Amargo Prazer
17 Cap. 17 - Não é Mais Uma Escolha se Afastar
- Por que eu tenho a leve impressão de que você quer algo? – ele finalmente perguntou depois de me observar por alguns momentos.
- Não é assim que se inicia uma conversa em uma noite agradável, camarada – eu falei ignorando sua leve suspeita, ainda mantendo o sorriso casual em meu rosto – Mas, já que você perguntou, que tal uma carona? Você meio que acabou de mandar a minha embora – apontei com o polegar para trás, por onde Tom tinha ido instantes antes.
Ele deu de ombros mostrando sua indiferença.
- Ele foi embora porque quis, e também não é o seu namorado.
Eu estreitei os olhos para ele e coloquei minhas mãos na cintura.
- Bem, eu duvido que ele vá falar novamente comigo depois do seu olhar assassino.
- Eu não o olhei assim! – falou na defensiva.
- Claro que não – eu revirei os olhos – Pensei que já tivesse ido embora.
Ele pareceu ter sido pego de surpresa com a pergunta e colocou uma mecha do seu cabelo castanho atrás da orelha quando um leve vento bateu em nós.
– Eu havia – admitiu –, mas então me lembrei que você iria voltar para casa de ônibus e que isso não seria muito gentil da minha parte.
Eu sorri para sua desculpa estúpida e esfarrapada.
– Na verdade, não há ônibus depois da meia-noite e era por isso que eu iria de carona. —No mesmo instante o carro de Thomas sai do estacionamento. Ele buzinou e acenou com a mão para fora da janela. Eu acenei de volta e voltei minha atenção toda para Dimitri — Acho que eu posso aceitar uma carona, até porque, somos grandes amigos, certo? – eu provoquei e ele me olhou, não parecendo culpado ou arrependido, o que me levou a me lembrar de outra coisa – E eu acho que sua namorada provavelmente me odeia por isso – eu falei, tentando soar aleatória, mas examinando cada expressão que passava pela sua face. Infelizmente, ele parecia ser muito bom em esconder seus sentimentos, o que me deixava às cegas naquilo.
– Janine não te odeia, tenha certeza disso. E, além do mais, ela não é minha namorada. – uma leve nota no final de sua frase me disse que ela também não estava perto de ser ao menos intima dele.
Eu reprimi o sorriso de satisfação e agi naturalmente. Como se ele ser solteiro fosse me ser útil em alguma coisa... – eu pensei, em uma falha tentativa para que eu não o reconhecesse como um futuro pretendente. O que não funcionou quando ele sorriu para mim, mostrando uma fileira de dentes brancos e perfeitos. Eu sorri bobamente de volta.
– Podemos ir?
Ele deu um sorriso de canto e então atravessamos a rua, em direção a onde seu carro estava estacionado.
– Eu tenho que me desculpar com você. – falou andando ao meu lado – Janine geralmente não é muito-
- Está tudo bem. – eu interrompi, entrando quando ele abriu a porta do carro para mim, em um gesto cavalheiro – Eu só fiquei confusa com a sua mudança de humor. Quer dizer, em um momento ela estava pronta para gritar comigo como se eu fosse sua subalterna e no outro ela sorria parecendo me achar encantadora.
Dimitri ligou o carro.
- Ela provavelmente percebeu que estava exagerando – falou e então me olhou – Ou então, percebeu que você realmente era encantadora.
- E isso porque você me viu apenas algumas vezes – eu pisquei e ele riu.
- Bem, podemos nos ver outras vezes – ele sugeriu.
- Se isso for um convite para um encontro-
- Eu ouvi dizer que sua folga é na terça-feira– ele falou me ignorando e minha boca se abriu.
Ok. Isso não teria me surpreendido em outros tempos. Caras interessados em mim, eu digo. Mas era Dimitri, alguém que eu mal conheci, mas, eu devia admitir, eu era mais intima dele do que de muitos amigos meus, além do que ele já havia me visto chorar e também havia sido alvo da minha raiva quando me chamou de Amanda na frente de todo mundo, assim como havia me ajudado na mesma ocasião. E ainda sim eu iria negar o convite, ao menos por enquanto. E foi aí que eu me lembrei da última vez em que havia falado com André. Eu havia mudado e havia sido para pior, segundo ele. Não no sentido de responsabilidade, não havia sido àquilo que ele tinha se referido. E eu sentia falta de sair com meus amigos, ou o que havia sobrado deles já que eu mal sabia onde a grande maioria havia ido parar após o colegial. E, definitivamente, eu sentia falta de ter um encontro de verdade.
- Eu acho que estou livre na terça – respondi, vendo quando ele finalmente mostrou suas reações sua expressão ir dramaticamente de cética para surpresa.
Percebi que já estávamos bem perto da minha casa.
- Está falando sério?
- Por que eu não estaria? – perguntei de volta. Abri a minha bolsa e tirei de lá caneta e papel, onde escrevi meu número e estendi para Dimitri – Me ligue amanhã e aí você me convida de novo – eu pisquei.
Ele pegou o papel e o olhou por um momento, parecendo desconfiado.
- Tem todos os dígitos ai – brinquei e ele sorriu, embora ainda parecesse desconfiado.
O carro parou, mas antes que eu saltasse para fora Dimitri segurou meu braço. Que algo seja lembrado: se eu queria manter minha mente limpa de pensamentos impuros, Dimitri não devia me segurar e olhar daquela forma. Ou bem, eu realmente não queria manter minha mente limpa.
- Eu realmente sinto muito se Janine e eu te causamos algum problema em seu trabalho.
Eu dei de ombros, lamentando logo em seguida quando ele me soltou. Não reclamaria se tivesse os seus dedos quentes tocando minha pele novamente, e desta vez eu aproveitaria a sensação. Balancei a cabeça, lembrando-me que eu tinha que responder algo.
- Tudo bem, nenhum dano causado. Bem, obrigada pela carona, Dimitri. – eu abri a porta e saí, mais rápido do que eu queria, mesmo que uma grande parte minha gostaria muito caso ele houvesse me puxado de volta. E, adivinhem: isso não aconteceu.
Eu acenei com a mão enquanto caminhava até a porta. Quando comecei a procurar pelas chaves ela se abriu.
- Hey! – Liesel falou e então olhou para além de mim, sorrindo – Carro maneiro — Eu me virei levemente, vendo que Dimitri ainda estava parado lá. Talvez esperando que eu entrasse...
Eu notei o sorriso espertinho de Liesel e a empurrei para dentro fechando a porta atrás de nós. Sabia que seria mais fácil de controlar qualquer coisa ou insinuação que sua mente adolescente estava pronta para fazer.
- É um amigo – eu disse, antes que ela tirasse suas próprias conclusões. Prova disso foi que ela apenas sorriu e ergueu as mãos, parecendo não se importar, mas o sorriso malicioso ainda estava ali.
- Carly está dormindo. Ela tossiu um pouco depois da escola então minha mãe deu a ela um chá de alguma coisa doce – ela deu de ombros – Fora isso os habituais pesadelos, mas ela voltou a dormir rápido.
- Acho que ela está melhorando, no final de tudo — falei abrindo a bolsa e me sentando no sofá – Obrigado por ter cuidado dela durante esse tempo, Liesel.
- Está ok, senhorita Mazur, ela não é nenhum demônio – ela disse rindo enquanto observava uma mecha azul dos seus cabelos.
Eu sorri, pensando que Carly provavelmente havia se comportado muito bem nas últimas semanas. De qualquer forma, eu entreguei o dinheiro a Liesel. Amanhã eu já pegaria meu horário fixo e eu mesma poderia cuidar de Carly.
- Meu pai disse que está procurando por uma casa – ela comentou.
- Ah, é. Esta é muito grande somente para eu e Carly. Vai ser bom nos mudarmos.
Ela assentiu e eu a levei até a porta, quando meu telefone tocou em meu bolso.
Eu franzi a testa por um momento para a tela do telefone, que estava acesa e com um número nela. Atendi depois de alguns segundos.
- Alô? – Liesel acenou e saiu pela porta, e então ela estacou, no mesmo instante em que eu ouvi a voz do outro lado da linha, inconfundível. Eu não conhecia muitos caras com sotaque russo por aí, mas esse eu poderia muito bem reconhecer no meio de vários homens russos.
- Quando você disse amanhã, — ele disse lentamente – realmente quis dizer amanhã? Porque, você sabe, hoje já é amanhã.
Eu olhei para fora, percebendo o que havia feito Liesel parar. Dimitri ainda estava lá, mas desta vez de pé, com o celular ao ouvido e encostado contra a porta do seu carro. Bem, eu havia tentado manter distancia...
- Acho que hoje já é amanhã – eu respondi, encerrando a ligação.
- Tchau, Rose – Liesel falou, dando as costas para Dimitri rapidamente e fazendo um sinal positivo com a mão, antes de se virar e ir até sua casa, que ficava ao lado da minha.
Eu fui até Dimitri hesitante. Ele não poderia estar tão interessado. Aliás, ele sabia das coisas sujas e podres que eu havia feito no passado. Por que diabo iria estar interessado em alguém como eu?
- Eu soube que abriu um barzinho perto do centro na semana passado. Alguns amigos me disseram que é um bom lugar. Podemos ir até lá, se você quiser – ele colocou as mãos nos bolsos do casaco, esperando pela minha resposta.
- Isso seria legal – eu falei, tentando soar como se não fosse nada demais.
- Certo então, eu posso te pegar que horas?
- Às sete. – eu disse, fazendo uma nota mental para falar com Liesel novamente.
- As sete está ótimo – ele deu um passo a frente ficando próximo, parecendo estar no mesmo dilema que eu. Sim, já havíamos nos beijado e feito muito mais do que isso, mas essa não era a mesma situação. Olhamos-nos indecisos por um momento. Então, no final, eu ergui uma mão entre nós e ele a apertou, balançando levemente em uma despedida estranha. – Te vejo na terça.
Ele entrou no carro e desta vez eu pude vê-lo se afastar.
Eu voltei para minha casa, me jogando na cama depois de tomar um banho e checar Carly. E tudo realmente parecia estar dando certo já que naquela mesma noite eu sonhei com Dimitri. Na verdade, foi um sonho estranho.
Estávamos em uma cozinha que eu nunca havia estado na minha vida, disso eu tinha certeza pela decoração em tons vermelhos e pretos. Dimitri estava encostado no balcão e segurava Carly em seus braços. Um sorriso genuíno estava em seus lábios, assim como nos de Carly.
Quando eu acordei de manhã, ainda com as lembranças vividas do sonho e um sorriso em meu rosto, eu balancei a cabeça, pensando que eu estava fantasiando demais algo que talvez nunca fosse acontecer. Seria apenas um encontro com Dimitri, apenas.
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