Amargo Lar

2 Capítulo Um — Baunilha


Notas iniciais
Como esse capítulo já estava pronto, vim postá-lo de uma vez, até porque assim vocês conhecem a história melhor. Boa leitura ♥ (que irônico o primeiro capítulo de uma história chamado Amargo Lar se chamar Baunilha hahaha tá parei, leiam!)

Isabella Swan

A maior parte das vitrines encontravam-se cheias de placas e adesivos anunciando liquidações. Tudo que não tinha sido comprado da última coleção deveria ser vendido imediatamente, mesmo que por um preço muito abaixo do original. Só deveria ser vendido e, principalmente, colocado para fora, para que peças novas e mais atraentes fossem colocadas em exposição.

Eu entendia um pouco daquilo, de ser colocada para fora, digo. Seria o que aconteceria comigo se eu não pagasse o aluguel em, no máximo, uma semana. O locatário me expulsaria do apartamento, deixando alguma garota mais nova e com grana, que ainda não teria o enrolado, tomar conta do local.

Exatamente como as roupas antigas nas lojas, já criando mofo e com aparência ultrapassada, que deviam urgentemente sair de lá.

Entrei em uma das lojas, fazendo uma terrível careta ao sentir o cheiro de baunilha que vinha de algum lugar. O odor me dava náuseas, nada era pior do que baunilha e, de quem a fragrância me lembrava.

Expulsei-a de minha mente, proibindo a mim mesma de pensar nela naquele momento. Ou em qualquer outro instante da minha vida, ela não existia mais para mim, assim como todo o resto que deixei para trás anos antes.

— Oi, bom dia! — saudei a garota atrás do balcão, sentada diante o caixa, além dela as vistas na loja, apenas uma vendedora que estava atendendo uma cliente.

— Oi — a garota respondeu, mais concentrada em seu celular. — Se quer atendimento tem de esperar a Maya — resmungou, curtindo uma foto no Instagram.

— Ah não — neguei, nem em meus sonhos eu gastaria dinheiro em uma loja cara como aquela, um desperdício de grana que eu não podia me dar ao luxo. — Na verdade vim perguntar se vocês estão procurando por vendedoras, ou algo assim — falei, gesticulando com a pasta em minhas mãos, onde meu currículo nada vasto se encontrava.

A garota olhou para mim, com seus olhos azuis entediados. Ela tinha um cabelo loiro tingido, mas a raiz já estava sendo tomado por castanho escuro. Sua maquiagem, pesada, parecia estar derretendo.

— Não estamos contratando — foi tudo que disse, voltando ao Instagram, onde curtiu mais duas fotos.

— E, se eu deixasse meu currículo aqui? — sugeri. — Será que poderia ao menos mostrá-lo ao seu gerente? — Coloquei a pasta sobre o balcão, pronta para sacar a folha, preenchida apenas pela metade, do meu currículo, a maioria do que tinha escrito ali eram meus dados, não meus antigos empregos.

Ela olhou para mim outra vez, mudando de entediada para aborrecida.

— Escuta, não estamos contratando, se você insistir em deixar a porcaria do seu currículo aqui, eu o jogarei no lixo. Cai fora! — ordenou.

Bufei, bati no vidro do balcão, chamando a atenção de Maya — a vendedora — e da cliente para mim. Sai da loja mais irritada do que quando tinha entrado e, principalmente enjoada com o cheiro de baunilha.

Joguei a pasta, com pelo menos vinte cópias do meu currículo, no primeiro cesto de lixo que avistei.

***

Eu gostava de Seattle, gostava de como tinha tanta gente naquela cidade que eu conseguia me perder no meio da multidão. Gostava do fato das pessoas estarem entrando e saindo da sua vida tão rapidamente que não tinha tempo para lhe machucar, era melhor assim, eu sabia.

Renée esteve na minha vida por dez anos, então, quando foi embora deixou um buraco para trás que não consegui tapar. Charlie estava ali, ele não saiu fisicamente, mas não era como se algum dia estivesse de corpo e alma.

Os dois nem se casaram, eram apenas colegas de escola que transaram, conseguiram engravidar e foram obrigados a assumir suas burradas. Eu, no caso, era uma dessas.

Enquanto Renée ficava em casa cuidando da filha, da comida e de todo o resto dos afazeres domésticos, Charlie trabalhava em uma oficina mecânica de um amigo. E, a vida deles era uma merda, por tabela a minha também.

Ela odiava aquilo tudo, vivia dia e noite reclamando e, se eu ousasse reclamar de algo também, iria ser penalizada. Charlie por outro lado, nem reclamava, ele apenas não ligava, não dava a mínima. A vida dele tinha sido uma merda antes de Renée e eu, ele estava acostumado aquilo.

Mas, isso não impedia de que os dois brigassem, muito. Quase todo dia era uma discussão nova, quase todo dia Charlie saia no meio da noite para beber e, quando voltava mais brigas aconteciam.

Então, dois dias antes do meu aniversário de dez anos, Renesmee nasceu. Careca, chorona e totalmente dependente de Renée. Mais um trabalho para ela, mais algo para irritá-la. Era horrível.

No natal daquele mesmo ano Renée foi embora, deixando para trás as filhas, o cara que era quase seu marido e um lar cheio de lembranças ruins, ao menos para mim.

Charlie não ficou surpreso, nem triste, quando chegou durante a madrugada, cheirando a cerveja e tropeçando em seus próprios pés. Ele apenas me mandou calar a boca, porque eu não parava de chorar e, fez Renesmee dormir, depois indo ele mesmo capotar em sua cama.

Renesmee dormiu, era fácil para ela. A garota não iria lembrar de Renée e das brigas, mas eu nunca me esqueceria. Toda vez que eu olhasse para Charlie, ou para a porta por onde Renée tinha passado ao ir embora, eu sempre lembraria de tudo.

Foram anos presa naquela droga de casa, tentando me manter o máximo de tempo longe daquele lugar. Eu era a única aluna que odiava quando o horário de aula acabava, simplesmente detestava voltar para meu lar quebrado.

Charlie continuava sendo somente um corpo presente, achando que o fato de simplesmente colocar comida em nossos pratos era o suficiente. Ele tinha um ritual, despachar Renesmee para a creche, onde ela ficava até o começo da noite, ia trabalhar, bebia e voltava com odor de cerveja para casa, me mandava limpar a casa e, depois de colocar sua preciosa filha caçula para descansar, ele ia dormir também.

Enquanto não estava na creche, Renesmee era mantida por Sarah Black, esposa do dono da oficina onde Charlie trabalhava. Sarah tinha três filhos e, não se importava em cuidar da filha de Renée, que em algum momento foi como uma amiga para ela.

Isso fazia com que Renesmee estivesse mais perto de Charlie do que eu, enquanto ela estava lá com Sarah, sendo paparicada pela mulher, eu estava em casa mantendo tudo em ordem, ou pela cidade querendo fugir de tudo. Eu detestava Renesmee, detestava tudo ser mais fácil para ela, até mesmo Charlie parecia mais preocupado com ela do que comigo.

Então, sim, desde que Renée foi embora quando eu tinha dez anos, até meus quinze anos, eu estive presa e sozinha aquela maldita casa. Enquanto meu pai era um cretino, deixando a filha que de certa forma era uma criança só — porque segundo ele eu era quem devia cuidar da casa depois da partida de Renée —, a medida que Renesmee era criada por outra mulher.

Foi ai que eu conheci James e, eu soube no mesmo momento que ele era tudo que eu precisava para me livrar de Forks, de Charlie e de Renesmee. Eu me apaixonei por ele no mesmo instante que o vi em sua moto, os cabelos loiros balançando com o vento, a jaqueta preta e o olhar de dono do mundo.

James era dois anos mais velho, sua família era tão ruim quanto a minha, então nós nos encontramos imediatamente. Duas almas quebradas se consertando juntas, eu não podia amá-lo mais, eu lamberia o chão que ele pisava se ele pedisse por aquilo.

Quando ele completou dezoito anos, fez a proposta que mudou tudo para mim.

Vamos cair fora daqui, Bella, essa cidade é pequena demais para nós dois — ele disse, sussurrando em meu ouvido, depois de transarmos.

Eu fui, eu sempre iria. Eu odiava Forks, odiava meu pai e minha irmã. Eu teria sido mais feliz se Renée tivesse me levado com ela, então não perderia a oportunidade de cair fora daquele lugar com James.

Charlie não se opôs, Charlie não disse nada, apenas olhou para minha mala, continuando a tomar sua cerveja, enquanto sua filha de dezesseis anos anunciava que estava partindo. Renesmee por outro lado, chorava, implorando para eu ficar, agarrada ao seu leãozinho de pelúcia.

Bells, por favor, fique — ela murmurava, os olhos castanhos cor de chocolate como os meus, marejados.

Agachei no chão diante dela, tirando um de seus cachos do seu rosto, depositando um beijo em sua bochecha molhada. O cheiro de baunilha me atingindo em cheio, era o cheiro preferido dela, eu sabia.

Bells. — Renesmee engoliu em seco.

Você vai ficar segura com o leãozinho — falei, levantando-me, virando para Charlie que continuava concentrado no jogo que via na televisão. — Nunca vou voltar — afirmei para meu pai.

Eu sei. — Ele não me olhou. — Você é como Renée e, ela também nunca voltou.

Apenas peguei a mala, saindo daquela droga de casa. Sorri quando vi James esperando por mim do lado de fora. Eu estava feliz por ter ele.

***

James e eu não fomos além de Seattle, eu não reclamei, ter deixado Forks já era o suficiente para mim. Como eu era menor de idade, todos os trabalhos que tive até os dezoito anos eram os com salários mais ridículos do mundo, já que eu não podia ser oficialmente contratada.

Eu pensava que Charlie iria se importar e, ir atrás de mim, mas ele nunca apareceu e mantive minha palavra de nunca voltar. Estava muito bem sem ele, sem Renesmee e sem precisar ficar presa aquela cidade.

Ter meu namorado era tudo que eu precisava, James me amava, como ninguém amou. Nós ainda seriamos grandes juntos, dominaríamos o mundo.

Ele era um lutador, no começo ganhava muito mais com as lutas, me dava tudo que eu queria e era cheio de carinho. Mas, com o tempo foi ganhando menos, o que me fazia ter que trabalhar mais para manter os alugueis em dia.

Nós estávamos sempre nos mudando, ou sendo despejados, era terrível, mas eu me convencia de que com James ao meu lado tudo estava indo muito bem. Era uma fase ruim, nós enfrentaríamos toda aquela merda juntos.

— Paul veio cobrar o aluguel de novo — James anunciou quando eu entrei no apartamento depois de desistir por hora de distribuir currículos pela cidade.

— Ainda não consegui nada. — O apartamento estava um caos, James tinha dado uma festa na noite passada e eu não tive tempo de arrumar nada e, ele se recusava a fazer trabalhos domésticos.

É trabalho de garota — ele dizia.

— Bom, mexa sua bunda, ou vai ir morar na rua — ele falou, encarando a tela do celular, digitando uma mensagem.

— Você poderia mexer a sua também — disparei brava. — Tem dois meses que não traz dinheiro para cá, James. — O lembrei, seus olhos azuis desviaram-se para mim, o rosto dele estava contraído em uma careta de raiva.

— Olhe como fala comigo, Isabella! — Ele levantou, jogando o celular sobre o sofá e indo a minha direção. — Não sou uma puta para você me dar ordens, entendeu? — Seu dedo estava levantado na direção de meu rosto, ele era alto suficiente para me assustar.

É só uma fase ruim, só estamos em um momento complicado. Repeti em minha mente, mesmo que a merda do meu braço ainda tivesse a marca roxa que James deixou ali na última discussão.

— Desculpe, desculpe — pedi, encolhendo-me. — Fui uma idiota, okay? — Lancei um sorriso a ele, vendo James se acalmar. — Vou resolver esse lance do aluguel, prometo.

— Essa é minha garota — James afagou meu rosto, puxando-me para um beijo quente, que sempre me fazia derreter em seus braços. — Eu te amo, Bella.

Eu o amava, ele me amava. Ninguém nunca me amou antes dele, eu tinha sorte de ter James, eu devia ser grata por ter ele, não bancar a idiota.

***

James jogou meu corpo sobre a cama, fazendo com que eu soltasse uma gargalhada, enquanto meu namorado subia sobre mim, depositando um longo beijo em meus lábios. Emiti um gemido, sentindo a pressão do quadril dele contra o meu, o puxei para mais perto, querendo aumentar o contato entre nossos corpos.

A música do lado de fora do quarto era alta, James adorava reunir os amigos para festas e depois da nossa quase briga o convenci a fazer mais uma. Eu podia apostar que já tinham começado a fumar maconha graças ao cheiro forte que sentia. Porém, pouco me importava com aquilo naquele momento, tinha um assunto muito mais bacana para lidar ali dentro do quarto, não fora dele.

— Que bosta, desliga isso, Isabella! — James resmungou, parando de beijar meu pescoço, ao ouvir o toque do celular que estava em meu bolso dos shorts jeans.

Não me dei o trabalho de descobrir de quem era o número desconhecido que me ligava, apenas desliguei o celular, o jogando de lado. Voltei toda minha atenção para James e seus maravilhosos lábios que passeavam naquele momento por minha barriga, eu poderia falar com quem quer que fosse depois.

A noite estava apenas no começo e queria aproveitá-la.

***

A festa no nosso apartamento acabou por volta das cinco da manhã, estávamos tão exaustos que depois de mais sexo, acabamos dormindo por doze horas seguidas. Quando acordei, antes de James, só podia me culpar por não ter tomado um remédio para dor de cabeça antes de ter ido dormir.

Estava morrendo de dor graças a tanto álcool que tinha bebido na noite passada, isso sem falar na boca seca e na moleza que tomava conta do meu corpo. Arrastando-me pelo apartamento, cheguei até o banheiro, pegando dois comprimidos para dor e os tomando de uma só vez.

Também estava com fome, mas desconfiava que se engolisse qualquer coisa iria vomitar na mesma hora. E, a única coisa que me faltava era ter de limpar vomito, já bastava toda a bagunça que o local se encontrava, garrafas para todo canto, embalagens de comida e algum idiota tinha esquecido até uma pacote com maconha, que prontamente escondi, James tinha fumado muito na noite anterior e não queria aguentá-lo chapado naquele resto de dia.

Voltei para o quarto, onde meu namorado ainda dormia, ele devia estar em uma situação pior que a minha. Procurei pelas roupas que tinha usado no dia anterior, as encontrando no chão do lado da cama, as vesti, vendo meu celular ali no chão também. Lembrei-me da ligação de número desconhecido, então decidi retornar para ver do que se tratava.

Enquanto ligava o celular fiz pensamento positivo para ser um emprego, eu precisava mesmo de um, urgentemente. Fiquei confusa ao ver tantas ligações daquele mesmo número, durante todo o resto da noite passada, então de manhã e por toda a tarde. A última ligação tinha sido há menos de meia hora.

Retornei a ligação, saindo do quarto para não acordar James. Uma voz masculina, rouca e grave atendeu.

— Alô!

— Ei, oi, você está me ligando direto desde ontem, quem é? — perguntei, colocando um pouco de água em um copo.

— Oi Isabella, é Billy Black.

O nome não era desconhecido, ainda que eu quisesse que fosse.

— O que quer comigo? — indaguei, deixando a água sobre o balcão, ficando rapidamente com a garganta fechada. Billy Black era o melhor amigo de Charlie, qualquer motivo que estivesse fazendo o mesmo me ligar não seria um bom.

— Eu sinto muito, Isabella — ele murmurou. — Estamos tentando falar com você desde ontem, mas não atendia nenhuma ligação...

— O que aconteceu? — perguntei, encarando a superfície do balcão da cozinha.

— O seu pai, ele — Billy Black sussurrou. — Charlie faleceu...

O celular caiu da minha mão, indo direto ao chão. Então senti que a próxima coisa a desmoronar ali seria eu. O cheiro de baunilha foi o pensamento mais forte que tive no meio dos outros, junto com o rosto de Renesmee.

Notas finais
É, a família Swan não é a das menos problemáticas...Renée foi embora, Charlie era um pai ausente, Bella caiu fora assim que pode e, no meio desse caos todo temos a pequena Nessie. E, bom, o relacionamento da Bella e do James é totalmente abusivo, gente. Ela pensa que ele é tudo na vida dela, ele a faz acreditar nisso e deixa a menina na palma da mão dele, totalmente vulnerável. Okay, agora é provável que eu só volte depois do fim de Moon River. Não sei se o próximo aqui será um capítulo do meu querido Edward (na verdade não sei ainda se teremos capítulos por outros pontos de vista além do da Bella), então caso não seja um capítulo com ele narrando, possa ser que ainda demore um pouquinho para ele aparecer, mas prometo que vão adorá-lo, porque de canalha já basta o James. Vejo vocês nos comentários? Me contem o que estão achando. Beijos! Lola Royal. 18.07.16