Amargo Lar

11 Capítulo Dez — Covarde


Notas iniciais
Amo esse capítulo, então por isso vim logo com ele, espero que gostem também. Boa leitura! ♥

Edward Masen

Sabia que tinha algo de errado, soube assim que vi aquela garota agir de um jeito tão esquivo no supermercado, como se estivesse assustada. Soube quando ela disse que estava com dor no corpo, a ponto de precisar de remédios, alegando ter dormido no sofá.

Eu passei anos da faculdade dormindo em lugares mais improváveis e, mesmo assim, eu não sentia dor a ponto de necessitar de medicamentos. Ela não estava apenas tendo um tempo ruim com a morte do pai e, com a guarda da irmã sendo sua, eu sabia disso e, quando ela apareceu na minha porta com Rosalie, aquilo se confirmou.

Bella nos contou a história em um tom de voz baixo, encarando seus próprios pés, enquanto Rosalie, ela e eu estávamos na sala da minha casa. Agradeci por vovô ter sido levado por Lauren para o hospital, para uma fisioterapia em grupo, onde ele certamente demoraria, ter ele ali naquele momento delicado não seria de muito ajuda.

Rosalie tinha lágrimas nos olhos durante todo o relato da história de Bella sobre o que tinha ocorrido na noite de sábado, ela afagava os cabelos da morena com delicadeza e, se pudesse eu sabia que ela mesma quebraria a cara de James. Eu também estava na lista, ele era um covarde babaca, não se batia em uma mulher. Minha mãe tinha me ensinado isso, a mãe desse cretino deveria ter o ensinado também.

— Eu não posso denunciá-lo — Bella sussurrou depois de contar tudo sobre o sábado. — Eu não posso correr o risco de perder a guarda da Renesmee, o serviço social pode descobrir, eles podem me achar inapta para cuidar dela. Vão me encher de exames psicológicos, físicos. — Suspirou. — Eu bebia muito e cheguei a usar maconha — desabafou. — Não uso tem muito tempo, mas eu usei, eles podem descobrir tudo isso.

Passei as mãos por meu rosto, tudo que eu queria era que a polícia pudesse prender aquele covarde, mas eu sabia que Bella estava certa. Seria muito fácil que o estado questionasse ela como guardiã de Renesmee e, eu não queria que elas se afastassem, Ariel estava muito feliz com a irmã.

Sai da poltrona de vovô, ajoelhando-me perto de Bella sentada no sofá, evitando tocá-la. Ela me olhou, os olhos vermelhos e marejados, o rosto livre de lágrimas até aquele momento.

— Ninguém vai tirar Ariel de você, okay? Você disse que James foi embora, vamos acreditar que ele não irá voltar, mas se ele voltar nós iremos denunciá-lo, Bella. E, eu lamento muito, mas não importa quanto você insista do contrário, eu mesmo irei até a delegacia cuidar disso.

Os lábios dela tremeram.

— Eu preciso ver como você está agora, sei que está vulnerável e com medo, mas prometo que não irei fazer nada que te machuque. Tenho de checar seus hematomas, principalmente o da sua barriga, você quer que eu faça isso? Ou quer que eu arranje alguma médica de confiança no hospital para examiná-la?

Bella lançou um olhar ansioso para Rosalie, que segurou em sua mão, assentindo para ela.

— Acho que você pode cuidar disso — murmurou para mim.

— Rosalie vai ficar no quarto com você, vamos subir.

Rose a ajudou a levantar, então eu guiei as duas até meu quarto. Eu tinha praticamente acabado de voltar do plantão de pouco mais de doze horas, quando elas chegaram ali, então minha cama continuava arrumada.

Pedi que Bella tirasse sua calça, segundo ela nas pernas e coxas os hematomas eram mais presentes e, peguei uma camisa minha grande o suficiente para que ela pudesse ficar o máximo coberta. Ela estava deitada sob os lençóis da minha cama quando voltei ao quarto, entreguei a camisa a Rosalie, então virei de costas deixando com que ela ajudasse Bella a trocar a blusa de mangas compridas que usava pela minha roupa.

Então, me virei para ela, seus olhos estavam fechados. Tão apertados que eu suspeitava que era capaz de estar doendo.

Levantei a coberta até seus joelhos, vendo a primeira marca em sua pele branca. Eu engoli em seco, odiando ainda mais aquele vagabundo que tinha feito aquilo com ela. Ele chutou com muita força, ela estava com uma placa roxa que aos poucos estava ficando amarelada, mas ainda assim dava para perceber que aquilo tinha doido e muito.

Toquei no hematoma, checando se tinha algo de errado além dele ali, mas nada chamou minha atenção. Voltei meu olhar para Bella, que tinha o rosto manchado por lágrimas. Rose estava sentada ao lado dela, olhando aflita para mim.

Suspirei, levantando o resto do lençol, até suas coxas estarem a mostra. Evitei olhar para a parte superior de suas coxas, aquilo tudo já estava sendo difícil demais para ela, não precisaria de um cara olhando para sua calcinha. E, eu me sentiria imundo se sequer pensasse em olhá-la daquela forma em um momento como aquele.

As marcas em suas coxas eram piores, a carne ali era muito mais fácil de machucar e os hematomas ainda eram completamente roxos. Um na direita e dois na esquerda, eu os toquei também, sentindo Bella se retrair com o toque.

Ele era namorado dela, merda. Como ele pode fazê-la sofrer daquele jeito? Como ele pode espancá-la? Deus, Ariel tinha visto tudo.

— Dói? — perguntei, ouvindo minha voz mais rouca do que de costume, pressionando o hematoma da coxa direita.

— Não — Bella sussurrou.

Voltei a cobri-la, o aquecedor do quarto estava ligado, mas aquilo tudo deveria estar a deixando com mais frio ainda e, com uma maldita sensação de vulnerabilidade.

Rosalie levantou, deixando que eu chegasse até mais perto da barriga de Bella, mas continuou segurando na mão dela. Eu levantei a minha camisa que ela usava, o suficiente para ver a quarta marca que ele tinha deixado no corpo dela.

Era a que mais me preocupava, podia ter afetado algum órgão, podia colocá-la em perigo. Eu toquei tão gentilmente em sua pele ali, que aquilo fez Bella abrir os olhos, me encarando com confusão em seu olhar.

— Dói? — Pressionei, ainda que eu me sentisse um merda por poder causar dor a ela.

— Não. — Bella limpou o rosto com a costa da mão. — Doeu muito no dia, eu fiquei dolorida e, até ontem também, mas melhorou consideravelmente.

— Você tomou os analgésicos? — perguntei, abaixando a blusa.

— Sim — respondeu. — Um quando cheguei em casa, outro na hora do jantar. A dor passou, ela não estava realmente concentrada nos hematomas, era mais espalhada por todo corpo — falou baixo, olhando para suas mãos. — Eu estou bem, vocês não precisam se preocupar — afirmou com a voz trêmula.

— Você disse que machucou seu quadril também. — Ela respirou fundo com minha frase, levantando o lado da camisa e o deixando a mostra, a marca roxa ali também já ficava amarelada. — Mais algum lugar, Bella? — Os olhos dela se voltaram para os meus.

— Não.

— Tudo bem, você precisa mudar os analgésicos — anunciei. — Os que te indiquei ontem são fracos, tem uma eficácia curta, a dor voltará até a hora do almoço e a partir do terceiro comprido seu corpo já estará mais resistente a ele. E, precisa de compressas quentes sobre o hematoma da barriga, é o que mais me preocupa, mas não acho que há algo de mais grave além dele mesmo, você não conseguiria nem ter se levantado do chão se tivesse atingido algum órgão.

— Eu vou para casa cuidar disso. — Ela fez menção de se levantar, mas a impedi.

— Não, você ficará louca de sono com os analgésicos e, eu não vou te deixar sozinha naquela casa com a probabilidade de James voltar enquanto você está dopada.

— Edward está certo — Rose falou, Bella balançou a cabeça, certamente odiando tudo aquilo. — Não seja teimosa, você sabe que não está bem, precisa de cuidados, está com sorte de eu não te levar para um hospital para fazerem uma tomografia de todo seu corpo.

Fui até meu armário, voltando de lá com um short.

— Vista isso. — Entreguei a Bella. — Eu irei preparar a bolsa de água quente e buscar o remédio para você. Comeu algo no café da manhã?

Ela negou com um aceno de cabeça, voltando a olhar para suas mãos sobre seu colo. Assenti, deixando ela com Rosalie em meu quarto. Enquanto a bolsa de água esquentava, eu preparava algo para que Bella pudesse comer, uma salada de frutas, um copo de leite e algumas torradas, coloquei tudo em uma bandeja junto com a bolsa de água e os analgésicos que vovô tomava para as dores em sua perna.

Bella estava agarrada a Rose quando entrei no quarto, chorando em seu colo, mas parou assim que me viu, afastando-se dela. Coloquei a bandeja sobre a mesinha que eu tinha no canto do meu quarto, junto com uma pilha de livros de medicina que eu estava estudando.

— Eu preciso ir — Rose sussurrou para Bella, olhando o horário em seu relógio de pulso. — Não posso ficar muito tempo longe de Jane e, ela deve estar enlouquecendo Alice. Eu irei buscar Nessie na escola, não se preocupe quanto a isso, ela terá aula comigo hoje, então ficará comigo até o anoitecer, eu a trago para casa comigo, sou vizinha de Edward.

— Rose... — Bella a olhou ansiosa, com certeza com medo de ficar só comigo.

Rose voltou a abraçá-la, sussurrando algo no ouvido de Bella, que lhe convenceu a ficar.

— Descanse um pouco, amanhã nós iremos atrás de um trabalho para você. Por hoje apenas se recupere o máximo possível de tudo isso. — Beijou a testa de Bella, então se levantou da cama. — Você vai cuidar dela, não é doutor Masen? — perguntou em um tom de voz baixo quando se aproximou de mim.

— Vou — prometi.

— Ótimo, qualquer coisa me ligue. Desculpe ter trazido um pro...

— Ela não é um problema — interrompia a frase de Rose, que sorriu e bagunçou meus cabelos como sua filha fazia. Ela acenou para Bella, então saiu do quarto.

Peguei a bandeja, levando até a cama. Entreguei a comida para Bella, que evitava me olhar, então pedi licença e coloquei a bolsa de água quente em seu machucado na barriga. Enquanto ela tomava o leite lhe entreguei os analgésicos, em pouco tempo eles fariam efeito e ela dormiria.

— Você está exausto — ela comentou enquanto comia a salada de frutas.

— Estou acostumado, foi um plantão curto — respondi, observando o rosto dela, estava sentado próximo aos seus pés, mantendo-me o mais longe que era possível. — Mas divertido, uma garotinha conversou comigo sobre acreditar em vida extraterrestre e, depois ela vomitou por todo meu jaleco.

Bella sorriu para o pote de sala de frutas, mas o sorriso dela ainda estava machucado como todo o resto.

— Ela justificou o vômito como consequência de uma possível abdução, eu a diagnostiquei com infecção estomacal, não ficou muito contente comigo depois disso, pois ela foi proibida pelos pais de comer pizza pelo resto do mês.

Os pés de Bella estavam desembrulhados, então coloquei o cobertor envolta deles.

— Ah não. — Ela os tirou debaixo do pano. — Eu odeio ficar com os pés cobertos.

— Mas está frio — falei.

— Frio? Seu aquecedor está ligado e o dia nem está tão frio assim, ainda nem choveu. — Terminou de comer. — Você veio de qual lugar, Doutor Masen? — me perguntou, por fim me olhando, seus olhos castanhos curiosos.

— Nasci em Chicago, mas passei boa parte da minha vida em San Diego — respondi.

— Isso responde você ser tão intolerante ao frio de Forks — ela disse recostando-se nos travesseiros atrás de si, os olhos piscando em um sono próximo. — Eu sou louca para conhecer a Califórnia, pisar em uma areia quente e entrar no mar. Temos La Push aqui perto, mas é só um lugar frio e deserto, eu odeio, não se parece como uma praia de verdade.

Eu levantei, fazendo com que ela deitasse, mas não tirasse a bolsa de água quente de sua barriga, ainda não estava tempo suficiente ali. Bella fechou os olhos, o remédio lhe atingindo tão rápido quanto previ.

— Você irá adorar a Califórnia — falei, tirando seu cabelo do rosto.

— Eu duvido que um dia chegue lá — sussurrou.

— Eu irei garantir que você chegue — falei.

Bella abriu os olhos, encontrando os meus.

— Rose estava certa, você é um cara bacana.

— Rose sempre está certa, ainda não percebeu que ela é a dona da verdade? — perguntei brincando. Bella sorriu, voltando a fechar os olhos, mas não tornou a abri-los.

Ela parecia completamente frágil em minha cama, toda machucada e com o rosto ainda manchado de lágrimas. Eu amaldiçoei seu ex-namorado por tudo que ele tinha feito a ela, então fiquei ao seu lado, querendo protegê-la do mundo lá fora.

***

Quando eu despertei, de um sono nada confortável na poltrona do meu quarto, Bella ainda continuava dormindo. Era meio da tarde, nós tínhamos perdido o almoço, mas ela precisava mais de descanso do que de comida, eu tinha a deixado com a bolsa de água quente por mais um tempo depois dela cair no sono, então assumi meu lugar de vigia na poltrona e dormi lendo um livro da minha monstruosa pilha.

Eu sai do quarto sem acordá-la, indo checar se vovô estava bem, pelo horário era claro que ele já tinha voltado do hospital. O encontrei na sala, lendo um livro que eu sabia que era da vasta coleção que papai tinha deixado para trás quando morreu.

— Olá garoto! — Vovô fechou o livro quando entrei em seu campo de visão. — Estive em seu quarto mais cedo, iria cobrá-lo aquela partida de xadrez que não tivemos ontem, mas aparentemente você estava ocupado com uma garota em seu quarto.

— E você percebeu que eu estava na poltrona e ela na cama, não é? — Cocei meus olhos, ainda cansado.

— Sim, mas a camisa do Chicago Bulls que ela usava era sua. — Vovô bateu em minha canela com sua bengala. — É uma bela moça, você tem um bom gosto. Podia ter trancado a porta, eu podia ter visto mais do que ela dormindo.

— Vovô, ela só é uma amiga — falei. — Está doente e eu estava cuidando dela.

— Ela é uma adulta, até onde eu lembro você é um pediatra. — Vovô se levantou, indo guardar o livro na estante que tínhamos ali com uma pequena parte dos livros de papai. Todo o resto estava na casa em San Diego, eu simplesmente não conseguia vendê-los ou doá-los, seria como estar me livrando de tudo que papai amava.

— Vovô, é sério, eu não estou envolvido com ela. Bella apenas precisava de ajuda e eu ajudei. — Sai do sofá. — Por favor, não faça comentários que não deva — pedi, então voltei ao meu quarto.

Bella já estava acordada e, calçando seus tênis, completamente vestida com suas próprias roupas.

— Ei. — Ela me lançou um olhar envergonhado. — Desculpe por ter tomado tanto do seu tempo, eu deveria ter ido embora mais cedo.

— Você não atrapalhou, como se sente? — perguntei da porta do quarto.

— Bem. — Bella se levantou. — Realmente chapada com os remédios, mas bem. Obrigada por tudo. — Ela pegou seu casaco. — Vou voltar ao estúdio de Rose, pelo horário acho que ainda consigo ver Ness ensaiando, realmente estou ansiosa com isso.

Meus olhos se abriram por completo e, senti o sono ir embora de mim de vez.

— Sim, eu também gostaria de vê-la dançando — comentei, pensando em Ariel rodopiando por ai. Rose tinha afirmado diversas vezes que ela era a melhor de sua turma, eu precisava ir até lá e confirmar isso, mesmo que soubesse que era a verdade, Ariel era a melhor em tudo. — Posso ir com você? Na verdade você precisa de uma carona até lá.

Bella me encarou, então concordou com um aceno de cabeça.

— Tudo bem. Vou esperar lá embaixo. — Ela saiu do meu quarto antes que eu pudesse avisá-la sobre Samuel Masen no andar inferior. Apenas tentei ser o mais rápido trocando de roupa e, procurando as chaves do meu carro perdidas em algum lugar. Isso tudo levou cinco minutos.

Quando cheguei a sala, Bella estava concentrada no falatório de vovô, que falava sobre o seu machucado de guerra. Era a primeira coisa que ele contava a alguém que tinha acabado de conhecer, era para que a pessoa soubesse que ele tinha tomado um tiro e por isso mancava, não queria ninguém pensando que era um velho com problemas musculares.

— E, eu me joguei sobre Johnson, era um cara fracote, nunca iria aguentar um tiro.

— Isso foi muito corajoso, senhor Masen! — Bella exclamou, ou ela estava realmente interessada na fala dele, ou fingia muito bem.

— Nós podemos ir agora — falei, chamando a atenção dela que estava em pé próxima a mim.

— Foi bom conhecê-lo, senhor Masen — ela disse sorridente a vovô, não o sorriso ferido de antes. — Muito obrigada por ter ido à guerra para defender nosso país, eu e todo o povo norte americano agradecemos seu esforço e dedicação.

Vovô Samuel sorriu, o que me paralisou no lugar. Era a coisa mais difícil do mundo fazê-lo sorrir, principalmente um sorriso verdadeiro como aquele, não um sarcástico. Como diabos Bella tinha arrancado um sorriso dele se tinham acabado de se conhecer?

— Volte mais vezes, garota — vovô falou. — Você foi a melhor que esse ai conseguiu. — Apontou para mim e as bochechas de Bella coraram.

— Voltarei para vê-lo, senhor Masen. Quero saber mais histórias de guerra — ela disse por fim, batendo continência para ele, então me seguindo para fora de casa.

Meu carro estava fora da garagem, então abri a porta do carona para ela antes de ir assumir meu lugar no banco do motorista. As bochechas dela ainda estavam coradas enquanto colocava o cinto e, tinha voltado a evitar me olhar.

— Desculpe por vovô, ele sabe ser indiscreto como ninguém — falei, manobrando o carro para fora do local onde estava estacionado.

— Eu nunca conheci meus avós, quer dizer, eu tinha uns três anos quando meu avô materno morreu, mas não lembro nada dele. E, o pai de Charlie morreu quando ele tinha uns dezesseis anos, minhas avós, eu realmente não lembro nada delas também. Seu avô é muito legal! — Bella disse, os olhos perdidos na janela. — Você tem sorte de tê-lo, não perca isso — aconselhou, olhando para mim, então seu rosto voltou a corar. — Desculpe, estou sendo invasiva.

— Não, você está certa, eu realmente tento ficar o máximo que posso com ele — comentei. — Eu perdi meus pais quando tinha doze anos de idade, não é como se eu fosse muito bom em lidar com perdas.

— Sinto muito — Bella disse. — Doze anos, isso é muito jovem.

— Ariel tem dez e ela está sendo forte — falei.

— Nosso pai era horrível. — Bella bufou. — Foi horrível comigo e, foi com ela também. Acho que isso explica muita coisa, eu nunca tive muita sorte com homens em minha vida, estou feliz que Renesmee é uma menina, se fosse um menino eu provavelmente não conseguiria estar no controle. Enfim, não é como se Renesmee estivesse com saudades de Charlie, ela só estava acostumada com ele por ai.

— Mesmo assim, ela está sendo forte, é uma menina incrível.

— Ela adora você — Bella declarou, pelo canto do olho a vi sorrindo. — Ela passou o jantar inteiro narrando o dia que se conheceram, como você a fez rir enquanto ela estava chorando, isso foi gentil da sua parte, você poderia ter apenas encontrado Sue ou Billy e a deixado de lado, mas se importou com ela.

Olhei para Bella, ignorando a rua por um momento.

— Eu acho que me vi nela, sozinha em um hospital, chorando pela morte do pai, foi fácil me identificar. Sei que você provavelmente não quer um cara que mal conhece perto da sua irmã, mas posso ajudá-la com Ariel, em tudo. Sei o quão confusa ela deve estar e, vocês duas precisam de um pouco de normalidade, posso tentar ser útil no que precisarem.

Por fim chegamos a rua onde ficava o estúdio de Rose, eu estacionei atrás da picape que sabia ser de Bella, então ela estava com os olhar focado em mim.

— Você não é mais um desconhecido, Edward — murmurou. — Não depois de tudo que fez hoje, muito obrigada por ter cuidado de mim quando não era sua obrigação. Eu realmente tentei impedir Rose de me levar até lá, mas obviamente não tive êxito. Mesmo assim, obrigado por se importar, eu nunca conseguirei agradecê-lo suficiente por isso. Não vou pedir que se afaste de Nessie, ela acabou de perder Charlie e, você parece importante para ela agora, eu me odiaria se a fizesse sofrer mais. Você está convidado a fazer parte da situação insana que nós duas estamos inseridas agora, mas pode sair dela quando quiser.

— Eu não vou sair. — Sorri para Bella. — Amigos? — Estendi minha mão para ela, Bella não hesitou em deixar sua mão unir-se a minha, estava quente, completamente diferente do dia anterior.

— Amigos. — Ela sorriu. — Vamos? — ela abriu a porta. — Estou louca para ver Ariel dançando! — exclamou.

— Você está usando o apelido! — Eu ri, saindo do carro também.

— É pegajoso — Bella falou, contornando o carro para atravessarmos a rua.

— Não é pegajoso, é doce, combina com ela. Você deveria começar a procurar uma fantasia de Ariel para que ela possa usar no Halloween.

Nós atravessamos a rua, pela fachada de vidro do espelho eu já podia ver Rosalie ensaiando a turma daquele horário. Não foi difícil localizar Renesmee no meio das meninas e, minha vizinha estava certa, ela era a melhor ali.

Bella e eu entramos no estúdio o mais discretamente possível, perto da entrada tinha um sofá ocupado por algumas mães babando em suas filhas. Com ele totalmente ocupado nós ficamos em pé perto da porta, Bella seguia cada passo da irmã com o olhar, um sorriso brincando em seus lábios.

Eu não conseguia entender como o filho da puta do ex-namorado dela tinha tido a capacidade de encostar um dedo que fosse nela, Bella não merecia aquilo. Apanhar e, muito menos sofrer por um cara que não a respeitava. Como ele podia preferir bater nela, deixá-la sozinha e ferida, quando ele podia ser cuidadoso, atencioso e tê-la junto de si.

A troca de papeis ali era idiota, burra. Machucar Bella era ridículo, ele podia beijá-la, ele podia tocá-la, mas não, ele tinha a ferido, tinha a humilhado. Era uma covardia, James não era nada além de um grande covarde para mim.

A música se encerrou, fazendo com que eu percebesse que não tinha visto quase nada da dança de Ariel, estava perdido demais observando as reações de Bella enquanto isso. Eu logo vi Renesmee correndo até onde a irmã estava, jogando-se nos braços dela, temi que aquilo fizesse Bella sentir alguma dor, mas ela continuava sorrindo e até se agachou junto de Ariel para parabenizá-la pela dança.

— Você está aqui! — Ariel se jogou em meus braços logo depois, eu sorri para ela, a erguendo do chão.

— Sabia que você é uma incrível bailarina, Ariel? — eu perguntei a ela, que sorriu orgulhosa. — Estou certo de que você é a melhor daqui, mas não conte isso as outras, podem ficar chateadas — sussurrei para ela, que fez sinal de que manteria segredo. — O que acha de jantar um pouco mais cedo? — questionei Renesmee, então a Bella, que pareceu surpresa. — Estou realmente com fome e, você? — falei para a irmã mais velha.

— Eu também estou com fome — Ariel proclamou. — Nós podemos ir, Bells? — perguntou a irmã.

— Podemos — Bella concordou por fim. — Vá se trocar — disse, coloquei Ariel no chão, deixando com que ela fosse até sua mochila junto a das outras meninas e seguisse com algumas delas para o vestiário que tinha lá atrás.

— Como você está? — Rose perguntou a Bella quando chegou até a gente, desviando de algumas mães no caminho.

— Estou bem — Bella garantiu.

— Você tem certeza? Ela está bem mesmo? — Rose perguntou nervosa.

— Sim — Bella e eu respondemos ao mesmo tempo. — Não se preocupe mais, Rose, você já fez isso demais — Bella pediu.

— Nós vamos jantar com Ariel — falei para Rose. — Você vem conosco?

— Não, eu ainda tenho outra turma hoje — Rose disse.

— E Alec? — perguntei, Rosalie bufou.

— De castigo no escritório, fazendo o trabalho que devia ter feito durante o fim de semana, Alice está lá tomando conta dele e de Jane. Vocês podem ir jantar. — Rose sorriu, afagando os cabelos de Bella. — Distraia-se um pouco, okay? Emmett deixou os papeis da guarda da Nessie aqui, eu vou buscá-los. — Ela se afastou até seu escritório, voltando pouco depois com uma pasta em mãos. — Aqui. — Entregou a Bella.

Bella abriu a pasta, conferindo a documentação.

— Ela é oficialmente minha responsabilidade — sussurrou, Rosalie a abraçou.

— Você vai se sair bem — ela disse para Bella, uma mãe chamou por Rose e ela teve de se despedir da gente rapidamente para ir atendê-la.

— Pronta, Ariel? — perguntei quando ela retornou até a gente, livre das roupas de balé, mas ainda com um coque no alto de sua cabeça.

— Sim. — Eu peguei a mochila dela, enquanto nós três deixávamos o estúdio de dança de Rosalie.

— Você quer procurar por outro lugar? — Bella perguntou a irmã quando ficou claro qual era nossa opção de restaurante, aquele ao lado do estúdio.

— Não, por mim tudo bem esse — Ariel respondeu e abri a porta do restaurante para ela e Bella.

— Algum problema com esse restaurante? — perguntei a Bella quando procurávamos por uma mesa vazia.

— É de Sue, se lembra dela, né? A cretina que foi rude com Ness no hospital — Bella sussurrou para mim, enquanto segurava nos ombros da irmã a guiando até uma mesa.

— Como não lembrar? — resmunguei.

Ela e Ariel sentaram-se lado a lado, enquanto eu fiquei diante Renesmee.

— Você deve ter um milhão de deveres de casa para fazer, não é? — Bella falou com Renesmee, que assentiu. — Vamos começar com isso enquanto esperamos o jantar. — Ela pegou a mochila da irmã, aquela com a Ariel, tirando seus cadernos e livros de lá. — Sua professora me disse que está tendo dificuldade em matemática.

Quanto mais tempo eu passava perto de Bella, mais eu percebia que ela não era a garota que tinha dito a Emm que a irmã podia ir a um orfanato que ela não ligaria. Bella não era fria, ou grossa, ela só estava perdida dentro de si mesma por conta de tudo que ocorreu em sua vida, principalmente por culpa de James e do relacionamento abusivo que teve com ele.

— Um pouco — Ariel contou. — Eu odeio frações.

— Bom, saiba que eu sei muito de frações, vamos resolver isso. — Bella depositou um beijo na testa da irmã, fazendo com que eu abrisse um grande sorriso.

— Vocês querem ajuda? — perguntei, fazendo com que as duas olhassem para mim, com os mesmos olhos castanhos cor de chocolate.

— Vamos ver se Edward é bom em frações, Ariel — Bella disse para a irmã em um tom desafiador.

Nós resolvemos frações por um longo tempo, fazendo nossos pedidos entre elas. Bella era melhor do que eu com cálculos, mas me voluntariei a ajudar Ariel com todos os deveres de biologia, pois aquela era minha área.

— Desculpem pela demora, isso aqui está um bagunça, uma garçonete foi embora — a garçonete que nos atendeu voltou com nossos pedidos, Bella guardou os livros e cadernos de Renesmee na mochila dela, dando espaço para os pratos.

— Obrigado — agradeci.

Logo começamos a comer, com Ariel narrando seu dia na escola e a aula de balé. Bella e eu a ouvíamos atentamente e, eu agradeci internamente por aquela criança não parecer estar pensando no que tinha visto acontecer a irmã no último sábado. Se eu tivesse esse poder, certamente iria apagar aquelas memórias da mente dela para sempre.

— Você está toda suja. — Bella riu, limpando a mostarda da boca de Renesmee. — Então, você gosta de Ângela, Ness? — perguntou e, mesmo que ela não me olhasse, eu podia jurar que ela já sabia sobre o plano de Rose de me juntar com a professora.

— Ela é legal — Ariel afirmou.

— Ela parece ser legal. — Bella me olhou por um segundo, a tentativa dela de pagar de cupido sendo péssima.

Logo desviei o assunto para o balé, que como para Ariel, para mim também era mais interessante do que Ângela a professora.

Não demoramos muito mais para terminar o jantar, Bella tentou insistir em pagar sua parte e de Renesmee, mas eu aleguei que tinha as convidado e paguei tudo. Atravessamos a rua até a picape de Bella com Renesmee segurando em nossas mãos, dizendo que podia passar a entender melhor frações com a ajuda da Bella agora.

Eu a ajudei a entrar na picape, lembrando-a de colocar o cinto, então voltei-me para Bella parada na calçada.

— Eu realmente não sei como te agradecer por tudo que tem feito por mim e minha irmã — sussurrou para mim, o rosto tomado por seriedade.

— Não precisa agradecer. — Coloquei minhas mãos nos bolsos da calça. — Você é minha amiga agora, não é? E Ariel é importante para mim, eu não estou sendo um bom samaritano, estou apenas ajudando uma amiga e a irmã dela que eu adoro. Bella, eu sei que o que você está passando agora deve ser terrível, mas saiba que não está só e que pode contar comigo também, não só com Ariel, mas por você também. O que James te fez foi. — Respirei fundo, tentando controlar a raiva em mim. — Foi completamente repulsivo, você não merecia nada disso, espero que possa deixar esses fantasmas do passado para trás.

— Estou trabalhando nisso — admitiu.

— Tenha uma boa noite, Bella. — Sorri, conseguindo um sorriso de volta, ainda que mínimo.

— Boa noite — ela disse, indo para a picape.

Eu esperei na calçada ela sair da rua com seu carro, então entrei no meu e segui para minha casa. Vovô já estava em seu quarto, então fui diretamente para o meu, chutei os sapatos para longe e, joguei-me em minha cama, sendo atingido por um cheiro de morango.

Capturei a camisa que tinha emprestado para Bella ali, sentindo o perfume de morangos emanar dela, então mais forte ainda dos meus travesseiros. Eu fechei os olhos, deixando o cheiro ser a única coisa em minha mente até que dormisse.

Notas finais
Estou oficialmente apaixonada por esse homem, agiliza ai ou roubo ele de ti, Bella. E, obrigada Elizabeth pela maravilhosa criação que deu ao filho antes de morrer, te quero como sogra. Beijos! Lola Royal. 30.07.16