o óbvio que qualquer manipulador faria:
Mandaria mais mensagens, me faria ficar ainda mais louco.
E, mesmo sem nenhuma prova concreta, passei a desconfiar dele. Certo, idiotice.
Mas, eu não conseguia compreender o que se passava na minha mente. Mesmo sem motivo, desconfiar de Mike me parecia tão certo, como se meu subconsciente estivesse falando para fazer algo do tipo.
Isso tinha sentido? Não, mas quem ligava? Eu estava pirando.
De qualquer forma, meu parceiro trocou de equipe e nem veio me avisar, sabia que a culpa era minha, então eu não deveria estar chateado com isso, já que era eu que estava me afastando.
Então por que eu estava?
Nem meu projeto de biologia conseguia me manter concentrado em uma sala vazia (as ameaças faziam tudo piorar, eu era um biólogo tão ruim assim?), sem ninguém para conversar e cercado de areia tenebrosa.
Eu andava cabisbaixo, mas de olhos atentos. Percebi areia me seguindo pelo vão da calçada e fiquei átono, ela estava lá.
Engoli a seco e chutei uma pedra, eu não aguentava mais.
“AAAAAAAAAAAAHHH, SERÁ QUE DÁ PARA ESSA PORCARIA DE GRÃO ME DEIXAR EM PAZ?” Eu estava prestes a surtar.
“Então, como são os possíveis rumos do projeto Ameaças de Areia?”
Eu ouvi uma voz que dizia um termo que eu conhecia, era o projeto de Mike.
O meu parceiro que minha cabeça insistia que ele queria me matar, embora sem motivo aparente.
Eu não sei por que, mas confiava em meu cérebro e intuição.
Voltei alguns passos até me deparar com uma vitrine de uma loja e a TV ligada no noticiário, com uma entrevista sendo exibida. A repórter segurava um microfone enquanto a câmera focava em rostos desconfortáveis: Mike e mais quatro desconhecidos, todos usando jalecos do Laboratório.
“Estamos tentando dar nosso melhor, e sei que vamos conseguir.” Um jovem falava com um forte sotaque.
Olhei para o garoto negro de cabelos marrons cacheados e me lembrei de meu primeiro dia de trabalho. Quando vi Mike pela primeira vez achei que ele fosse ser um certinho reclamão. Depois que o conheci tive certeza.
Mas, percebi que Mike tinha qualidades também, era mais responsável, mais focado, dava sugestões ótimas para o projeto e era muito mais inteligente do que eu.
“Deve ser por isso que está com gente mais preparada do que eu.” Pensei cabisbaixo enquanto olhava como ele estava se sentindo nervoso, mas ao mesmo tempo parecia mais confiante do que quando começou a trabalhar. Era complicado de explicar, como se Mike tivesse mudado nessa ausência. Ou era eu que estava mudando e vendo coisas, graças às noites de insônia por causa da areia.
A repórter assentiu.
Eu olhava para os grãos se mexendo nos vãos na calçada. Estremeci, pareciam querer me capturar.
Depois olhei para meu parceiro e suspirei cabisbaixo. Ele tinha perdido o irmão e confiara em mim para saber disso. Eu devia estar ajudando.
Eu tentei, eu juro que tentei.
Mas, meu medo irracional foi mais forte, eu me sentia um monstro.
Porém, eu não tinha a menor vontade de falar com Mike novamente.
“ETHAN, VOCÊ É UM IDIOTA.” Eu pensei, eu infelizmente sabia disso.
Porém, ainda achava melhor eu me afastar.
Mais algumas perguntas e outras respostas, coisas que eu não ligava, pois suava frio ao perceber minha cruel inimiga entrando na minha meia e provocando cócegas em meus pés. Os grãos pareciam me consumir. Aquilo estava muito sinistro.
Lembro de assistir filmes de terror e rir dos personagens surtando e sendo “alvo” para as aberrações. Eu nunca acreditei nenhum pouquinho nessas paradas sobrenaturais. Até que eu comecei a viver uma.
Minha vida não poderia ser menos bizarra?
“Como seria explicado o fato do comportamento da areia? Principalmente com o fato que ela parece estar substituindo nosso sangue?” A mulher perguntou.
“Bom...” Mike se mexeu na cadeira. “Nós sabemos que a areia é um material granular, que pode ser sólido em alguns momentos, como quando pisamos nele. Ou se comportar como líquido, como em uma ampulheta.”
A repórter assentiu. Meu parceiro respirou fundo e continuou.
“Pelo o que percebemos a areia está se comportando como líquido e está correndo por nossas veias sem provocar nada prejudicial, apenas a estranheza das pessoas. Porém, não sabemos até quando isso continuará. Infelizmente, não sabemos até quando essa relação ‘pacifica’ continuará, não sabemos se esses grãos acarretarão problemas no futuro.”
Eu olhava para Mike, ele parecia estar confiante. Prosseguiu:
“A questão é que esses grãos estão em nossa corrente sanguínea e, justamente por se comportarem como sólidos, ainda não sabemos se poderá entupir nossas veias em algum momento.”
Uma garota de cabelos pretos olhou para ele apreensiva, e o garoto provavelmente percebeu que não era para ter dito isso. A repórter ficou átona por alguns segundos, mas logo se recompôs.
Mike fez uma cara preocupada e se mexeu levemente na cadeira. Embora tentasse não deixar nítido que tinha dito algo errado.
“E, quanto aos avanços na pesquisa?”
“Assim como já foi dito anteriormente, estamos trabalhando o máximo que conseguimos.” Falava a outra garota. “Porém, já chegamos perto de conseguir...”
Eu suspirei aliviado, aquelas coisas iriam embora, teriam que ir. Eles iriam conseguir.
Dessa vez foi o homem com sotaque que a encarou com uma cara apreensiva, consegui perceber que a entrevista foi feita sem muitos ensaios entre eles.
A face do jovem me deixou pior, comecei a tremer e a suar ainda mais. Estariam eles avançando mesmo nas pesquisas e descobertas?
Gostaria de ter ficado para ver um pouco mais da entrevista, porém quando me dei conta um pouco de areia caiu em meu ombro, sujando minha blusa. Olhei para cima e percebi que os grãos estavam se juntando para formar algo na vidraça da loja.
Algo que seria problema.
“CARAMBA, AGORA LASCOU!” Eu dei um pulo e levei minhas mãos à cabeça, não estava preparado para dar de cara com aquela coisa.
Decidi correr o mais rápido que pude, já que, não gostaria de ver mais nenhuma ameaça de morte e tinha um trabalho e uma saúde mental para preservar.
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